A história é conhecida. Em As Novas Roupas do Imperador, de Hans Christian Andersen, escrito em 1837, conta-se a fábula centrada num imperador vaidoso, obcecado por roupas e aparência. Certo dia, dois vigaristas chegam à corte e prometem tecer-lhe um tecido tão maravilhoso, especial, mágico mesmo, que permaneceriA invisível aos olhos dos tolos, estúpidos e demais indigentes mentais. O imperador compra a ideia, claro, isto apesar de, na verdade, os meliantes não tecerem nada, apenas fingirem trabalhar com fios inexistentes. Não obstante, o imperador, os ministros, junto com toda a corte, com medo de serem considerados estúpidos, acabam a fingir admirar as roupas imaginárias, sendo assim que, no dia do grande desfile, o impensável acontece com o rei a sair nu pelas ruas, enquanto o povo elogia a suposta beleza do traje. No final, é uma uma criança, inocente, que tem a capacidade para gritar a verdade que se desenrolava à vista de toda a gente: “o rei vai nu!”. Apenas aí, a multidão acaba por admitir o óbvio, assim se expondo de uma penada a vaidade, a hipocrisia colectiva e o medo ígnaro da corte.
É uma fábula clássica sobre honestidade, a bajulação, a capacidade da sociedade, em particular a elite, por conveniência, viver hipocritamente uma farsa comummente aceite, bem como, o poder da verdade, em particular nas mãos dos inocentes, para desmascarar a dissimulação interesseira. Naturalmente, como fábula que é, a história tem um fundo de verdade. Aliás, tem sido, ao longo das décadas, uma inesgotável fonte de reflexão sobre a capacidade humana para a negação da realidade, o conformismo, o medo da exclusão social e a vaidade narcísica que inevitavelmente habita o coração humano. Psicologicamente, a história ilustra o autoengano, a conformidade social e a dificuldade que os adultos sentem em admitir a verdade, tolhidos por recalques, vaidade e a premente necessidade de pertença.
Mais tarde, a experimentação psico-analítica veio dar mais corpo ao fundo de verdade que, ainda que por todos intuído, perpassa pela fábula quase que disfarçado pelo exagero da farsa. Primeiro, a experiência de conformidade de Solomon Asch, levado a cabo nos anos 50, permanece uma das lições mais incómodas sobre a natureza humana. Nela, os voluntários julgavam estar a participar num inocente teste de percepção visual, comparando o comprimento de linhas — tarefa tão elementar que quase não admitia erro. Porém, rodeados por cúmplices do experimentador que, com ar sereno econvicto, apontavam sistematicamente de forma unânime para uma resposta manifestamente errada, muitos participantes acabavam por dar essa mesma resposta falsa.
Não se tratava, portanto, de errar: tratava-se de se conformarem. Cederam à pressão invisível do grupo, traindo o que viam com os próprios olhos para não parecerem diferentes, tolos ou fora do coro unânime que os rodeava. Cerca de 75% dos participantes conformaram-se pelo menos uma vez, calando-se sobre o absurdo da resposta dada, e, quando instados a responder, em média, um terço das respostas foram erradas por efeito dessa mesma submissão social. Quando testados sozinhos, quase ninguém falhava. A experiência ilustra, portanto, com cruel clareza, o mesmo mecanismo que faz a corte inteira admirar as roupas inexistentes do rei: o medo de destoar pesa mais do que a evidência nua e crua da realidade.
Não menos inquietante, e quase como um prolongamento natural da lição de Asch, surge a experiência sobre desobediência de Stanley Milgram, levada a cabo em 1961 na Universidade de Yale. Enquanto Asch revelava como o Homem se dobra perante a pressão do grupo, Milgram expôs algo ainda mais sombrio: a facilidade com que nos rendemos à autoridade. Nessa nova experiência, participantes comuns, convencidos de estarem a colaborar num estudo sobre aprendizagem, eram instruídos por um experimentador de bata branca a aplicar choques elétricos cada vez mais intensos num “aluno” (na verdade, um actor) que simulava dor e, mais tarde, silêncio aterrorizador. Apesar dos gritos de agonia e dos protestos, 65% dos participantes chegaram aos 450 volts — nível marcado no manípulo como perigoso e potencialmente letal —, simplesmente porque uma figura de autoridade lhes ordenava que continuassem repetindo a frase quase distópica: “a experiência exige que prossiga.” Poucos anos depois do horror exposto pelos julgamentos de Nuremberga, Milgram demonstrou que a obediência cega à autoridade pode transformar gente comum em instrumentos de atrocidade, ecoando na fábula do Rei Vai Nu a mesma cobardia moral: não é preciso acreditar na mentira; basta não ter a coragem de desafiar quem detém o poder.
Esta terrível constatação de Milgram encontra eco profundo na célebre tese de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal, forjada poucos anos depois, em 1963, durante o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. Enquanto a experiência de Yale mostrava pessoas comuns dispostas a torturar um inocente sob mera ordem de um homem de bata branca, Arendt observava que o grande criminoso nazi não era um monstro demoníaco, mas um funcionário medíocre, burocrático e assustadoramente normal, que organizou a morte de milhões sem qualquer particular ódio — apenas por obediência cega, ausência de pensamento crítico e uma assustadora incapacidade de colocar-se no lugar do outro. Tanto Milgram como Arendt desmontam a ilusão romântica de que o mal nasce apenas de naturezas perversas: ele surge, mais frequentemente, da combinação letal entre autoridade desumanizada e a recusa de pensar por si próprio. Na fábula do Rei Vai Nu, como na vida real, não são necessários vilões grandiosos; basta gente vulgar, bem-educada e conformada, pronta a aplaudir o imperador nu ou a carregar o comboio para Auschwitz, desde que alguém acima lhes diga que é o procedimento correto.
Politicamente, é certo, Andersen — ele próprio um eterno outsider — construiu uma sátira devastadora contra o autoritarismo, a bajulação cortesã, a hipocrisia do poder e o conformismo das massas: líderes vaidosos fingem competência, as elites aplaudem e o povo, por medo ou interesse, entra na ilusão colectiva, até que uma voz marginal ousa dizer o que todos sabem. É, em suma, uma parábola eterna sobre como o medo da exclusão sustenta ilusões colectivas, tanto nas profundezas da psique individual como nas estruturas do poder. E, acima de tudo, a fábula detém a capacidade de, apesar de forma ridícula, tocar num dos pontos mais incómodos para o ser humano — a facilidade com que, consciente ou inconscientemente, nos subjugamos ao colectivo.
Não deveria, portanto, ser propriamente heresia, apontar que toda a actual narrativa dos “consensos”, dos perigos do “negacionismo”, ou o apelo à luta contra os tenebrosos perigos da “desinformação” —das diversas elites políticas europeias — tresanda a estrume retórico, para uma analogia agrícola, outra forma menos elegante de descrever os tais fios imaginários que teceriam veste mágicas ou, no campo da política, as famosas utopias onde seres humanos vivem, coabitam e tudo partilham em harmónica e quimérica harmonia.
Nada disso, como é óbvio, existe. Ainda assim, porque se tratam de narrativas — um eufemismo para propaganda — propaladas em uníssono pelos poderes políticos, os grandes agentes económicos, a esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social, assim se satura o espaço público de uma ilusão de unanimidade sobre os mais diversos assuntos — desde a patética e apocalíptica certeza da “emergência climática” que nos vai torrar a todos nos próximos 10 anos, passando pela ideia abstrusa que a certificação pública garante “verdade científica”, ou a bondade intrínseca da governação tecnocrática dos burocratas — que impõe nas mentes mais incautas a naturalidade, e autoridade moral, do conformismo social.
De facto, os interesses, o dinheiro, as conveniências, tal como na corte do imperador, podem muito. Na Europa, aquela “civilizada Europa” que nos vendeu a modernidade, o progresso e a liberdade, convencem-se hoje as massas de que tudo está bem; isto, apesar de nos últimos 20 anos se ter esboroado todo e qualquer resquício dos princípios fundadores da integração europeia: subsidiariedade, agora substituída por centralismo burocrático, mercado livre, agora tornado fechado, hiper regulado, centralmente planeado, liberdades individuais, entretanto revistas como perigosas afrontas às alegadas virtudes da “verdadeira” democracia, e as soberanias nacionais, ora subalternas, não apenas do carimbo certificador de Bruxelas, mas, pior, da autorização moral que do Berlaymont vai definir a moral e os bons costumes — progressistas, profundamente ideológicos, anti-científicos disfarçados de ciência — da totalidade dos estados-membros. Os resultados, também eles evidentes à vista de todos, consubstanciam-se, no entanto, numa irrelevância económica e geopolítica no mundo que, ainda há poucos anos, se pensaria impossível, mas da qual todos os poderes políticos e mediáticos europeus se recusam a “ver” — a fábula, naturalmente, explica.
Já em Portugal, o conformismo, porventura por ser hábito mais antigo, refinou-se no âmago da psique colectiva nacional. Nada, portanto, destoa, ou deve destoar, em particular a necessidade de negar o óbvio e afirmar o impossível: que Portugal é um país onde as instituições funcionam razoavelmente, onde a riqueza se produz e distribui de forma aceitável, um país moderno assente num espaço público sério, capaz, que passa a vida a discutir, analisar e projectar o futuro do país. Nada disto, obviamente, é verdade, e toda a gente vê: as instituições definham lentamente, a miséria social, moral e política abunda, nada se define a tempo e horas, menos ainda se organiza de forma detalhada e planificada, quedando-se o país num impasse permanente, perdido no tempo.
No Portugal real, desde Cavaco Silva que não se discute de forma substancial o futuro. E também desde Cavaco, com a excepção de Passos Coelho, não há um governante duradouro que tenha tido a capacidade de colocar os interesses do país à frente dos eleitoralismos e conveniências políticas do momento. Considerando que os esforços de Passos se esgotaram numa situação de emergência, são 30 anos de marasmo nas mãos de uma elite política, intelectual e mediática, no mínimo, para ser simpático, profundamente incompetente: tudo isto é óbvio, mas, tal como as vestes do imperador, porque revelam a abjecta hipocrisia das elites portuguesas, não se pode discutir.
Daí, sobra a farsa constante em que o espaço público vive, e da qual é incapaz de sair: discutir aos berros, no meio de uma multidão patética de “comentadores” cuja única virtude é conseguir fazer parecer que pensam em profundidade as mais risíveis banalidades, normalmente copiadas à pressa do mainstream mediático estrangeiro, assim se criando a ilusão de que em Portugal se discute o país com afinco, desapego pessoal e fervor patriótico.
Do mesmo modo, e tal como na fábula, a farsa rebenta quando a virtuosa inocência se levanta e questiona o óbvio, aquilo que toda a gente vê, mas que ninguém admite. Apenas que em Portugal, porque o espaço público está saturado com os bonecos falantes que repetem e papagueiam o guião, não há espaço para grandes perguntas incómodas ao poder. Pelo contrário, as conveniências partilhadas levam a que, apesar dos ocasionais arrufos em que, zangando-se as comadres, os podres se conhecem, não haja grande memória colectiva e, por essa mesma razão, qualquer necessidade de coerência política, tal como especial pudor moral. A política, apesar da berraria constante, segue, pois, impávida e serena perante a ilusão de grandes alternativas que depois, magicamente, nunca se concretizam.
Isto, claro, até que Passos Coelho fale. Aí, tudo muda. Precisamente porque fala do que é, tal como daquilo que toda a gente sabe que deveria ser, os pirilampos mediáticos que compõem o espaço público ficam desnorteados pela simplicidade com que o ex-primeiro-ministro, obviamente sabendo do que fala, com pensamento estruturado e aprofundado do micro até ao macro — tudo isto uma raridade no deserto intelectual português —, expõe a farsa em que a grande maioria dos agentes político-mediáticos aceita viver. Essa será, portanto, a verdadeira razão pela qual o país treme cada vez que Passos, com a serenidade de quem sabe pensar, falar e projectar de forma clara e acessível, resolve vir a público, como a criança na fábula, revelar a nudez generalizada.
É que, em Portugal, não é apenas o rei que vai nu. Não. É também a pandilha mediática e política toda, tal como os diversos chefes de corporação, ou as diversas sumidades da análise e do comentário. Eis, em suma, a verdade inconveniente que Passos revela a quem o ouve liberto dos grilhos do conformismo acéfalo nacional: que o Portugal político e mediático não passa de uma colónia de nudistas.
Não será, portanto, de estranhar o estrebuchar, o desespero, o ódio, na maior parte dos casos mirabolante e ridículo, daqueles que, por interesse na situação, vêm afoitamente destratar Passos Coelho. Afinal, como negar o óbvio e defender a farsa generalizada sem cair na desonestidade política e moral? E assim se explica toda a patética tentativa de trazer Passos para o nível indigente em que toda essa gente vive, e sobrevive: desde a lógica risível de desafiar o ex-primeiro-ministro para “directas” no PSD — naturalmente, só para mentes limitadas ao conformismo generalizado a crítica é incompreensível sem perniciosas e escondidas motivações de interesse próprio — até ao desfile de jornaleiros, académicos e políticos que apregoam o “desespero”, a “morte política”, a “traição” de Passos.
É preciso, portanto, relembrar a fábula para desmascarar a farsa. Porque é quando passa o cortejo e se veem as carnes nuas e putrefactas das supostas elites que toda a histérica união contra Passos se revela evidente e muito clara: em Portugal, pior que a natural tendência das elites para a bajulação, o compadrio e a corrupção que Andersen denunciou, grave mesmo é que apenas haja uma única pessoa com a capacidade de fazer parar o cortejo de lunáticos e, falando verdade ao poder, revelar a nudez generalizada — algo que os nudistas, compreensivelmente, não apreciam.