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Feminismo para conservadores

Ser feminista é acreditar que este sistema pode ser diferente. É defender a igualdade de direitos e de oportunidades, algo que vejo a imensa maioria dos conservadores a defender.

Ariana Simões de Almeida
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Sou feminista. Cresci num meio profundamente conservador. E só ao fim de muito tempo aprendi que isto não tem que ser um problema, nem sequer uma contradição. O feminismo não é coisa de mulheres zangadas — é uma agenda de bom senso que a maior parte dos conservadores defendem, quando não estão preocupados em preencher rótulos ideológicos.

Ser feminista não é ser de esquerda ou de direita – é acreditar na igualdade de direitos e de oportunidades entre homens e mulheres. Só isso. Que infelizmente ainda é tanto.

Como a maioria das mulheres à minha volta, cheguei tarde a este entendimento. Cresci no Portugal democrático dos anos 80, onde me parecia garantida a promessa da igualdade conquistada com o 25 de Abril (que tantas vezes ouvi ser criticado aos almoços de Domingo em casa da minha avó). Estudei, namorei, viajei, conduzi. Votei.

Tirei um curso superior rodeada de outras, muitas, jovens mulheres. Se aos vinte anos me tivessem perguntado se era feminista, teria dito que não — sem hesitar. O feminismo parecia-me reservado a outro tipo de mulher, a das caricaturas: radical, intransigente, que odeia os homens.

Depois passei mais de uma década a trabalhar em programas internacionais na Ásia e em África — com a União Europeia, com as Nações Unidas e com várias organizações não governamentais—, onde vi de perto o que acontece quando as raparigas não têm acesso à educação. Quando o casamento infantil é normalizado como uma transacção económica.

Quando a violência doméstica é generalizada e tratada como assunto de família. Ainda assim, havia uma distância “confortável” entre o que era o meu trabalho e a minha vida. Aquelas, achava eu, eram outras realidades.
Sem me aperceber, fui-me tornando feminista com a maternidade – e ao acompanhar o meu marido a viver a paternidade. Senti(mos) o que mostravam as estatísticas – que a parentalidade é um laboratório de desigualdade. Desde logo na gestão dos nossos novos papéis: nas expectativas tão diferentes que o mundo tinha de cada um de nós, nos constrangimentos e culpas que sentíamos, em quem era elogiado por “ajudar” em casa e quem era simplesmente suposto estar lá. Depois no desafio de educar os nossos filhos (calhou-nos um de cada!) a compreender, questionar e navegar as normas e os padrões que nos rodeiam para habitarem o mesmo mundo com igualdade. Nas conversas, que se foram tornando cada vez mais complexas, sobre poder, limites, consentimento, cuidado, ambição.

Com a minha filha vivi na pele a tensão de dizermos às raparigas que o céu é o limite, ao mesmo tempo que lhes são empurradas garganta abaixo imagens hipersexualizadas e padrões de beleza impossíveis. Incentivamo-las a ambicionar, mas depois o mercado de trabalho recebe-as com salários (12% a 15%) mais baixos, carreiras que abrandam com os filhos, mais do triplo das tarefas domésticas e de cuidado, e salas de decisão onde simplesmente não estão ou são uma minoria.

Promovemos igualdade nas relações, mas mais de 66% dos jovens reporta um incidente de violência no namoro, com três quartos a não identificar como violência o controlo, a perseguição, a violência psicológica, a violência sexual, violência através das redes sociais e violência física.

Isto enquanto a manosfera entra pelos quartos dos nossos filhos com respostas simples para perguntas complexas sobre masculinidade: dominar mostra força, vulnerabilidade é fraqueza, as mulheres são objectos ou obstáculos.

Celebramos a liberdade de expressão e o acesso à informação ao mesmo tempo que os algoritmos decidem, por nós, o que vale a pena ver, ouvir e acreditar — amplificando os extremos e engolindo as zonas cinzentas onde a maioria de nós, na verdade, vive.

Quando regressei a Portugal, deparei-me com a tensão entre o caminho que tinha trilhado e as conversas com as pessoas da minha vida. Em conferências sobre direitos das mulheres, formações de mentoras e bootcamps sobre liderança feminina, promovia a igualdade e a inclusão. Mas quando me sentava à mesa de jantares de família, em casamentos e batizados, surgiam as perguntas:

Onde fica o mérito se temos quotas? Se somos biologicamente diferentes, não faz sentido que os papéis sejam diferentes? E se uma mulher preferir ficar em casa — não é isso também uma escolha que o feminismo devia defender?

Não se foi longe demais com os pronomes e as casas de banho unisexo? E os rapazes — o que lhes estamos a dizer?

Foi assim que surgiram as primeiras conversas de feminismo para conservadores. Percebi que com curiosidade, empatia e foco nos valores partilhados, era possível navegar contradições, partilhar dúvidas e refletir sobre experiências vividas. Com confronto, mas sem conflito. E, no final, conseguíamos (quase sempre) concordar numa coisa: o sistema que temos ainda não nos permite celebrar, verdadeiramente, a igualdade de direitos e de oportunidades entre homens e mulheres.

Ser feminista é acreditar que este sistema pode ser diferente. É defender a igualdade de direitos e de oportunidades entre cidadãos, independentemente do sexo. Algo que vejo a imensa maioria dos conservadores com quem me cruzo nestas conversas a defender.

Sim, há temas nos movimentos pela igualdade e diversidade que são desafiantes. Porque são identitários. Porque nos põem em causa. Porque mudar é difícil. Porque há perdas no processo. Mas o silêncio e a inação têm custos. Já, e no futuro.

A distância entre o que está a acontecer nas vidas dos nossos filhos — dentro e fora dos ecrãs — e o que se discute nas escolas e nas famílias é preocupante. Por isso falar de igualdade nas escolas não é doutrinação — é literacia. Os professores precisam de ter ferramentas para desafiar os seus próprios estereótipos e para ajudar os nossos filhos, rapazes e raparigas, a reconhecer padrões perigosos ou abusivos, a nomear injustiças, a ter empatia. E os pais
precisam de estar incluídos nestas conversas.

O feminismo não é uma agenda radical. Nem tão pouco uma concessão que se faz às mulheres. É um projeto comum — para construir famílias mais saudáveis, escolas mais justas e democracias mais robustas. É uma agenda de civismo e bom senso.