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(A) :: "As marchas são a última coisa que Lisboa tem de lisboeta". Dino Alves entre a moda, os figurinos e o folclore da Bica

"As marchas são a última coisa que Lisboa tem de lisboeta". Dino Alves entre a moda, os figurinos e o folclore da Bica

A assinar o figurino da Marcha da Bica pela quinta vez, orgulha-se em ser o primeiro designer de moda a trabalhar nas marchas, gostando de inovar sem perder a tradição. "Isto não é o Carnaval do Rio"

Sâmia Fiates
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Inês Lacerda
photography

Se não fosse a faixa a ser pregada no começo da calçada, as decorações a subir pelo caminho do elevador ou as casas de banho portáteis já instaladas, não seria possível adivinhar que estas ladeiras tão calmas durante o dia estarão tomadas pela festa à noite. Estamos no bairro da Bica. Na cafetaria Nando ouve-se francês à esplanada, entre cigarros e imperiais. Um casal brasileiro pára com um mapa na mão e pergunta onde pode apanhar o “bonde 28”. “Hoje há greve”, explica a senhora do café, com ar de quem já está acostumada a ajudar os turistas. Enquanto os estafetas empurram as bicicletas ladeira acima, jovens loiras com vestidos de linho e chapéus coloridos caminham lentamente, a fotografar as paredes de azulejo que em breve vão para o Instagram. À janela, as senhoras assistem ao pouco movimento, enquanto aproveitam o sol para estender lençóis e toalhas. “Já tinham vindo a esta rua? Há quem viva em Lisboa a vida toda e nunca tenha vindo cá”, diz-nos Dino Alves, a admirar a tranquilidade da Rua dos Cordeiros. É aqui que tem atelier desde 2022, quando começou a criar os figurinos da Marcha da Bica.

Com outros dois costureiros, e com a ajuda de fábricas em Lisboa ou Viana do Castelo, Dino Alves produz os visuais dos 70 marchantes. “É 20 vezes ou mais, pior do que um desfile”, assume o criador, sobre a dificuldade em fazer peças para as Marchas Populares de Lisboa. Fala da necessidade de se pensar na “mancha”, mas também de acertar o corte conforme as medidas de cada pessoa; assim como da ânsia que, como enfant terrible, tem em inovar. “Não sou só figurinista da marcha. Faço moda e, por isso, tenho estas mais-valias de levar sofisticação para o projeto”, diz. Orgulha-se em ser “o primeiro designer de moda a fazer marchas. A Bica também merece os seus louros por ter dado este passo e arriscado desta maneira”, afirma ainda, garantindo que, ele próprio, “sempre gostou de riscos”.

Para este ano leva para a avenida 27 toucados em napron armado decorados com 180 metros de tiras de renda; saias com um padrão que remete às canastras de vime feitos com 1300 fitas “viradas e cozidas com as pontas em forma de rabo de peixe”; acessórios de cabeça com 1950 alfinetes, espetados um a um. “É tudo muito complexo e as pessoas não têm noção”, diz Dino Alves, que apesar de transgressor, apela à tradição. “As festas, as marchas e os arraiais são a última coisa que Lisboa tem de lisboeta“, diz o designer. “Vejo outros bairros com figurinos que acho que têm muito pouco de folclore. É importante não esquecer que a marcha é folclore; não é o Carnaval do Rio de Janeiro.”

O designer recebe-nos entre um ensaio e outro de dois dos quatro espetáculos nos quais assina o figurino: é o responsável pelas roupas de Da Boca Pra Fora, no São Luiz; A Biologia da Cooperação, em cartaz no Teatro Aberto; e ainda trabalha nas peças de Camaleoa, a estrear dia 17 no Teatro dos Aloés; e nos looks dos 27 atores que se formam no curso da ACT, a Escola de Atores. Em dia de Greve Geral, os compromissos desta quarta-feira acabaram todos por atrasar. “Tenho uma estaleca e consigo apagar vários fogos ao mesmo tempo“, diz o criador, que é natural de Anadia, formou-se em Pintura na Escola Superior Artística do Porto e veio para Lisboa em 1991, aos 22 anos. “Quando vim para a Cinemateca, sabia que queria uma carreira de artista plástico e o emprego era apenas para me manter em Lisboa”. As “Manobras de Maio” de 1994 — e uma chamada de Ana Salazar à Cinemateca — desviaram-no da trajetória. “Ultimamente tenho tido saudades de pintar e acho que vou acabar os meus dias na pintura novamente“, confessa, apesar de a arte estar mais do que presente no seu trabalho. Continuar a fazer coleções é, para si, uma forma de “expressão artística”.

Mas só vai pensar no que apresentar no Pátio da Galé na próxima edição da ModaLisboa quando terminar a maratona da qual fazem parte os figurinos da Marcha da Bica. “É meu, se falhar não tenho de prestar contas a ninguém. Já cheguei a fazer um desfile em 15 dias com 70 looks, estou habituado”. Nessa contagem que antecede a descida da Avenida, diz que há dias em que não almoça nem janta — é o vício das uvas que o salva, “nestas alturas é a única coisa que me sabe bem, porque quando estou ansioso, tenso e nervoso, o estômago aperta-se e não consigo engolir” — e acusa o excesso de trabalho. “Estou muito cansado e só quero dormir. Um luxo para mim neste momento seria dormir“, assume logo no início da conversa. Mas para já, reconhece que só será capaz de adormecer por “10 ou 12 horas” depois do dia 17 de junho, quando estrear a última das peças na qual está atualmente envolvido — e para onde segue logo que o gravador se desliga.

Essa ideia de que só a partir do dia 17 vai conseguir dormir deixa-o mais ansioso?
Sim. Sou mais da noite do que das manhãs, nunca me deito antes das duas da manhã, mas nestes dias, sinto-me tão exausto que às vezes, às 23h30, já começo a ter vontade de ir para a cama, embora não vá. Sempre ouvi da minha família: ‘Dormir é meio sustento’. Tenho quase 60 anos, embora as pessoas achem que eu tenho 40 e poucos, e nunca fiz absolutamente nada de intervenção na cara. Acho que é de dormir, porque eu sempre que posso, durmo, ao fim de semana durmo até às duas da tarde. Portanto, quando são estas alturas em que eu não consigo dormir, a primeira coisa que eu sinto realmente falta é de ficar a dormir 10 horas ou 12 horas. Sinto-me até um bocadinho angustiado, porque ainda faltam alguns dias e depois ainda há o dia 12, que é o dia em que sai a marcha na avenida. É outra maratona porque, por mais que as coisas já estejam feitas, há coisas que se têm que ajustar e limpar. Na coreografia, eles pegam uns nos outros e agarram-se, o que acaba por danificar as coisas. Além das peças ainda tenho de olhar para outras coisas e refazer alguns elementos.

Mas ver o resultado na avenida compensa essa sensação?
Claro que vejo sempre algumas pequenas falhas. Mas isto é muito difícil; quando se faz uma imagem para uma mancha de gente, temos que pensar em termos de mancha. Há sempre uns que ficam um bocadinho melhor do que outros porque têm corpos mais fáceis. Quando se tem que ter exatamente a mesma imagem em todos e há baixos, altos, gordos, magros e magríssimos, é muito difícil que todos fiquem bem. Tenho que mudar um bocadinho este mindset para conseguir levar isto de uma forma mais leve, pois não posso estar à espera que todos fiquem igualmente extraordinários quando as pessoas são todas diferentes e o figurino tem que ser igual.

Mencionou como os marchantes estão sempre a dançar e a agarrar uns nos outros. Fazer roupa para as marchas é muito diferente de fazer roupa para a passerelle…
Já disse isto várias vezes e cada vez acho que estou mais certo: é 20 vezes, ou mais, pior do que um desfile. As peças têm que ser muito elaboradas, têm muitos elementos, volumes e muito pano. Para funcionar e ter este lado popular, têm que ter folhinhos, rendinhas, dourados, galões e aplicações, o que envolve muita mão de obra. Os corpos são todos diferentes e as coisas têm que funcionar com a coreografia. Para a marcha são 70 pessoas ao todo. O meu último desfile também tinha 70 looks, mas não tenho sequer que tirar medidas às modelos ou fazer fittings, porque faço sempre o mesmo tamanho e sei que fica bem a todas igual. Portanto, a marcha é muito mais cansativo, não tem nada a ver.

Quanto tempo antes das marchas é necessário começar a trabalhar?
Comecei no fim de abril, portanto não é muito tempo. Sei que há outras marchas que em janeiro já estão a confecionar, mas são figurinistas que só fazem praticamente a marcha. Eu, além de ter a ModaLisboa, tenho a comissão da marcha, que é organizada pelo Marítimo Lisboa Clube, uma coletividade da Bica. Eles sabem que eu não sou só figurinista da marcha, que eu faço moda e, por isso, tenho estas mais-valias de levar sofisticação para o projeto. Se por um lado têm a desvantagem de eu não ter a mesma disponibilidade que os outros, por outro lado, quando me convidaram já sabiam quem eu era e que fazia desfiles e figurinos para o Festival da Canção e para a Eurovisão. Começo a pensar no tema no final do ano ou em janeiro, mas eles sabem que as condições com que podem contar são estas.

Mas o processo criativo começa antes da confeção. Como costuma trabalhar?
Às vezes é difícil porque eu quero sempre inovar e apresentar alguma coisa nova. Este foi o quinto ano que fiz a Marcha da Bica e este figurino não tem nada a ver com os outros anteriores; há coisas novas, talvez mais na imagem dos homens, que é um bocadinho mais futurista. Cada marcha tem o seu tema e há temas mais fáceis ou inspiradores do que outros. É como quando faço um desfile: às vezes ando ali “às apalpadelas” e “às aranhas” até encontrar a ideia de espetáculo.

É o caso do tema deste ano?
Este tema não foi muito fácil porque havia quase uma imposição quanto à cor. O tema é o sal enquanto ouro, porque o sal funcionava como forma de pagamento, daí o nome salário. O sal conservava a vida das pessoas, o peixe e a carne. Não há propriamente uma figura da salgadeira ou um folclore de salgadeiras. A cor é um bocadinho arriscada porque é branco. Quando se tem cores fortes em contraste é diferente, mas eu sempre gostei de riscos. Tive que enriquecer o trabalho de outra maneira, com detalhes e com a estrutura da saia que tinha um ar de canastra invertida. Tive que ir buscar outras coisas que me deram alguma dor de cabeça para balançar a ideia de não ter cores.

O que é que deu dor de cabeça?
Várias coisas. Os toucados deram-me muita dor de cabeça porque são feitos com napron. Não tem nenhuma armação, a não ser uma tirinha de barbas em cima, porque eu queria que tivesse aquela transparência. Eu tinha feito uma maquete que resultou bem, mas o napron era diferente, era muito mais apertado. Isto é só feito com cola. Foi muito difícil construir isto e garantir que, quando elas se movem e viram, isto não cai. Outra dificuldade foi descobrir estes naprons, porque são precisos 27 iguais e não havia, o que tem a ver com a situação económica atual. Eu vou a uma loja comprar 100 metros de um tecido e eles não têm porque não querem empatar dinheiro sem saber se vão vender. Tive que jogar com misturas de vários tipos de renda porque não havia renda igual para 180 metros. Outra dificuldade foi o estampado na roupa do homem, que é um estampado localizado e posicionado em sítios específicos, e não um estampado corrido a metro. Foi um desafio; já tinha feito estampados a metro, mas posicionado no corpo é outra história.

E é uma técnica que gera um pouco mais de desperdício…
Sim, gera um pouco mais, mas para não ter tanto desperdício é preciso um trabalho de dias. Temos que ter os moldes digitais e colocar exatamente no sítio, mas nem sempre bate certo porque o tecido encolhe depois de estampado. As saias das mulheres são feitas com efeito canastra; foram precisas 1300 fitas, viradas e cozidas com as pontas em forma de rabo de peixe. É tudo muito complexo e as pessoas não têm noção. Nestas cabeças que os homens levavam, eu fiz cada uma delas, espetei 1950 alfinetes naquelas redes.

"Hoje em dia, pelos vistos, já não seguem muitas regras, porque vejo outros bairros com figurinos que acho que têm muito pouco de folclore. É importante não esquecer que a marcha é folclore; não é o Carnaval do Rio de Janeiro."
Dino Alves

Fala sobre arriscar e trazer algo novo. Mas o figurino das marchas também precisa de seguir certas regras para passar pelo júri?
Hoje em dia, pelos vistos, já não seguem muitas regras, porque vejo outros bairros com figurinos que acho que têm muito pouco de folclore. É importante não esquecer que a marcha é folclore; não é o Carnaval do Rio de Janeiro. Pode ter a intenção de ser um espetáculo de rua e turístico, mas é folclore. Durante muitos anos foi um espetáculo para os lisboetas e para as pessoas do bairro; é rara a pessoa nova que vai ver à avenida ou ao pavilhão. Este ano, apesar de ser algo sofisticado, o figurino tem vários elementos de folclore: a referência às canastras, às escamas, às rendas e aos crochês. Já ouvi comentários na internet de que este figurino não tem nada de folclore, mas as pessoas têm que olhar bem. O estampado e o rendilhado dourado remetem para as escamas e para a filigrana. É possível inovar e ser futurista mantendo elementos que remetam para o folclore. Lisboa, e o país, já estão a ser absolutamente descaracterizados. Qualquer dia Lisboa é uma cidade europeia como outra qualquer, e são todas iguais. As festas de Lisboa, as marchas e os arraiais ainda são a última coisa que Lisboa tem de lisboeta e portanto acho que se tem que ter algum cuidado para não se perder também isso.

Sendo tão transgressor na moda, sente que foi preciso dar um passo atrás para se adaptar à tradição dos figurinos das marchas?
Eu vim da moda e, quando me convidaram, incuti este lado mais sofisticado. Possivelmente achariam que eu ia dizer que não, por causa de um certo elitismo da moda, mas eu achei logo: ‘Como é que ainda ninguém se tinha lembrado de convidar um criador de moda para fazer isto?’. Nunca achei que isto fosse desmerecedor da minha assinatura; sempre achei um desafio espetacular. Nunca achei que “me caíssem os parentes na lama”, como se diz, por fazer uma expressão artística às vezes considerada menor — e que não é nada disso. O grande desafio é descer ao povo e à ideia do folclore e levar coisas da moda para lá, tal como já me inspirei no folclore para a moda.

Na altura em que começou a fazer os figurinos para as marchas já fazia figurinos de espetáculos há muitos anos. Foi buscar também referências do palco?
Sim, sou sempre contaminado por tudo o que estou a fazer. Já fiz muitos desfiles contaminado com ideias, por exemplo, do que estava a fazer para o Lux, onde faço as fardas e visto o staff há mais de 20 anos. Muitas vezes contaminei o que fazia para o Lux com coisas do desfile e vice-versa. Na marcha a mesma coisa; as marchantes às vezes veem os desfiles e percebem logo que o figurino vai ser inspirado naquelas saias. Eu deixo-me contaminar pelas várias áreas em que opero porque acho isso interessante.

Antes de começar a fazer os figurinos das marchas, já tinha uma ligação às marchas populares?
Não, eu tinha sido júri há alguns anos, mas não era algo que costumava acompanhar. Sempre vivi no Bairro Alto e na Bica, mas nunca tinha feito figurinos. Aliás, fui o primeiro designer de moda a fazer marchas e isso orgulha-me. A Bica também merece os seus louros por ter dado este passo e arriscado desta maneira. Depois já houve outro designer convidado, o Nuno Gama (Marcha de São Vicente em 2024 e 2025). Eu tive atelier no Bairro Alto, depois na Baixa e no Chiado. Quando a Bica me convidou, eu disse que faria com gosto, mas precisava de um espaço para montar um atelier para a altura das marchas. Não podia andar com as máquinas de um lado para o outro sempre que fizesse algo e a marcha não acaba quando a exibição termina; há que fechar contas e organizar tecidos. Todos os anos, em novembro ou dezembro, começa-se a pensar novamente na marcha. Houve a oportunidade de me manter aqui e pronto, estou aqui por causa da marcha, embora também faça aqui as coisas da minha marca própria.

Envolveu-se também na vida do bairro?
Sim. No início ia quase todos os dias aos ensaios porque não consigo fazer as coisas sem me envolver. As pessoas sabem que estou aqui e vêm ver como estão as coisas.

Aliás, sei que vestiu uma santa na Igreja de Santa Catarina, aqui perto.
Sim, convidaram-me também para vestir a Nossa Senhora das Dores, que está na igreja de Santa Catarina, e eu vesti. É uma imagem com algum peso e uma expressão dramática. Nunca tinha feito algo parecido; foi outro desafio, e tem que se ter um lado sério, porque é uma santa. Eu sou católico à minha maneira; estudei num colégio de padres até aos 15 ou 16 anos e tenho uma vivência católica. Independentemente de concordar com umas coisas ou outras, não quero apagar a minha história. Foi esta a educação que a minha família me deu.

"Hoje é fácil ter fama por causa dos seguidores no Instagram, o difícil é aguentar-se. Fazer roupa qualquer pessoa com o mínimo de informação faz, mas contar uma história e ter uma assinatura através da roupa é só para alguns."
Dino Alves

Precisa de estudar para vestir figuras com essa história?
Quase sempre a intuição me tem valido porque me dá uma verdade que as pessoas reconhecem. Tenho a certeza que 80% do meu sucesso tem a ver com as pessoas sentirem que o que faço é honesto. Claro que me inspiro, vejo coisas, leio e faço pesquisa, mas a maior parte é intuição e conhecimento empírico que vem da rua e de pensar um bocadinho. O que faço tem algo especial que as pessoas não comparam com nada e colocam-me num sítio à parte, e fico contente com isso. Acham que sou criador de moda, mas também um artista, porque a minha formação é em arte e não em moda. Nunca andei em escolas de moda, embora houvesse evidências de que era na moda que eu tinha que estar. Comecei nas Manobras de Maio de 1994, e a maior parte dos meus colegas de geração já não estão a fazer moda. Hoje é fácil ter fama por causa dos seguidores no Instagram, o difícil é aguentar-se. Fazer roupa qualquer pessoa com o mínimo de informação faz. Uma saia mais rodada ou mais justa com um bico aqui e um bico ali, toda a gente faz. Mas contar uma história e ter uma assinatura através da roupa é só para alguns.

Falou sobre os colegas que já não estão na moda, mas faz muitas coisas para além de apresentar duas coleções por ano na ModaLisboa. 
Sempre fiz outras coisas desde o início. Como os meus desfiles sempre tiveram este lado um bocado performático e às vezes até cinematográfico e de teatro, as pessoas começaram a convidar-me. Há uns 10 anos, vi no site do Centro de Estudos de Teatro que já tinha feito 100 espetáculos; neste momento já devo ter feito mais de 150.

Lembra-se do primeiro?
Lembro-me perfeitamente. Foi com as encenadoras Lúcia Sigalho e Mónica Calle na Casa Conveniente, no Cais do Sodré, em 1994 ou 95. Depois, o espetáculo mais mainstream foi no Teatro da Trindade com a encenadora Maria Emília Correia, chamado Menina Ao Colo, que era a história do Santo António. Foi o primeiro assim num teatro nada alternativo e com mais atores.

Começou a fazer espetáculos por curiosidade ou necessidade financeira?
Acaba por ser também uma das grandes fontes de rendimento, porque na moda enterro o dinheiro todo que ganho no teatro. A ModaLisboa dá as condições para apresentarmos o desfile, mas não nos pagam nada. Em cada um dos dois desfiles anuais gasto uma média de 10 mil a 15 mil euros. Portanto, é o teatro e outras coisas que faço para marcas que me permitem isto. Comecei porque era algo novo e porque trabalhei sete ou oito anos na Cinemateca Portuguesa, o que me deu conhecimento de cinema. Quando vim para a Cinemateca, sabia que queria uma carreira de artista plástico e o emprego era apenas para me manter em Lisboa. O “Manobras de Maio” foi um embrião da ModaLisboa. Fiz um desfile que tinha uma componente de moda mas um lado performático, e bastou isso para as pessoas começarem a solicitar convites.

Lembra-se do primeiro momento em que percebeu que iria mesmo entrar para o mundo da moda?
A Ana Salazar viu um desses desfiles das Manobras de Maio e ligou-me para a Cinemateca. Na altura até achei que era para falar com a minha diretora, quando ela me disse: ‘Não, não, é mesmo consigo’, fiquei surpreendido. Porque eu achei que estava a fazer aquilo pontualmente, como poderia dali a dois meses estar a fazer um video-art ou uma instalação numa galeria e pronto. E não tive como voltar atrás.

Mas a arte acaba por estar sempre intrínseca ao seu trabalho na moda. 
Sim, não faço só roupa; há sempre uma ideia. No último desfile, os manequins iam dentro de carros de transporte de roupa e, há dois anos, enchi o chão com uma matéria que parecia terra queimada. Aquilo podia estar numa galeria como uma instalação. Curiosamente, comecei a fazer cenografia para espetáculo agora em março.

É a primeira vez que faz cenografia para teatro?
Em teatro sim, embora já tenha feito muitas vezes cenografia para os meus próprios desfiles. Fiz para o Teatro de Almada, para um espetáculo chamado Um Assobio no Escuro. O encenador, Rodrigo Francisco, adorou e recebi elogios até de arquitetos. Há alguns anos que pensava que gostaria de tentar cenografia e ele convidou-me.

Sente que é mais fácil coordenar os figurinos à cenografia quando os trabalha de forma conjunta?
Sim, acaba por ser, porque quando o público assiste aquilo tem de ser uma coisa única. Normalmente, enquanto figurinista, tenho de me subjugar ao cenário; se o cenário é verde, tenho de pôr um figurino que fique bem naquele verde. Quando faço as duas coisas, a adaptação é mais fácil.

Falou sobre como “enterra” o que ganha no teatro nas coleções de marca própria. Ainda vale a pena criar coleções para a ModaLisboa?
Vale a pena como forma de expressão artística. Como negócio nem sempre vale a pena; as vendas de moda de autor são baixas. Mas a ModaLisboa é o palco onde digo que estou cá e marco a minha assinatura; é daí que vêm convites para outras coisas. No teatro, muitas vezes o público nem sabe quem fez o figurino. Neste momento já não acho que desapareceria pelo facto de não fazer ModaLisboa, porque obviamente também faço outras coisas. Mas de facto a ModaLisboa é o maior palco.

"Ultimamente tenho tido saudades de pintar e acho que vou acabar os meus dias na pintura novamente; estou a planear o futuro nesse sentido. Teria tido uma vida muito mais relaxada na pintura."
Dino Alves

Fala de fazer outras coisas… Além da moda e do teatro, tem mais aspirações artísticas?
Andei 20 anos ou mais a pensar que tenho saudades de pintar, e que não devia ter abandonado a pintura. Acho que vou acabar os meus dias na pintura novamente; estou a planear o futuro nesse sentido. Teria tido uma vida muito mais relaxada na pintura, porque não depende de fornecedores, fábricas ou costureiras. Depende só de mim e de algum dinheiro para telas. Um quadro vende-se facilmente por 2.500 ou 4 mil euros e eu nunca vendi uma peça de roupa por esse valor.

Ainda pinta?
Recomecei na pandemia aos pouquinhos, embora já não pinte há um ano e tal. Em casa comecei a explorar aguarela, que antes achava um bocadinho “cafona”, mas percebi que se podem fazer coisas modernas e interessantes. Fiz uma série de exercícios; quando pinto, nunca faço esboços ou esquemas. A minha assinatura está no meu olho de artista; tiro tinta e ponho por cima e há um momento em que olho e digo: é isto. É esse o momento em que assino.

Esse momento da pintura é um escape?
Eu já nem me lembrava do quão bom é. Quero continuar a fazer isso porque um dia posso estar na minha casa em Anadia a pintar, sem precisar de estar onde as coisas acontecem. Provavelmente é aí que vou ganhar dinheiro, aos 70 anos.

Do que pintou desde a pandemia, já vendeu alguma coisa?
Não mostrei a ninguém. Tenho um amigo, dono da Galeria 111, que quer ver, mas ainda não dei esse passo. Já ofereci a alguns amigos e há um hotel na zona de Ovar, decorado por vários designers, onde tenho aguarelas minhas na sala e no restaurante (Tijosa Eco-House Camp, com quartos decorados por Alexandra Moura, Katty Xiomara, Dino Alves, Storytailors e Nuno Gama). Os quartos que decorei não são peças de decoração que fui escolher numa loja, são obras de arte feitas por mim para ali.

Então poderá ser esta uma nova faceta?
Sim. Embora a minha formação seja em pintura, reconheço que o que me destacou na moda foi não vir de uma escola de moda. As escolas ensinam a técnica, mas às vezes “espartilham” as pessoas. Temos que nos libertar disso porque as escolas não ensinam ninguém a ser artista ou designer; há coisas que já nasceu connosco, ou a pessoa tem ou não tem. Digo sempre aos meus alunos, quando faço mentoria, que não devem ficar à espera que as escolas lhes ensinem tudo, porque isso é impossível.