Aconteceu numa noite de Dezembro, em Southampton, no Reino Unido. Henry Nowak era um estudante de 18 anos que regressava a casa. Foi esfaqueado cinco vezes por Vickrum Digwa, um Sikh. Quando a polícia chegou, Nowak estava caído no chão. Mas Digwa tinha congeminado a escapatória perfeita: acusou Nowak, falsamente, de ter sido “racista”. Perante a alegação (falsa) de racismo, a polícia ignorou o esfaqueamento e algemou Nowak, sempre prostrado e em sofrimento. Quando Nowak se queixou de que não conseguia respirar, a polícia troçou dele. Sem auxílio, Henry Nowak morreu.
O vídeo policial agitou a Grã-Bretanha. Para muita gente, foi mais uma prova de como anos de adestramento wokista condicionaram a polícia: bastou a vítima ser um homem branco, e o assassino pertencer a uma “minoria”, para tudo se inverter, a vítima passar a culpado e o assassino a vítima. A propósito, recordaram-se outros casos em que as autoridades não actuaram por receio de parecerem racistas: o bombista que em 2017 matou 22 jovens num concerto em Manchester, e que, por ser líbio, não foi parado, apesar da mochila suspeita; a rede de pedófilos em Rochdale que pôde actuar impunemente até 2010 por as vítimas serem raparigas brancas e os criminosos de origem asiática.
O crime de Southampton gerou uma versão branca do Black Lives Matter. Os protestos contra o “racismo invertido” deixaram 11 polícias feridos. Mas é para admirar que os brancos do Reino Unido aspirem também ao estatuto privilegiado de vítimas de “racismo” de que veem beneficiar os habitantes de outras cores? Outrora, o racismo era a ideologia dos que acreditavam em raças e na sua hierarquia. Como tal, foi justamente refutado e reprovado. Agora, em regime woke, é demasiadas vezes uma acusação que alguns são convidados a usar para culparem os outros e se desculparem a si próprios. Nesse sentido, não há quem não tenha interesse em ser “racializado”, se isso o proteger da polícia e de quaisquer responsabilidades. Mas onde havia um país que séculos de história em comum tinham tornado mais ou menos coeso, e onde para manter a ordem bastava uma polícia desarmada, começa a estar agora uma terra de ninguém disputada por tribos raivosas.
O caos migratório teria sempre causado problemas de acolhimento e de adaptação. No Reino Unido, a população nascida no estrangeiro saltou de 6% em 1991 para 19% hoje. Só num ano, em 2023, entraram 1,4 milhões de estrangeiros. Mas o modo como o activismo woke decidiu usar as migrações para provocar uma revolução cultural, tratando os europeus como criminosos e os recém-chegados como vítimas, tornou tudo mais explosivo. Os migrantes não se sentem induzidos a respeitar culturas que o wokismo lhes ensina serem “estruturalmente racistas”. Aos europeus, como único meio de expiarem o pecado de serem mais livres e prósperos, exigiu-se que renunciassem à identidade e à história a que os outros povos têm direito. Todas as achas foram postas na fogueira.
O projecto woke de liquidar as nações históricas na Europa não resultará numa humanidade cosmopolita, mas num tribalismo conflituoso. A Europa pode perder aquilo que sustenta a lei, a democracia e a solidariedade social: as comunidades de destino representadas pelas nações históricas, capazes de criar uma igualdade que, nos últimos anos, desvalorizou, enquanto critérios de discriminação e como em mais nenhuma parte do mundo, diferenças de rendimento, religião, sexo ou cor de pele. Houve, na Europa, qualquer coisa de especial na história da humanidade. É preciso que não morra com Henry Nowak.