Como sabemos o que julgamos que sabemos? Hoje, sobretudo através do miradouro da Internet e ferramentas como o Google – tanto a nossa cábula como a nossa bola de cristal. Ou seja, mentores eletrónicos. A chatice é quando a informação online degenera numa espécie de Omo digital, com lavagens cerebrais que lobotomizam cabecinhas ocas.
Nos telemóveis, pela primeira vez uma enciclopédia cabe na algibeira. Aliás, os tlm vêm com lanternas, e a enciclopédia floresceu na Era das Luzes. Primeiro com L’Encyclopédie, manual de instruções do iluminismo, cujos ases eram chamados enciclopedistas e apascentavam a humanidade rumo ao porvir radioso do Racionalismo (pena que alguns desses crânios perderam a cabeça nos barbeiros da guilhotina, incluindo Lavoisier, o pai da Química).
Com os curadores Diderot e d’Alembert, L’Encyclopédie empregou 150 dos maiores miolos à mão de semear, como Voltaire e Rousseau, em 28 volumes e 72 mil verbetes. Era uma teoria de tudo: do Absolutismo ao fabrico de geleias. Quem não achou piada nenhuma (não por causa das geleias, mas do Absolutismo) foi Luís XV, que proibiu a obra. Diderot foi salvo pela imperatriz russa Catarina, que deu-lhe boleia para São Petersburgo. Mas essas coisas nunca correm bem: 100 anos antes, Descartes, outro génio francês, fora resgatado pela rainha sueca Cristina, que o obrigava a picar o ponto às 5 da madrugada no briol de Estocolmo. Penso, logo desisto: Descartes morreu de pneumonia e, católico num país protestante, foi enterrado num cemitério de crianças não batizadas. C’est la vie.
Do outro lado da Mancha, despontava a enciclopédia Britannica, lançada em fascículos mensais em 1768, em Edimburgo. Chegou a 32 volumes, em 33 mil páginas. Desde 2016 deixou os seus leitores aos papéis, pois é publicada só em formato digital. A edição icónica é a 11.ª, com um dream team de colaboradores: Marie Curie (verbete “Radioatividade”), Trotsky (“Lenin”), Albert Einstein (“Relatividade”), Bertrand Russell (“Lógica”), Ernest Rutherford (“Átomo”), Sigmund Freud (“Psicanálise”) e – já agora… – Harry Houdini (“Magia”).
Com o advento da informática, a Encarta foi uma popular enciclopédia multimédia em DVD. Surgiu em 1993, e (para usar aquele eufemismo macabro) foi “descontinuada” em 2009, eclipsada pela gratuita Wikipedia (à borla, até autocarro errado e injeção na testa).
O pontapé de saída da Wikipedia (W.) foi em 15 de janeiro de 2001, dado por Jimmy Wales e Larry Sanger. Wiki é um termo havaiano para veloz. A W. nasceu online e “interativa” – a sua força e a sua fraqueza: qualquer caramelo pode editá-la. O projeto, sem fins lucrativos, funciona graças a mais de 50 milhões de voluntários, que dedicam 5,8 horas semanais a verificar, validar e reformular 65 milhões de páginas em 340 idiomas. A tarefa é ciclópica: 15.000 artigos são adicionados à plataforma todos os meses.
Antes que um gajo conseguisse balbuciar “paralelepípedo”, a W. entronizou-se como um dos 10 sites mais visitados do mundo, consultada pelo Zé das Couves e pela intelligentsia – o ficcionista francês Michel Houellebecq admitiu ter copiado e colado uma passagem da W. no seu romance La Carte et le Territoire. Bem, pelo menos ele não foi apaparicado por nenhuma rainha.
Os estatutos da W. ditavam que todo o seu conteúdo adotasse um ponto de vista neutro (NPOV), apresentando de forma justa e proporcional todas as perspectivas sobre um tópico, em fontes verificáveis. Descrever polémicas, sem participar delas. Informar, não influenciar. Não confundir opiniões com factos.
Claro que a objetividade humana absoluta é uma quimera, como atesta a ciência mais modernaça, como o princípio da incerteza de Heisenberg: o observador afeta o que é observado. Todos temos pontos cegos, até inconscientes. Como notou Anais Nin, “não vemos os outros como eles são – vemo-los como nós somos”. Obviamente, não significa que tudo seja relativo e não haja nunca nem certo nem errado (campo de concentração ou spa? Ah, gosto não se discute!). Uma enciclopédia deve empenhar-se na isenção, expondo a informação disponível e permitindo que o leitor tire as suas conclusões.
Só que brotou a polarização atual, o beligerante “nós contra eles”, o lado certo da história contra os quintos dos infernos, o fanatismo maniqueísta que erige um mero lapso ou uma inocente anedota numa “casus belli”, num crime de lesa-humanidade. E a W. estampou-se ao comprido.
Um quarto de século depois, os fundadores Wales e Sanger agora reencontraram-se para lavar a roupa suja sobre a lavagem cerebral da criatura deles. Como exemplo, apontaram o artigo “Genocídio em Gaza”, com a “wikivoice” (a própria voz da W., em vez de um resumo de outras opiniões) a bradar que o genocídio em Gaza é um fato em curso: a aniquilação contínua, intencional e sistemática dos palestinianos.
O tema é tão melindroso que a designação “Artigos sobre Palestina-Israel” (PIA) já é usada como sinónimo para resolução de disputas. Wales e Sanger expuseram um grupo de editores anti-Israel — a “Gangue dos 40”. Operando em pequenos grupos, esses ativistas gorgolejaram mais de 1 milhão de edições em cerca de 10.000 artigos PIA. Assim, reformularam o texto “Sionismo” e bloquearam-no para novas edições, o que nunca acontecera. Em centenas de casos, as edições da Gang 40 representam mais de 90% do conteúdo de um artigo.
O 7 de outubro, com as atrocidades sádicas do Hamas, corria o óbvio risco de abalar a causa palestiniana. Um outro grupo digital, Tech For Palestine (TFP) — fundado em janeiro pelo irlandês Paul Biggar, com 8 mil membros – , sabotou a W. através de um canal do Discord. No artigo “Judeus ”, foi removida a expressão “Terra de Israel”, fundamental sobre a origem dos hebreus.
Casa roubada, trancas à porta? A W. decidiu banir o líder da Gang 40, intitulado Iskandar323, que expurgou inúmeros artigos sobre o Hamas. Seis semanas após o 7 de Outubro, ele eliminou do verbete “Hamas” a menção à Carta de 1988 da fundação do grupo terrorista (que preconizava o extermínio de judeus e a aniquilação de Israel), do artigo “Hamas” (essa edição permanece intacta até hoje).
Outro artigo da W. adulterado pela Gang 40 foi sobre Haj Amin Al-Husseini, o Mufti de Jerusalém, figura crucial na história palestiniana nas décadas de 1920 a 1950. Tratou-se de apagar ou turvar a íntima colaboração dele com Hitler – incluindo fotos das visitas do Mufti ao Führer em Berlim na II Guerra Mundial, e a um campo nazi de extermínio.
Já o grupo Mhhossein editou o verbete sobre os protestos por Mahsa Amini — que duraram meses e abalaram o Irão depois que essa jovem foi detida e morta pela Polícia da Moralidade por não usar o véu islâmico “como deve ser”. Criou-se uma falsa impressão de apoio popular ao regime teocrático de Teerão, com o destaque de contramanifestantes pró-governo.
Em geral as manipulações da W. são mais sutis, como indicou o site Media Bias Fact Check. O adjetivo “controverso” é aplicado sempre que o tema ou a pessoa em causa destoa da ortodoxia atual. Um exemplo entre milhões é o do autor americano James Lindsay, que se professa “um liberal clássico”, mas é apresentado pela W. como “adepto controverso de teorias da conspiração de extrema-direita”. Ironicamente, Lindsay foi um dos protagonistas do “the grievance studies affair”, em que ele, Peter Boghossian e Helen Pluckrose desmascararam a erosão dos padrões epistemológicos de pesquisa pelo wokismo, submetendo artigos estapafúrdios a solenes periódicos académicos dos EUA, que os aceitaram e publicaram alegremente. Entre eles, um ensaio postulando que os cães machos participam da “cultura da violação”.
Aliás, outra peculiaridade de W. é sinal dos tempos: a principal informação sobre um ser humano hoje é ele ser “ativista” – o que ofusca todo o resto. Para o bem e para o mal: se for ativista “progressista”, será um Prometeu. Caso contrário, será… “controverso”.
Para piorar, o Google dá prioridade à W., alinhando os verbetes da enciclopédia em primeiro lugar em qualquer resultado de busca. Além disso, o preenchimento automático da pesquisa introduz à direita dos ecrãs um outro painel de resultados – o que é explorado por editores tendenciosos. Se digitarmos, digamos, “Sionismo e Colonialismo de Povoamento”, temos à esquerda o verbete da W, e à direita coisas como “Colonos Israelitas e Apartheid”, e depois a sugestão do livro “Sionismo da Era dos Ditadores”, do trotsquista americano Lenni Brenner, cuja tese científica é de que os judeus são, hã, nazis arianos (então o Holocausto de 6 milhões foi o maior fogo amigo de todos os tempos).
A W. tende a fazer olhinhos à media tradicional — a BBC ou o Guardian no Reino Unido, o New York Times ou a PBS nos EUA. No Médio Oriente, a Al-Jazeera é para a W. uma fonte sacrossanta – embora pelo menos seis dos “repórteres” da emissora do Qatar fossem operativos do Hamas ou da Jihad Islâmica Palestina (JIP), transmitindo mensagens pré-gravadas dos terroristas durante o 7 de outubro de 2023, cuja infiltração acompanharam pessoalmente. É o que foi chamado “citogénese”, uma forma de reportagem circular na W. em que informações falsas são adicionadas à plataforma e posteriormente citadas por uma fonte de notícias mais tradicional, antes de serem citadas novamente no verbete da W, consagrando a falsidade como um fato marmóreo.
Desde maio de 2024 o Google prioriza os resultados das buscas pela Inteligência Artificial (AI Overviews). E eis onde a porca torce o rabiosque: a W. é a principal fonte de dados de treinamento para TODOS os grandes modelos de linguagem. Essas informações são usadas no ChatGPT, no Claude, no Perplexity e até mesmo na Alexa e na Siri. Ou seja: a ótica da W. é extrapolada infinitamente pela IA, num perene círculo vicioso.
Em fevereiro, Tim Allan, o chefe de Comunicação do primeiro-ministro inglês, Keir Starmer, renunciou. O enrosco foi a empresa de Allan, a Portland Communications, acusada de “Wiki-laundering” — a manipulação de páginas da W. para reforçar um perfil, encobrir um embaraço ou alterar uma narrativa. Segundo o Bureau of Investigative Journalism, a Portland Communications usou subcontratados pagos para “aprimorar a imagem pública do Qatar”, além de obscurecer “menções a financiamento do terrorismo envolvendo empresários catarianos”
Em agosto de 2025, o Congresso dos EUA abriu investigação sobre a manipulação na W. Na mesma altura, a W. decidiu contestar judicialmente uma medida do Reino Unido, que obriga a identificação dos autores dos verbetes. Também em 2025, e pela primeira vez na história, a Fundação Wikimedia cumpriu uma ordem judicial para remover conteúdo e entregar informações de identificação de oito de seus editores voluntários, incluindo os IP e emails. O caso envolveu o empresário português César de Paço. Após a sentença, a W. adicionou um inédito alerta no artigo sobre o português: “Em 5 de agosto de 2025, parte do conteúdo deste artigo foi removida por ordem judicial e não deve ser restaurada. Este artigo não cumpre os critérios de neutralidade da Wikipédia.”
Embora o caso DePaço fosse de difamação/calúnia, no contexto da UE — onde a lei prevê um “Direito ao Esquecimento” (DEE) digital — a decisão tem amplas implicações. Enquanto o DEE tem sido tradicionalmente aplicado à indexação, e não à fonte original do conteúdo, neste caso um tribunal não só ordenou a remoção na fonte como também aplicou a ordem genericamente.
Sim, errar é humano, mas convém que o internauta saiba onde pisa, para não confundir alhos com bugalhos e depois arrotar postas de pescada estragadas. Lembra-me uma frase de um poeta sobre a Teoria da Relatividade: “Não sei quase nada sobre isso, e quanto mais leio sobre o assunto mais o meu saber diminui”. Nessa biblioteca de Babel que é a Internet há opções à Wikipedia, como a Gropikedia e a Justapedia (fundada por Betty Wills, ex-editora da W.).
Claro que, socraticamente, temos que reconhecer as nossas precariedades. Como notou Karl Popper (um enciclopedista das antigas): “O nosso conhecimento só pode ser finito, mas a nossa ignorância deve necessariamente ser infinita.” Em suma – digo eu -, somos todos ignorantes, só que em assuntos diferentes.
Aristóteles ensinou que todos os seres humanos querem saber. Mas a maioria de nós também quer não saber, às vezes ferozmente. Isso sempre foi verdade, mas há períodos históricos em que a negação das evidências parece prosperar – e o pensamento mágico expulsa o bom senso e a experiência. E então tudo é relativo, menos o relativismo, que é axiomático. O que exacerba o efeito Dunning-Kruger – o viés cognitivo em que pessoas com escasso conhecimento numa área sobrestimam a sua própria capacidade, precisamente por não terem informação suficiente para reconhecer as suas limitações. A árvore – no caso, um bonsai – impede que se veja a floresta.
Enfim, e para citar a frase inesquecível de J. Budziszewski, há coisas que nós não podemos não saber. Pelo menos se quisermos continuar humanos, e a errar apenas humanamente.