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(A) :: A rede que nunca dorme

A rede que nunca dorme

O prestígio internacional não se constrói para depois ser trocado por votos. Constrói-se tomando posições, mesmo quando são incómodas, mesmo quando decorrem candidaturas

Rodrigo Saraiva
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Há vitórias que se medem em votos. Portugal conseguiu 134 deles, mais do que a Áustria, mais do que a Alemanha, e regressa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027-2028. É a quarta vez que Portugal ocupa esse lugar. A primeira em que o conseguiu logo na primeira volta, sem segunda ronda, sem negociações de última hora. Com margem.

Devo ser honesto: tenho sido crítico da política externa portuguesa. Mas essa crítica dirige-se aos governos que definem as orientações estratégicas, não à rede que as executa. São coisas distintas. E este é o momento de reconhecer o que essa rede vale.

O resultado é fruto de treze anos de trabalho. Múltiplos governos, múltiplos ministros e presidentes. E uma rede diplomática incansável e eficaz. Uma rede diplomática que não tem memória de partido, tem memória de Estado.

Mas há vitórias que não se medem em eleições. A maior vitória da diplomacia portuguesa chama-se Timor-Leste.

Em Dezembro de 1975, a Indonésia invadiu e anexou o território pela força, com a cumplicidade tácita das grandes potências. Portugal quebrou relações com Jacarta, levou o caso à ONU e comprometeu-se com um objectivo que então parecia impossível: a autodeterminação de um povo corajoso mas pouco numeroso, no outro lado do mundo, contra um Estado com peso geopolítico incomparavelmente superior. O que se seguiu foi uma das mais persistentes empresas diplomáticas da história recente de um país de médio porte: durante vinte e quatro anos, governos de várias cores mantiveram a causa timorense viva, nos fóruns multilaterais, nas capitais europeias, nos corredores de Nova Iorque e Washington onde ninguém queria incomodar Jacarta. Portugal não tinha poder militar sobre a Indonésia, não tinha influência económica, não tinha a simpatia dos grandes aliados. Tinha a razão, a persistência e uma rede que foi construindo pacientemente uma maioria moral. Em Agosto de 1999, 78% dos timorenses votaram pela independência em referendo supervisionado pela ONU. Em Maio de 2002, a independência foi proclamada: Timor-Leste tornou-se o primeiro Estado do século XXI. Portugal definiu um objectivo, manteve-o durante décadas e alcançou-o. Isto é diplomacia no seu sentido mais profundo.

Há outros exemplos, mais recentes e igualmente reveladores. Em Abril deste ano, Joseph Figueira Martin, cidadão luso-belga sequestrado por mercenários do Grupo Wagner na República Centro-Africana e condenado a dez anos de trabalhos forçados, regressou a Lisboa num avião militar português. Portugal não tem embaixada em Bangui. Mas, desde 2017, militares portugueses integram a MINUSCA, a missão de estabilização da ONU na RCA, com contingentes de mais de duzentos homens em rotação permanente, elogiados pela própria liderança da missão. A participação militar em manutenção de paz constrói relações e credibilidade. Quando chegou o momento de libertar um cidadão português numa das paragens mais improváveis do mundo, Portugal foi capaz de abrir portas inacessíveis a outros. Segundo o próprio Figueira Martin, a sua libertação deveu-se “principalmente aos esforços envidados por Portugal e pela Bélgica.”

Há ainda o caso de António Vitorino. Em 2018, Portugal elegeu o seu candidato para a liderança da Organização Internacional para as Migrações, derrotando o candidato da administração Trump. Em 2023, Vitorino perdeu a reeleição para uma candidata americana apoiada por Biden. Perdeu porque os Estados Unidos decidiram recuperar o lugar. Esta derrota não apaga a vitória anterior. Antes a contextualiza. Estas posições têm peso real. Ganhar uma vez contra Washington não é trivial.

O que une estes episódios? Uma rede que funciona, que acumula credibilidade, que opera com consistência ao longo do tempo, independentemente de quem está em São Bento ou em Belém.

O que falta, por vezes, é a outra metade. A rede existe, e funciona. O que nem sempre existe é a bússola. Uma candidatura a um lugar no Conselho de Segurança não pode ser o alfa e o ómega da política externa portuguesa. O prestígio internacional não se constrói para depois ser trocado por votos. Constrói-se tomando posições, mesmo quando são incómodas, mesmo quando decorrem candidaturas. É precisamente porque não recuámos na defesa de Timor, quando recuar seria mais fácil e mais conveniente, que a diplomacia portuguesa tem hoje a credibilidade que está à vista.

Os 134 votos são também o resultado disso. Não o seu substituto.