Leire Díez. Aquela que era há dois anos uma discreta militante socialista transformou-se num novo ativo tóxico para o Governo espanhol e o rosto de mais uma polémica que está a ensombrar a imagem do chefe do governo espanhol. Esta quarta-feira, foram divulgadas mensagens privadas e áudios da antiga assessora do PSOE. Nelas, Leire Díez afirmou que tinha uma função em particular: “limpar” as investigações em nome do secretário-geral socialista, assim como todas as polémicas que estão associadas ao círculo próximo do líder socialista, como a da sua mulher Begoña Gómez e a do irmão, David Sánchez. “Tenho de proteger os interesses do presidente”, declarou.
Leire Díez terá agido nas sombras para boicotar e interferir nas investigações da Unidade Central Operativa (UCO) da Guarda Civil Espanhola, para que este órgão não atuasse nos casos que envolvem Pedro Sánchez e a família. A antiga assessora, que entretanto foi expulsa do partido, terá designado o líder socialista como “one” — tal como fez, aliás, Victor de Aldama, empresário envolvido com o caso Koldo e que disse em tribunal que o chefe do governo espanhol “era o número 1” e supostamente liderava uma “organização criminosa”. “Ontem o ‘one’ disse ao S [Santos Cerdán, ex-secretário da Organização do PSOE] para me dizer que estou a fazer um grande trabalho e para não me vir abaixo”, escreveu numa mensagem a mulher no centro da polémica.
Perante a pressão exercida pela oposição e até de socialistas desagradados com os sucessivos casos que atingem o Governo espanhol, Pedro Sánchez quebrou o silêncio sobre o assunto esta sexta-feira. E defendeu-se, garantindo que nunca teve conhecimento das “andanças” de Leire Díez. O socialista frisou que nunca “teria tolerado” algum tipo de interferência ou obstrução à Justiça. “O meu Governo é um Governo limpo e o meu partido é um partido íntegro. As corrupções de uns poucos não vão atrapalhar nem mesmo prejudicar a enorme tarefa que estão a fazer este Governo e o PSOE neste país.”
Certo é que o relógio está a contar para as eleições espanholas: falta cerca de um ano. Pedro Sánchez tem sido incapaz de travar a sucessão de casos que o envolvem diretamente e ao seu círculo pessoal. Alguns socialistas temem um novo desaire eleitoral face a um Vox mais forte e um Partido Popular (PP) dominante nas sondagens. Para além de se ter demarcado das “andanças” da antiga assessora socialista, o chefe do Governo espanhol veio esta sexta-feira esclarecer que não vai realizar um “superdomingo eleitoral”, uma ideia que previa que se realizassem eleições autónomas e legislativas simultaneamente.
“Obviamente, a intenção de tudo isto é limpar.” As mensagens de Leire Díez (que terá contado com Santos Cerdán)
Militante discreta entre os socialistas, o nome de Leire Díez saltou para a ribalta o ano passado, quando a imprensa espanhola revelou gravações que a ligavam a um plano para proteger a imagem do Governo espanhol. Alguns órgãos de comunicação social revelaram em meados de 2025 que a antiga assessora tinha usado estratagemas para desacreditar a UCO e travar as investigações que envolvem o círculo de Pedro Sánchez. Na altura, justificou os seus contactos com certas autoridades judiciais como uma forma de realizar uma “investigação para um livro”, no âmbito de “jornalismo de investigação”.
Contudo, a tese do “jornalismo investigativo” foi deitada por terra após a divulgação de milhares de documentos esta quarta-feira com o fim do segredo de justiça em redor do caso. As mensagens e áudios sugerem que Leire Díez tentou obter informações que pudessem comprometer os dirigentes da UCO para os coagir a não avançar com os processos judiciais que envolvem Pedro Sánchez e os seus familiares, ou mesmo para questionar a sua credibilidade. Em troca, Leire Díez teria recebido milhares de euros e favores para subir na hierarquia do PSOE. Ao todo, o partido terá gastado mais de 180 mil euros para manter este esquema a funcionar.
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Os áudios e mensagens escritas nas plataformas Signal ou WhatsApp mostram que Leire Díez agiu para tentar influenciar o funcionamento da UCO, de forma a que os investigadores deixassem cair os casos relacionados com Pedro Sánchez. A mira estava em todos os responsáveis que tentassem levar avante as diferentes investigações judiciais. “Obviamente, a intenção de tudo isto é limpar. Não podemos ter gente assim nas instituições”, afirmou nas mensagens a antiga assessora, que defendia que o poder judicial não deveria investigar ativamente o PSOE ou o Governo.
Quem também participou nesta rede foi Santos Cerdán, mas ainda não é claro se foi o antigo secretário da Organização do PSOE que deu ordens ou se foi um mero instrumento nas mãos de Leire Díez. Seja qual for o papel que desempenhou, a UCO acredita que o socialista terá colocado a estrutura financeira do PSOE ao serviço do alegado esquema, autorizando elevadas verbas monetárias para financiar as operações para denegrir e coagir os responsáveis pelos processos judiciais que envolvem Pedro Sánchez.
Em comunicado, Santos Cerdán distanciou-se esta sexta-feira de Leire Díez e rejeitou ter participado no alegado esquema. O socialista garantiu estar “inocente” e opôs-se “absoluta e radicalmente” às acusações da UCO. O antigo secretário da Organização do PSOE assinalou estar a ser alvo de uma “campanha mediática”, alegando que não há provas de que exista uma “relação orgânica ou de superioridade” com a antiga assessora. “Perante esta gravíssima situação, reivindico a minha inocência”, vincou.

Os secretos e polémicos encontros entre Leire Díez e a diretora-geral da Guarda Civil (com o ministro a voltar atrás)
Ao longo dos últimos anos, Leire Díez encontrou-se com rostos influentes da Guarda Civil. A antiga assessora reuniu-se, por exemplo, com o ex-capitão da UCO, Juan Yepes, com quem terá tentado alinhar formas de influenciar as investigações. Este homem foi também uma peça útil para entrar em contacto com alguém extremamente importante: Mercedes González, a atual diretora-geral da Guarda Civil (que tinha sido secretária-geral do PSOE na comunidade de Madrid antes de assumir o cargo). Há registo de pelo menos três encontros entre ambas, sendo que, nos áudios gravados, a antiga assessora chegou a descrever a número um da instituição como sendo da “sua total confiança”.
Entre todos os detalhes que vão sendo conhecidos da forma como Leire Díez agiu, os encontros e ligações com Mercedes González fizeram soar os alarmes — assim como as inúmeras contradições em redor deste assunto. O que terão as duas mulheres discutido e qual terá sido o propósito do encontro? A antiga assessora também apagou várias mensagens que trocou com a diretora-geral da Guarda Civil.
Esta quinta-feira, a Guarda Civil afirmou que Mercedes González se reuniu com Leire Díez, mas apenas duas vezes, revelando que a antiga assessora lhe chegou a pedir que readmitisse um comandante da polícia implicado na teia de corrupção do Caso Koldo — um pedido que a diretora-geral diz ter recusado. A responsável garantiu ainda que nunca discutiu qualquer trama para prejudicar os responsáveis da UCO que estão a investigar o círculo de Pedro Sánchez.

No entanto, esta versão contraria a versão inicial do ministro da Administração Interna espanhol. Na semana passada, Fernando Grande-Marlaska rejeitou categoricamente que Mercedes González se tivesse sequer encontrado com Leire Díez, assegurando que “nunca houve qualquer reunião de qualquer tipo”. Esta sexta-feira, o governante foi confrontado com as novas informações da Guarda Civil, defendendo, ainda assim, a permanência da diretora-geral da Guarda Civil no cargo, apesar das contradições. “Em nenhum momento [Mercedes González] me disse que teve uma reunião ou encontro em relação aos assuntos em investigação. Para mim, isso é que é importante”, argumentou.
Ainda assim, o ministro deixou a porta aberta para tomar medidas drásticas, caso venham a público mais detalhes sobre a atuação de Mercedes González e o teor dos encontros com Leire Díez.”Se tivesse havido qualquer relação ou se houvesse qualquer indício mínimo de uma reunião relacionada com o assunto e isso não tivesse sido do meu conhecimento, obviamente que a minha resposta será diferente”, avisou.
Os encontros de Leire com o antigo diretor da UCO — onde poderá ter havido interferência
Se o papel de Mercedes González na alegada rede ainda é incerto, existe uma maior definição no que toca à forma como a antiga assessora agiu com o antigo diretor-geral da Guarda Civil (entre 2023 e 2024), Leonardo Marcos. Segundo a RTVE que teve acesso aos despachos com vários testemunhos, há indícios de que o responsável terá travado a investigação ao irmão de Pedro Sánchez. Leonardo Marcos terá dado ordens à UCO para não investigar de forma “proativa” o escândalo de David Sánchez e para que o fizesse de “soslaio”.
https://observador.pt/2026/05/28/david-sanchez-irmao-do-presidente-do-governo-espanhol-comeca-a-ser-julgado-por-trafico-de-influencias-e-prevaricacao/
Manobrado alegadamente nos bastidores por Leire Díez, o ex-diretor-geral terá mesmo classificado o processo que envolve o irmão do chefe do Governo espanhol como “malicioso”, alegando que a credibilidade da “UCO e da Guarda Civil estava no chão”. Durante uma reunião com Manuel Llamas — o número dois da Guarda Civil —, Leonardo Marcos terá manifestado estar “zangado e contrariado” em relação a um relatório sobre a investigação ao “irmão do presidente do Governo”.
A provarem-se estes factos, a alegada rede de Leire Díez teria conseguido interferir na Justiça para favorecer o irmão de Pedro Sánchez. Diante desta possibilidade grave para a instituição e que coloca em causa a separação de poderes, a Associação Profissional de Justiça da Guarda Civil, que representa os profissionais daquele órgão, emitiu um comunicado em que exige a “máxima transparência institucional”. “Consideramos imprescindível que se esclareçam todas as circunstâncias.”
A associação recorda que, num “Estado de Direito”, a independência da polícia “constitui um pilar essencial”. “Qualquer atuação que possa ser interpretada como uma interferência ou pressão sobre investigações judiciais deve ser objeto de uma análise rigorosa”, frisou a organização. A porta-voz da Guarda Civil, Milia Cívico, admitiu que existe um clima de “máxima preocupação e tensão” entre factos que aparentam ser “anormais”.

Os contactos com a presidente do PSOE. Socialistas garantem cooperar com a Justiça
No PSOE, a presidência do partido é ocupada por Cristina Narbona. É um cargo com menos poderes do que o de secretário-geral, mas com um simbolismo importante. E a antiga ministra socialista do Ambiente do Executivo de José Luis Zapatero também manteve contacto com Leire Díez. Aliás, a presidente terá sabido de antemão dos esforços da antiga assessora para proteger a imagem do líder do Executivo espanhol, que se intensificaram em abril de 2024, quando Pedro Sánchez escreveu uma “carta à cidadania” e se ameaçou demitir da presidência do governo — cenário que acabou por não se concretizar.
A presidente do PSOE nunca escondeu que conhecia Leire Díez e admitiu que manteve algumas conversas com a antiga assessora para proteger a imagem de Pedro Sánchez. Numa troca de mensagens no WhatsApp revelada esta quarta-feira, a ex-militante ofereceu informações a Cristina Narbona para que os ataques ao chefe do Governo espanhol fossem “direcionados” para que se “desse a volta ao assunto”. Em resposta, a líder partidária pediu-lhe que remetesse os dados a Santos Cerdán.
Publicamente, Cristina Narbona salientou que nunca recebeu “qualquer tipo” de informação confidencial diretamente de Leire Díez. No entanto, o Ministério Público solicitou formalmente esta sexta-feira ao juiz Santiago Pedraz que a presidente do PSOE seja chamada a declarar como testemunha, de forma a esclarecer os contornos deste possível escândalo.

O PSOE saiu esta sexta-feira em defesa da presidente do partido.”Com máxima tranquilidade”, os socialistas garantem dar “total apoio” a Cristina Narbona e assinalam que a dirigente foi “contundente” nas explicações sobre o caso. O partido reiterou que o “único interesse é que se esclareça a verdade o quanto antes”. Pedro Sánchez também defendeu a dirigente partidária, lembrando que não houve “nada de grave, nem de errado” na sua conduta.
Perante as ramificações do caso de Leire Díez, a estratégia dos socialistas consiste em garantir que estão a colaborar com as autoridades e em distanciarem-se do que classificam como “uns poucos corruptos” no partido. “O PSOE fala com base em factos, ações e decisões”, enfatizou Pedro Sánchez esta sexta-feira, sublinhando que o departamento jurídico do partido está também a analisar a situação. De qualquer forma, a cerca de um ano das próximas eleições gerais de 2027, os socialistas vão ter de lidar com mais um escândalo — cujas consequências políticas e judiciais estão longe de estar totalmente definidas.