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A Santa Casa da Misericórdia chamada Bruxelas

Portugal é o 6.º país que mais fundos recebeu do PRR — e dos que pior os executou. O dinheiro entra. A burocracia engole-o. O resultado nunca chega. Vamos repetir a operação com mais 22,6 mil milhões.

Diogo Pasuch
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Há um número que devia envergonhar qualquer português que se preocupe com o futuro do país — e que, no entanto, é quase sempre citado com orgulho.

Desde 1986, Portugal recebeu mais de 167 mil milhões de euros líquidos da União Europeia. Somando o que ainda está por desembolsar do PRR e do Portugal 2030, a factura ultrapassa os 197 mil milhões. Por cada euro que Portugal entregou a Bruxelas, recebeu três. Em média, dez milhões de euros por dia, todos os dias, durante quarenta anos.

E aqui está a pergunta que ninguém quer fazer: depois de quarenta anos e duzentos mil milhões de euros, porque é que Portugal continua a ser o nono país mais pobre da União Europeia?

A convergência que parou a meio

Os primeiros anos foram um milagre real. Em 1986, o PIB per capita português estava em 66% da média europeia. Em 2000, tinha subido para 85%. Catorze anos, dezanove pontos percentuais. Foi a época das autoestradas, das escolas, do saneamento básico, da modernização que tirou Portugal do atraso secular.

E depois — parou.

Em 2025, o PIB per capita português está em 81% da média europeia. Mais baixo do que estava em 2000. Vinte e cinco anos depois, com mais de cem mil milhões de euros adicionais recebidos de Bruxelas, Portugal não só não convergiu como recuou. Os fundos continuaram a chegar. A convergência desapareceu.

Isto não é opinião. É aritmética. E é a aritmética mais inconveniente da economia portuguesa contemporânea.

O caso irlandês que ninguém quer comparar

A Irlanda aderiu à então CEE em 1973 — treze anos antes de Portugal. Era, na altura, um dos países mais pobres da Europa Ocidental: agrário, periférico, dependente, com emigração em massa. Exactamente como Portugal.

Hoje, o PIB per capita irlandês está 137% acima da média da União Europeia. É o segundo país mais rico do bloco, atrás apenas do Luxemburgo. Portugal está 19% abaixo dessa média.

A diferença não foi a quantidade de fundos. Foi o que cada país fez com eles. A Irlanda usou o dinheiro europeu para construir uma economia — baixou impostos sobre empresas, atraiu capital, especializou-se em tecnologia e farmacêutica, criou um ambiente onde a riqueza se produz, não apenas se distribui. Portugal usou o dinheiro europeu para construir betão — e para alimentar um Estado que cresceu mais depressa do que a economia que o devia sustentar.

A muleta serve para uma perna partida sarar. Não serve para a pessoa nunca mais aprender a andar.

O PTRR: a bazuca que se segue à bazuca

Esta semana, o Governo aprovou em Diário da República o PTRR — Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência. Um plano de 22,6 mil milhões de euros até 2034, criado para responder aos prejuízos das tempestades do início de 2026.

O montante é, por si só, revelador: é superior à própria «bazuca europeia» original, o PRR, que valia 22,2 mil milhões. Portugal acaba de criar um plano nacional de resposta a catástrofes maior do que o maior pacote de fundos europeus da sua história.

E aqui está o detalhe que deveria fazer soar todos os alarmes: do PRR anterior, ao fim de anos de execução, apenas 28% das verbas chegaram efectivamente ao terreno. Portugal é o sexto país que mais fundos recebeu do PRR — e um dos que pior os executou. O dinheiro entra. A burocracia engole-o. O resultado nunca chega.

Agora vamos repetir a operação com mais 22,6 mil milhões. Geridos por uma nova agência. Com novas estruturas. Numa lógica que o próprio documento oficial descreve como de «responsabilização a posteriori» — ou seja, gastar primeiro, fiscalizar depois. Já sabemos como acaba este filme. Vimo-lo nas SCUTs, na TAP, no novo aeroporto que se debate há 55 anos.

O vício que ninguém ousa nomear

Existe um conceito em economia comportamental chamado dependência de recursos. Aplica-se a países que descobrem petróleo e nunca mais desenvolvem outra indústria. Aplica-se a Estados que vivem de uma única fonte de receita e perdem a capacidade de gerar riqueza por outros meios.

Portugal não tem petróleo. Tem fundos europeus. E desenvolveu, ao longo de quatro décadas, exactamente a mesma patologia: uma economia política inteira organizada em torno da captação, distribuição e gestão de dinheiro que vem de fora — em vez de em torno da criação de riqueza que nasce de dentro.

Cada ciclo eleitoral promete usar os fundos para «transformar o país». Cada quadro comunitário é apresentado como o que finalmente vai mudar tudo. E ao fim de quarenta anos, o país está exactamente onde estava em 2000, em termos relativos — mais betão, melhores estradas, mas a mesma distância da média europeia. A muleta tornou-se a perna.

Como especialista em finanças, sei reconhecer um balanço que não fecha. E o balanço de Portugal não fecha: entram 197 mil milhões, e o resultado é a estagnação relativa de uma economia que recebeu mais por habitante do que quase qualquer outra na história da União.

A pergunta de 197 mil milhões de euros

A próxima vez que um governante português anunciar, com ar triunfante, mais um pacote de fundos europeus, vale a pena fazer a pergunta que ninguém faz: E depois? O que é que Portugal vai produzir quando a bazuca europeia acabar — porque ela vai acabar, à medida que países mais pobres entram no bloco e a generosidade de Bruxelas se vira para Leste?

Um país constrói-se com aquilo que produz, não com aquilo que recebe. A Irlanda percebeu-o. Portugal, ao fim de quarenta anos e duzentos mil milhões de euros, ainda celebra a chegada da próxima esmola como se fosse uma vitória.

A União Europeia foi, durante quarenta anos, a Santa Casa da Misericórdia do Estado português. O problema das misericórdias é simples: ninguém que delas dependa toda a vida alguma vez deixou de ser pobre.