Em 1962, o Campeonato do Mundo rumou ao Chile para a sua sétima edição, numa competição que acabou por decorrer em condições muito atípicas, já que o país, que na época era um dos mais pobres da América do Sul, procurava reconstruir-se do devastador terramoto de Valdivia, que aconteceu dois anos antes. Foi através do futebol que os chilenos procuraram recuperar da desgraça e, apesar de todas as dificuldades económicas e logísticas, a FIFA manteve-se ao lado do país para a realização do Mundial. No que respeita ao futebol, a competição contou com 16 seleções e marcou uma profunda transição entre o futebol tático e físico, tornando-se numa das piores de sempre no capítulo disciplinar (à data nunca tinha havido uma edição com tantas expulsões) e dos golos: foi o primeiro Mundial com menos de três golos por jogo (2,78), algo que se repetiu em todas as edições seguintes. O maior exemplo aconteceu logo no início, com Pelé a lesionar-se e a ser obrigado a deixar a competição.
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Apesar disso, o Brasil continuou a sua afirmação como potência dominante do futebol e conquistou o título pela segunda edição consecutiva, algo que nunca mais voltou a acontecer até à atualidade. Sem a super estrela, a canarinha reconstruiu-se durante a prova e encontrou em Mané Garrincha a sua figura de proa, com o avançado a tornar-se no símbolo máximo da conquista brasileira, que aconteceu em Santiago do Chile, diante da Checoslováquia. A competição ficou ainda marcada por um dado que mudou o futebol mundial, já que a FIFA deixou de permitir que um jogador pudesse defender outra seleção que não fosse a do seu país de nascimento e pela qual já tinha jogado. Neste cenário encontravam-se Alfredo Di Stéfano (Argentina), Ferenc Puskás (Hungria) e José Santamaría (Uruguai), que jogaram por Espanha, bem como Humberto Maschio (Argentina) e Omar Sívori (Argentina), que atuaram por Itália.
Uma história. O país destruído e à beira da pobreza que se ergueu para o futebol
Com a FIFA a decidir voltar à América do Sul depois de duas edições na Europa, a decisão era entre Argentina e Chile. A situação dos chilenos não era fácil por conta da pobreza e da catástrofe de Valdivia (foi o maior sismo alguma vez registado), mas Carlos Dittborn Pinto, filho de um diplomata chileno, intrometeu-se na negociação e garantiu a realização da competição que acabou por não ver em marcha, tendo morrido um mês antes do início do Mundial. Reza a lenda que foi Dittborn Pinto que impediu a FIFA de mudar de ideias — e de sede — depois do terramoto de 1960.
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Um herói. Garrincha, o craque que carregou o Brasil de Pelé
Antes de Diego Armando Maradona, em 1986, foi Mané Garrincha quem carregou a sua seleção num Campeonato do Mundo. Sem Pelé, foi o camisola 7 que, aos 28 anos, encaminhou o Brasil para a conquista do troféu com um drible quase impossível de parar, golos importantes, cruzamentos perfeitos e uma técnica apurada para as bolas paradas. Garrincha teve um impacto tão elevado, que colocou o jornal chileno El Mercurio a questionar: “Garrincha, de que planeta vens?”.
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Uma curiosidade. Um golo olímpico para a história (e que nunca mais se viu)
Foi no Chile que se registou o primeiro e único golo olímpico na história dos Mundiais, da autoria do médio Marcos Coll, que fez história frente ao lendário Lev Yashin. Na partida frente à União Soviética, o resultado era desfavorável à Colômbia, mas o golo oriundo de um pontapé de canto acabou por mudar o jogo, com os cafeteros a conseguirem empatar naquele que foi o seu primeiro grande resultado em Mundiais (era a sua estreia). O futebol sempre esteve presente na vida de Coll, que era filho de um árbitro. O seu filho também foi futebolista, jogando, curiosamente, na mesma posição. Conhecido como olímpico, Marcos morreu em 2017, com 81 anos.
Como foram os resultados no Mundial de 1962
- 30 de maio (fase de grupos): Uruguai-Colômbia, 2-1, Chile-Suíça, 3-1, Brasil-México, 2-0 e Argentina-Bulgária, 1-0
- 31 de maio (fase de grupos): União Soviética-Jugoslávia, 2-0, Alemanha Ocidental-Itália, 0-0, Checoslováquia-Espanha, 1-0 e Hungria-Inglaterra, 2-1
- 2 de junho (fase de grupos): Jugoslávia-Uruguai, 3-1, Chile-Itália, 2-0, Brasil-Checoslováquia, 0-0 e Inglaterra-Argentina, 3-1
- 3 de junho (fase de grupos): União Soviética-Colômbia, 4-4, Alemanha Ocidental-Suíça, 2-1, Espanha-México, 1-0 e Hungria-Bulgária, 6-1
- 6 de junho (fase de grupos): União Soviética-Uruguai, 2-1, Alemanha Ocidental-Chile, 2-0, Brasil-Espanha, 2-1 e Hungria-Argentina, 0-0
- 7 de junho (fase de grupos): Jugoslávia-Colômbia, 5-0, Itália-Suíça, 3-0, México-Checoslováquia, 3-1 e Inglaterra-Bulgária, 0-0
- 10 de junho (quartos de final): Chile-União Soviética, 2-1, Checoslováquia-Hungria, 1-0, Brasil-Inglaterra, 3-1 e Jugoslávia-Alemanha Ocidental, 1-0
- 13 de junho (meias-finais): Checoslováquia-Jugoslávia, 3-1 e Brasil-Chile, 4-2
- 16 de junho (jogo de atribuição do terceiro lugar): Chile-Jugoslávia, 1-0
- 17 de junho (final): Brasil-Checoslováquia, 3-1