Numa semana: confrontos em Paris, após a vitória do PSG na final da Liga dos Campeões; tensão em Espanha, com deputados a anunciar a ausência na sessão do congresso onde tomará a palavra o Papa; choque no Reino Unido, com o bárbaro assassinato de Henry Nowak; violência junto à Assembleia da República, no contexto da recente greve geral. Tudo isto parece confirmar o diagnóstico de um mundo em crescente tensão, a que costumamos chamar polarização. Na recente Encíclica, Leão XIV fala, inclusivamente, de narrativas simplistas e da lógica belicista que pretende dividir a realidade entre amigos e inimigos, numa espécie de combate existencial pela sobrevivência. Chamem-me ingénuo, inocente, naïf, mas procuro não ceder a isso. Pouco me importa que o que digo não seja apelativo. Temos de procurar uma saída. Temos dificuldade em encontrar modelos.
A meu ver, uma proposta deverá passar por Hilário de Poitiers. Filósofo e teólogo da Idade Antiga, sofreu na pele a crise intelectual do mundo em que viveu. Mesmo exilado em 356, marcou a diferença face aos seus contemporâneos, não insistindo nos erros dos seus adversários, mas procurando o entendimento entre tradições distintas. Mas como?
Antes de tudo, Hilário explicou que devemos atender ao contexto das formulações: aos seus propósitos e pontos de partida. De facto, só há uma verdade. A verdade não é igual à opinião. Mas a verdade não está separada da mundividência de quem a expressa. Aquilo que hoje denominamos como “lotaria genética e social” não pode ser terraplanado, porque a verdade pode revelar-se através de silhuetas e não por via de um corpo inteiro e imediato.
Isto leva-o a outra dimensão: é necessário distinguir entre a formulação do discurso e o conteúdo do discurso. Entre uma coisa e outra existe uma desproporção, de tal maneira que não é suficiente “dizer a fórmula certa”. Não raro, os ressentimentos não radicam no conteúdo, mas na sua formulação. É preciso rejeitar quem se julga ortodoxo apenas por comunicar, letra a letra, o politicamente correto. Como é preciso agir contra formulações que, por si só, favorecem o desentendimento e a tensão. No entanto, discutir palavras, e não o conteúdo, continua a ser cair numa armadilha. Como escreveu Tomás de Aquino, a nossa compreensão não se deve deter no enunciado, mas na realidade enunciada (ST, II-II, q.1, a.2, ad 2).
Não por acaso, Hilário, a certo momento, confessou que “não tinha medo” dos seus interlocutores em si mesmos, “mas de alguns que se têm por demasiado sensatos e prudentes”. E, hoje, este excesso de sensatez e prudência tornou-se numa nova forma de censura. “Não se diz cor-de-pele”. “Não se diz maria-rapaz”. “Não se diz chinesices”. “Não se diz trabalhador”. No entanto, as palavras exigem uma leitura integral. Quem usa estas formulações não é uma besta. Quem as recusa não é um anjo. E se algo é equívoco – boa sorte a encontrar uma forma de linguagem que não o seja –, a solução não deveria ser a supressão, mas a compreensão adequada.
É verdade, os ambientes polémicos tendem à polarização e à intransigência. Porém, é necessário evitar unilateralidades. Aquilo que de mais verdadeiro há na vida existe em tensão, em luta, em ferida. Por isso, a integridade não é diretamente proporcional ao fechamento. Só existe integridade quando há ampliação do mundo. Ora, a polarização é precisamente o inverso: o triunfo da frase isolada, da meia-verdade empunhada como bandeira, da obsessão.
Sempre nos rimos das crianças que acham que o leite nasce nos supermercados. A polarização está a tornar-nos tão infantis como elas. Só vemos o nosso condomínio. Eu sei que seria mais popular passar seis parágrafos a espicaçar o touro no meio da praça para, em seguida, perseguir, num glorioso linchamento popular, os hereges. Há, no entanto, um pormenor que poucos referem: podemos colocar em frente do touro a cara do nosso inimigo, mas quando o saltarmos ele não terá problema em atirar-se a nós, mesmo que sinalizemos a nossa virtude. Deixemos de denunciar impotências. Paremos de estar confortavelmente a enunciar fracassos. Procuremos corajosamente uma solução.