Artilharia. Este é um dos primeiros sons que se ouvem quando se está perto de um miradouro em Kisra Sume’a, a cerca de 20 quilómetros da fronteira entre o Líbano e Israel. “É normal”, desarma Sarit Zehavi, que foi tenente-coronel nas Forças de Defesa israelitas (IDF, sigla em inglês) e que hoje se dedica à investigação militar no Centro de Pesquisa Alma. Afinal, os combates terrestres entre as IDF e os militantes do Hezbollah prosseguem naquela região, apesar do frágil cessar-fogo em vigor.
Muito perto do miradouro está uma estrutura de betão pesada e visualmente pouco atrativa: trata-se de um bunker. É para aquele espaço cinzento que se deve correr caso se ouçam sirenes ou se veja um objeto nos céus. Mas com um pormenor muito importante, como explica Sarit. Fruto da proximidade da fronteira — e dos locais de onde a milícia xiita lança os rockets e drones — há poucos segundos para se ir para o abrigo: cerca de 15 a 30 segundos. Mais do que isso? É arriscado.
Entre Israel, Hezbollah e o Irão, as últimas horas foram marcadas por uma escalada da tensão. Este domingo, depois de dois meses sem registo de quaisquer ataques de parte a parte, o regime iraniano — juntamente com os Houthis do Iémen — lançaram vários mísseis para várias partes de território israelita, justificando-o como uma vingança contra as IDF por estas terem atacado o sul de Beirute. Em resposta, Israel também retaliou e atacou solo iraniano nas horas seguintes.

Em Telavive, onde o Observador está hospedado para uma viagem com jornalistas convidado pela European Jewish Association, as sirenes ouviram-se pelo menos três vezes entre as 06h00 e as 09h00 desta segunda-feira (menos duas horas em Lisboa). Os alertas sonoros e os abrigos voltaram à rotina da cidade de 450 mil habitantes. No entanto, a normalidade reinou na localidade. As pessoas continuaram a caminhar, os carros a andar nas estradas e as lojas abertas — afinal, Israel vive este cenário há cerca de três anos.
Nos próximos dias, a situação deverá alterar-se. Esta segunda-feira, Israel e Irão concordaram em cessar os ataques aéreos. O Presidente norte-americano fez vários apelos nas redes sociais e declarou que não queria que os dois países voltassem a atacar-se, principalmente durante o processo negocial que decorre para terminar com a guerra entre Teerão e Washignton. Numa chamada telefónica, Donald Trump terá influenciado o primeiro-ministro israelita a não retaliar na noite de domingo — mas Benjamin Netanyahu não acatou diretamente as ordens do seu maior aliado.
Como Telavive viveu os ataques — e como EUA e Israel podem estar a afastar-se
Pessoas a jogar voleibol. Outras a nadar no mar. Umas a fazer desporto ou a beber um iced coffee — às 08h30 da manhã já estavam cerca de 25 graus Celsius em Telavive. Apesar de as sirenes terem tocado na cidade três vezes esta segunda-feira, há uma sensação de calma e normalidade perto da praia de Gordon, uma das mais centrais. Na marginal, existem várias sinalizações de bunkers de poucos em poucos metros.

Nos próximos dias, é expectável que os céus de Telavive e de outras partes do país regressem à normalidade, se bem que a situação possa mudar a qualquer momento. Este domingo, o país aumentou o nível de perigo dentro das fronteiras e as escolas estiveram encerradas, medida que já foi levantada esta segunda-feira. O Irão foi o primeiro a assegurar que ia cessar os ataques aéreos, seguindo-se depois Israel. Apesar desta trégua frágil, os dois países deixaram as mesmas ameaças: se o inimigo o atacar, a resposta será com “toda a força” e muito violenta.
Desde que os Estados Unidos da América (EUA) e Israel atacaram o Irão a 28 de fevereiro, o conflito direto entre Teerão e Telavive parecia relegado para um segundo plano face à posição norte-americana. A lógica aparentava ser que os EUA funcionavam como o parceiro maior da aliança com Israel contra o regime iraniano. Quando Donald Trump ameaçava acabar com o regime, Israel acompanhava estas posições. Quando Donald Trump sinalizava ceder a algumas vontades ao Irão, a diplomacia israelita sentia algum desconforto. Porém, o desagrado era sempre em surdina — em círculos diplomáticos — e raramente em público.
Ora, esta dinâmica alterou-se recentemente. Surgiu, por exemplo, a informação de que Donald Trump insultou Benjamin Netanyahu durante uma chamada telefónica. O Pentágono levantou a possibilidade de Israel estar a espiar os Estados Unidos. Começa a existir uma tensão nas relações entre os dois países, que se esta segunda-feira se tornou mais visível.

Nascido no Irão, Beni Sabti é um dos principais especialistas sobre política iraniana em Israel. Participa em vários programas informativos, em que partilha as suas opiniões sobre o regime iraniano. Este domingo, o analista estava em direto no Canal 12 israelita, uma das principais estações televisivas em Israel. Quando chegou a informação de que Donald Trump ia falar ao telefone com Benjamin Netanyahu, admitiu que ficou “pessimista” e com a impressão de que tinha sido “uma conversa difícil”.
Em declarações a media estrangeiros, incluindo o Observador, Beni Sabti confessou que “deixou de entender Trump”. “A cada cinco minutos, existe outro tweet e outra frase e outra coisa”, referiu. Esta perspetiva de que o Presidente norte-americano está sempre a mudar de ideias em relação à situação do conflito está cada vez mais presente na mente dos israelitas.
Ainda assim, o especialista que nasceu em território iraniano, mas que vive em Israel há décadas, acredita que Benjamin Netanyahu “convenceu ligeiramente” Donald Trump de que teria de atacar o Irão. “Talvez tenha prometido um ataque limitado, mas Israel tinha de atacar e de reagir”, destacou.
Caso estes ataques mútuos continuarem, Beni Sabti opina que será Israel a assumir a liderança de uma nova ofensiva. “Será mais Israel. Acho que os [norte-americanos] vão ajudar com a logística, a defesa aérea e os sistemas que vimos [no domingo] na Jordânia — os THAAD”, refere o especialista. No mesmo sentido, o analista também acha que houve “algum choque” entre os iranianos por esta aparente falta de coordenação entre Telavive e Washignton.
Norte do Israel. Onde o conflito parece não terminar
Se nos céus de Telavive e Teerão não se deverão avistar drones nem ouvir sirenes, no norte de Israel e no sul do Líbano a situação é muito diferente. Neste momento, as IDF ocupam parte da fronteira libanesa, de cerca de 12 quilómetros, para atacar o Hezbollah, um dos membros do eixo de resistência iraniano no Médio Oriente.
Sarit Zehavi vive numa comunidade muito perto da fronteira. A sua vida mudou radicalmente desde outubro de 2023. Grande parte das aldeias israelitas na proximidade com o Líbano tiveram de ser evacuadas desde o início da guerra na Faixa de Gaza, muitas continuaram a sê-lo até ao início de 2025. A mulher que foi tenente-coronel nas IDF dedica-se agora a estudar os impactos do Hezbollah no norte de Israel e como a milícia armada tem criado disrupções na vida da população.

No centro de pesquisa Alma, que está integrado num grande edifício com quatro pisos, Sarit Zehavi mostrou aos jornalistas várias imagens. A sala tem prateleiras com destroços de mísseis e drones, que as IDF recolheram no sul do Líbano. A apresentação incide sobre o que descobriram as Forças de Defesa de Israel em território libanês, desde a primeira grande operação militar no Líbano em setembro de 2024.
Sarit Zehavi revela imagens de túneis que diz terem sido construídos pelos militantes do Hezbollah. As infraestruturas subterrâneas, que apenas tinham entrada e não saída, terão permitido inclusivamente a infiltração em solo israelita. Para além dos dados que vai mostrando aos jornalistas, a especialista não deixa de fazer apartes sobre a sua vida pessoal: fala sobre como teme pela vida dos filhos diariamente e sobre como os tem instruído para servirem nas IDF.
“Isto é uma guerra psicológica”, lamenta. A especialista israelita dá conta de todas as disrupções na vida quotidiana no norte de Israel. “Não posso fazer um casamento com mais de 100 pessoas. Antes ainda era pior, eram apenas 50”, exemplifica. Ao contrário do resto de Israel, aquela parte do país continua sob ameaça — e nenhum cessar-fogo parece ser suficiente para resolver totalmente o problema.
A especialista, cuja mãe nasceu no Líbano, desabafa que “gostava de ter bons vizinhos”. Mas até lá, sublinha, Israel vai ter de continuar a defender-se, mantendo a ofensiva contra o Hezbollah e ocupando partes da fronteira com o Líbano. “Nós vimos que eles escondem armas em casa. O Hezbollah é um Estado dentro do Estado. Dá [aos libaneses] comida, bebida, acesso a educação. E, em troca, quer que eles escondam armas em casa”, diz.
Naquela sala, Sarit Zehavi mostra inúmeras imagens e vídeos da “propaganda do Hezbollah”. Em particular, imagens de novos drones que a atormentam. O motivo? Não são detetáveis pelo sistemas de defesa aérea — nem mesmo pelo sofisticado Iron Dome. São feitos a partir de cabos de fibra ótica e escapam à rede montada. Os drones são, por agora, apenas “um problema tático”. “Mas pode transformar-se num problema estratégico. Porque Israel tem de atacar o sul de Beirute para parar a construção destes drones. E, em resposta, o Irão ataca Israel e Israel ataca o Irão.”
Atualmente, os governos libanês e israelita estão a negociar diretamente sob mediação norte-americana, mas o Hezbollah tem tentado boicotar as negociações diretas entre as duas partes. O Irão continua a querer contar como grupo armado para criar problemas a Israel, sendo que a especialista até assinala que a milícia planeava fazer o seu próprio 7 de Outubro no norte de território israelita. “Se o fizessem, apenas paravam em Haifa.”
Em muitas cidades israelitas, a normalidade retornou na tarde desta segunda-feira. Pessoas foram jantar fora, havia crianças a brincar em parques e a praia Gordon continuou cheia, com muitos a aproveitar as temperaturas agradáveis de Telavive. No norte de Israel, porém, foi mais um dia ansioso e tenso.
O Observador viajou para Israel a convite da European Jewish Association