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(A) :: Os EUA do lado do Hezbollah?

Os EUA do lado do Hezbollah?

Se os EUA já não protegem os aliados quando os aliados enfrentam os inimigos dos EUA, então quem, exactamente, ainda deve apostar a própria sobrevivência na palavra americana?

José António Rodrigues do Carmo
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Na passada segunda-feira, o Irão esticou a corda. Não  com a delicadeza habitual dos aiatolas, feita de ameaças, chantagens e promessas de apocalipse. Esticou-a de modo ostensivo, suspendendo os contactos indirectos com os EUA, ameaçando alargar a guerra, acenando com estreitos, frentes, mísseis e desgraças variadas, e dizendo que qualquer ataque israelita aos subúrbios de Beirute onde o Hezbollah acoita a direcção política, a musculatura militar e os zeladores iranianos da empresa, seria tratado como violação da trégua em todos os teatros. Em português corrente, se Israel tocar no nosso braço libanês, nós fazemos birra mundial e expelimos mísseis.

Foi um momento definidor porque obrigou os EUA a fazer escolhas e mostrar em que pé estão as coisas.

A situação era clara: ou os EUA aceitavam a chantagem iraniana e pressionavam Israel a suspender a ofensiva contra o Hezbollah, ou ignoravam a ameaça e colocavam Teerão perante a alternativa de recolher as garras ou avançar para a guerra que dizia querer.

A jogada iraniana é, em si, reveladora. Teerão não arriscaria tanto por um ornamento. Se a Guarda Revolucionária decidiu que valia a pena travar as negociações, e ameaçar americanos e israelitas, para  salvar o Hezbollah de uma pancada israelita em Beirute, é porque o grupo terrorista não é um acessório da sua política externa. É uma das suas artérias. É o punhal colocado no pescoço de Israel, a base avançada no Mediterrâneo, um seguro de vida estratégico do regime e a prova material de que o Líbano deixou há muito de ser um Estado soberano para se transformar numa sala arrendada pela “teocracia” militar iraniana.

Perante isto, os EUA cederam.

Segundo os relatos disponíveis, Trump falou com Netanyahu, anunciou contactos indirectos com o Hezbollah por intermediários, e obrigou Israel a suspender uma operação prevista contra Beirute. Traduzido da língua diplomática para a língua dos adultos, a organização terrorista disparou, ameaçou, escondeu-se atrás de civis, invocou o patrão iraniano e recebeu como prémio a protecção americana contra os  israelitas.

É possível que isto seja apenas uma leitura injusta. É possível que Trump tenha na manga um acordo de uma dureza tal que torne tudo compreensível. Um acordo que liquide a questão nuclear, desmonte os mísseis balísticos, seque os proxies, abra Ormuz, reduza o Irão a uma potência regional domesticada e deixe os aiatolas a assinar, com lágrimas nos olhos, uma rendição que nem o general Grant recusaria. Tudo é possível. Também é possível que o monstro do Loch Ness tenha carreira no direito marítimo. O problema é que, até prova em contrário, a hipótese fantástica continua a ser fantástica.

A outra possibilidade, mais prosaica, mais feia e, por isso mesmo, mais provável, é que Trump Allways Chicken Out e quer desesperadamente um acordo. Não necessariamente um bom acordo, mas um acordo. Um objecto político vendável em conferência de imprensa. Um troféu para exibir como “melhor do que o de Obama”, o que, convém reconhecer, não é uma fasquia propriamente alpina. O acordo de Obama era um queijo suíço de buracos, ingenuidades e calendários feitos para agradar aos optimistas profissionais. Mas um mau acordo não se corrige com outro mau acordo acompanhado de foguetes, hipérboles tremendas, bonés MAGA e insultos telefónicos.

É que se  esta segunda hipótese for verdadeira, as consequências são devastadoras.

Para o Irão, será uma vitória estratégica de enormes dimensões, apesar dos danos sofridos. Teerão aprenderá a  lição de que suportar destruição, atacar terceiros, manter objectivos máximos, nunca aceitar  exigências verdadeiramente irrevogáveis e arrastar negociações até que o outro lado prefira chamar paz à fadiga, compensa. Logo, será repetida. A Guarda Revolucionária precisa apenas de convencer Washington de que a continuação da batalha é mais incómoda do que a cedência. Foi assim que muitos impérios começaram a morrer, não por falta de legiões ou porta-aviões, mas por excesso de vontade de não os usar.

Para Israel, a lição é  brutal. O seu inimigo existencial continuará a existir como tal. Os seus mísseis continuarão a ser fabricados. Os seus proxies continuarão a ser alimentados. O Hezbollah continuará a ser reconstruído no Líbano, como o bolor regressa às paredes quando se pinta por cima da humidade. E Israel descobrirá, mais uma vez, que a dependência estratégica de terceiros tem um preço. Um país que nasceu porque os judeus perceberam, tarde e com sangue, que ninguém os salvaria, não pode transformar-se num protectorado sentimental dos EUA. Pode ter aliados. Deve ter aliados. Mas não pode entregar a sua sobrevivência ao calendário emocional de Washington.

Há qualquer coisa de obsceno em ver um aliado que lutou ao lado dos EUA,  que suportou ataques iranianos, que absorveu mísseis, drones e pressão diplomática, ser apunhalado pelas costas no momento em que se prepara para atingir o centro de comando do inimigo. Mais obsceno ainda se os relatos da chamada entre Trump e Netanyahu forem exactos no tom e na substância. Os grandes aliados não precisam de ser tratados com luvas brancas; a política internacional não é um chá de beneficência, mas há uma diferença entre pressão estratégica e humilhação pública, entre conselho duro e a sobranceria de quem confunde liderança com berro.

Para os EUA, o dano pode ser ainda mais profundo. A América não perde a sua posição no mundo apenas quando abandona Cabul em caos, quando deixa aliados pendurados, quando ameaça parceiros europeus, quando trata a Coreia do Sul como inquilina atrasada ou quando transforma Israel em subordinado descartável. Perde-a quando os outros concluem que a garantia americana é uma moeda que se desvaloriza exactamente nos momentos em que devia valer mais. A confiança internacional é feita de memória. E a memória raramente se deixa subornar por adjectivos.

O problema central não é Trump. Seria confortável reduzir isto ao temperamento de um homem, às suas vaidades, às suas cóleras e à sua necessidade de anunciar vitórias antes de as possuir. Mas o problema é maior. A América parece oscilar entre a tentação imperial e a de abandonar o mundo inteiro sem compreender as consequências. Entre o excesso imperial e a deserção, falta-lhe a velha gravitas, a capacidade de definir fins, escolher meios, sustentar aliados e fazer os adversários perceberem que certas linhas existem para não serem pisadas.

Para o Ocidente, a mensagem é gelada. Entramos em tempos de Hobbes com elites de salão. Os lobos estão a regressar: Irão, Rússia, China, proxies, milícias, piratas ideológicos, Estados falhados, Estados predadores, organizações terroristas com departamentos de comunicação e embaixadas oficiosas. E nós respondemos com cimeiras, fórmulas, pedidos de reuniões do Conselho de Segurança, prudências, “desescalada” e o medo de chamar inimigo ao inimigo. O apaziguamento é cobardia mas vem  sempre vestido de sabedoria. Explica que evitou o pior, que ganhou tempo, que salvou vidas, que preservou canais. Depois, mais tarde, quando o pior regressa maior, mais armado e mais insolente, os mesmos explicadores garantem que ninguém podia prever.

Podia. Pode-se quase sempre prever. Quando se recompensa a chantagem, há mais chantagem. Quando se salva um proxy, há mais proxies. Quando se apunhala um aliado no momento em que ele ameaça vencer, há menos aliados confiantes e mais inimigos atentos. Quando a maior potência do mundo se deixa chantagear por uma teocracia que comunica por mísseis e milícias, está a pagar a primeira prestação da próxima guerra.

Eu preferia acreditar que Trump sabe exactamente o que faz. Preferia acreditar que existe um plano secreto, uma armadilha brilhante, uma arquitectura estratégica tão subtil que os seus críticos parecem apenas impacientes. Preferia acreditar que, no fim, aparecerá um acordo magnífico, leonino, verificável, definitivo, capaz de desmontar o nuclear, os mísseis, o Hezbollah, os Houthis, Ormuz e a arrogância iraniana de uma assentada.

Preferia. Mas o cepticismo é a higiene mínima de quem observa a política internacional sem incenso na mão.

O que se viu, até agora, foi que o Irão ameaçou, o Hezbollah ganhou tempo, Israel foi rasteirado e Washington cedeu. Talvez seja génio. Talvez seja cálculo. Em qualquer dos casos, a pergunta que fica não é agradável, mas é inevitável: se os EUA já não protegem os aliados quando os aliados enfrentam os inimigos dos EUA, então quem, exactamente, ainda deve apostar a própria sobrevivência na palavra americana?

A resposta a essa pergunta interessa a todos os que vivem do lado errado dos lobos e ainda acreditam que uma civilização se conserva com promessas.

Não se conserva. Conserva-se com força, vontade, lealdade e memória. Quando faltam as três, a história costuma voltar. E raramente volta para pedir licença.