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(A) :: A lista de clientes VIP do Uber da Droga que a PSP apanhou: atores, um atleta olímpico, funcionários da TAP e concorrentes de reality shows

A lista de clientes VIP do Uber da Droga que a PSP apanhou: atores, um atleta olímpico, funcionários da TAP e concorrentes de reality shows

Foi um ano de investigação. Conversas intercetadas mostram familiaridade com várias figuras públicas. Uber da Droga liderava rede de tráfico com um sócio e apoio da própria mãe.

Pedro Raínho
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Inês Correia
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Ainda não eram 10h da manhã quando José Carlos Pereira ligou para Nuno Ricardo Nogueira dos Santos, também conhecido por “Ricardo” entre alguns dos clientes. O ator estava na A5, ia a caminho de Lisboa e queria marcar um encontro com o líder de uma rede de tráfico que a PSP, na investigação que conduziu durante cerca de um ano, batizou de “Uber da Droga”. Nenhum dos dois sabia, mas aquela chamada estava a ser ouvida por agentes da Divisão de Investigação Criminal da PSP.

A conversa durou menos de um minuto. Pouco depois, às 10h21, José Carlos Pereira voltou a ligar para perceber exatamente onde Nuno Ricardo estava naquele momento. A escuta do telefonema entre o Uber da Droga e José Carlos Pereira — que não respondeu aos pedidos de esclarecimento do Observador e que foi dispensado de depor em tribunal — foi feita a 16 de setembro de 2024. Nesse momento, a PSP já investigava há um ano uma rede de tráfico de droga liderada por Nuno Ricardo. Um traficante com uma lista de clientes de que faziam parte várias figuras públicas: profissionais da área da representação e do desporto, além de participantes de reality shows como Big Brother ou Casados à Primeira Vista.

Uber da Droga foi detido à porta de casa. No interior, a PSP encontrou centenas de pastilhas de MDMA e LSD, além de vários gramas de cocaína. O sócio foi detido na mesma noite no Marquês de Pombal.

A sentença que levou à condenação deste dealer dos famosos é pública e foi lida a 28 de maio no edifício A do Campus de Justiça, em Lisboa. O tribunal deu como provado que o líder da rede de tráfico tinha “vários clientes” a quem entregava, “com regularidade”, LSD, MDMA, cocaína, cetamina. E o acórdão nomeia cada um deles. Ao longo de vários meses, muitas das testemunhas foram chamadas a prestar depoimento, em sessões que decorreram sempre de porta aberta.

Em causa esteve o julgamento da operação de Nuno Ricardo, que funcionava na Grande Lisboa e que o dealer dos famosos manteve ativa, pelo menos, entre o verão de 2023 e 28 de novembro de 2024.

Centenas de comprimidos e mais de meio quilo de droga espalhada pela casa

Nessa noite, foi detido pela PSP à porta de casa, quando se preparava para sair para um momento de lazer em família. Lá dentro, os agentes encontraram um manancial de drogas espalhadas por várias divisões. A lista ocupa duas páginas inteiras da sentença.

No escritório, dentro das gavetas de uma cómoda, a PSP encontrou 334 comprimidos de MDMA de cor cinzenta, rosa, creme, verde e laranja, castanha e amarela; também encontrou várias embalagens de MDMA com um peso superior a 79 gramas; ali estavam igualmente guardados comprimidos de 2C-B, embalagens com cocaína, outras com cetamina e quase 60 selos de LSD; e ainda uma balança de precisão, “com resíduos de cocaína e de cetamina”, bolsas, frascos e sacos herméticos de diferentes cores, usados para acondicionar a droga, e sacos com imagens faciais de notas de euro onde também era guardado o produto que Nuno Ricardo depois vendia aos seus clientes.

https://observador.pt/especiais/seis-meses-de-vigilancia-os-brunches-eletronicos-e-uma-carteira-de-clientes-vip-como-a-psp-apanhou-o-uber-da-droga-em-lisboa/

Quando revistou a sala da casa, a equipa da PSP encontrou, no interior de um móvel, mais de 250 gramas de cocaína guardados em embalagens “em tudo semelhantes às entregues pelo arguido aos seus clientes”.

E no roupeiro do quarto ainda havia, dentro de uma bolsa preta com fecho zip, duas embalagens com MDMA e cetamina com um peso superior a 247 gramas.

Mas Nuno Ricardo não foi o único visado pelas buscas na noite dessa quinta-feira. Outro homem, Leonel Nhaga, foi detido duas horas depois, às 22h30, em plena Praça Marquês de Pombal, no centro de Lisboa, por haver fortes suspeitas de que pertencia à organização de tráfico de droga. Seria o sócio de Nuno Ricardo e teria integrado as operações nesse verão, quando o dealer dos famosos deixou de conseguir dar resposta a todos os pedidos que lhe chegavam.

A primeira revista a Leonel Nhaga foi feita logo ali. No bolso interior, do lado esquerdo do casaco, a PSP encontrou 13 embalagens de cocaína, cinco saquetas de cetamina e MDMA, mais três embalagens de MDMA, 38 comprimidos rosa e amarelos da mesma droga psicadélica (mais conhecida por ecstasy ou molly), além de um saco com mais de cinco gramas de cetamina. Meia hora depois, já no quarto alugado por Leonel Nhaga, os agentes encontrariam mais 30 embalagens com cocaína, 320 pastilhas amarelas de 2C-B e 45 pastilhas cor de rosa de MDMA. E também dinheiro. Dentro de um pequeno saco azul que a TAP e a marca de cosmética portuguesa Benamôr lançaram em 2023 para os passageiros de classe executiva, estavam 4.550 euros em notas de 100, 50, 20 e 10.

Tribunal deu como provado que mãe do Uber da Droga “era responsável por uma das ‘casas de recuo’, procedendo à guarda das embalagens para acondicionar cocaína, 2C-B, LSD, MDMA e cetamina”.

A mãe e a mulher do Uber da Droga também acabariam por ser constituídas arguidas e julgadas no processo. O Ministério Público acreditava que era a companheira de Nuno Ricardo, assistente de bordo na TAP há mais 20 anos, quem fazia a gestão financeira da organização e ajudava a preparar as doses que o dealer depois entregava aos seus clientes. Estava — como todos os arguidos do caso — acusada de um crime de tráfico de estupefacientes e de uma contra-ordenação pela mesma atividade. Mas o tribunal considerou não haver provas para a condenar.

No caso da mãe, a situação foi diferente.

Esconderijo do material e substituta nas férias do filho

O Ministério Público estava convencido de que era em casa de Lucinda Santos, a mãe, que o dealer dos famosos escondia parte do material usado para preparar a droga — e que era de droga que mãe e filho falavam quando, ao telefone, se referiam aos “ténis” que estavam “prontos”, ou quando combinavam entre si a entrega de “caixas”.

Na sentença, o coletivo de juízes, presidido por Rui Alves, deu como provado que a auxiliar de ação médica “era responsável por uma das ‘casas de recuo’, procedendo à guarda das embalagens para acondicionar cocaína, 2C-B, LSD, MDMA e cetamina”. Nas buscas à casa onde vivia, a PSP encontrou “várias embalagens para acondicionar cocaína, 2C-B, LSD, MDMA e cetamina, nomeadamente frascos, sacos herméticos e tubos”.

Mas Lucinda não se limitaria a essa “função passiva” na organização. Durante a investigação, a PSP transpôs para o processo pelo menos 43 conversas telefónicas. São chamadas entre Nuno Ricardo e os vários clientes, chamadas entre o dealer e o sócio que levou para a organização, Leonel Nhaga, e também chamadas entre o Uber da Droga e a mãe. Neste caso, foram, ao todo, 12 as interceções em que Nuno Ricardo e Lucinda comunicam entre si. Tal como o Uber da Droga fazia com os clientes, as conversas entre ele e a mãe eram cautelosas — havia sempre o cuidado de não falar ao telefone sobre aquilo de que, efetivamente, estavam a falar; ou então usavam os tais “códigos”.

Uma dessas chamadas aconteceu a 24 de outubro de 2024, cerca de um mês antes de a PSP avançar com a detenção de Nuno Ricardo e de Leonel Nhaga. Nessa conversa, e com o encontro a que a PSP assistiu no dia seguinte, ficou ainda mais clara a intervenção de Lucinda Santos em toda a operação. A mãe do dealer estava longe de servir como mera guardiã dos materiais que o filho usava no tráfico. Ela participava ativamente na recolha de produto quando Nuno Ricardo estava longe de Lisboa.

Ao telefone, atriz Marta Gil pediu a Nuno Ricardo "aquele clássico". À PSP disse que usava a expressão “quando precisava de desabafar".

Nuno liga à mãe por volta das 17h. Estava em Altura, no Algarve, e precisava de que Lucinda cobrisse a ausência dele. Era possível que fosse alguém ter com ela, diz-lhe. Depois, dá-lhe algumas orientações sobre o que fazer com o que ia receber da pessoa — ou das pessoas — com quem o filho queria que ela se encontrasse. Podia apontar o que lhe tinha sido entregue por cada um — nunca é referido qualquer produto — e juntar tudo, ou deixar em separado.

No dia seguinte, pouco antes das 15h, Nuno Ricardo volta a ligar. Queria saber se a mãe estava no Largo do Rato, em Lisboa. Lucinda estava mesmo junto à sede do PS, mas as manifestações desse dia — a propósito da morte de Odair Santos, na Cova da Moura — dificultavam o encontro com as “pessoas” que deveriam ir ter com Lucinda. A mulher sugere que isso aconteça mais tarde. Impossível, diz-lhe Nuno. Tinha de ser naquele momento. Então, sugere Lucinda, talvez fosse melhor à porta das Amoreiras. Nuno diz-lhe que vá para a porta do Liceu Francês.

Uma hora depois, Lucinda envia uma mensagem a Nuno com um emoji. Era o sinal de que a transação estava concluída. Nessa mesma noite, outro “rapaz” ia ter com Lucinda à porta de casa para fazer mais uma “entrega”.

Noutros casos, era a mãe do Uber da Droga quem passava o produto para as mãos dos clientes. A sentença refere que foi “observada a transportar produto estupefaciente e a participar em atos concretos de entrega a terceiros, integrando-se, assim, de forma ativa no circuito de distribuição”.

Sócio entra na operação. Mas lista VIP era quase toda do líder

Ainda assim, isso era uma exceção. No final de 2024, Leonel Nhaga já estava totalmente integrado na operação. Foi por volta do verão que Nuno Ricardo o chamou para participar no negócio como seu ajudante. As solicitações eram tantas que o dealer já não conseguia dar resposta a todos os pedidos. Por essa altura, ele já era uma figura de referência para uma rede alargada de clientes de que faziam parte várias figuras públicas.

Marta Gil, atriz, antiga concorrente de reality shows e também comentadora nesse formato, é outra das figuras públicas intercetadas nas conversas ao telemóvel com Nuno Ricardo — o Observador também a contactou, mas não obteve resposta ao pedido de esclarecimentos. Quando foi chamada a prestar declarações na PSP, e mais tarde, já em 2026, quando prestou depoimento em tribunal, negou sempre que em algum momento tivesse comprado qualquer tipo de droga a Nuno Ricardo. Mais: garantiu que nem sequer fazia ideia de que o “amigo” traficava drogas psicadélicas. Entre os dois, a PSP intercetou pelo menos 11 chamadas, ao longo de três meses.

Uma dessas conversas aconteceu a 12 de julho. A atriz, e antiga concorrente de reality shows, ia nesse dia para o festival Alive e queria saber se Nuno estava em casa. Não estava. E, depois, acrescentou: ainda tinha que ir “cozinhar” e só daí a 40 minutos é que poderia “ajudar”. Era mais ou menos o tempo de que Marta Gil precisava para acabar de se preparar e sair de casa. Voltaram a falar ao telefone uma hora mais tarde. Marta recebe a indicação de que poderia finalmente passar em casa de Nuno Ricardo.

Posicionada em frente à casa do Uber da Droga, numa operação de vigilância, a PSP acabaria por fotografar o namorado de Marta Gil a entrar na vivenda do dealer e a sair menos de dois minutos depois. À PSP, o namorado da atriz disse não ter memória do que lá foi fazer naquele dia.

A 4 de agosto, nova interceção. Duas chamadas em três minutos. Marta Gil fazia anos nesse dia e estava “num bar na praia”. Nuno estava em Lisboa e a tentar encontrar uma forma de uma pessoa — que nunca chega a ser nomeada — ir ter com a atriz. Ponderam chamar um Uber para a levar, admitem recorrer ao serviço de entregas da Glovo, Nuno ainda tenta perceber se poderia enviar a tal pessoa de “comboio” até Fernão Ferro. Marta acaba por dizer que vai tentar ligar a uma outra pessoa para ir ao encontro de Nuno e, depois, seguir para junto da atriz. Essa, diz, seria a solução “mais fácil”.

Domingo, 1 de setembro. Nuno prepara-se para almoçar em Alcântara quando Marta lhe liga a perguntar se ele pode passar em casa da atriz. O dealer explica que, nesse momento, não era possível. Marta pede que o faça então quando estiver despachado e Nuno explica que, antes de seguir para casa de Marta Gil, teria obrigatoriamente de passar antes em casa dele. Não explica porquê, mas a atriz responde de imediato: tinha percebido a mensagem.

A própria atriz foi ouvida pela PSP a 13 de fevereiro do ano passado. Na Divisão de Investigação Criminal, admitiu que, no passado, e sempre de forma muito pontual, já tinha consumido haxixe. Disse que conhecia Nuno Ricardo há cerca de dois ou três anos e que entre os dois tinha nascido uma “amizade”. Frequentavam festas juntos e era habitual passarem pela casa um do outro. Também disse que não fazia ideia da razão pela qual, a 12 de julho, o namorado fez uma passagem relâmpago em casa de Nuno Ricardo. E contou que, no dia do seu aniversário, só queria que o amigo estivesse também presente na festa.

Advogado de judoca olímpico Jorge Fonseca explica que, “uma noite, alcoolizado, juntamente com uns amigos", o atleta ligou ao amigo "para ele lhe dispensar quatro pastilhas de ecstasy". Mas depois, acrescenta, "ponderou bem o que iria fazer, e decidiu não o fazer.”

E quando lhe perguntaram a que se referia quando pediu “aquele clássico” a Nuno Ricardo, numa conversa intercetada a 16 de outubro, respondeu que isso era a expressão que utilizava “quando precisava de desabafar”.

Mas nem todas as conversas revelavam o mesmo grau de cuidado na linguagem utilizada. Era quase uma da manhã do dia 4 de outubro quando Jorge Fonseca liga a Leonel Nhaga. Tinham começado a treinar juntos no Holmes Place do Sporting nesse mesmo mês, exatamente no mesmo local onde, em setembro, o judoca já tinha travado conhecimento com Nuno Ricardo. À PSP, o atleta, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Japão, em 2020, disse que entre ele e “Leo” nasceu uma amizade e que rapidamente começaram a frequentar os mesmos espaços de diversão noturna.

Naquela madrugada de outubro, Jorge Fonseca tinha um objetivo em mente quando ligou a “Leo”: queria “pastilhas”. A referência deu lugar a uma reação imediata de Leonel Nhaga: não podia referir-se assim pelo telefone aos produtos que queria comprar.

Em tribunal, já este ano, o antigo campeão do mundo na categoria -100kg contaria que conhecia Leonel Nhaga desde 2022 e que, num dos momentos em que estiveram juntos, o amigo lhe teria cedido um par de pastilhas. Também admitiu que sabia perfeitamente que Leonel se dedicava a vender droga.

Ao Observador, o advogado de Jorge Fonseca dá mais detalhes do que se terá passado naquela madrugada de outubro. “Uma noite, alcoolizado, juntamente com uns amigos, ligaram ao Leonel para ele lhe dispensar quatro pastilhas de ecstasy. E é verdade que se deslocaram junto do Leonel, mas o Jorge nunca chegou a tomar qualquer substância psicotrópica, mesmo estando de férias dos campeonatos. Nem naquele momento nem noutro, ou qualquer outro tipo de substância, como é fácil de provar pela quantidade de vezes que é controlado ao longo do ano em períodos de treinos e competições pelas entidades  nacionais e internacionais responsáveis por esses controlos”, refere o advogado João Ferreira. “Naquele momento, ponderou bem o que iria fazer, e decidiu não o fazer.”

Trio condenado. MP também queria condenação da mulher

Além dos próprios elementos da PSP que participaram na investigação ao Uber da Droga, a lista de testemunhas arroladas pelo Ministério Público para o julgamento era composta por 21 nomes. Além das figuras públicas, constam ali funcionários da TAP — vários assistentes de bordo, mas também pessoal mecânico —, empresários da restauração, vendedores do ramo automóvel, médicos, engenheiros informáticos com projetos na área da Inteligência Artificial, entre outros.

Muitos deles, ouvidos na PSP, admitiram que os contactos com Nuno Ricardo, e o uso de expressões como “bitolas”, o “normal”, “2g’s” e a “coiso” eram linguagem em código para a compra de droga. O dealer nunca negou o seu papel de líder na rede. A estratégia de Nuno Ricardo, desde o início, foi a de provar à investigação, primeiro, e em tribunal, mais tarde, que ele era o único responsável pela operação e que nem a sua mãe nem a sua mulher tinham qualquer intervenção na venda dos vários tipos de droga que tinha à disposição dos seus clientes.

A procuradora do Ministério Público destacou em tribunal a “tentativa" de Nuno Ricardo de "desresponsabilizar as co-arguidas, a mãe e a mulher”. Uma tese que o Ministério Público contestou. Juízes não condenaram companheira do dealer.

Na sentença, o tribunal explica como o Uber da Droga passou de consumidor a vendedor. E como essa proximidade com figuras públicas serviu como motor. Nuno Ricardo “passou a adquirir estupefacientes inicialmente para consumo próprio e, mais tarde, para ceder e depois para vender a terceiros, processo gradual descrito como motivado não propriamente por necessidades financeiras, mas pelo sentimento de pertença e reconhecimento obtido, passando a beneficiar de um estatuto privilegiado junto de pares e amigos, alguns figuras mediáticas, vivência referida como socialmente gratificante passando a aceder a contextos de convívio e lazer de forma diferenciada e exclusiva, sentindo-se conhecido e respeitado”, escrevem os juízes.

A sua experiência pessoal levá-lo-ia, durante a maior parte da sua vida, a um sentimento de “aversão” relativamente ao consumo de drogas. Filho de um toxicodependente, durante anos assistiu a episódios de violência doméstica de que ele e a mãe eram vítimas — até ao desfecho trágico quando, aos 17 anos, durante mais um momento de agressões, pegou numa arma e atirou sobre o pai. O homem morreu, e Nuno cumpriu um ano de prisão efetiva por homicídio. Depois da prisão, tentou reorientar a vida: virou-se para o desporto, começou a trabalhar, emigrou, voltou a Portugal e abriu uma loja de desporto na Ericeira, trabalhou no ramo da cosmética e do imobiliário.

Depois, veio a pandemia. Nuno Ricardo “interrompeu a atividade laboral, ficando a viver de rendimentos, com apoio da companheira, dedicando-se à prática do desporto, triatlo, concomitante à gestão de alguns imóveis de terceiros, nunca tendo regressado em pleno ao mercado de trabalho”. Em 2022, mudou de ginásio, conheceu um “novo grupo de amigos” e voltou ao consumo de drogas psicadélicas que já tinha experimentado na adolescência. E, daí, passou para a venda.

Ao contrário de Nuno Ricardo, durante todo o julgamento, Lucinda Santos e a mulher do dealer mantiveram-se em silêncio, optando por nunca prestar quaisquer declarações. O Ministério Público notou isso mesmo nas alegações finais do caso, na última semana de maio. A procuradora de julgamento destacou a “tentativa de desresponsabilizar as co-arguidas, a mãe e a mulher”, deixando claro, até ao final do julgamento, estar convicta de que a companheira do dealer “participava na organização do produto”, estando responsável pela “preparação e a divisão das quantias monetárias que auferiam com a prática”. Na sala do tribunal, sem nunca desviar o olhar da procuradora, Nuno Ricardo ouviu ainda a procuradora notar a “coincidência” (que a própria colocou entre aspas) de que, na lista de clientes, “muitos eram hospedeiros ou comissários de bordo” — exatamente a mesma profissão da mulher do Uber da Droga.

Mas o tribunal acabou por validar, ainda que parcialmente, a posição da defesa. A mulher de Nuno Ricardo, que estava acusada de um crime de tráfico de droga e de uma contra-ordenação, foi totalmente ilibada, por não haver prova de que tivesse participação no negócio de venda de droga. Os outros três arguidos foram condenados.

Na sentença, o coletivo sublinhou “a prova segura, coerente e convergente” recolhida durante a investigação e que “demonstra a existência de uma atividade de venda de estupefacientes, reiterada no tempo, a utilização de meios organizados e divisão funcional de tarefas, a posse de quantidades e instrumentos incompatíveis com consumo próprio e a intenção lucrativa subjacente”.

Nuno Ricardo — em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Lisboa desde que foi detido, a 28 de novembro de 2024 — foi condenado a cinco anos e meio de prisão efetiva. O sócio, Leonel Nhaga, que também chegou a estar detido preventivamente, foi condenado a quatro anos e meio de prisão e a mãe de Nuno foi condenada a quatro anos e três meses de prisão. No caso destes dois arguidos, o tribunal optou pela pena suspensa pelo período de cinco anos.