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(A) :: Hong Kong venceu a Suíça. E a história escreve-se com números

Hong Kong venceu a Suíça. E a história escreve-se com números

Zurique não é palco de grandes cotações. Genebra não financia a criação de nova riqueza asiática. Hong Kong, sim.

Pedro Pires e Borges
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Dois biliões, novecentos e cinquenta mil milhões de dólares. É esta a soma dos ativos que Hong Kong geriu em 2025 como centro de riqueza transfronteiriça. A Suíça, outrora imbatível, ficou muito perto, mas perdeu pela primeira vez na história moderna o lugar no topo.

Pela primeira vez na história moderna, Zurique perde o cetro. E o faz perante um território que, há três décadas, ninguém ousaria prever como sucessor natural.

O relatório da Boston Consulting Group não deixa margem para ambiguidades: Hong Kong cresceu 10,7 por cento em doze meses. A Suíça, 7,6 por cento. São ritmos diferentes, velocidades distintas, futuros também eles divergentes.

Mas o que é que realmente transformou este equilíbrio secular?

A resposta é simples e profunda ao mesmo tempo: o dinheiro da China continental.

As entradas de capital vindas do continente representaram, em 2025, mais de sessenta por cento dos ativos sob gestão em Hong Kong. Não é um detalhe estatístico. É uma metamorfose estrutural. Estamos perante uma nova geração de riqueza chinesa que não nutre a mesma relação emocional com a Europa. Não há nostalgia bancária suíça. Não há reverência histórica aos cofres de Genebra. Há pragmatismo. E há proximidade – geográfica, cultural, linguística.

E não foi apenas o fluxo de capitais. Foi também o renascimento dos mercados de capitais.

A retoma das IPOs foi o segundo pilar deste crescimento extraordinário. Em 2025, Hong Kong levantou 272,1 mil milhões de dólares de Hong Kong (34,9 mil milhões de dólares) através de cem ofertas públicas iniciais. Apenas no primeiro semestre daquele ano, as cotações haviam já captado 182,9 mil milhões de dólares de Hong Kong em sessenta e sete listings – um aumento vertiginoso de 229 por cento nos fundos levantados e 49 por cento no volume de transações face ao ano anterior.

Isto é o que a Suíça não possui. Zurique não é palco de grandes cotações. Genebra não financia a criação de nova riqueza asiática. Hong Kong, sim.

Os ganhos nos mercados acionistas constituíram o terceiro motor. O Hang Seng recuperou com vigor em 2025, e os investidores que depositaram confiança na bolsa viram os seus patrimónios expandirem-se. Isso atraiu mais capital, que gerou mais volume, que atraiu mais gestores de fortuna. Um ciclo virtuoso que a Suíça não consegue replicar.

A Suíça foi sempre perfeita para guardar riqueza. Hong Kong revela-se perfeito para criar riqueza. E no mundo contemporâneo, criar vale mais do que guardar.

Mais de cento e oitenta e cinco mil famílias de alto património já confiam os seus ativos a bancos privados de Hong Kong. Cento e oitenta e cinco mil escolhas deliberadas. Cento e oitenta e cinco mil decisões que privilegiam o fuso horário certo, a cultura certa, o futuro certo.

Naturalmente, Hong Kong beneficia da sua posição única como ponte entre a China continental e os mercados globais. A proximidade ao maior centro económico do mundo representa uma vantagem estratégica inigualável. Para a nova elite asiática, essa conexão com Pequim não é um risco – é o garante de acesso a oportunidades, estabilidade e crescimento contínuo.

Esta transformação de paradigma é irreversível. A BCG é clara: dificilmente se inverterá nos próximos anos. O dinamismo económico asiático supera amplamente o europeu. A criação de nova riqueza concentra-se na Ásia. E onde há criação de riqueza, a gestão inevitavelmente segue.

A riqueza transfronteiriça global aumentou 8,4 por cento em 2025, atingindo 15,7 biliões de dólares. Os investidores diversificam. Mas diversificam para a Ásia, não para a Europa.

Hong Kong ultrapassou a Suíça. E isso não é apenas sobre dois centros financeiros. É sobre o fim de uma era suíça. E o início de uma era asiática.

A história, afinal, escreve-se mesmo com números.