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Primeira regra deste clube de combate: falem dele e falem alto — uma noite com a WWE na MEO Arena

Durante cerca de três horas, a nata da luta-livre regressou a Portugal, onde a justiça se faz ao soco e o público verte emoção em decibéis. O wrestling pode ser ilusão, mas o que provoca é bem real.

António Moura dos Santos
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Quando William Shakespeare escreveu “Todo o mundo é um palco/E os homens e as mulheres só atores” na peça Como Queiram, dificilmente esperaria que alguns vestissem licra e sofressem pancada para nosso entretenimento e deleite. E, no entanto, citando outro poeta, o mundo pula e avança e, séculos depois, chegou até nós o wrestling profissional como síntese aprimorada de teatro e desporto, drama e capacidade atlética. Nesta noite de quarta-feira, pudemos presenciá-lo ao vivo na MEO Arena, com o regresso da WWE a Portugal.

A última vez que uma digressão da maior promotora de luta-livre americana do mundo passou pelo nosso país foi em 2017. Desde então, muito mudou na WWE: a gerência, a estratégia e até as estrelas. Mas mais importante ainda, muito mudou no wrestling em geral, que voltou a aumentar de popularidade, à boleia de novas organizações, de um renovado interesse noutras geografias e na própria necessidade da WWE de se atualizar perante a concorrência.

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O resultado é que, não sendo um evento de massas nem enchendo a MEO Arena — o balcão 2 não foi sequer aberto e os lugares alocados só estiveram perto de esgotar devido a uma baixa de preços —, foi possível sentir um entusiasmo contagiante que não se justifica apenas com saudades. Viu-se nas longas filas para comprar merchandising e, em particular, no tipo de público presente na sala lisboeta. Sendo uma modalidade tradicionalmente associada a homens, o próprio fulgor que o wrestling feminino tem vindo a gerar traduz-se numa cada vez maior presença de mulheres em eventos como este.

“Começámos a olhar para as mulheres como atletas que também tinham capacidades e não só como bonecas num fato reduzido. Esses continuam a existir, porque também fazem um bocadinho parte da mística, mas sem dúvida que agora são atletas e não manequins. Tornou-se mais inclusivo nesse aspeto”, conta Rita, de 29 anos, ao Observador. Mãe de duas filhas — que também já começaram a acompanhar o wrestling em casa —, ela e o companheiro vieram de propósito de Castelo Branco para ver este evento, constatando com agrado que não eram caso único. “Outra coisa que gostei muito de ver é que havia aqui muitos casais. Vêm juntos ao wrestling, já não é só o pai com o filho, é o marido com a mulher, isso é muito engraçado”, afirma.

Já vão longe os tempos em que colecionava autocolantes no seu dossier do 5.º ano e comentava os combates com os colegas da escola, mas a excitação mantém-se, pela “confiança dos lutadores”, a “química com o público” e o “espetáculo em si”. Rita veio a Lisboa com particular vontade de ver Rhea Ripley, wrestler australiana da sua idade que não só vai no quarto reinado como campeã feminina da WWE como é neste momento uma das caras da promotora, superestrela por direito próprio. Basta constatar como o público irrompeu em aplausos quando apareceu logo no início do evento para ajudar outras duas lutadoras de gabarito, Charlotte Flair e Tiffany Stratton, numa rixa contra uma facção vilã, as Fatal Influence.

Resultados do espetáculo:

Resultados do espetáculo:

  • Charlotte Flair venceu Jacy Jayne por desqualificação
  • Charlotte Flair, Rhea Ripley e Tiffany Stratton venceram as Fatal Influence (Jacy Jayne, Fallon Henley e Lainey Reid)
  • Penta manteve o WWE Intercontinental Title contra Dominik Mysterio
  • LA Knight venceu Austin Theory
  • Damian Priest venceu Solo Sikoa (acompanhado por Talla Tonga)
  • Seth Rollins venceu Bron Breakker numa “Lisboa Street Fight”
  • Je’Von Evans venceu Ethan Page
  • Danhausen venceu The Miz
  • Trick Williams manteve o WWE United States Title num combate Triple Threat contra Carmelo Hayes e Sami Zayn
  • Cody Rhodes manteve o Undisputed WWE Title contra Gunther

Já Gonçalo, de 31 anos, assume que tinha particular curiosidade em assistir a Cody Rhodes, o campeão da WWE, em ação. E não apenas porque é neste momento a maior estrela da companhia, mas também pelo seu curioso percurso. Filho de uma lenda da modalidade, Dusty Rhodes, Cody formou-se enquanto wrestler na empresa entre 2006 e 2016, mas saiu desgostoso com a estagnação na carreira e a falta de oportunidades. Entretanto, subiu de patamar na cena independente e no Japão, foi um dos fundadores da AEW — a principal rival da WWE — e regressou pela porta grande em 2022.

“Tornei-me num espectador diferente do que era há 20 anos, quando assistia mesmo pelo espetáculo, pela ilusão”, revela. Nessa altura, quando os programas davam em diferido com semanas de atraso na televisão nacional e não se podia ir à internet sob risco de descobrir que entretanto os campeões tinham mudado, foi quando Gonçalo começou a acompanhar. “Eu gostava de ver porque era uma cena meio underground, tinhas de ver às escondidas dos teus pais”, graceja. No entanto, entre a chegada da adolescência e a constatação de que a programação estava a ficar “mais ligeira e familiar” — ”de repente, ia ao supermercado e os estojos tinham a cara do John Cena”, desabafa —, começou a perder interesse quando deixaram de “ser novelas para homens para ser novelas para a família”.

O regresso deu-se em 2016, curiosamente num período em que Gonçalo acredita que a WWE estava a passar por uma das suas piores fases criativas, com más decisões e histórias pouco inspiradas. Mas aí, já adulto, passou a encontrar outras coisas para apreciar no wrestling. “Agora também acho piada ao fenómeno que está por trás, de saber que os árbitros são importantes para a condução dos combates ou que há decisões políticas [no sentido da gestão empresarial] que parecem não fazer sentido nenhum do ponto de vista do espetáculo, mas fazem. No fundo, se calhar já tenho uma perspetiva de negócio que incluo na minha forma de ver”, constata.

Gonçalo refere-se aos “pushes” que os atletas recebem, gíria do wrestling [consultar o glossário] para descrever quando um lutador é promovido a uma posição proeminente, lutando por títulos ou participando em “main events” porque a liderança considera que está a ganhar popularidade perante o público. Ou então é um vilão particularmente desprezível que dá vontade de ver falhar, parte integral da psicologia da modalidade. “É uma forma de storytelling muito única. Acho que é, talvez, a única que tem uma programação constante ao longo de décadas, em que as coisas têm continuidade narrativa”, defende.

No wrestling, a campeã é a suspensão da descrença

Em 2026, julgar ou repreender alguém por gostar de wrestling com o pretexto de que é “falso” ou que é encenado é o mesmo que avisar solenemente para não se perder tempo com espetáculos de ilusionismo porque a magia não existe: são observações que motivam a mesma reação, “sim, e então?”. O que Gonçalo contou ao Observador é prova disso: de que para lá do que se passa no ringue, a graça de acompanhar o wrestling é tentar perceber como é que as histórias vão progredir, se este ou aquele lutador vão finalmente ter uma oportunidade de lutar por um título.

Mas, no final de contas, é mesmo devido ao que se passa entre aqueles quatro conjuntos de cordas que o público acorreu à MEO Arena. Só que o que se passa no interior de um ringue vai muito para lá de falsas questões de autenticidade, porque é a suspensão da descrença que reina. Ao contrário do que ainda se possa pensar, ninguém presente estava convencido de estar a assistir a combates como os de boxe ou MMA. Mais ainda: sendo um “house show”, não existia sequer a perspetiva de estar perante decisões com peso narrativo para a história. Nesta noite, todos os bons da fita venceram e nenhum dos campeões perdeu o seu título. Mas é aí, paradoxalmente, que reside o encanto deste evento.

Glossário de termos de wrestling

  • Angle: É um enredo que envolve vários wrestlers, de duração variável — pode ser algo que dura um par de meses ou que se estende durante anos, depende do quão bem recebido é pelos fãs. As suas motivações podem desde a disputa por um título a uma história de vingança ou a uma simples narrativa do “bem” contra o “mal”. Regra geral, os “angles” são resolvidos narrativamente em combates.
  • Babyface ou Face: É uma personagem boa, pela qual o público deve torcer. É semelhante aos heróis ou aos protagonistas de peças, filmes ou séries televisivas.
  • Blading: Consiste no ato de um lutador cortar-se com uma lâmina e começar a sangrar durante um combate. Normalmente é feito com o propósito de tornar a disputa mais dramática e “vender” um ataque particularmente violento, com recurso a uma lâmina ocultada por um dos lutadores. Este tipo de cortes costuma ser feito na testa, porque é uma zona do corpo que sangra muito mas onde as feridas saram rápido, além do sangue misturar-se com o suor para fazer parecer o ferimento pior do que realmente é. É uma prática historicamente controversa e ainda hoje proibida por algumas promoções.
  • Booker: É um misto de programador com guionista. Os “bookers” são quem escreve os enredos a envolver os diferentes lutadores e decide quem ganha, quem perde e como é que os combates devem desenrolar-se e terminar. Além disso, são também quem estrutura os programas televisivos e os espetáculos ao vivo, como que tipo de combates devem acontecer e qual a sua ordem de ocorrência.
  • Championship Title: Como o nome indica, são os títulos de campeão disputados pelos lutadores em combates. No entanto, ao contrário do que acontece em modalidades desportivas, não são ganhos ou perdidos em competição desportiva, mas por decisão dos “bookers” por motivos narrativos ou porque entenderam que determinado lutador vencer determinado título irá gerar interesse dos fãs.
  • Gimmick: É a personagem ficcional dos wrestlers. Uma “gimmick” determina não só a sua personalidade, como também os seus dados biográficos e até o seu nome. As “gimmicks” podem ser mais realistas — o filho de um lutador que quer seguir as pisadas do pai — ou mais caricaturadas — um coveiro com poderes sobrenaturais. Um lutador pode manter a mesma “gimmick” tornando-se vilão ou herói, depende se as novas motivações fazem sentido consoante a sua personagem. “Gimmick” também se refere a um combate com determinadas estipulações — um combate numa jaula de ferro, por exemplo, é um combate com uma “gimmick”.
  • Heel: É o mau da fita, semelhante aos vilões ficcionais. A sua vilania normalmente não se manifesta apenas no caráter, mas também na conduta durante os combates: os “heels” normalmente são mais violentos e/ou fazem “batota”, como recorrer a golpes baixos quando o árbitro não está a ver.
  • Kayfabe: É não só o universo narrativo do wrestling, mas também o princípio da ilusão em que os lutadores e outras figuras atuam como se não estivessem a interpretar personagens e que o que está a acontecer não é parte de um guião. Manter “kayfabe” significa, por exemplo, um wrestler continuar a encarnar a personagem quando vai a um evento público, como um talk show. Até meados dos anos 90, o princípio do “kayfabe” era sagrado e inviolável — deixar cair a personagem podia resultar em despedimento — e estendia-se à vida privada dos lutadores. A chegada da internet e uma série de incidentes precipitaram a entrada numa era onde, regra geral, o “kayfabe” é mantido apenas durante os programas e os espetáculos — vários wrestlers, por exemplo, têm contas nas redes sociais com o seu nome civil.
  • Mark: É o fã elementar de wrestling, que encara o que vê como se não fosse encenado ou que genuinamente não tem consciência de que é encenado. O termo é por vezes utilizado de forma pejorativa para descrever fãs crédulos ou sem capacidade crítica. “To mark out” significa reagir a alguma coisa como se fosse verdade, suspendendo a descrença.
  • Over: É a popularidade junto do público. Estar “over” com os fãs significa que se é uma personagem capaz de produzir a reação pretendida, o que não se cinge às personagens “boas”. Se com os “faces” significa receber aplausos e entusiasmo, com os “heels” trata-se da capacidade de gerar apupos e repúdio — se bem que alguns “maus da fita” são também capazes de gerar aplausos, tudo depende das particularidades de cada personagem e da sua relação com o público.
  • Put over: É o que acontece quando um wrestler aceita perder para que outro se torne mais popular. O ato normalmente acontece quando um lutador mais conceituado deixa-se derrotar por outro de nível inferior para que essa vitória o consagre.
  • Promo: Uma abreviação de promocional, em si mesmo uma referência a uma entrevista ou a um momento em que um lutador interage com o público e/ou com outros lutadores por meio de uma conversa ou de uma declaração para avançar uma história ou rivalidade. No fundo, são os momentos nos programas e nos espetáculos em que não há combates. Saber fazer boas “promos” requer dons de oratória e carisma, já que implica encarnar uma personagem ao vivo de forma convincente e em tempo real.
  • Push: O ato de promover determinado wrestler, dando-lhe tratamento preferencial. Quando um lutador recebe um “push” (ou seja, um “empurrão”), significa que vai passar a ter mais tempo televisivo, vai passar a ganhar mais combates e, inclusive, pode vencer um título. Normalmente as promotoras de wrestling dão “pushes” a atletas vistos como promissores, populares com os fãs (estão “over”) e/ou que demonstrem rentabilidade (ou seja, a sua presença em programas e espetáculos resulta em maiores audiências e vendas de bilhetes, respetivamente). O contrário de receber um “push”, ou seja, de ser promovido, é ser “buried” (ou seja, ser “enterrado”).
  • Selling: É o ato de “vender” a ofensiva do adversário. O melhor “selling” é aquele que faz parecer os ataques e as ocorrências do combate parecerem o mais realistas possível.
  • Shoot: Quando alguém foge ao guião e menciona algo real, ou seja, que é referente à vida real dos intérpretes e não ao universo narrativo da história — o chamado “kayfabe”. Um “shoot” pode também acontecer quando alguém quebra a ilusão narrativa e aborda diretamente o processo criativo dos bookers ou à realidade dos bastidores no wrestling profissional. “Shoot” pode ser ainda uma referência a um wrestler usar uma manobra de combate real, ou seja, deliberamente empregue para magoar o adversário — chama-se a isto “shoot fighting”.
  • Smark: É a palavra composta de “smark mark”, utilizada para descrever os fãs que gostam de wrestling sabendo que é encenado. No entanto, também é utilizado para os fãs muito ativos online, que estão interessados no funcionamento da indústria — por exemplo, gostam de saber da situação contratual dos lutadores — e tentam prever que decisões criativas é que os “bookers” vão tomar. É também utilizado de forma pejorativa para o tipo de fã incapaz de suspender a descrença e apreciar o produto.
  • Spot: Qualquer ação ou série de ações planeadas num combate. Pode ir desde uma sequência de manobras específicas até à utilização de armas ou à intervenção externa de outros lutadores. Por exemplo, atirar alguém para cima de uma mesa e parti-la é um “spot”. Porém, nem tudo o que acontece num combate é um “spot”, há muito que é improvisado no local pelos lutadores, dependendo da química que têm a lutar.
  • Turn: É o momento em que uma personagem boa se torna má (“heelturn”) ou uma personagem má se torna boa (“faceturn”). Pode ser um “hardturn”, quando se trata de uma reviravolta súbita, ou ou “softturn”, quando vai acontecendo ao longo do tempo, com essa viragem a ser subtilmente prenunciada.
  • Work: É o contrário de um “shoot”, ou seja, é tudo o que faz parte do universo narrativo do que está a acontecer e já estava planeado. Por outras palavras, acontece em “kayfabe”. Vem do termo “work the crowd”, ou seja, “trabalhar o público”, fazê-lo crer que o que está a acontecer é real.
  • Worked Shoot: Está nas linhas cinzentas do que é real e do que é ficcional no wrestling. Um “worked shoot” normalmente é um evento ou uma ação em que alguém revela ou menciona aspetos da vida privada dos lutadores e/ou do funcionamento da indústria, parecendo que está a fazê-lo à revelia da chefia e dos bookers quando, na verdade, é algo planeado. A sua natureza dúbia faz desta uma ferramenta utilizada para gerar interesse dos fãs.

Quando se assiste a um evento “canónico”, isto é, parte da programação habitual, há uma exigência quanto à qualidade dos combates, a frescura e a coerência narrativa das histórias, ao novo e ao inesperado. Num “house show”, o que as pessoas querem é festa e fazer parte de um ritual partilhado, onde o cliché é celebrado porque é um signo de união entre todos os presentes. Na MEO Arena, toda a gente se riu quando o árbitro expulsou um dos capangas de Solo Sikoa depois de ter agredido Damian Priest à socapa mais do que uma vez, porque isso é hilariantemente recorrente — o vilão que está a acompanhar um comparsa do lado de fora do ringue tenta sempre fazer batota e bater no adversário, sendo que toda a gente vê menos o juiz. Só quando é apanhado com a boca na botija é que o árbitro o manda para o balneário.

Da mesma forma, uma mesa é uma Arma de Chekhov do wrestling, porque cada vez que alguém a desencanta num combate, mais tarde ou mais cedo um dos lutadores vai ter o infortúnio de testar a sua resistência com o corpinho. E se for o wrestler que a retirou debaixo do ringue, há ainda a vantagem de fazer-se justiça poética. Não foi bem o que aconteceu esta noite, pois foi Seth Rollins quem a encostou a um canto do ringue durante uma “Street Fight” [um combate onde vale tudo] contra Bron Breakker; pelo contrário, foi Austin Theory, ao interferir na disputa para tentar ajudar o amigo Bron quem inadvertidamente foi placado contra o contraplacado.

Dá gosto que, como esperado, Dominik Mysterio seja tão irritante que todo o edifício o apupe com a mesma veemência com que um árbitro é brindado num estádio ao marcar um pénalti duvidoso contra a equipa da casa. Ou que The Miz insulte o público português na nossa língua, chamando-nos “estúpidos” ou dizendo que odeia Portugal num sotaque macarrónico. Ou mandar Austin Theory para aquela parte com linguagem irreproduzível neste texto. Tal como é satisfatório cantarolar em uníssono as partes mais orelhudas dos temas de entrada dos lutadores ou repetir 20 vezes a frase icónica do luchador Penta, “cero miedo” [“zero medo”]. Ou ainda repetir a maldição que Danhausen, diabrete que se tornou num fenómeno de popularidade na WWE, atira sobre os seus adversários.

Com tudo isto, não se descuram, naturalmente, os feitos atléticos dos wrestlers, desde Damian Priest, com os seus quase dois metros de altura e 110 quilos a equilibrar-se em cima de uma corda qual Philippe Petit, até ao Figure Eight de Charlotte Flair, no qual executa uma manobra de submissão ao mesmo tempo que faz uma ponte. E o que dizer de Je’Von Evans, que parece ter molas nos pés, tal a capacidade de dar pontapés acrobáticos e piruetas? Ou do combate entre Carmelo Hayes, Sami Zayn e Trick Williams, o melhor da noite, onde os três quase nos convenceram de que podia haver uma surpresa no desenlace, tal o calibre das sequências de golpes?

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Ainda assim, para o espectador mais rigoroso, terá sido impossível não reparar que, de forma generalizada, os wrestlers estiveram a operar entre o meio-gás e os 70%, compreensível dada a exigência de uma digressão a lutar vários dias de seguida. Sim, alguns ataques não tiveram o impacto desejado, houve murros e pontapés que visivelmente não atingiram o alvo, mas isso é também parte da beleza de um espetáculo destes: ninguém está a levar-se muito a sério. “Temos muito mais liberdade. Os house shows são um momento para irmos ao encontro das pessoas para quem fazemos o espetáculo”, contou-nos Lyra Valkyria (que infelizmente não esteve presente) na antevisão deste evento. “São um grande argumento a favor das pessoas virem, mais do que ver na televisão, porque estamos tão entusiasmados”, completou, e esta noite deu-lhe razão.

Mas houve, ainda assim, uma exceção, algo que o público português levou muito a sério nesta noite: a vontade de garantir que não espera mais nove anos por outro espetáculo. Sem entrar em patriotismos bacocos, podemos afirmar que todos os presentes na MEO Arena transmitiram uma quantidade de energia aos atletas ao nível do que se vê noutros países europeus. Quando não havia cânticos, havia reações efusivas; quando não havia reações, havia cânticos a plenos pulmões.

“Eles vão escrever um relatório sobre este evento lá atrás [nos bastidores], mas isso é só papel. Eu quero que os altos responsáveis da WWE, o Nick Khan e o Triple H, vejam como é que vocês fazem em Portugal”, afirmou Cody Rhodes ao microfone, depois de derrotar Gunther. “Já disse isto no passado e é importante que nunca venha a mentir quanto a isso. Querem que a WWE volte? E talvez com um espetáculo ainda maior? Então agora é a vossa oportunidade de fazerem barulho”, atirou, resultando num rugido na sala. “Posso afirmar com toda a certeza que voltarão a ver-me”, prometeu.

Será que é uma promessa razoável, quanto mais exequível? Temos dúvidas, mas sonhar não custa. Tomemos por inspiração uma frase ouvida à entrada da MEO Arena antes de o evento começar: “[O wrestling] É daquelas coisas que achei que me ia passar aos 30… Tenho 31 e ainda estou aqui”. Que venha de lá então essa WrestleMania em Lisboa quando fizer 40.