Convivem com frequência na mesma pessoa a pulsão da vida e a pulsão da morte. Uma parte de nós quer viver, continuar, ir em diante. A outra anseia pelo fim, ainda que tenha medo, e corre para o fim. Tenho dado com homens e mulheres assim, não exactamente divididos entre as duas pulsões, não propriamente cientes delas, mas lançados na força contrária que os puxa ora para a vida, ora para a morte, muitas vezes ao mesmo tempo.
Parece que querer estar vivo e gozar a vida não exclui que desejemos secretamente terminar, acabar-nos, chegar ao fim. Esta coexistência de contrários não se explica por apelo à nossa felicidade ou tristeza relativas. Podemos ser pessoas felizes, gostar da vida, e mesmo assim termos em nós um desvario que nos encaminha para o fim, o que se traduz no modo como tratamos ou não de nós, como vigiamos ou não a nossa saúde, traduz-se naquilo que fazemos chamando a morte, por mais que sejamos felizes.
Ao longo do tempo, encontrei esta concomitância mais em mulheres do que em homens. Encontrei-a em famílias, como um traço característico, quase hereditário. Verifico que, às vezes, passa de pais para filhos. A radiante alegria que esconde uma sombra da mãe de família que fuma para se destruir. O lado sombrio de algumas personagens vivazes, que no avesso de divertirem toda a gente à mesa são, a sós consigo, tristíssimas. A corrida de alguns artistas para a reprovação geral e o apagamento, quando convive com a sua aptidão social, o espírito genuinamente gregário e a alegria de viver.
O que me fascina é, como a respeito de outros traços, que possamos ser uma e outra coisa, ao mesmo tempo, sem contradição.
A vida íntima de uma pessoa adulta talvez não admita a contradição. Podemos querer estar aqui tanto quanto queremos desaparecer. Querer amar tanto quanto queremos ser odiados. Querer o tempo que nos resta tão sofregamente que nos vamos matando pelas nossas mãos, quase por amor à vida.
Em menos pessoas, conheci o impulso para domar a pulsão destruidora. Obrigou sempre a profundas e silenciosas batalhas interiores. Representava quase uma mutilação: a necessidade de abafar um dos seus eixos centrais. Algumas conseguiram, o que representou o começo de outra vida, na qual prosseguiam desaparentadas, porque a pulsão da morte se assemelha a uma velha tradição familiar e abrir mão dela equivale a ser deserdado. Os casos mais felizes foram sempre aqueles em que uma razão maior conduziu à mudança: o amor de alguém, o reconhecimento da importância que tinham para os outros, a necessidade de se preservarem para estarem lá para outrem. Algumas pessoas são mais dignas de ser amadas do que a própria vida e do que nós mesmos, pareciam ter entendido. E este entendimento tão precioso acerca do papel dos outros na sua vida conferia-lhes, aos meus olhos, um poder misterioso e intransmissível.