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Armada britânica, fusão latina e indie folk: 16 concertos a não perder no Primavera Sound

O festival arranca esta quinta-feira, 11 de junho, e prolonga-se até domingo. Gorillaz, Amaarae, Massive Attack, The xx, Sudan Archives ou Bad Gyal entre os principais destaques. Eis um roteiro.

Ricardo Farinha
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É o primeiro grande festival de música do ano. O Primavera Sound volta a ocupar o Parque da Cidade do Porto a partir desta quinta-feira, 11 de junho, e até domingo, dia 14. Tal como no ano passado, no último dia haverá apenas DJ sets para uma despedida relaxada até à próxima edição: Peggy Gou, Dixon, Xinobi e SuM serão os responsáveis por animar a pista de dança.

Durante os três principais dias, as portas abrem às 15h30, sendo que no domingo pode-se ocupar os relvados a partir das 14 horas. Ainda há bilhetes diários (a partir dos 75€) e VIP (a partir dos 135€) à venda para a maior parte dos dias, mas os ingressos para sexta-feira, 12 de junho, já se encontram completamente esgotados. No domingo, a entrada custa apenas 40€. À chegada, será sempre necessário trocar o bilhete por uma pulseira. Este ano, ao contrário do habitual, parece que a chuva dará tréguas ao festival: não está prevista precipitação para o Porto nos dias do Primavera Sound.

O festival — com origem em Barcelona, Espanha, e que se realiza em Portugal desde 2012 — mantém uma programação eclética que não se restringe a géneros musicais, faixas etárias ou países de origem, embora este ano haja uma forte presença britânica no cartaz.

Gorillaz, Massive Attack, The xx, IDLES, JADE e os Black Country, New Road são alguns dos principais destaques desta armada que chega do Reino Unido — mas também há espaço para a fusão urbana e latina da espanhola Bad Gyal, para a indie folk norte-americana de Ethel Cain, para a afropop de Amaarae ou para a conexão transatlântica que junta Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago, entre tantos outros. Eis um possível roteiro para o Primavera Sound de 2026.

Quinta-feira, 11 de junho

PAUS

Palco Primavera, 18h35

Fundados há quase duas décadas, os portugueses PAUS — autores de um rock exploratório, frequentemente dançável, de bateria siamesa — resolveram chegar ao fim com um disco e digressão de despedida. Foi em março que promoveram e lançaram o próprio Enterro, que agora é apresentado nos palcos, entre o velório do adeus e a celebração do legado: é uma das últimas oportunidades para ver ao vivo a formação composta por Makoto Yagyu, Hélio Morais, Fábio Jevelim e Quim Albergaria, pelo que se torna um dos concertos imperdíveis nesta edição do Primavera Sound.

Ethel Cain

Palco Vodafone, 22h05

Depois de passar duas vezes por Lisboa nos últimos anos, a norte-americana Ethel Cain estreia-se no Porto para apresentar as canções escritas ao longo de uma década de carreira, mas com um concerto sobretudo focado no segundo álbum, Willoughby Tucker, I’ll Always Love You, editado no ano passado. Cantautora ligada ao folclore e ao imaginário gótico do sul dos Estados Unidos da América, deambulando entre o indie, a pop e a música ambient, fez um segundo disco como uma prequela do primeiro. As novas canções inspiram-se na sua adolescência, no seu romance com Willoughby Tucker, e em palco pode esperar-se uma performance íntima e vulnerável, não tão explosiva quanto um festival poderia pedir, mas que acrescenta outros tantos argumentos para convencer a audiência, com uma música densa e autêntica, emocional e catártica.

The xx

Palco Estrella Damm, 23h40

Depois de oito anos em que se dedicaram sobretudo a projetos a solo, os britânicos The xx reuniram-se para uma digressão internacional que passa nos próximos dias pelo Parque da Cidade do Porto — um sítio onde já foram felizes, na edição de estreia do Primavera Sound, em 2012, e ao qual o membro Jamie xx regressou por diversas vezes ao longo dos anos. O grupo estará a trabalhar num novo disco, o seu quarto de originais, e até lá apresentam nos palcos as canções que os tornaram uma referência pop, indie e eletrónica dos anos 2000, com alguns temas dos álbuns a solo integrados no alinhamento.

Kneecap

Palco Vodafone, 1h

Depois de se terem estreado em Portugal no Super Bock Super Rock de 2024, os Kneecap, naturais da Irlanda do Norte e defensores do republicanismo e do unionismo na Irlanda, chegam ao Primavera Sound com o seu rap explosivo e politizado que os colocou nas bocas do mundo após uma série de gestos e palavras que condenavam o genocídio na Palestina e confrontavam Israel. Tiveram concertos cancelados em diversos países e um dos seus membros, o rapper Mo Chara, chegou mesmo a ser acusado de terrorismo — embora mais tarde o caso tenha sido arquivado — após alegadamente ter ostentado uma bandeira do Hezbollah. Os Kneecap lançaram há um mês o seu terceiro disco, Fenian, que intensifica o seu rap de atitude punk, muitas vezes com uma roupagem eletrónica, que ao vivo promete uma descarga intensa de energia.

Sexta-feira, 12 de junho

Rita Vian

Palco Estrella Damm, 16h45

Duas semanas após lançar o seu novo álbum, Liga Dura, Rita Vian apresenta-o num dos dias mais apetecíveis desta edição do Primavera Sound. Na obra da cantora portuguesa convergem as texturas eletrónicas, a poesia inspirada pelo rap e o registo afadistado, cruzamentos que a têm distinguido como uma voz fresca e entusiasmante na música portuguesa contemporânea. O novo disco inclui uma colaboração com Manel Cruz e foi sobretudo composto e produzido pelos irmãos GOIAS, Henrique e António Carvalhal, com contributos de outros, entre os quais Charlie Beats. É a nossa proposta para iniciar o dia no Parque da Cidade do Porto.

Viagra Boys

Palco Vodafone, 22h

Há dois concertos relevantes que acontecem em simultâneo nesta noite de sexta-feira. De um lado, no Palco Vodafone, os suecos Viagra Boys, que regressam ao Primavera Sound passados sete anos com um novo disco para apresentar. Viagr aboys é o título (quase homónimo) do quarto álbum de originais desta banda que vai beber abundantemente ao punk para um som que por vezes ganha um caráter mais dançável e que tantas vezes evoca o espírito áspero (mas também quente) de garagem. Depois de um terceiro disco mais politizado, Cave World, os Viagra Boys optaram por um registo mais despreocupado e solto que toca em várias temáticas e que resgata uma certa inocência rock n’ roll.

Black Country, New Road

Palco Zyn, 22h

Do outro lado do recinto, pode optar por ver os britânicos Black Country, New Road, que nunca tocaram na cidade do Porto. A banda já apresentou o seu terceiro disco, Forever Howlong, editado em 2025, em Paredes de Coura, e desta vez leva-o até ao Primavera Sound. É o primeiro álbum do grupo sem o vocalista original, Isaac Wood, que deixou a formação — as músicas Tyler Hyde, Georgia Ellery e May Kershaw assumiram a voz e a composição, levando o projeto por novas direções, incorporando novos instrumentos e construindo um disco com outro ânimo que explora diferentes paisagens no vasto universo do rock. O concerto no Porto é uma oportunidade para descobrir esta segunda vida dos Black Country, New Road.

Gorillaz

Palco Estrella Damm, 23h10

É um dos concertos mais esperados desta edição do Primavera Sound. Os Gorillaz, projeto musicalmente liderado por Damon Albarn, já tinham tocado no festival em 2022, depois de muitos anos sem presença em Portugal. Desta vez, vêm apresentar The Mountain, o nono disco da sua história, editado em fevereiro e que é amplamente influenciado pela instrumentação clássica indiana. Este é um álbum marcado por uma sensação de luto e perda, uma vez que tanto Albarn como o ilustrador Jamie Hewlett, a outra metade do projeto e responsável por todo o lado visual dos Gorillaz, perderam pessoas próximas nos últimos anos. Como em qualquer disco da banda, as colaborações são diversas e abundantes: de Yasiin Bey a Omar Souleyman, de Johnny Marr a Black Thought. Como forma de espelhar a temática do álbum, também há uma série de participações póstumas de antigos colaboradores — podemos escutar contributos de Tony Allen, Bobby Womack, Proof, Mark E. Smith ou Dave Jolicoeur, entre outros, em The Mountain.

Bad Gyal

Palco Vodafone, 0h45

A festa promete atingir o clímax com a performance de Bad Gyal, estrela espanhola da música urbana, para quem o dancehall, o reggaeton, a roupagem eletrónica e a sensibilidade pop não são linguagens distantes. Tem sido através deste som de fusão, digital e global, que se tem afirmado como uma das vozes mais relevantes da nova música espanhola e latina. Poucas semanas depois de ter atuado com Bad Bunny em Barcelona, a cidade a que chama casa, viaja até ao Porto para apresentar o seu segundo disco, Más Cara, lançado em março. Será a sua terceira vez no festival.

Sábado, 13 de junho

Mike D

Palco Vodafone, 19h35

Se o nome Mike D não lhe disser nada, talvez os Beastie Boys já soem familiares. Históricos do hip hop norte-americano, ícones dos anos 80 e 90, eram um trio formado por Mike D, MCA e Ad-Rock. Quando MCA faleceu em 2012, os outros dois membros anunciaram que não iriam gravar nem fazer mais música enquanto Beastie Boys, mas isso não significa que tenham deixado de vez os estúdios e os palcos. Mike D está, neste momento, na sua primeira digressão em nome próprio — em palco, acompanhado por uma banda, apresenta os temas a solo que tem divulgado nos últimos meses (como Switch Up ou What We Got), que pertencem ao alinhamento do futuro álbum Thank You, com lançamento marcado para 28 de agosto, mas também canções emblemáticas dos Beastie Boys. Dificilmente haveria melhor maneira de começar o último dos três dias principais de festival.

Criolo, Amaro & Dino

Palco Zyn, 19h40

Porém, há uma ótima alternativa para o mesmo horário de final de tarde. É o concerto que junta os músicos brasileiros Criolo e Amaro Freitas com o luso-cabo-verdiano Dino D’Santiago. O trio estabeleceu uma conexão transatlântica para um disco conjunto, precisamente intitulado Criolo, Amaro & Dino, que foi editado em janeiro. O rap paulista de Criolo, as teclas amazónicas e jazzísticas de Amaro Freitas, a voz de Dino D’Santiago que carrega Portugal e Cabo Verde, mas também toda a herança da música afro-americana. Este autêntico super-grupo, que foi inclusive nomeado para um Grammy Latino com a faixa Esperança, a qual acabou por ser a semente para um projeto colaborativo de longo fôlego, é outra das grandes atrações para sábado no Parque da Cidade do Porto.

Sudan Archives

Palco Primavera, 21h

A violinista, compositora e cantora norte-americana que assina como Sudan Archives apresenta em Portugal o álbum que lançou em 2025, The BPM, uma catarse eletrónica inspirada na house de Chicago e no techno de Detroit, onde tem raízes familiares. A artista deu vida a híbridos frescos e experimentais, ambiências vermelhas e negras dignas de uma noite urgente de clube — entre o amor próprio, o ressalto emocional e as fragilidades mentais, da hiper-independência à auto-exploração, num imaginário tecnológico movido pela sua voz suave, o seu virtuoso violino e um mundo inteiro de sons que cabe num sampler. É finalmente apresentado em palcos nacionais um dos discos que marcaram o ano passado.

Amaarae

Palco Vodafone, 22h05

O mesmo se pode dizer de Amaarae, que passou no ano passado pelo Afro Nation — festival que se realiza em Portimão, mas com uma audiência predominantemente internacional — e que agora vem ao Primavera Sound não só apresentar o terceiro disco, Black Star, mas os êxitos de todo um percurso iniciado há cerca de 15 anos. Criada entre os Estados Unidos da América e o Gana, onde tem raízes, desenvolveu um R&B e uma afropop que vai beber aos afrobeats que têm dominado a África Ocidental, sem nunca descurar a identidade própria que foi forjando com os anos, até por conter outras referências e influências, com texturas eletrónicas ou versos que se aproximam do hip hop. Uma das características mais distintivas da sua música é a maneira como usa a voz, sedosa e sussurrante, que finalmente pode ser ouvida ao vivo pelo público português.

Massive Attack

Palco Estrella Damm, 23h15

Embora tenham sido relativamente frequentes em Portugal ao longo dos anos, há quase duas décadas que os Massive Attack não tocam no Porto. Ícones de Bristol e pioneiros do estilo que ficou conhecido como trip hop, são hoje uma dupla formada por Daddy G e 3D. Ao vivo, as suas performances são conhecidas pelos espetáculos visuais e imersivos com que presenteiam as multidões diante do palco, em atuações de forte caráter político. Há 16 anos que não lançam um disco de longa duração, mas apresentaram em 2016 e em 2020, respetivamente, os EPs Ritual Spirit e Eutopia. Canções emblemáticas como Teardrop ou Paradise Circus não deverão falhar o alinhamento no Primavera Sound.

IDLES

Palco Vodafone, 0h40

Os IDLES têm sido um caso sério de sucesso entre o público português, com atuações frequentes no país desde 2018. Os concertos enérgicos, a música de inspiração punk e hardcore, a reputação enquanto uma das bandas que contribuíram para revitalizar o rock e a consciência social e política com que revestiram as suas canções são tudo argumentos para explicar o fenómeno de popularidade por cá e noutros sítios do mundo. Ao vivo, e sobretudo num horário noturno, prometem (e cumprem) uma apoteose visceral à boleia dos temas escritos para álbuns como TANGK, Crawler, Ultra Mono, Joy as an Act of Resistance ou Brutalism.

MXGPU

Palco Live Over Porto, 2h20

É a única performance de todo o festival que vai ocorrer num palco distinto. Os MXGPU são a dupla de Moullinex e GPU Panic, duas referências da música eletrónica nacional que têm corrido o mundo com os sets envolventes, hipnóticos até, com uma grande componente visual e de efeitos de luzes. Será certamente a melhor maneira de encerrar a edição de 2026 do Primavera Sound — ou de dar o mote para o dia seguinte, marcado por outros sets ligados à eletrónica no Parque da Cidade.

Além destes, o Primavera Sound inclui atuações de artistas como Baxter Dury, Big Thief, Danifox, Décio, Duquesa, emmy Curl, Gisela João, Helviofox, Inês Marques Lucas, JADE, Joey Valence & Brae, Mari Froes, Melt-Banana, Model/Actriz, NAPA, Nation of Language, Oklou, oseias., Panda Bear, RIOT, Sensible Soccers, Slowdive, Texas is the Reason, Vaiapraia, Water From Your Eyes ou Yard Act, entre outros. A programação completa pode ser consultada no site oficial do evento.