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"Ou tenho graça ou estou lixado": nos bastidores de Ricardo Araújo Pereira na MEO Arena

É possível ser brejeiro de fato e gravata? RAP diz que sim, e com amigos e golpes de kickboxing à mistura, faz rir diferentes gerações. O Observador acompanhou a estreia na maior sala do país.

Mariana Carvalho
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João Porfírio
photography

“Isto é péssima ideia”, admite Ricardo Araújo Pereira (RAP), antes mesmo de cumprimentar os jornalistas. Pode não parecer, mas o maior comediante português é humano — como demonstram os suores frios, as tripas revoltas, as palavras cuspidas em jorros — e está nervoso. Do lado de lá de uma porta de aço, 13.000 lugares vazios sinalizam a maior provação da sua carreira até à data: o primeiro espectáculo de stand-up a solo, que depois de esgotar a Super Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota, no Porto, promete encher a MEO Arena, em Lisboa, de gargalhadas, neste dia 5 de junho. Ao pé disto, a plateia de cem pessoas do programa semanal, Isto É Gozar com Quem Trabalha, é uma brincadeira de meninos.

Com uma hora e meia de antecedência, os fãs mais fervorosos e os espectadores prevenidos começam a formar uma fila à porta do recinto. Pais, filhos, casais, jovens, velhos, é raro encontrar alguém que agrega tantas gerações. Alguns conheceram Ricardo através das personagens inesquecíveis dos Gato Fedorento, outros no noticiário satírico da SIC, e há mesmo quem se recorde da passagem pelo Levanta-te e Ri, em 2003. Desde então, construiu uma carreira de sucesso e sagrou-se o comediante mais popular do país, líder de audiências em todos os programas que assina, autor de best-sellers, cronista em jornais portugueses e estrangeiros, locutor de rádio e comentador político.

Verificando Se Você É Humano é a estreia na comédia ao vivo, a última etapa por cumprir e também a mais desafiante. Em Lisboa nos dias 5 e 6 de junho, passa pelas ilhas, por Braga, Guimarães e outros destinos que permanecem por desvendar em Portugal e no estrangeiro. Uma experiência “horrível e muito gira” em simultâneo, segundo admitiu em entrevista ao Observador, põe a teste a atividade favorita do comediante — criar um texto humorístico e “perceber com que potência explode”. Vestido de forma neutra e casual, Ricardo traz uma resma de folhas na mão, a cábula que redigiu nos últimos meses e que tem medo de esquecer. Atrás dele, dois amigos e colegas de trabalho, Guilherme Fonseca e Manuel Cardoso preparam-se para abrir o evento — “aquecer” o público para a grande estrela, entretida em dúvidas existenciais de última hora.

Ricardo vai começar a noite com um bit sobre o amor. Mas “o amor não tem piada nenhuma”, lamenta, pior do que isso só mesmo a obra-prima de Camilo Castelo Branco, que, de algum modo, conseguiu encaixar no alinhamento. Um defensor obstinado de que a comédia não serve para nada, RAP demonstra as potencialidades pedagógicas do stand-up e faz mais pelo Amor de Perdição do que o Plano Nacional de Leitura — enquanto carrega no sotaque de Viseu de Simão Botelho e Teresa Albuquerque.

As páginas de texto grafado numa caligrafia rústica remetem para as máquinas de escrever que o humorista coleciona — um amante do analógico, não dispensa o som dos dedos a martelar nas teclas nem o cheiro da tinta sobre a superfície de celulose. Mas a aparência é enganadora: apesar da aura vintage, o guião foi escrito no computador e cada uma das 21 páginas que tem demora dois minutos a dizer em voz alta. Feitas as contas, são perto de três quartos de hora em palco, uma hora contando os risos e aplausos do público, “se tudo correr bem”.

Descrito como tímido por quem teve o prazer de o conhecer, responde às perguntas com uma cadência anormalmente acelerada, sintoma do nervoso miudinho — ou graúdo — que lhe dá a volta ao estômago e incentiva a correr para a casa de banho. A postura solene que lhe conhecemos não é incompatível com humor escatológico, duplamente eficaz quando veste fato e gravata. Um uniforme que pretende ser o mais neutro possível é também evidência do inevitável: a “péssima ideia” que teve há alguns meses vai tornar-se realidade. “Eu não faço caretas, não digo palavrões, não há nada que me ajude”, reconhece. “Ou tenho graça ou estou lixado.”

No Parque das Nações, a agitação é palpável, à medida que famílias e grupos de amigos se aproximam dos corredores delimitados por grades metálicas. Às dezenas, seguranças de colete amarelo indicam direções e verificam bilhetes. “Nos dias como hoje, em que há lugar marcado, as pessoas costumam chegar em cima da hora”, confessa um dos vigilantes. “É muito confuso”, acrescenta, enquanto um colega matulão de megafone em riste transmite informações aos recém-chegados. Entre eles estão Catarina e Fátima, duas sexagenárias que caminham de braço dado em direção à entrada. Fãs declaradas do Isto É Gozar com Quem Trabalha, não poupam elogios ao “sentido de oportunidade” do cabeça de cartaz, cuja subtileza faz lembrar o humor armadilhado do Estado Novo. “[O Ricardo] é criativo como os cómicos visados pela censura”, reconhecem.

Já Rosa entra no recinto sozinha: vai esperar pelos dois filhos e pelas noras no interior da arena. “Eu adoro o Ricardo”, admite, “sou a fã número um”. Fica por esclarecer se o atrativo do comediante é o sentido de humor ou o charme, pois cita e subscreve a confissão de Cristina Ferreira que fez correr a tinta dos tablóides em 2020: no programa 5 Para a Meia-noite, a apresentadora admitiu “sentir-se atraída” por Ricardo, alegadamente o “único homem em quem estava interessada” na altura.

Edite, por sua vez, vem acompanhada pelo filho Simão, que atesta a transversalidade do humor “ricardiano”. Se a mãe assistiu ao crescimento dos Gato Fedorento na televisão, o jovem de 18 anos pôde aceder aos sketches através das plataformas digitais. Apenas um entre muitos exemplos, Edite e Simão são a prova viva das gerações afastadas por várias décadas que convergem na plateia da MEO Arena, demonstrando o poder mobilizador da comédia.

Dar knock out e partir a plateia

A sala está composta, há poucos lugares por preencher e o burburinho instalado dá conta da expetativa do público. Do balcão, é possível testemunhar a chegada dos últimos espectadores, aliviados por verem o palco vazio. Sem aviso, uma voz sobrepõe-se às conversas paralelas, projetando um eco que faz vibrar as paredes da sala. Quase em simultâneo, um sujeito microscópico em comparação com o palco colossal percorre o campo de visão da audiência. As luzes permanecem acesas diante de Guilherme Fonseca, o primeiro convidado da noite, guionista de Isto É Gozar com Quem Trabalha e stand-up comedian. O humorista, autointitulado “chocapic mole” (em referência aos cereais) perante a travessa de lagosta figurada que é Ricardo Araújo Pereira, vai libertando os espectadores da tensão acumulada ao longo da semana. “Quem esperou 20 anos pelo stand-up do Ricardo pode esperar mais 20 minutos”, admite, explorando um humor autodepreciativo que provoca risos tímidos no público.

Nos bastidores, depois do espectáculo, Guilherme confessa que atuar para tanta gente “é uma javardice”, porque pressupõe um tempo de reação mais demorado, “como pegar fogo e esperar para a casa arder”. Uma massa tão dispersa de pessoas difere e muito do espaço intimista dos comedy clubs, mas não é problema para o convidado seguinte, membro da trupe de guionistas que também acolhe Joana Marques e José Diogo Quintela, e criador da rubrica da Rádio Comercial, Bem-vindo a Mais um Episódio de.

Manuel Cardoso admite que atuar para um público tão vasto é semelhante a contar piadas diante do espelho. Para já, aguenta períodos de tempo limitados, como os 15 minutos de humor analítico e repleto de trocadilhos que apresentou na MEO Arena, mas reconhece que “não há ninguém que fale durante uma hora sem se tornar chato”. “[Quando faço tanto tempo], chega a meio e fico farto da minha voz.” Apesar disso, a coleção de bits atuais sobre o cruzamento entre estilo de vida saudável, redes sociais e extrema-direita, fizeram as delícias do público, que pareceu disponível para assistir a um espectáculo inteiramente da sua autoria (e que Manuel alega estar 15% concluído — brevemente numa sala perto de si!).

Nas traseiras do palco, Ricardo contempla os colegas num ecrã plasma, enquanto atinge um vulto invisível com golpes de kickboxing. Com fato de alfaiate e sapatos encerados, protagoniza uma cena bizarra e esmurra o ar como quem tenta dar knock out em inseguranças debilitantes antes de entrar em cena. Já aqueceu o corpo e a alma, bebeu um shot de gin com os colegas humoristas e aniquilou o medo do palco. Resta ver se é capaz de partir a maior sala do país.

Irritações e Pauliteiros de Miranda

22h05: os holofotes apagam-se em cadeia, com um ruído metálico. Sobre o cortinado, os projetores derramam uma luz vermelha, e eis que o vulto alongado da vedeta transcorre a superfície do palco, acompanhado por dois clones de dimensões ciclópeas projetados de cada lado. Não são precisos rodeios, o público sabe ao que vai e aplaude Ricardo Araújo Pereira, que ostenta o sorriso vagamente constrangido de quem se sente um impostor apesar das provas dadas de sucesso merecido e incontestável. É a deixa para uma corrente de associações livres — reflexões semifilosóficas, por vezes brejeiras, que parecem espontâneas apesar das cábulas espalhadas no chão à sua frente.

RAP é humano, que não haja dúvidas disso: ao contrário de um modelo de linguagem artificial, tem uma série de irritações que não se abstém de publicitar. Tabaco aquecido, velas perfumadas, emojis inusitados e que manipulam padrões de beleza, naves espaciais pouco futuristas, sites pornográficos, canções de embalar… Apesar da postura afável e educada, do discurso ponderado, não tem desejo de agradar, abomina a lisonja acrítica da inteligência artificial e o descaramento da internet, que ousa confirmar humanidade alheia com imagens de motas e semáforos.

Em Verificando Se Você é Humano, Ricardo põe a nu o ridículo da sociedade contemporânea, da dependência tecnológica e da inépcia descontrolada que identifica à sua volta, mas também dentro de si. Numa deriva que combina elementos de storytelling com uma abordagem que prioriza a punchline, faz uma visita guiada pela sua mente, onde banalidades interagem com literatura, questionamento filosófico e consciência política — sem objetivos propagandísticos ou ativismo oculto.

Habituado a estar sentado à mesa e enquadrado pela câmara, Ricardo é confrontado com um palco vazio, onde não há cenário, efeitos sonoros ou adereços para entreter as mãos irrequietas. À postura invejável junta-se um discurso articulado e sem pressas, para além de breves deambulações e momentos de crowdwork não planeados. A dimensão da sala dificulta a aproximação aos espectadores — que está reservada para mais tarde — e só é possível quando se ouve um espirro sonoro ou um gemido que se destaca entre as gargalhadas da audiência. Apesar do escrutínio dos comportamentos humanos, RAP constrói pontes por força da empatia e essa empatia é o humor, o entendimento de que quando rimos juntos estamos a realçar o que nos aproxima mais do que as nossas diferenças.

O espectáculo podia terminar assim, mas Ricardo dispensa sentimentalismos. Por isso concluiu com um tema mais pessoal, “uma coisa que o enche de satisfação” e que não é novidade para quem acompanha o seu trabalho desde os Gato Fedorento: os Pauliteiros de Miranda. “Quando os vejo na televisão, até salto da cadeira”, admitiu ao Observador. “É uma coisa que me enche de satisfação. Não me perguntem porquê, mas é ótimo.”

Com direito a encore, Ricardo regressou ao palco acompanhado por Guilherme Fonseca e Manuel Cardoso para um momento espontâneo de perguntas do público. Numa conversa informal e com direito a algumas inconfidências, a estrela da noite despediu-se diante de uma audiência que aplaudiu de pé. Entretanto, um grupo de olheiros circulava entre os balcões e a plateia à procura de vítimas para o meet and greet gratuito nos bastidores. Com centenas de pessoas à espera, amigos, família e até mesmo — imagine-se — a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, Ricardo entrou nos camarins, respirou fundo e mordeu uma maçã, pondo termo ao jejum prolongado. “Uma noite já foi. Amanhã há mais.”