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Ruy Seabra, o selecionador pós-Saltillo: "Se fosse jogador, dizia que estava indisponível para este Mundial"

Ruy Seabra reconstruiu a Seleção depois do Mundial do México e revela os bastidores do período mais atribulado da FPF. Em entrevista, o "selecionador civil" fala ainda sobre o Mundial 2026.

Miguel Cordeiro
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Carla Jorge de Carvalho
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Diogo Ventura
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Assumir os destinos da Seleção Nacional depois do Mundial de 1986 foi provavelmente o mais duro “caminho das pedras” da Federação Portuguesa de Futebol. Numa altura em que o país ainda discutia o escândalo de Saltillo e depois da rutura que resultou na indisponibilidade dos principais jogadores, o advogado Ruy Seabra foi escolhido para liderar a equipa portuguesa. Ao Observador, confessa que foi convidado de forma insólita ainda antes do Mundial no México e que tinha como objetivo desempenhar o papel de “selecionador civil”: uma liderança independente, imune à pressão dos clubes.

Ruy Seabra liderou a Seleção Nacional com o apoio de António Oliveira e Juca, que desempenhavam o papel de treinadores, e teve de construir uma equipa recorrendo a segundas escolhas, amparado pela experiência e liderança de veteranos como Manuel Fernandes, Veloso e Shéu. Nascia assim a “Seleção B” ou “Os Seabrinhas” — algumas das alcunhas atribuídas ao grupo, que teve de enfrentar a hostilidade das bancadas.

[Pode ouvir aqui em podcast o episódio extra de O Escândalo que Destruiu a Seleção, com a entrevista a Ruy Seabra]

https://observador.pt/programas/o-escandalo-que-destruiu-a-selecao/episodio-extra-saltillo-foi-politica-bento-carlos-manuel-e-diamantino-eram-do-barreiro/

40 anos depois de liderar a Seleção Nacional e depois de o Observador reconstruir o caso Saltillo no podcast O Escândalo que Destruiu a Seleção, Ruy Seabra revela os bastidores de uma transição de emergência e analisa o futebol atual para apontar o dedo ao poder dos agentes, uma “terceira força” que considera mandar mais do que os próprios dirigentes.

Sem conselhos a dar a Roberto Martínez, cujo trabalho elogia, o antigo selecionador recusa abrir o debate sobre a titularidade de Cristiano Ronaldo: coloca o capitão num patamar indiscutível e antecipa que o avançado sairá da Seleção pelo próprio pé logo após o final do Mundial.

“Se souberem que o senhor me convidou nestas circunstâncias, eu digo que o senhor é o maior aldrabão que eu conheci na vida”

Assumiu a seleção nacional de futebol depois do Mundial de 1986, mas já contou noutras entrevistas que foi convidado para selecionador ainda antes desse campeonato do Mundo. Quer contar-nos em que circunstâncias é que aconteceu este convite?
É estranho. Aconteceu esse convite porque eu era presidente do Inatel e o Dr. Silva Resende era tesoureiro da Federação Portuguesa de Futebol, não era ainda presidente. Isto foi por volta de 1982. Nós éramos membros da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, um dia ele estava à minha frente e passa-me um cartão e pergunta “Quem é que o senhor indicava para selecionador nacional?”. Eu escrevi “Ruy Manuel Correia de Seabra”. Ele chega ao fim da sessão e pergunta: “Mas o senhor acha mesmo isto que escreveu?”. Eu disse que sentia que o selecionador não deve ser treinador, mas nunca mais falámos disso. Passados alguns anos, estava ele numa reunião da FIFA para preparar o Mundial, e telefona-me.

Nessa fase, Portugal já estava apurado para o Mundial de 1986?
Portugal estava no México. Ele é que ainda estava na reunião da FIFA, acho que era em Frankfurt.

Estava a seleção portuguesa no México e o senhor recebe um telefonema de Silva Resende a perguntar-lhe se quer ser o próximo selecionador?
Já não havia dúvidas sobre isso. E eu disse: “Olhe, para já, acho muito mal que o senhor me esteja a dizer isso, porque é a segunda vez que nós estamos numa fase final de um Mundial do futebol. E se isto porventura aparece em público, é o desastre completo da seleção.” Longe de imaginar o que depois ia acontecer.

Esse contacto acontece quando a revolta de jogadores já era pública?
Não, não, nada. Ainda não se sabia de nada.

[Pode ouvir aqui em podcast o episódio 1 de O Escândalo que Destruiu a Seleção]

https://observador.pt/programas/o-escandalo-que-destruiu-a-selecao/episodio-1-um-passaporte-envenenado/

Aceita o convite?
Esse convite não aceitei com essas condições e disse: “Se porventura souberem que o senhor me convidou nestas circunstâncias, eu digo que o senhor é o maior aldrabão que eu conheci na vida.”

Mas por que é que o convidou? Porque já não confiava em José Torres na altura?
Pelos vistos. Atenção, porque eu sempre estive ligado ao futebol. Eu estive sete anos no Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol e um ano no Conselho Superior de Justiça. Além de ter sido dirigente da brilhante Académica quando ficou em segundo lugar no campeonato nacional de futebol.

Então ficou aí uma espécie de um acordo de cavalheiros. No fim do campeonato mundial assumiria o cargo de selecionador. Diria que não ficou nada surpreendido quando se dá o caso Saltillo?
Fiquei surpreendido, porque eu nunca pensei que a razão de ser do convite fosse para atravessar o caminho das pedras. Eu pensei que a coisa já não estava a funcionar bem e, portanto, ele queria optar por uma mudança.

Impôs alguma condição quando percebeu que havia esse caminho das pedras para fazer?
Não, pelo contrário. Fiquei contente por ter sido convidado antes para dar mais razão à minha opinião, que sempre tive, de existir o chamado “selecionador civil.”

"Portugal não podia dispensar de ânimo leve jogadores como um Diamantino ou um Carlos Manuel. O campo de recrutamento não era como agora, em que se pode ir buscar lá fora e em que a seleção é feita de jogadores que jogam nos campeonatos mais competitivos da Europa. Fui buscar os melhores que havia dos disponíveis."

Qual era a vantagem, na sua opinião, de haver um selecionador e depois o treinador?
A isenção absoluta perante os dirigentes dos clubes. Na altura, os empresários eram poucos e não tinham o significado que têm agora. Aliás, atualmente eu seria selecionador de futebol por causa dos empresários que mandam em tudo. Portanto, pela independência que a seleção tinha de ter para com os clubes, não podia estar à mercê de um telefonema de um clube que liga a dizer: “Não te esqueças de escolher fulano, ou beltrano, ou sicrano”. Não é?

E um selecionador na altura não conseguia dizer que não a esse tipo de telefonemas?
Era difícil, porque depois tinha que ter abertura para ser treinador de um clube qualquer, porventura daqueles que ligavam a pedir qualquer coisa porque eram profissionais do treino. Eu não era.

A sua ideia era que o selecionador nacional existisse à margem de todos os interesses dos clubes?
Exatamente.

Mas quando chega à seleção nacional tem de lidar com uma situação que está para lá de todos esses interesses, que é o facto de 22 jogadores não poderem ser convocados e outros estarem a entrar em solidariedade com os restantes e também a dizerem que não estavam disponíveis. Que desafios é que teve para a primeira convocatória?
Esse momento foi simplicíssimo para mim. Eu tenho que falar aqui de uma pessoa que foi muito colaborante, que foi o treinador do Vitória Sport Club da altura, o Marinho Peres. Porque a maior parte dos jogadores eram do Guimarães. Eu creio que só dois jogadores do Vitória é que não foram convocados para a seleção. Porque havia a seleção de esperanças e os olímpicos, que eu também tinha, e havia os AA. Aquilo foi uma razia no Vitória e o Marinho Peres sempre entendeu perfeitamente a minha situação e a minha posição e nunca pôs entraves aos jogadores.

Diz que foi fácil, mas isto era uma equipa de segunda escolha. Era uma equipa mais fraca do que poderia ser.
Claro. Naquela altura Portugal não podia dispensar de ânimo leve jogadores como um Diamantino, um Carlos Manuel ou assim. Quer dizer, não podia. O campo de recrutamento não era como agora, em que se pode ir buscar lá fora e em que a seleção é feita de jogadores que jogam nos campeonatos mais competitivos da Europa. Fui buscar os melhores que havia dos disponíveis.

E entre esses melhores disponíveis destacam-se Manuel Fernandes e António Veloso. Manuel Fernandes tinha sido excluído da convocatória do Mundial. Veloso foi convocado para o México, mas teve de abandonar a seleção por falhar o controlo anti-doping. Qual foi a importância desses dois jogadores na primeira convocatória que fez?
Veloso tinha menos influência do que o Manuel Fernandes. O Manuel Fernandes era um homem que já estava com 36 anos e era capitão do Sporting há muitos anos, naturalmente que tinha uma experiência do jogo já muito superior quando comparado com aqueles jogadores que eu pude recrutar. Depois convoquei o Shéu. Cheguei a dizer que era o jogador português que melhor conhecia todos os centímetros de um campo de futebol. Eles foram pedras fundamentais. Mas depois houve outros que surpreenderam. O Jesus, o guarda-redes do Vitória SC, o Adão, por exemplo. Eu não quero estar aqui a falar em nomes, mas o Jaime do Belenenses, José Medeiros e vários outros. O Nascimento, que uma vez me disse: “Não tenho técnica nenhuma, mas a mim ensinaram-me a usar o físico. Quando o avançado chegar ao meio-campo, eu encosto logo o peito a ele. Não é falta e o contra-ataque já não existe. Não me peça é para passar a bola.”

“No primeiro jogo depois de Saltillo, havia mais assobios para a seleção nacional do que havia para a Suécia”

Como era feita a convocatória? Escolhia os jogadores e depois tinha António Oliveira e Juca, que eram os que treinavam a equipa? Nunca houve atropelos entre funções?
Todas as semanas dividíamos a visão de jogos por esse país todo, onde houvesse jogadores convocados. Não perdíamos tempo com o Benfica, não valia a pena, porque a maioria da equipa estava indisponível. Corríamos o país, distribuíamo-nos por áreas. E depois, quando era a convocatória, reuníamos. Nós já reuníamos todas as semanas, eu criei um gabinete próprio para as seleções, que não havia antes. Tínhamos olheiros em todo o país.

E nos jogos, quem é que escolhia o 11? E quem é que definia a tática?
Pois, nós convocávamos os possíveis, consoante as circunstâncias. Eram convocados 17 ou 18 jogadores e nós já sabíamos quando escolhíamos a convocatória quais é que eram para jogar a titular e os outros que eram para ser suplentes.

E, durante o jogo, quem é que decidia as substituições?
Isso normalmente era todos juntos. Estávamos unidos, já estávamos sempre a pensar o mesmo.

Mas alguém decidia, alguém tinha de dizer aos jogadores para irem aquecer e para entrarem em campo.
Eles acabavam por me perguntar sempre, mas eu concordava, porque eu já sabia. Aquele que era mais determinado nas substituições era o Oliveira, que eu achei que às vezes até tinha que o travar um bocadinho, porque, às vezes, aos 30 minutos da primeira parte já queria fazer uma substituição.

E quem falava com os jogadores antes do jogo?
Aí era eu. A preleção era no hotel e gostava de fazer essa palestra. Era para explicar tudo o que eles não sabiam. Eles não sabiam porque é que lá estavam.

E dizia-lhes o quê?
Explicava as razões para ali estarem. Porque a Federação Portuguesa de Futebol tinha sido declarada há muitos anos uma organização de interesse público e nessa declaração de interesse público tinha a obrigação de gerir o futebol profissional em Portugal e, portanto, tinha a obrigação de gerir as competições europeias a nível nacional ou as competições mundiais a nível nacional. Eles não sabiam disso. Eu dizia também: “Vocês continuam com o vínculo ao vosso clube, porque vocês estão aqui requisitados por interesse público, ao abrigo dos regulamentos desportivos. O vosso contrato nos clubes está suspenso, mas vocês não perdem regalias.”

Portanto, falava em nome da Federação Portuguesa de Futebol.
Falava, mas era em nome do esclarecimento da relação que havia entre a situação deles e a nossa.

Porque o ambiente era muito aceso na altura.
O ambiente era aceso com os jogadores e era aceso com a comunicação social.

E era aceso com os adeptos? Depois do Mundial de 1986, como é que era essa relação? Já nos chegaram relatos de adeptos portugueses que iam ao estádio para apoiar a equipa adversária.
Isso foi logo no primeiro jogo com a Suécia, no Jamor. Havia mais assobios para a seleção nacional do que havia para a Suécia. Olhe, lá está, mais uma razão para o “selecionador civil”. Não era o treinador que ia dar a cara naquelas circunstâncias. Era eu.

E era difícil?
Fácil não era. Mas, sabe, a tarimba ajuda muito, não é? E eu nessa altura já tinha passado por 14 gabinetes ministeriais, antes e depois do 25 de Abril. Já tinha andado em Coimbra seis anos, não é? Aprende-se muito na vida, sabe? Aprendi também com essa oportunidade.

Quando é que os portugueses se reconciliaram com a equipa portuguesa?
Começaram a reconciliar-se com o golo de calcanhar na Suíça, do Manuel Fernandes. O selecionador da Suíça, o Daniel Jeandupeux, que foi um internacional famoso, a primeira coisa que fez na conferência de imprensa a seguir ao jogo foi dar-me os parabéns e um grande abraço. Isto foi filmado pela RTP aqui para Portugal. Isso é que começou a amenizar um bocadinho o ambiente.

Alguma vez falou com os 22 jogadores que estiveram no México?
De maneira nenhuma. Estaria a desautorizar-me perante o meu entendimento jurídico da situação. Só faltava essa. Eles eram indisponíveis por vontade própria. Já muito fez a Federação que decidiu não os chamar ao abrigo do tal interesse público.

Nunca compreendeu as razões que levaram os jogadores da seleção a fazer aquele protesto?
Não quis compreender, sabe? E até digo mais. O Jaime Cortesão, autor do relatório do que se passou lá no México, quis entregar-me o relatório que escreveu. E eu disse: “Olhe, eu prefiro não ler”. Um ano depois, éramos amigos, e eu digo: “Prefiro não ler. Sabes porquê? Porque tu de certeza que, apesar de seres um jurista de mérito, não tiveste a oportunidade de manter a independência absoluta, porque entretanto houve aqui coisas que aconteceram”. Nomeadamente o César Grácio, secretário-geral da Federação que apanhou um processo disciplinar. E outras coisas assim. Ele não podia ser independente, porque afinal já eram três versões, não eram só duas.

Essa terceira versão ia contar o quê? O que é que faltou contar?
Não sei. Ia talvez dizer aquilo que eles não queriam ver o que aconteceu no México.

Acha que o relatório ajudou a mudar a opinião dos adeptos sobre os jogadores e a Federação?
Teve influência. Atenção, o Jaime Cortesão não era burro. O Jaime Cortesão era um rapaz inteligente e um advogado capaz.

O que sabemos agora, e na altura se começou a saber, sobre a preparação da equipa para o Mundial de 1986, mostra algumas condições um bocadinho estranhas. Treinar num campo inclinado, por exemplo, com buracos, não era a melhor forma de dar condições a uma equipa para ter um bom resultado.
Sobre o que aconteceu no México eu não faço ideia.

É porque não quis mesmo saber.
Não quis mesmo saber porque eu vivi o PREC intensamente. E como eu sabia que aquilo era do grupo do Barreiro e do Fernando Correia, da RDP, eu dava o devido desconto, não é? Como dou ao Putin quando ele fala. Como dou ao Trump quando ele fala. O campo inclinado a culpa era do México, que era o organizador do Mundial. Não era de Portugal.

Está a dizer que o caso Saltillo foi muito político.
Era só político, aquilo.

Quando falamos do grupo do Barreiro, estamos a falar de um grupo de jogadores que fazia parte dessa seleção. No grupo estavam o Bento, o Carlos Manuel…
…e o Diamantino. Todos eram do Barreiro. Eu não queria falar aqui em política, mas naquela altura aconteceu a intervenção da política no assunto.

"Os indisponíveis tinham mandado uma carta para a Federação a dizer que não jogavam. Pronto, acabou. Nós respeitamos."

Vamos voltar à convocatória porque gostaríamos de perceber se os dirigentes da FPF participavam nas escolhas.
Era o que faltava. Nem sabiam.

Mas com tantos jogadores indisponíveis, nunca houve reuniões com diretores?
Não. Nós éramos completamente autónomos. Nós sabíamos. Os indisponíveis tinham mandado uma carta para a Federação a dizer que não jogavam. Pronto, acabou. Nós respeitamos.

Como era a sua relação com Silva Resende e com Amândio de Carvalho?
A minha relação com Silva Resende era antiga. E depois o Silva Resende foi meu colega no jornal Record, eu e ele éramos cronistas. Acontece que quando estávamos na mesa da Santa Casa da Misericórdia falávamos muito. Depois deixámos de falar.

Enquanto foi selecionador?
Não falámos. Nem ele falou comigo, nem eu com ele. Havia um pacto não escrito entre nós.

Portugal falhou o apuramento para o Europeu de 1988.
Tinha que falhar. Com a Suécia, com a Itália, com Malta…

Acha que, mesmo que tivesse todos disponíveis, esse apuramento era difícil?
Nós até batemos um recorde. Que foi o recorde de não perder durante seis jogos seguidos. Empatámos, não ganhámos. Isso é verdade. Ganhámos um particular com a Bélgica em Braga, 1-0, mas também perdemos um particular com a Grécia em Portalegre. Descentralização.

Nunca lhe pediram o apuramento para o Euro’88?
Não. Toda a gente sabia que era impossível. A Suécia com os “Strombergs” e a Itália do Altobelli? Ó meu Deus.

É natural fazer essa comparação com a qualidade dos jogadores, mas a nível de condições, percebeu, enquanto selecionador nacional na altura, que Portugal tinha condições piores ou diferentes de outras seleções?
A que tipo de condições é que está a referir-se?

As condições de treino e condições logísticas.
Tínhamos sempre ótimas condições. No Jamor, normalmente, ou então nos campos onde íamos jogar ou em Portalegre, no Estádio Municipal de Portalegre, ou em Braga, ou no Porto.

E a nível de logística, a organização quando tinham de fazer viagens ao estrangeiro, dormidas, voos?
Tudo impecável. Nunca faltou nada.

E ao nível da profissionalização, da forma de trabalhar, de preparação física, de conhecimentos técnicos. Portugal estava ao nível das outras equipas?
Estava, estava.

Como é que termina a sua função de selecionador?
Ah, muito simples. Soube que ia haver eleições para a Federação e soube que havia dois concorrentes. Eu entreguei uma carta escrita e fechada ao Malva, que estava na direção. Era uma carta para entregar ao presidente eleito da Federação Portuguesa de Futebol. Uma carta fechada, lacrada por mim, assinada atrás e à frente. E dizia: “Dirigida ao presidente eleito da Federação Portuguesa de Futebol”. E assim foi.

Uma carta a pôr o lugar à disposição.
Não, não. A demitir-me. Não sei o que é isso do lugar à disposição. Isso é para os políticos. Não, não tenho nada a ver com isso, não. Ou se demite ou não se demite, não há cá meio termo. O que é isso de pôr no lugar à disposição?

Mas porque é que se demitia?
Eu demitia-me porque tinha cumprido a minha missão.

Que era?
Que era fazer o que fiz depois de Saltillo. Pôr a seleção a funcionar, não é?

Mas ainda muita gente aponta o empate em Portugal com a seleção de Malta como uma das principais razões para a sua saída.
E é. Tem toda a razão, porque nós não podíamos empatar com Malta. E atenção, já foi uma segunda escolha da segunda escolha que marcou os dois golos. O Jorge Plácido, vejam bem.

"Não quero que me façam estátuas, nem homenagens, nem nada que se pareça. Nada disso. Isto está comigo, há de morrer comigo. É só a minha satisfação pelo dever cumprido."

Ainda durante este período houve algumas alcunhas para essas seleções: “Seleção B”, “Seleção dos Pobres” e os “Seabrinhas”. Teve conhecimento destes nomes na altura? Ou só soube mais tarde?
A “Seleção dos Pobres” não. Acho lamentável, na verdade, porque é brincar com a pobreza. E é coisa que não está na minha formação. Nunca esteve.

“Os Seabrinhas” já gostava?
“Os Seabrinhas” já pode ser. É uma forma até carinhosa.

“Este Mundial não promete nada de bom. Eu se fosse jogador aqui dizia que estava indisponível”

Como é que gostaria que essa época seja recordada? Como é que gostava que o lembrassem nessa qualidade de selecionador?
Não quero que me façam estátuas, nem homenagens, nem nada que se pareça. Nada disso. Isto está comigo, há de morrer comigo. É só a minha satisfação pelo dever cumprido. Toda a gente agora diz isso, mas eu digo de peito cheio: “Cumpri o meu dever, assumi funções e cumpri-as até ao fim e com o peito cheio”.

Voltava a fazê-lo?
Agora não. Já não tenho idade para isso.

Depois de deixar a seleção nacional alguma vez pensou em voltar?
Não, nunca na vida. Só se é selecionador nacional uma vez. Presidente da República, pode-se ser duas vezes, dois mandatos, que é o que diz a Constituição. Mas selecionador não, é só uma vez.

Imagino que continue a acompanhar a seleção.
Claro.

O que é que espera deste Campeonato do Mundo?
Olhe, eu espero que isto vai correr muito mal por causa do enquadramento que há. Quer dizer, é fazer jogos nos Estados Unidos com o Trump e com aquele terrorismo urbano que lá há. Fazer jogos no México, que é dominado pelos cartéis da droga e depois vai andar por lá o Irão a jogar. O Trump já diz que a equipa não pode ter jogadores da Guarda Revolucionária. Quem diz isto não promete nada de bom. Eu se fosse jogador aqui dizia que estava indisponível. Não tinha dúvidas e não ia ali para servir de carne para canhão. Não! Era indisponível à partida, não ia. Olhe, agora é que eu dou razão aos indisponíveis do meu tempo.

Deixou de existir este conceito de “selecionador civil”. Faz falta ao futebol?
Eu acho que agora ainda faz mais falta por causa dos agentes, que são uma terceira força. Nós tínhamos lá os dirigentes e tínhamos os votos dos dirigentes para a Federação. E agora temos os agentes que mandam mais do que os dirigentes.

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O futebol está muito diferente do futebol com que lidou na década de 80?
É muito diferente e até, digamos, taticamente, mudou muito. Todas as equipas hoje em dia se não jogam em todo o campo durante 90 minutos, estão mal das pernas. Não vão.

"Cristiano Ronaldo? Ele sai já a seguir ao Mundial. Olhe, agora é que é igual ao caso do Silva Resende comigo: quer ganhemos, quer não ganhemos, de certeza que o Ronaldo sai pelo pé dele."

De antigo selecionador para o selecionador atual, quer deixar algum conselho a Roberto Martínez?
Não, não deixo. Só faltava eu atrever-me a uma coisa destas. Era a mesma coisa que estar a menosprezar aquilo que eu fui, que não queria que me fizessem essas coisas. Acho que a seleção até está bem entregue, devo dizer, porque este senhor tem demonstrado que sabe e que tem uma ideia para a seleção. Pronto. E, posto isto, nada mais.

Nem quer dizer nada sobre Cristiano Ronaldo? Se deve ou não continuar a alinhar de início na equipa principal?
Vamos lá ver. Haja quem atire a primeira pedra ao Cristiano Ronaldo. É mais do que Jesus Cristo, já é Deus. Não pode ser, o Ronaldo enquanto estiver a jogar, mesmo na Arábia Saudita, tem que jogar, nem que seja dez minutos. Quando estava na Académica só havia uma substituição por jogo, depois do meu tempo passou a haver duas e eu dizia lá para os meus colegas e para os jogadores: “Enquanto o Rocha jogar meia parte, ele é indiscutível na equipa”. O Rocha, o Rochinha.

E portanto Ronaldo está nesse patamar?
Está nesse patamar, sim. Não há possibilidade de o tirar.

Cristiano Ronaldo só sai quando ele quiser?
Não. Ele sai e ele sai já a seguir ao Mundial. Olhe, agora é que é igual ao caso do Silva Resende comigo: quer ganhemos, quer não ganhemos, de certeza que o Ronaldo sai pelo pé dele.