Toda a gente concorda que vivemos a era mais informada da história humana. É uma das mentiras mais bem instaladas do nosso tempo, e a sua eficácia reside precisamente no facto de ser tecnicamente verdadeira. Nunca houve tanta informação ao alcance de tantos. Nunca foi tão barato saber. E nunca, talvez, soubemos coletivamente tão pouco sobre o que importa decidir. Esta contradição não é um paradoxo curioso para conversa de café. É o sintoma central de uma patologia civilizacional que ainda não tem nome consensual, mas que já tem vítimas a perder de vista: a erosão silenciosa da nossa capacidade crescente de pensar.
Houve um momento, no início deste século, em que muitos de nós acreditámos no contrário. Acreditámos que a internet democratizaria o conhecimento, que daria voz aos sem voz, que dissolveria os filtros editoriais de uma imprensa fechada sobre si mesma. A expectativa não era ingénua. Tinha fundamento. Os primeiros anos das redes, antes da captura publicitária e da algoritmização das linhas de tempo, deixaram entrever o que essa promessa poderia ter sido. Vinte anos depois, a promessa foi traída, e convém ser preciso sobre o sentido da traição. Não fomos enganados por um mentiroso. Fomos reorientados por uma economia. As plataformas que prometiam emancipação descobriram que a atenção humana valia mais quando capturada do que quando libertada, e otimizaram-se em conformidade. O espaço público transformou-se, sem aviso e sem assinatura de rendição, num mercado de estímulos.
O problema não é o que sabemos, é o que já não conseguimos avaliar
Há um equívoco confortável que importa desmontar. Quando falamos de desinformação, imaginamos o cidadão crédulo que acredita em mentiras grosseiras, e consolamo-nos com a distância que julgamos manter dele. Mas a infodemia não é, em rigor, um problema de quantidade de mentira. É um problema de colapso da hierarquia. Durante séculos, o espaço público funcionou porque dispunha de instituições com função epistémica: jornais com linha editorial responsável, universidades com revisão por pares, tribunais com regras de prova, administrações com critérios de transparência. Eram imperfeitas, por vezes corruptas, frequentemente arrogantes. Mas faziam uma coisa insubstituível: hierarquizavam. Diziam-nos, com a sua mera arquitetura, o que merecia mais escrutínio e o que merecia menos.
Essa hierarquia foi nivelada. Hoje, no mesmo écran e no mesmo formato visual, convivem em pé de igualdade um estudo científico revisto por pares e a fúria de um anónimo enraivecido às três da manhã. A capa do jornal, a voz da apresentadora, o peso do contexto institucional, tudo o que antes nos dizia “isto merece atenção, aquilo é ruído”, foi apagado pela uniformização do feed. E quando tudo tem o mesmo aspeto, nada tem autoridade. O resultado não é um cidadão mais livre. É um cidadão soterrado, que perdeu não a informação, mas os instrumentos para a ordenar. A liberdade que lhe deram foi a de se afogar em qualquer ponto do oceano.
A fadiga epistémica, ou a rendição que não percebemos que assinámos
Deste colapso nasce um estado que urge nomear com coragem: a fadiga epistémica. Não é apatia, não é cinismo, não é desinteresse pelo saber. É algo mais íntimo e mais perigoso. É o momento, que quase ninguém consegue datar na sua própria vida, em que o esforço de distinguir o verdadeiro do falso deixou de parecer valer o cansaço que exige. É a rendição silenciosa de quem continua a interessar-se pelo mundo, mas já não tem energia para o avaliar.
E aqui está o que torna esta condição tão insidiosa: ela é perfeitamente racional. Quando o volume de informação que nos chega excede em ordens de grandeza a capacidade humana de a processar, recorrer a atalhos não é fraqueza, é sobrevivência. Confiamos no que nos parece familiar. Acreditamos no que confirma o que já pensávamos. Descartamos, sem exame, o que vem de quem aprendemos a desconfiar. Cada um destes gestos é defensável isoladamente. O problema é que a soma de milhões de rendições individuais perfeitamente racionais produz uma sociedade que deixou de partilhar uma realidade comum. Cada tribo passa a habitar o seu próprio universo de factos, e a conversa entre universos torna-se, primeiro improvável, depois impossível, por fim inconcebível. Não nos tornámos mais burros. Tornámo-nos incomunicáveis, que é pior, porque a inteligência que não se consegue partilhar é, para efeitos de vida em comum, inteligência que não existe.
O paralelo com a saúde pública não é retórico, é literal. As populações expostas a ar tóxico desenvolvem patologias respiratórias coletivas que nenhum pulmão individual, por mais forte, consegue evitar. As populações expostas a um ambiente informacional tóxico desenvolvem patologias epistémicas coletivas que nenhuma inteligência individual, por mais aguda, consegue contornar. E daqui decorre a conclusão mais incómoda de todas, aquela que a nossa cultura individualista se recusa a aceitar.
A mentira de que basta pensar pela própria cabeça
A reação instintiva à infodemia é moral e individual. Apela-se à responsabilidade de cada um, à literacia mediática, ao bom velho pensamento crítico. São respostas reconfortantes porque nos devolvem a ilusão de controlo. E são, na sua suficiência presumida, profundamente ingénuas. Atacam o sintoma e absolvem a estrutura.
Porque a estrutura está desenhada contra nós. Os algoritmos que governam o que vemos estão otimizados para a reação imediata, e premeiam sistematicamente o conteúdo que ativa a emoção mais primária. Não é uma suspeita de café. A investigação de Vosoughi, Roy e Aral, publicada em 2018 numa das revistas científicas mais exigentes do mundo, demonstrou que a falsidade se propaga nas redes mais depressa, mais longe e mais fundo do que a verdade, porque oferece mais estímulo emocional e exige menos esforço cognitivo. A mentira é, estruturalmente, mais bem-adaptada ao meio do que a verdade. Não vivemos num campo de jogo neutro onde basta jogar bem. Vivemos num campo inclinado, e quem nos pede para corrermos mais depressa esquece-se de mencionar que estamos a correr para cima.
E há um dado que distingue o nosso presente de qualquer época anterior, e que devia gelar qualquer democracia que ainda se leve a sério. A desinformação tornou-se uma indústria. Os relatórios do Computational Propaganda Project, da Universidade de Oxford, documentaram campanhas de manipulação coordenada em mais de oitenta países, operadas por empresas profissionais, com metodologia, com tabela de preços e, na maioria das jurisdições, com plena legalidade. Há quem venda, ao quilo, a corrosão da realidade partilhada. Neste contexto, pedir a cada cidadão que simplesmente pense pela própria cabeça é como pedir a alguém que respire fundo numa sala cheia de fumo. O problema nunca esteve nos pulmões. Está no ar que somos obrigados a respirar.
Mudar o rio, não ensinar a nadar
Se a patologia está na arquitetura, então só uma resposta arquitetural lhe pode chegar. E existe uma, que formulo com a sobriedade que ela exige mas também com a esperança que ela permite: a infraestrutura pública digital. A ideia é tão antiga quanto as estradas, os correios e a rede elétrica, e repousa num princípio que abandonámos com leviandade. As funções essenciais à vida em comum não devem ser entregues, sem reserva, a atores privados cujos interesses divergem do interesse comum. A Índia construiu o India Stack e ofereceu identidade, pagamentos e partilha de documentos a mil e quatrocentos milhões de pessoas, numa arquitetura pública e interoperável. A Estónia ergueu o X-Road. A União Europeia desenvolve, desde 2024, a sua carteira de identidade digital. São primeiros passos, hesitantes, mas na direção certa.
Não se trata de proibir as plataformas privadas, tal como a existência da escola pública nunca proibiu a privada. Trata-se de estabelecer um piso comum, uma alternativa estrutural credível para os atos essenciais da vida cívica: identificar, comunicar, aceder a serviços, deliberar, votar. Trata-se de devolver ao cidadão uma praça pública que não esteja desenhada para o manter agitado e dócil. A tese tem custos altos, e seria desonesto escondê-lo. Exige investimento público que poucos Estados querem assumir, coordenação internacional que a fragmentação geopolítica dificulta, e uma cultura técnica pública que décadas de dependência face a fornecedores privados deixaram atrofiar. Portugal, neste capítulo, não lidera coisa nenhuma, e faríamos bem em deixar de fingir que sim.
Mas a alternativa a pagar este preço é continuar a perguntar, geração após geração, como ensinar os cidadãos a nadar contra uma corrente que projetámos para os arrastar. É a pergunta errada. A pergunta certa, a única que está à altura do que está em jogo, é se ainda temos a lucidez, e sobretudo a vontade política, de mudar a direção do rio. Uma civilização que se esquece de pensar não desaba com estrondo. Apaga-se devagar, distraída, convencida até ao último instante de que nunca esteve tão bem informada.