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(A) :: Nosso senhor das sardinhas e do esquecimento

Nosso senhor das sardinhas e do esquecimento

O Corpo de Deus é o pária dos feriados. Aquele amigo do amigo, simpático, mas de que nunca ninguém sabe o nome.

Alexandre Borges
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Todos os anos, é o mesmo. Não é como a sonsice do “entretanto, meteu-se o Verão” ou o Natal, em que toda a gente finge que não estava já a contar com isso desde o ano anterior; é real – nunca ninguém está à espera dele: do Corpo de Deus. Ano após ano, por volta de fins de Maio, inícios de Junho, somos apanhados completamente desprevenidos. “Ai, amanhã estão fechados? Mas então porquê? Quinta não podem? É feriado? Feriado de quê?”. E quando alguém responde, terminamos a conversa com um “Aaahhh”, prolongado e nada convincente. Em 2026, como em 2016, como em 2005 ou 1997, a história repete-se: continuamos a não fazer ideia do que se celebra, mas metemo-lo no bolso à laia de brinde, bónus, gratos como quem achou cinco paus na rua. “Nem sei bem se estás aí, ó Deus, mas, em estando, obrigadinhos.” Nem tudo pode ser sempre mau.

O Corpo de Deus é o patinho feio dos feriados – mas quanto carinho temos pelo patinho feio. Não é o 25 de Abril nem o 1.º de Maio, cheios de vigor e orgulho nos direitos conquistados, não é o histórico 5 de Outubro nem o tradicionalíssimo Dia de Todos os Santos, não compete com a Páscoa nem a Sexta-feira Santa, o Dia de Portugal nem o da cidade, nem sequer com o Dia da Restauração ou o da Imaculada Conceição, que também já ninguém sabe muito bem o que celebram, mas que se apoiam mutuamente, actuando em dupla, embora nada tenham a ver um com o outro, arrumados na nossa agenda mental debaixo da expressão “aqueles feriados de Dezembro” que dão jeito para uma escapadinha ou aviar presentes. Não. O Corpo de Deus é o pária dos feriados. Aquele amigo do amigo, simpático, mas de que nunca ninguém sabe o nome. Simpático porque dá jeito para dividir a gasolina, com a vantagem de não abrir a boca a viagem inteira.

O problema do Corpus Christi é que, ainda por cima, se confronta com um paradoxo: o do contraste da leveza da época em que ocorre – uma folga inesperada ali na rampa de lançamento para o Verão – com a complexidade do seu significado. Não lhe bastava acontecer em dia móvel nem ter sequer mês certo. É o dia em que os católicos celebram o mistério do Santíssimo Sacramento, o que, em princípio, deixa os não católicos exactamente na mesma. A celebração da Eucaristia, o que continua a não ajudar muito. A presença real do corpo de Cristo na missa, estão a ver? (E a multidão que lê este texto quase a desistir e a fazer scroll para a pessoa em fato de banho seguinte – afinal, corpo por corpo, mais vale um que se veja…)

Bom, estão a ver a Última Ceia? Aquele momento em que Jesus Cristo parte o pão e diz: “Tomai e comei, este é o meu corpo”, serve e vinho e diz “tomai e bebei, este é o meu sangue, derramado por vós e para remissão dos pecados”? Em que transforma, segundo a fé católica, a sua substância em pão e vinho que partilha com os discípulos? É isso. É isso que se celebra no Corpo de Cristo. É por isso que é à quinta-feira, como a Última Ceia. Celebra, portanto, uma coisa muito complicada: a fé. A crença real de que é efectivamente o corpo de Cristo que está na missa, em todas as missas, em todas as igrejas, todos os dias do mundo, materializado em pão e vinho, ou hóstias, e não apenas uma representação simbólica. Aquela coisa do: “Eu estou no meio de vós”. Do caraças. Ficção científica para baptizados.

O que é que esta informação que quem ainda não tinha também não teve paciência de ler agora muda? Absolutamente nada. Todos os anos somos surpreendidos por este feriado extra, comentamos cá para dentro como quem fala a um colectivo indeterminado: “não fazem mais do que a vossa obrigação em darem-me este dia” e logo o tornamos propriedade privada. Lembram-se da comoção nos tempos da troika, quando suspenderam quatro feriados? Seria mais fácil se tivessem dito que nos aumentariam os impostos naquele valor; não nos subirem os ordenados durante os dez anos seguintes; acrescentarem quatro dias por ano, vezes quantos anos nos faltassem trabalhar, à idade da reforma. E isto diz-nos alguma coisa sobre como se deve governar: pode-se acrescentar o que se quiser; nunca, jamais, tirar. O feriado não é do governo nem do Cristo; é meu.

Interessante como os tempos assim moldaram a nossa noção do calendário. Usaremos o feriado para ir à praia, à feira do livro, às compras, estudar para os exames, fazer limpezas da Primavera. Alguns talvez até o usem para ir realmente à missa, participar nas procissões ou fazer os tapetes de flores da tradição medieval, quando a data foi instituída. Outros vão encostar-se a ele para fazer uma greve, porque o corpo de Cristo dá para tudo, até para os que conseguem dar mais voltas à ideologia do que os palhaços no circo com aqueles balões em forma de salsicha.

É dos sintomas mais evidentes de como vivemos hoje. Num grande mapa vazio, ainda vagamente guiado por coordenadas que já não seguimos ou sequer compreendemos bem, apenas por inércia e por enquanto. O corpo de Cristo até poderá estar no meio de nós, para os que acreditam, mas nós não estamos. Quem sabe talvez seja isto Deus, esta despreocupação. Sermos senhores do calendário e já não servos dele. Não será, certamente, o Deus católico, mas um outro, mais relaxado, garantindo que as sardinhas deste ano serão saborosas. E que, no próximo, volta a aparecer de surpresa.