A jornalista pôs a nu o escândalo do que se passa recorrentemente no aeroporto de Lisboa (e noutros), com atrasos de até 6 horas, velhos e crianças de pé, infernal circuito de maquinetas, tudo por causa do novo sistema de controlo de passaportes, uma pessegada originada na EU sob a designação de EES (Entry/Exit System), que não funciona. O que a pobre senhora (que aliás perdeu o voo, mas que o diabo a carregue que embora tenha nome de freira, Clarissa, é uma filha da pérfida Albion, essa ilha de traidores que abandonaram a UE) disse passou em todos os nossos canais e lá fora.
Não falta quem ache que já temos turistas a mais; quem entenda que temos polícias a menos; quem acredite que vão, já estão a ser, tomadas medidas, que farão efeito logo que façam efeito; que se os visitantes têm dinheiro para andar a passear de avião não lhes faz mal nenhum sofrerem para entrar no nosso país, que é um prémio que vale bem sacrifícios; e que podemos sossegar porque Luís Montenegro disse no Parlamento que “caso haja necessidade de suspender algum procedimento para garantir que nós temos, por um lado, segurança na entrada de pessoas e, por outro, que a nossa economia não é penalizada, quer do ponto de vista reputacional, quer do ponto de vista concreto, nós não excluímos nada nesta altura”.
Comecemos por aqui, pelo que disse Montenegro. Há um problema, reconhece, e o problema é grave desde logo para as pessoas que dele são vítimas, mas isso é um detalhe que não merece referência porque do que estamos a falar não é dos habitantes do espaço Schengen, é de Britânicos, que já entopem o Algarve que aquilo só visto, e de nacionais de alguns pequenos países europeus que não fazem parte da União e que com ela não têm acordos para este efeito. Ucranianos e Turcos, esses, fora da carroça porque, a bem dizer, só 3% do território da Turquia é que fica na Europa e a Ucrânia fica toda mas aquilo nem sequer se qualifica porque boa parte está em ruínas. De Americanos nem é bom falar, que o turista fala alto e não tem maneiras, para além de haver justificadas suspeitas de pelo menos metade ser trumpista. E o resto do mundo pode bem esperar, que isto aqui já está uma Babel. Portanto, que se espolinhem lá pelo chão que nós não estamos com vagar para nos ocuparmos disso.
É preciso garantir segurança na entrada. É. Mas como o problema só nasceu com a entrada em vigor das partes gagas europeias, decididas por um grupo de burocratas que ninguém conhece, ninguém elegeu, ninguém pode deseleger nem despedir, das duas uma: Ou o sistema anterior não garantia segurança nenhuma, e andávamos erradamente descansados, ou garantia e o que está aqui em causa não é a segurança mas a obediência. Obediência, no caso, de quem elegemos a quem nem sabemos quem é.
Esta obediência ninguém a vê por aquilo que é: Da UE vêm os subsídios que alimentam a máquina do Estado e um módico de investimento. Como o caso da Hungria demonstra, subsídios são só para alunos bem-comportados, atropelos ao Estado de Direito nem pensar. O controle das fronteiras tem a ver com a União porque elas não são nacionais para quem aderiu ao espaço, e portanto o controle delas também não é. Há lá coisa que tenha mais a ver com soberania do que permitir ou negar a entrada no espaço? Ora, soberania e Estado de Direito não são a mesma coisa mas violar os tratados é ofendê-lo, de modo que, para preservar subsídios senão a casa rui, o melhor é não esbracejar insolências.
Daí que para garantir que “a nossa economia não é penalizada” o melhor é penalizá-la desde já e depois logo se vê. A tal Clarissa será esquecida daqui a dias e os prejuízos ninguém os sabe medir. E, tudo visto e ponderado, as humilhantes cenas no aeroporto (humilhantes sobretudo para nós, que vamos esquecer os abusos e descasos, muito mais do que para alguns milhares de pessoas que deles se vão lembrar) até podem ser postas a render: Daqui a uns meses mais de metade dos 570 novos polícias da PSP vão ser colocados nos aeroportos, vai haver milhões para adquirir novos equipamentos e far-se-ão obras de ampliação das instalações, o que tudo, quando resultar, mormente se com jeito se puderem fazer inaugurações, proporcionará fartos exercícios de autocongratulação.
Montenegro declarou que “caso haja necessidade de suspender algum procedimento… nós não excluímos nada”. Exagero. Que na realidade foi excluída a única atitude razoável, que teria sido testar primeiro e aplicar depois ou, tendo cometido um erro, corrigi-lo imediatamente mesmo que isso ofendesse interesses, despertasse resistências e tivesse custos.
Esta é uma maneira de proceder: Agrade-se ao maior número, finja-se coragem política, troquem-se princípios por expedientes e eficiência por propaganda.
Funciona, a comunicação social compra, como não compraria decisão escorreita, genuína coragem para arrostar com incompreensão e ataques e o ocasional murro da mesa em vez do tradicional “agarrem-me senão eu mato-o”.
No dia em que este texto foi escrito a notícia era de terem sido destacados 48 agentes da PSP para a “próxima sexta-feira”, não se percebendo donde foram retirados. E como também vão encavalitar para lá uns barracos para dar despacho é possível que daqui a uns dias só se fale do aeroporto para dar notícia de uma saída ou chegada de Mourinho.
Fica que esta atitude é a mesma que preside a assuntos como, por exemplo, o da legislação laboral ou da reforma do Estado – umas coisinhas assim-assim para não desagradar verdadeiramente a ninguém, previsíveis vitórias parlamentares significando pouco ou derrotas sem que o que foi derrotado valesse verdadeiramente a pena.
As vitórias não interessam se a sucessão delas acabar numa derrota final; as derrotas têm a utilidade de deixar ficar uma semente que talvez possa vir a frutificar; e a habilidade de passar pelos pingos da chuva só funciona se o passeio for curto.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.