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(A) :: Há 76 anos, os EUA conseguiam o "Milagre na Relva" contra Inglaterra. O herói do jogo foi o haitiano Joe Gaetjens

Há 76 anos, os EUA conseguiam o "Milagre na Relva" contra Inglaterra. O herói do jogo foi o haitiano Joe Gaetjens

Em 1950, a seleção dos EUA conseguiu uma vitória histórica num Mundial. O marcador do golo foi Joe Gaetjens, que nem era cidadão norte-americano — e acabaria morto pelo regime de Duvalier no Haiti.

Cátia Bruno
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Lesly Gaetjens lembra-se pouco do pai, que desapareceu quando Lesly tinha sete anos. Da sua infância no Haiti, guarda apenas memórias de brincadeiras no pátio de casa, rodeado das rosas cultivadas pelo pai, e de algumas idas ao estádio com ele. “O meu pai vivia para o futebol. Adorava aquilo, era a sua paixão”, conta o filho ao Observador a partir da sua casa na Virginia, nos Estados Unidos, país para onde fugiu com a mãe e os irmãos um ano depois de o pai, Joe Gaetjens, ter sido levado pela milícia do regime de François “Papa Doc” Duvalier. “Durante muitos anos, estivemos às escuras. Não fazíamos ideia do que lhe tinha acontecido.”

Gaetjens poderia ser apenas mais um nome na lista de milhares de vítimas dos Tontons Macoutes, mas um acontecimento tornou-o num rosto conhecido e idolatrado por alguns: foi ele o homem que marcou o golo da vitória da seleção norte-americana no jogo contra a Inglaterra no Mundial de 1950, no Brasil. Um resultado histórico: uma equipa de jogadores semiprofissionais, que mantinham empregos como carteiros e lavadores de pratos, bateu uma das melhores equipas do mundo. O acontecimento — que viria a ser eternizado num livro, The Game of Their Lives (sem edição em português) e num filme com o mesmo nome — ficou conhecido como “Milagre na Relva”.

O homem do golo, Gaetjens, não era sequer norte-americano, mas sim haitiano. Vestiu o equipamento dos Estados Unidos porque, na altura, era permitido aos estrangeiros jogarem, desde que manifestassem intenções de se virem a tornar cidadãos do país mais tarde. Naquele dia 29 de junho de 1950, foi levado para fora do campo em braços, por muitos dos brasileiros que tinham ocupado as bancadas do Estádio Independência, de Belo Horizonte, e que ficaram em êxtase por assistir a um jogo de David contra Golias. O momento em que Gaetjens é levantado em ombros ficaria eternizado numa fotografia da Associated Press.

O haitiano que foi para a América estudar contabilidade, jogar à bola e lavar pratos

Quando Frank Dell’Apa, jornalista de desporto veterano do Boston Globe, viu aquela fotografia pela primeira vez e soube da história de Gaetjens, ficou hipnotizado: “Aí está um jogo a que gostava muito de ter ido”, pensou, revela agora ao Observador décadas depois. Dell’Apa — que trabalha atualmente como jornalista freelancer, mas sempre a acompanhar a área do futebol — nunca conheceu o haitiano, mas entrevistou várias vezes alguns dos seus colegas de equipa naquele Mundial. “Dizem que ele era muito sociável, uma pessoa que gostava de estar com as outras pessoas. Era sempre muito positivo.”

Nascido em Port-au-Prince em 1924, Joe cresceu numa família da elite haitiana. O seu bisavô Thomas era alemão e tinha ido para o Haiti como emissário do Rei da Prússia — é daí que vem o apelido Gaetjens. A família perdeu parte da sua fortuna com a ocupação norte-americana do Haiti, de 1915 a 1934, mas os Gaetjens conseguiram manter uma posição de relevo na sociedade. Como resumiu um dos sobrinhos do jogador à ESPN — naquele que é provavelmente o artigo mais completo alguma vez escrito sobre Gaetjens — “o Joe não aprendeu a jogar futebol descalço nas ruas de Port-au-Prince”.

Gaetjens juntou-se à equipa do Brookhattan Galicia, onde recebia 25 dólares por jogo. Durante a semana, estudava de dia e lavava pratos à noite no Rudy’s Cafe, um restaurante de comida espanhola no Harlem, cujo dono, Eugene “Rudy" Diaz, era também o presidente do clube.

Depois de uma adolescência a jogar na equipa do Etoile Haïtienne, Joe partiu para os Estados Unidos em 1947, depois de receber uma bolsa estatal para estudar contabilidade na prestigiada Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Um caminho semelhante ao de muitos outros haitianos, como nota ao Observador o professor Millery Polyné, especialista da Universidade de Nova Iorque em relações norte-americanas com os países caribenhos e no papel do desporto nessas relações: “Os haitianos emigravam para os EUA para estudar em escolas de elite como a Tuskegee, a Universidade do Michigan e a de Columbia. Faziam-no por uma questão de oportunidade económica, mas também porque as intervenções políticas e militares dos EUA tinham tido um impacto devastador no Estado e no povo do Haiti”, aponta. “Embora o Haiti seja um país relativamente pequeno, tem uma história e uma ligação profunda com os Estados Unidos.”

Chegado a Nova Iorque, Gaetjens procurou emprego e também um clube onde poderia jogar à bola. Acabou por encontrar tudo no mesmo lugar. Juntou-se à equipa do Brookhattan Galicia, onde recebia 25 dólares por jogo. Durante a semana, estudava de dia e lavava pratos à noite no Rudy’s Cafe, um restaurante de comida espanhola no Harlem, cujo dono, Eugene “Rudy” Diaz, era também o presidente do clube.

Responsáveis da seleção norte-americana acabaram por descobrir o talento de Joe e levaram-no para fazer testes. Nos trials da equipa nacional, o haitiano deu nas vistas. Gostava de jogar com as meias para baixo e com t-shirts largas e tinha um estilo em campo diferente do da maioria. Ao vê-lo jogar, o capitão Walter Bahr comentou com o colega de equipa Harry Keough que estavam perante um tipo “um bocado maluquinho”. “Ele marca alguns dos golos mais estranhos que já vi”, disse, segundo conta o The Ringer. É que Joe nunca desistia e era habitual vê-lo saltar com toda a força para tentar cabecear uma bola tão alta que seria humanamente impossível tocar-lhe. Mas, às vezes, o que parecia impossível tornava-se possível.

Uma equipa com carteiros e um agente funerário, três filhos de açorianos e vários veteranos da II Guerra Mundial

Joe passou nos testes e foi escolhido para a equipa que iria até ao Brasil participar no Mundial.

O lavador de pratos não destoava do resto da seleção. “Na altura em que eu jogava não me lembro de ninguém que conseguisse viver só do futebol. Toda a gente tinha um emprego”, recordou à ESPN Walter Bahr, o capitão e médio esquerdo, que trabalhava como professor de educação física numa escola em Filadélfia.

A seleção de 1950 tinha dois carteiros, um escriturário dum matadouro, um funcionário de uma empresa de decoração cujo trabalho era remover papel de parede, um costureiro, um operário que conduzia uma empilhadora, um retalhista, um carpinteiro e um camionista numa empresa de bebidas alcoólicas. Já o guarda-redes, Frank Borghi, conduzia carros fúnebres na funerária de família. No Brasil, todos iriam receber cem dólares por semana — uma fortuna quando comparada com o que recebiam no dia a dia. “Os jogadores tinham origens tão diferentes… O futebol neste país era assim”, enquadra Frank Dell’Apa. “Era impossível haver uma equipa profissional, não havia nada desse género. É incrível que tenhamos produzido jogadores tão bons vindos do nada.”

Filhos dos anos 30, tinham crescido à sombra dos efeitos da Grande Depressão e depois da II Guerra Mundial. Na equipa, o que não faltava eram veteranos do conflito: o guarda-redes Frank Borghi — que, para além de trabalhar numa funerária, jogava beisebol de forma ainda mais profissional do que futebol — tinha estado na Batalha das Ardenas como paramédico e fora condecorado; Harry Keough e Joe Maca também combateram na Europa; Frank Wallace foi capturado pelas forças nazis e esteve preso durante 15 meses.

A maioria dos jogadores vinha de clubes da costa leste, sobretudo das comunidades imigrantes amantes de futebol em cidades como Boston, Nova Iorque e Filadélfia. Quatro deles (Frank Borghi, Charlie Colombo, Gino Pariani e Nicholas di Orio) eram descendentes de italianos. Três eram filhos de açorianos que jogavam no clube Ponta Delgada em Fall River (Frank Moniz, Ed Souza e John Souza — conhecido como “Clarkie”, pelas suas parecenças físicas com o ator Clark Gable). E, para além de Joe Gaetjens, outros dois jogadores não eram sequer norte-americanos: Joe Maca tinha nascido na Bélgica e Ed McIlvenny (único jogador profissional do grupo que viria a jogar no Manchester United) na Escócia.

Para o professor Millery Polyné, a “composição cultural” da seleção de 1950 ilustra um fenómeno tipicamente americano que, no desporto, também ocorre em vários países “quando a competição é amplificada”. “A inclusão de imigrantes ou de filhos de imigrantes numa seleção nacional diz muito sobre a que distância os organizadores estão dispostos a ir para se manterem competitivos”, diz. O jornalista Frank Dell’Apa, que há muitos anos segue com atenção o futebol das comunidades portuguesas do leste dos EUA, destaca o caso de John Benevides Souza, o “Clarkie”: “Era um número dez, tinha imenso talento, nasceu para aquilo”, conta. “Aqueles tipos eram ótimos. Tinham as capacidades e a mentalidade certa para jogar e, em termos de futebol, traziam qualquer coisa extra que só se vê nos jogadores europeus. Às vezes, só nos jogadores portugueses”, acrescenta, sorrindo.

A Inglaterra, favorita do “Grupo da Morte”

Antes de partir para o Brasil, a seleção norte-americana participou num torneio de preparação em Nova Iorque e teve direito a um banquete de despedida no hotel de luxo Waldorf Astoria. Partiram depois de avião numa viagem que pareceu interminável: ao todo, fizeram seis escalas em três países diferentes.

Quando aterraram no Rio de Janeiro, os norte-americanos sabiam que iam participar num Mundial histórico. Era o primeiro depois do final da II Guerra Mundial e não contaria com vários países europeus ainda afetados pelo conflito. Mas, pela primeira vez, teria a presença de Inglaterra. Em rota de colisão com a FIFA, a equipa considerada por muitos a melhor do mundo tinha sempre recusado participar na competição, mas em 1950 aceitou fazer parte e chegou ao Brasil como favorita.

Os ingleses seriam um dos primeiros adversários dos americanos, já que tinham calhado juntos no “Grupo da Morte”, que incluía ainda a Espanha e o Chile. Desde que a guerra tinha acabado, a Inglaterra mantinha um registo de 23 vitórias, quatro empates e três derrotas. Por comparação, nos últimos meses os EUA tinham sido derrotados pela Itália por 7-1, pela Irlanda do Norte por 5-0 e pela Noruega por 11-0.

Na primeira jornada do Mundial, os norte-americanos perderam contra Espanha por 3-1. A Inglaterra derrotou com facilidade o Chile por 2-0. No confronto entre ingleses e americanos, antecipava-se um massacre e, em vésperas do encontro em Belo Horizonte, o amadorismo da equipa norte-americana era claro. “Tinham treinado quatro vezes, jogado um jogo e dormido em cinco hotéis diferentes [desde que aterraram]”, conta o jornalista Geoffrey Douglas no livro The Game of Their Lives. “Perdeu-se a conta ao número de bares que visitaram. O Joe Gaetjens dizia ter ido a 12 no Rio numa só noite.”

Do outro lado, os ingleses mantinham a sua base no Hotel Luxor, em Copacabana, e uma estrutura muito mais profissional, com um dos treinadores a discutir com a cozinha do hotel para fazer pratos mais apropriados aos atletas. Na véspera do jogo entre as duas equipas, o Daily Express escrevia que “seria justo dar aos EUA três golos de vantagem”. O selecionador inglês Walter Winterbottom também estava confiante e decidiu deixar no banco uma das suas maiores estrelas: Stanley Matthews, conhecido como “O Feiticeiro do Drible”.

Um golo que parecia impossível e uma falta (alegadamente) elogiada pelo árbitro. O jogo de Belo Horizonte que ficou para a História

Quando o Estádio Independência abriu as portas na tarde daquela quinta-feira, o tempo estava ameno: 26 graus, céu limpo e nada de vento. Nas bancadas, mais de dez mil adeptos, a maioria brasileiros, aglomeravam-se, muitos de cerveja na mão. Havia também umas centenas de norte-americanos, a maioria soldados estacionados em bases militares nas proximidades.

Os americanos não alimentavam ilusões. O selecionador Bill Jeffrey havia descrito a equipa como “cordeiros prontos para o abate” e os jogadores estavam mentalizados para uma derrota. O capitão Harry Keough passou a braçadeira de capitão a Ed McIlvenny por este ser escocês e, portanto, mais próximo dos britânicos.

Mas, apesar do desafio que tinham pela frente, o espírito dentro daquela equipa era de descontração. “Eles passearam-se pelos balneários de Belo Horizonte, certamente a equipa mais estranha alguma vez vista num Mundial”, escreveu o Belfast Telegraph sobre a chegada. “Alguns traziam uns Stetsons [marca norte-americana que produz chapéus de cowboy], alguns fumavam grandes charutos e alguns estavam ainda na fase inicial e feliz de uma ressaca.”

Joe Gaetjens era um dos que tinha bebido demais na noite anterior. Segundo o livro de Geoffrey Douglas, só saiu da cama arrastado por Harry Keough. “O Joe jurava que jogava melhor se se tivesse divertido na noite antes de um jogo”, revelou o defesa. “Mas hey, com as coisas que ele fazia em campo, quem é que lhe ia dizer a que horas é que ele devia ir para a cama?” A palestra no balneário não teve nenhum discurso inspirador. “Façam o melhor que conseguirem”, limitou-se a dizer o selecionador Jeffrey.

Os ingleses entraram em campo não com o seu equipamento branco habitual, mas sim de azul, para não se confundirem com os norte-americanos. A moeda foi atirada ao ar e a vantagem foi para os britânicos, que arrancaram campo fora. Em 90 segundos, sem que os americanos tivessem ainda conseguido tocar na bola, Roy Bentley fez o primeiro remate, mas falhou.

O domínio manteve-se ao longo dos minutos seguintes: seis remates nos 12 primeiros minutos do jogo, 30 em toda a primeira parte. Mas nenhuma bola entrava na baliza. “Era como se houvesse uma barreira mágica e impenetrável”, desabafaria mais tarde ao The Guardian o inglês Alf Ramsey. “Até quando tínhamos a baliza aberta não conseguíamos marcar.”

Os americanos quase não tinham oportunidades de golo, mas iam tentando — e o guarda-redes Frank Borghi fazia defesa atrás de defesa. Até que, ao minuto 37, Walter Bahr fez um remate que nem ele acreditava que resultaria em golo. “Tinha a certeza que o guarda-redes ia apanhar”, confessou. Mas, enquanto a bola voava pelo ar, Joe Gaetjens fez um dos seus saltos — daqueles que pareciam inúteis, pois nunca na vida iria conseguir chegar à bola. Mas chegou. Com um gesto de cabeça, deu-lhe o ângulo necessário para que esta se plantasse no fundo da baliza do guarda-redes inglês Bert Williams.

Não há imagens em vídeo que tenham registado o momento, porque as poucas câmaras de televisão que estavam no estádio tinham sido plantadas atrás da baliza dos norte-americanos, onde se esperava que chovessem golos. Por isso, durante os anos seguintes, foi alimentada uma lenda que dizia que talvez o golo de Gaetjens não tenha sido fruto do talento, mas sim da sorte. O jornalista Dell’Apa, porém, descredibiliza essa teoria: “Falei com o Walter Bahr, que fez o passe, e ele disse que o Joe fazia aquilo imensas vezes. Era muito rápido na grande área, e mesmo não sendo um tipo grande tinha um talento para usar a cabeça e encontrar a baliza”, conta. “Apanhou-os de surpresa. Não é muito fácil apanhar os ingleses nos cruzamentos, mas, de alguma forma, ele fez isso e marcou.”

Ao fim de mais dez minutos de jogo, os ingleses regressaram aos balneários no intervalo ainda aturdidos. “Não se preocupem, rapazes, continuem a jogar futebol”, disse-lhes o selecionador Walter Winterbottom, recordou o antigo jogador Billy Wright no seu livro de memórias Football is My Passport (sem edição em português). “Não fiquem demasiado ansiosos. Levem o vosso tempo.”

Toda a gente esperava que Inglaterra desse a volta, mas a equipa continuava sem sorte. Ao mesmo tempo, os adeptos brasileiros nas bancadas tomavam o partido dos norte-americanos, provavelmente entusiasmados com a perspetiva de ver uma poderosa Inglaterra afastada da fase seguinte, abrindo caminho ao Brasil. Não tardou até se começarem a ouvir gritos no estádio que pediam “Mais um! Mais um!”.

Aos 82 minutos, os ingleses tiveram a sua grande oportunidade. Stanley Mortensen correu a toda a velocidade com a bola nos pés em direção à baliza e foi travado violentamente por Charlie Colombo, o italo-americano que trabalhava num matadouro. Colombo, que gostava de jogar com luvas de boxe calçadas (algo permitido pelas regras na altura), era conhecido como um central implacável. “Ele não hesitava em mandar um gajo ao chão. Se a mãe dele estivesse na equipa adversária, provavelmente também a mandava”, notou à ESPN Harry Keough. “Eu não chamaria ao Charlie um jogador sujo, mas ele esticava as regras na questão do contacto”, admitiu Walter Bahr noutra entrevista, com a ABC.

Colombo tirou as suas luvas de boxe e gritou “Já era altura de ganharmos a estes gajos!” “Sinto-me mal por estes rapazes”, comentou Keough com o colega Pee-Wee Wallace, apontando para a equipa inglesa. “Como é que eles vão viver com o facto de os termos vencido?”

Quando Colombo deitou o avançado inglês ao chão, todos esperavam que fosse expulso. Mas o árbitro italiano Generoso Dattilo não o fez. Em vez disso, contou Colombo aos colegas mais tarde, ter-lhe-á dito “Buono! Buono!” quando se aproximou dele, no que o jogador interpretou como palavras de aprovação. “Era provavelmente uma piada”, reconheceu Bahr ao New York Times anos mais tarde. A falta levou a um livre direto de Inglaterra e o guarda-redes Frank Borghi — que já tinha feito algumas defesas espetaculares ao longo do dia — afastou a bola com a ponta dos dedos. Os ingleses argumentaram que a bola tinha entrado à mesma, o árbitro decidiu que não. E não houve mais oportunidades de golo durante o resto do jogo.

Quando se ouviu o apito final, os adeptos correram para o campo. Primeiro, levantaram em ombros o lavador de pratos Joe Gaetjens. Depois, fizeram o mesmo com o agente funerário Frank Borghi. Colombo tirou as suas luvas de boxe e gritou “Já era altura de ganharmos a estes gajos!” “Sinto-me mal por estes rapazes”, comentou Keough com o colega Pee-Wee Wallace, apontando para a equipa inglesa. “Como é que eles vão viver com o facto de os termos vencido?”

A testemunhar tudo aquilo no estádio estava apenas um único jornalista norte-americano: Dent McSkimming, uma lenda do jornalismo de desporto no país, que trabalhava para o St. Louis Post-Dispatch. Mas o jornal tinha recusado enviá-lo ao Mundial em trabalho e, por isso, McSkimming meteu dias de férias e pagou a viagem do próprio bolso, não escrevendo um único artigo. Quando os primeiros relatos do que acontecera em Belo Horizonte chegaram ao New York Times através de uma agência de notícias, o editor responsável achou que era um erro e decidiu não publicar o resultado.

A imprensa britânica, porém, estava num frenesim. “Com apenas dois telefones disponíveis para todos os repórteres presentes, houve um atraso muito grande. Quando enviaram a última mensagem, já era de noite”, contou ao The Guardian Charles Buchan, um dos jornalistas britânicos que estava no Estádio Independência. Para conseguirem ditar os textos, queimaram jornais e improvisaram pequenas fogueiras para terem luz.

No dia seguinte, as manchetes no Reino Unido gritaram o falhanço de Inglaterra, derrubada por uma equipa de operários. “Os futebolistas dos Estados Unidos – de quem ninguém nunca ouvira falar – derrotaram hoje a Inglaterra por 1-0, na fase final do Mundial de Futebol. O resultado marca o ponto mais baixo de sempre do desporto britânico”, decretou John Macadam no Daily Express. Numa altura em que apenas passava à fase seguinte a equipa com melhor pontuação de cada grupo, a Inglaterra ficaria pelo caminho e não foi além da fase de grupos. O campeão do mundo de 1950 acabaria por ser o Uruguai.

Os “Homens do Saco” levaram Gaetjens e nem Kissinger conseguiu descobrir o seu paradeiro

Passaram-se 76 anos. E, desde então, em cada Mundial há sempre um jornalista norte-americano que ressuscita a história de Joe Gaetjens. “A cada quatro anos há sempre um jornal, ou alguém que está a escrever um livro, ou alguém que está a fazer investigação, que entra em contacto comigo”, conta o filho Lesly, que classifica sempre esses momentos como “entusiasmantes”, mas também “emotivos”. “O futebol está a tornar-se muito popular nos EUA, por isso acho que, de certa forma, foi aquela equipa que plantou as sementes. Há cada vez mais e mais gente a aprender sobre futebol aqui.”

O momento é particularmente “emotivo” para Lesly por causa da forma como o seu pai morreu.

Depois do Mundial de 1950, Joe Gaetjens decidiu apostar numa carreira do outro lado do Atlântico. Partiu para jogar em França, onde esteve no Racing de Paris e no Olympique Alès. Mas as lesões nos joelhos foram surgindo e o sonho do futebol profissional desvaneceu-se. Em 1953, decidiu regressar ao Haiti, onde foi recebido no aeroporto como um herói: “O melhor jogador no Haiti, nos EUA e no mundo inteiro”, dizia um dos cartazes exibidos no aeroporto de Port-au-Prince.

No ano seguinte, ainda fez um jogo de qualificação pela seleção haitiana para o Mundial de 1954, mas não correu bem. Joe pendurou as chuteiras e mudou de vida. Casou com uma mulher que conhecera entretanto, Lyliane, abriu um negócio de lavandarias e dedicou-se às roseiras no seu quintal e a promover o futebol junto dos miúdos do seu bairro. Teve três filhos: Lesly, Richard e Jerry.

Mas, no final dos anos 50, o Haiti mergulhava num período de terror, após a eleição de François “Papa Doc” Duvalier como Presidente. A sua milícia popular herdou o nome de uma história de papões que se contava às crianças — Tontons Macoutes significa literalmente “Homens do Saco” —, mas era ainda mais tenebrosa na vida real: raptos, violações, tortura e assassinatos tornaram-se lugar comum no Haiti. Ao todo, estima-se que 30 mil pessoas terão sido mortas durante o regime de Papa Doc.

Alguns dos irmãos de Joe Gaetjens juntaram-se à resistência oficial. Dois deles refugiaram-se na República Dominicana, de onde conspiravam sobre como derrubar Duvalier. Mas Joe, ao contrário dos irmãos, estava completamente afastado da política.

No dia 8 de julho de 1964, a mãe de Joe, Toto, estava numa das lavandarias da família quando alguns Tontons Macoutes apareceram. A mulher ligou ao filho para o avisar, mas este decidiu ir lá ter à mesma, porque achava que não tinha nada a temer. Quando chegou de carro, um dos membros da milícia abriu a porta de trás e sentou-se no banco. Apontou uma arma à cabeça do antigo jogador e disse-lhe para arrancar.

A família nunca mais viu Joe Gaetjens. Poucos dias depois, souberam através de um amigo que trabalhava no Governo que Joe tinha sido levado para a prisão de Fort Dimanche, onde três mil pessoas foram executadas durante o período Duvalier.

Para o professor Millery Polyné, não há dúvidas de que a milícia escolheu deliberadamente a família Gaetjens como alvo e em particular Joe, pelo seu passado como jogador de futebol conhecido. “Para o regime de Duvalier, os símbolos eram importantes”, nota. “O autoexílio da família Gaetjens podia ser visto como uma rejeição e reprovação da legitimidade e da política de Duvalier. [Como irmão,] Joe Gaetjens era um potencial símbolo de descontentamento de classe, de raça e político.”

No Haiti, no primeiro dia do ano há a tradição de as pessoas fazerem pedidos diretamente ao Presidente. Sabendo disso, a mãe de Joe foi até ao palácio presidencial no dia 1 de janeiro de 1965. “Porque é que o prenderam? Ele não tem nada a ver com a política, ele só joga futebol”, disse Toto a Papa Doc. Duvalier prometeu-lhe então ali que Joe seria libertado no dia seguinte. Mas isso nunca aconteceu.

Com medo, os Gaetjens decidiram fugir do Haiti. A mulher de Joe, Lyliane, trabalhava como secretária do presidente da Shell no Haiti, Leonard Berger, e pediu-lhe ajuda. Este disse-lhe que se partissem para os Estados Unidos trataria de lhe conseguir papéis. Lyliane pediu então vistos de turismo e pegou nos três filhos. “Ela disse que ia de férias para não nos travarem no aeroporto, portanto nós fomos sem nada, só com as nossas malas com alguma roupa”, explica Lesly.

Durante anos, os Gaetjens não souberam nada de Joe. A mãe, diz Lesly, falava pouco sobre o assunto: “Era demasiado doloroso.”

“Era um lugar árido, só pedra. Não havia qualquer tipo de instalação, só paredes, celas e pátios. Um dos haitianos que foi comigo apontou para uma parede e disse: ‘Pronto, devem tê-lo encostado ali e deram-lhe um tiro’. Bastante frio, mas provavelmente foi assim que aconteceu.”
Frank Dell'Apa, jornalista de desporto que visitou Fort Dimanche, a prisão para onde Gaetjens foi levado

O jornalista Frank Dell’Apa foi à prisão de Fort Dimanche anos depois, para conhecer o sítio para onde Joe Gaetjens foi levado. “Era um lugar árido, só pedra. Não havia qualquer tipo de instalação, só paredes, celas e pátios”, conta. “Um dos haitianos que foi comigo apontou para uma parede e disse: ‘Pronto, devem tê-lo encostado ali e deram-lhe um tiro’. Bastante frio, mas provavelmente foi assim que aconteceu.”

Sem respostas oficiais, Lyliane escreveu várias cartas ao longo dos anos, incluindo ao Presidente Lyndon B. Johnson, pedindo ajuda para saber alguma coisa do marido. Não há dados que apontem para um tremendo envolvimento por parte do Governo norte-americano a fim de saber do paradeiro do homem que tinha conseguido um feito extraordinário para a seleção de futebol norte-americana.

O único esforço conhecido, recorda Dell’Apa, ocorreu no início dos anos 70, com a chegada ao poder no Haiti do filho de “Papa Doc”, Jean-Claude, conhecido como “Baby Doc”. “Os New York Cosmos foram jogar ao Haiti e envolveram Henry Kissinger para tentar saber alguma coisa”, revela o jornalista. O próprio conselheiro de Segurança Nacional disse ao diretor do Cosmos que tencionava fazer tudo o que fosse possível para “chamar a atenção para o caso do Joe”; mas não teve sucesso.

Em 1979, a família Gaetjens recebeu um relatório da Comissão Inter-Americana para os Direitos Humanos onde se dizia que o mais provável era que Joe Gaetjens estivesse morto. Nunca vieram mais respostas.

“Gaetjens podia não ter passaporte, mas encaixava-se perfeitamente no que é a América”

A história de Joe Gaetjens nunca ganhou grande dimensão mediática. Mesmo no Haiti, aponta o professor Polyné, Gaetjens nunca teve o destaque que outros futebolistas tiveram, como Emmanuel Sanon, que marcou um golo contra Itália no Mundial de 1974 e que nas ruas de Port-au-Prince tem “murais com o seu rosto ao lado de figuras como Fidel Castro e Che Guevara”.

Nos Estados Unidos, o mesmo aconteceu. Gaetjens manteve-se um mistério, até para os fãs mais aguerridos do soccer. Como Rob Spence, fundador de um clube de futebol no Minnesota que, quando em vésperas do Mundial de 2010 viu à venda um equipamento comemorativo da seleção americana de 1950, se questionou: “Por que não comprar uma camisola com o número e o nome de Gaetjens?” Ao encontrar o longo artigo que a ESPN tinha escrito sobre o jogador, contactou o jornalista e perguntou-lhe qual era o número de Gaetjens — o que levou a um segundo artigo para responder a essa questão, não tendo o jornalista chegado a uma conclusão definitiva. O número mais consensualmente apontado é o 18.

“Na altura não havia redes sociais. Tudo o que temos hoje são histórias e um par de fotos. Se fosse hoje, com este zeitgeist, ele ter-se-ia tornado numa grande figura norte-americana.”
Rob Spence, fundador de um clube do Minnesota e fã assumido de Gaetjens

“Eu sou do mundo do soccer, sempre liguei a isto, mas, se perguntar a 95% dos americanos, nenhum deles ouviu falar deste tipo”, confessa Rob ao Observador. “Apesar de ser uma história muito interessante e com um fim trágico.”

O facto de o golo de uma das vitórias mais importantes da seleção norte-americana ter sido marcado por um imigrante é, para este antigo dirigente futebolístico, um dado que torna a história ainda mais impressionante: “O mundo do soccer na América é muito progressista. Se fosse hoje, tenho a certeza que apoiaríamos uma pessoa como Joe Gaetjens. Basta olhar para a nossa seleção agora, muitos dos jogadores nem sequer cresceram nos EUA”, destaca. “Um haitiano com um pai alemão… Gaetjens podia não ter passaporte, mas encaixava-se perfeitamente no que é a América.”

Rob, que hoje em dia trabalha como representante de uma grande marca de equipamentos desportivos para a área do futebol, lamenta que a história de Gaetjens nunca tenha tido o mediatismo que diz merecer: “Na altura não havia redes sociais. Tudo o que temos hoje são histórias e um par de fotos. Se fosse hoje, com este zeitgeist, ele ter-se-ia tornado numa grande figura norte-americana.”

Mas até as histórias começam a desvanecer-se. Em 2018, morreu o último membro da seleção norte-americana de 1950 que ainda estava vivo: Walter Bahr, o homem que fez o passe para o golo de Gaetjens e que ao longo da vida deu algumas entrevistas a jornalistas como Frank Dell’Apa sobre “O Milagre na Relva” e, em particular, o caso de Gaetjens. “O que temos aqui é uma história com um mau fim. Ou melhor, uma história em aberto, porque não sabemos ao certo como acabou. Sempre achei que havia uma aura em torno de Joe Gaetjens, uma que pergunta ‘como pudemos permitir que isto acontecesse?’”, questiona-se o repórter.

Enquanto foi viva, Lyliane Gaetjens nunca quis dar entrevistas sobre o marido. Hoje em dia, o filho Lesly diz sentir a responsabilidade de falar sobre o pai em público sempre que pode. Fervoroso adepto de futebol como Joe — neste Mundial diz estar também a torcer por Portugal, em especial porque é um grande fã de Bruno Fernandes —, Lesly gostava que o Mundial de 2026 pudesse servir para colocar a história de Joe Gaetjens nas bocas do mundo.

Se um jogo como o de 1950 acontecesse hoje, a cara do meu pai ia estar em todo o lado, nas redes sociais, na televisão, tudo”, sublinha. “Teria sido tudo muito, muito diferente. Talvez até nem o tivessem matado.