(c) 2023 am|dev

(A) :: Paulo Rezzutti escreveu uma biografia para reabilitar D. João VI, o “bom rei” que os portugueses ainda não conseguiram perdoar

Paulo Rezzutti escreveu uma biografia para reabilitar D. João VI, o “bom rei” que os portugueses ainda não conseguiram perdoar

Ficou para a história como o rei que abandonou os portugueses na iminência da invasão francesa. Mas, num novo livro, Paulo Rezzutti explica porque é que o monarca deve ser recordado de outra forma.

Rita Cipriano
text
Francisco Romão Pereira
photography

Quando ainda se dedicava apenas à arquitetura, Paulo Rezzutti estudou a casa que Domitila de Castro Canto e Melo, marquesa de Santos, tinha em São Paulo. No âmbito dos seus estudos, descobriu que a marquesa tinha nascido e morrido em São Paulo e que, durante sete anos, teve “um caso” com o imperador brasileiro, D. Pedro I. Isso deixou-o “curioso”. Será que, ao longo dos seus 70 anos de vida, Domitila de Castro Canto e Melo não tinha feito mais nada digno de nota além de ser amante do imperador durante uns meros sete anos? Paulo Rezzutti dedicou-se, então, a investigar a vida da marquesa, uma aventura que, mais tarde, o levou a mergulhar na vida do próprio D. Pedro e de outros membros da família dos Bragança. “Uma coisa levou à outra” e, no seu mais recente trabalho historiográfico, o investigador e membro dos institutos históricos de São Paulo, Petrópolis e Campos dos Goytacazes dedicou-se à figura de D. João VI, o primeiro rei português a atravessar o Atlântico e a estabelecer-se no Brasil, a maior e mais importante colónia portuguesa.

Publicado recentemente em Portugal pela Penguin, D. João VI: A História Não Contada pretende, tal como no caso da biografia de Domitila de Castro Canto e Melo, oferecer um retrato mais amplo do rei e dar a conhecer outros aspetos da sua personalidade e vida que são menos conhecidos, colocando em perspetiva o episódio que se mantém central nas narrativas sobre D. João VI: a sua partida para o Brasil, juntamente com toda a corte, para escapar às invasões francesas. Na opinião de Paulo Rezzutti, que esteve em Portugal a propósito do lançamento da edição portuguesa do seu livro, ao insistir-se em abordar a questão da partida de D. João VI apenas como “uma fuga”, está-se “a retratá-lo como um cobarde que preferiu fugir do que ficar” e lutar. A questão é muito mais complexa e teve como principal objetivo a preservação da família real e, também, de uma parte significativa dos domínios portugueses, como explicou o investigador brasileiro, em entrevista ao Observador.

Apesar de ter sido muitas vezes acusado de ser inepto e incapaz de tomar decisões, para o investigador, D. João VI não estava isento de alguma manha e não era desprovido de inteligência. Antes pelo contrário. Um amante das artes e das ciências, algumas das suas iniciativas mais importantes perduraram no tempo e os vestígios deixados por algumas delas ainda podem ser visitados no Brasil. Paulo Rezzutti não tem dúvidas de que D. João VI foi um “bom rei”, mas a mágoa provocada pela sua partida não desapareceu.

D. João VI é um dos monarcas menos populares da história de Portugal, mas o retrato que faz do rei é muito diferente do que persiste na memória coletiva dos portugueses.
Sim. Se for ao Brasil, vai encontrar outro contraponto. Foi nessa tentativa de buscar o equilíbrio entre as duas partes que acabei por escrever este livro. No Brasil, ele tem outra fama. Foi a pessoa que deu início ao processo de independência, com o rompimento do pacto colonial e tudo mais. Aqui, tem a questão da fuga. Costumo brincar: quem é que foge levando uma biblioteca [risos]? Tem essa coisa pejorativa. E também existe a questão, ainda hoje, do eurocentrismo. Tudo é Europa. Imagine, que horror, ir para um lugar de incivilizados, para uma colónia na América.

Um continente distante, do outro lado do oceano.
Do outro lado! Também não se justifica tanto essa questão de ser um cobarde, porque lá, ele foi realmente rei. No final do livro, cito algumas memórias de pessoas que o conheceram aqui, em Portugal, depois de 1821, que contam que ele dizia que, no Brasil, realmente tinha sido rei. Aqui havia muitas forças contrárias. Portugal tinha problemas com Espanha e também com França. E havia Inglaterra, a poderosa aliada, com todos os seus interesses, com a qual se tinha de ter muito cuidado. Tendo em conta que ele permaneceu no trono de 1792 a 1826, é um dos monarcas que mais tempo reinaram na sua época. E ele conseguiu equilibrar isso tudo. Ele podia não ser o Mr. Universo. Costumo brincar que coloquei na capa a única “foto” que ele usaria no Tinder [risos]. Não era um top model [risos]. Mas não o podemos julgar pela figura física. Ele foi muito inteligente. Esse é o ponto de partida do livro.

Reabilitar um pouco a imagem dele?
Reabilitar puxando mais o foco para as coisas positivas que foram feitas, tanto aqui em Portugal como no Brasil. No caso de Portugal, como é que conseguiu equilibrar-se desde que assumiu o trono. Ele estava acima de tudo, primeiro como regente e depois como rei. E como estava acima de tudo, conseguiu, muitas vezes, fazer com que a sua presença fosse suficiente para acalmar os ânimos. Isso aconteceu, por exemplo, durante a Vilafrancada [1823], quando D. Miguel deu o golpe para depor as Cortes em Lisboa e acabar com a Constituição. D. João colocou-se à frente desse movimento e fez com que os ânimos arrefecessem. Não houve, nesse momento, uma vingança dos conservadores contra os liberais, porque ele conseguiu abafar isso. Havia essa questão contemporizadora, esse equilíbrio, essa tentativa de neutralidade, que ele usou, por exemplo, no momento da Vilafrancada. Foi a falta disso que fez estourar a guerra civil em Portugal. Porque D. João não era dominado pelas paixões, como o resto da família. Como D. Carlota, D. Miguel, D. Pedro, aos quais faltava o equilíbrio que ele tinha. Isso também é uma coisa boa que deve ser exposta.

Independentemente dos defeitos que lhe possam ser apontados, a verdade é que D. João reinou numa altura extremamente complicada, marcada por vários problemas internos e externos.
Foi uma mudança total de paradigma. Temos a Revolução Francesa [1789], que é meio filha da norte-americana [1777], ambas filhas do Iluminismo. D. Maria I ainda estava sã nessa altura e acompanhou com avidez o que estava a acontecer em França, para conseguir entender o que é que aquele povo queria. Quando a coisa começou a pegar fogo, ela mandou censurar as notícias sobre França. Mas vemos que estavam atentos, que queriam entender melhor aquela questão. Uma coisa era a Revolução Norte-Americana, que estava lá, longe; outra era essa aqui, vizinha. E tudo isso provocou uma quebra de paradigma total. Julgar, condenar e matar o rei — isso já tinha acontecido em Inglaterra [durante o reinado de Carlos I, que foi executado em 1649], mas, de repente, começaram a eliminar, em França, toda a nobreza, a aristocracia. Vários deles vieram para cá e depois foram para o Rio de Janeiro.

"Se se aliasse a França, Inglaterra bloqueava o porto [de Lisboa] e não entrava trigo no país. Sem trigo não havia pão e sem pão não havia governo. Como é que ele ia lidar com o povo sem pão? Foi muito difícil, e acho que ele é muito mal julgado, porque teve de equilibrar muitos pratos sem os deixar cair, como fazem os malabaristas. É assim que eu o vejo."

D. João VI não devia ter sido rei.
O irmão dele [D. José Francisco] morreu em 1788, com 27 anos. Ele tinha 21. Ninguém esperava que o irmão morresse com 27 anos, de varíola. Ele viu-se como herdeiro de um trono sobre o qual, até então, nunca tinha pensado. Quatro anos depois, a mãe enlouqueceu. Foi uma coisa atrás da outra. E, no meio de tudo isso, a Revolução Francesa e a guerra que estava a ser travada [por França contra outros países]. Portugal acabou por entrar na guerra, inicialmente como aliado de Espanha. E na corte, a situação era complexa, porque ele não conseguiu ter poder suficiente para se assumir como regente total. O [José de] Seabra [da Silva], que foi ministro na época do Marquês de Pombal, foi exilado e regressou na época de D. Maria I. Ele contestou que D. João pudesse ser príncipe regente sem que as Cortes fossem convocadas. Quer dizer, o seu próprio poder foi questionado logo no início. Foram precisos sete anos, de 1792 a 1799, até conseguir firmar-se no ambiente de poder que seria naturalmente dele. Era tudo complexo.

[“Basta que os ingleses interrompam o negócio do Brasil com Portugal e que bloqueiem o porto de Lisboa para cessarem os recursos do comércio e faltarem em muito pouco tempo todos os meios de subsistência nesta capital, que precisa, como se sabe, de importar anualmente do estrangeiro uma grande quantidade de trigo; a fome seria um bom fiador da vitória do inimigo.” — Carta de D. João IV para Napoleão (Queluz, 7 de maio de 1805)]

Não era uma questão de legitimidade, porque não havia mais ninguém que pudesse assumir o trono.
Não, não havia. Nessa questão, também houve um embate, mas entre forças antagónicas dentro da própria corte, uma herança do Pombal. A nobreza estava a tentar voltar à máquina estatal. Enfim, eram várias situações, e havia pressões em todos os cantos. Há uma carta que cito no livro, de Napoleão para D. João. Junot invadiu Portugal [em 1807], mas, primeiro, veio para Lisboa como embaixador [em 1805] e trouxe uma carta de Napoleão que dizia que Portugal e França deviam ser aliados. D. João explicou [na resposta para Napoleão] que isso não era possível, porque Portugal não produzia trigo. Se se aliasse a França, Inglaterra bloqueava o porto [de Lisboa] e não entrava trigo no país. Sem trigo não havia pão e sem pão não havia governo. Como é que ele ia lidar com o povo sem pão? Foi muito difícil, e acho que ele é muito mal julgado, porque teve de equilibrar muitos pratos sem os deixar cair, como fazem os malabaristas. É assim que eu o vejo.

D. João VI sempre foi acusado de uma certa inação.
Era estratégia, porque quando a gente não pode fazer nada… Eu, pelo menos, quando tenho muitas dúvidas sobre o que fazer, fico quieto [risos]. Espero.

Mas houve momentos em que ele agiu com rapidez.
Sim, como quando foi decidida a partida de todos para o Brasil. Existem relatos de pessoas no paço que ficaram espantadas com a sua mobilização.

Então, ele não era incapaz de agir.
Não.

E quando tinha de tomar decisões?
Isso já era um problema. Ele não se decidia com rapidez. Ele ouvia muito, escutava toda a gente. Há uma carta do [terceiro] marquês de Alorna [Pedro José de Almeida Portugal] que fala disso. Diz que Deus o tinha dotado de uma qualidade que os reis não tinham, que era a de escutar toda a gente. Mas, infelizmente, ele escutava demasiado [risos]. Tinha de fazer mais e ouvir menos. E essa auscultação ia do Ministério ao Conselho e ao povo. Isso é uma coisa muito interessante, que perdurou no tempo. D. José I, o avô de D. João, manteve a corte mais afastada do povo. A mãe dele, D. Maria I, reaproximou a figura da rainha do povo com o beija-mão, que eram audiências públicas. Ele também fez isso.

Conta no livro que, além das sessões de beija-mão, D. João VI parava na rua para ouvir as pessoas que se aproximavam dele.
Sim. É curioso, porque isso manteve-se em Portugal até ao final do século XIX, e no Brasil também. O neto dele, D. Pedro II, que foi imperador do Brasil até 1889, também tinha essa proximidade. Tinha um dia e uma hora em que recebia [a população]. Podia-se ir até à Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, e falar com o imperador do Brasil. Se resolvia alguma coisa ou não, eram outros quinhentos. Mas no caso de D. João, até resolvia. D. João ficou cerca de 13 anos no Brasil e havia em Portugal quem não fizesse a mínima ideia do que era a corte. Nas suas memórias, o marquês de Fronteira conta que, após a chegada da corte, assistiu a uma audiência pública de D. João no Palácio da Bemposta. E ele ficou parvo, porque chegou uma senhora para falar com o rei e ele perguntou-lhe se estava bem, que há muitos anos que não a via e se continuava a morar na casa que lhe tinha emprestado na Calçada da Ajuda. O marquês questiona-se como é que ele se lembrava disso. É uma coisa espantosa. Era uma coisa meio paternalista, vamos dizer assim, mas havia um interesse que era real.

[“V.A.R. tem uma virtude, que raras vezes se encontra em soberanos, que é sofrer a contradição de prestar uma atenção benévola quando espera que lhe digam verdades, ainda que sejam duras. Mas eu queixo-me a V.A.R. do excesso dessa virtude. (…) Ganharia V.A.R. consideravelmente economizando muito a prática da virtude que Deus lhe deu de ouvir a verdade, sem se enfadar.” — Carta de Pedro José de Almeida Portugal, terceiro príncipe de Alorna, a D. João, então príncipe regente]

Era genuíno.
Era. Ao ponto de se lembrar da casa que tinha dado àquela mulher. Aparentemente, era um bom rei, excluindo os males do seu tempo, como a escravatura, mas também impôs limites em relação aos castigos físicos, de que falo no livro. Mas, aparentemente, era um bom rei. Acredito nisso.

Falou do regresso da corte a Portugal. Conta que, quando o rei chegou a Lisboa, vários  liberais renderam-se à sua presença e comportaram-se de acordo com a antiga etiqueta da corte. Não foi apenas a população que ficou impressionada com a chegada da família real.
Era a presença do rei. Conheço muitos Bragança, tanto aqui como em Viena e no Brasil, e há alguns que têm uma certa presença, sabe? É uma coisa meio atávica, não sei explicar. Agora, imagine isso com toda a poupa. Eles têm esse poder de congregar — são como um símbolo. Têm uma forma de se colocar no mundo que os transforma num porto seguro, num farol. D. João fazia isso. Ele estava acima dos partidos. E a presença do rei era a presença do rei. D. Afonso Henriques reinou no século XII — eram quase mil anos de monarquia. Era uma coisa a que as pessoas estavam acostumadas. O Brasil, sendo uma colónia, também tinha esse culto dos monarcas, que ficavam aqui, em Portugal. No livro, falo sobre o casamento de D. Carlota Joaquina e D. João, que foi comemorado no Rio de Janeiro. Parecia um desfile das escolas de samba [risos]. Havia carros alegóricos — havia o carro de Neptuno, o carro não sei do quê. Apesar de nunca terem visto o rei, havia esse culto da personalidade. Imagine o peso disso quando chegaram lá. Foi isso que congregou as capitanias e, depois, as províncias, em volta de um elemento aglutinador, que foi o oposto do que aconteceu com a América espanhola, que, como se viu acéfala, desfez-se. O Brasil não, o Brasil manteve-se. Devemos o início da consolidação do nosso território a D. João.

A partida, a imperdoável partida

A partida do rei para o Brasil foi, e ainda é, muito criticada. Olhando para trás, com o distanciamento que o tempo nos permite, podemos dizer que foi uma decisão acertada?
A intenção da assinatura do Tratado de Fontainebleau [1807], entre a França e Espanha, era a invasão e a divisão de Portugal em três partes [que seriam repartidas entre os dois países]. No final, ia ficar tudo para França, porque França invadiu Espanha, e Portugal tornar-se-ia francês. A ideia era dividir o reino e extinguir a casa de Bragança. Se pensarmos que, até então, a grande armada de Napoleão não tinha perdido nada e que os portugueses tinham acabado de perder a Guerra das Laranjas [contra os espanhóis], alguns anos antes [em 1801], e que não tinham condições para impedir o avanço dos franceses, então, ele tomou a decisão certa. Mas há outra questão. Ele podia ter ficado aqui, em Portugal, e perdido o trono no caso de uma derrota, que seria fatal, ou podia ir para o Brasil e garantir a melhor fatia do bolo do império português, e depois logo se via o que se fazia com Portugal, dependendo do que acontecesse. Foi o mais acertado, porque, bem ou mal, ele manteve tudo junto. Se ele tivesse ficado aqui, teria corrido o risco de ser preso e de perder o Brasil para os ingleses. O conde dos Arcos [D. Marcos de Noronha e Brito], que era o vice-rei do Brasil na época, recebeu primeiro um despacho do rei para fortalecer a costa brasileira contra uma provável invasão inglesa, porque D. João imaginava que, se França entrasse em Portugal, ou se ele se aliasse a Napoleão, Inglaterra invadiria o Brasil. Ou perdia o Brasil ou perdia Portugal. Semanas depois, o vice-rei recebeu outra carta para preparar o Rio de Janeiro para a chegada da corte. E durante muitos anos, funcionou. Era a única monarquia centralizada na América. Nunca houve nada assim.

"Com a criação, em 1808, do Museu Real, que é o atual Museu Nacional, D. João VI colocou o Brasil no centro da pesquisa mundial, porque começou a haver intercâmbio, troca de coleções de espécies. Começou-se a descobrir o que existia no Brasil. Esse homem fez o Brasil ser conhecido lá fora, porque antes era um lugar fechado. Era uma propriedade privada da Coroa, basicamente, e ele abriu essa propriedade ao mundo."

Conta no livro que a transferência da corte para o Brasil não era uma ideia nova.
O Brasil é o maior território português e era de onde vinha grande parte das riquezas — a cana-de-açúcar, um pouco de algodão, já no tempo do Pombal, as drogas do sertão, que são as espécies da Amazónia, e depois o ouro e os diamantes. Era um lugar que tinha uma importância comercial muito grande e, estrategicamente, estava, de certa forma, mais perto de África. Para a questão do tráfico de escravos, havia, também, uma triangulação muito importante — Portugal, Brasil, África. Inicialmente, o Brasil era visto como um lugar de proteção. Quando Filipe de Espanha invadiu Portugal [em 1580], na conjuntura da União Ibérica, surgiu a ideia, que acabou por não ser implantada, de D. António, Prior do Crato, ir para o Brasil e criar um reino. Depois, D. João IV, quando houve a Restauração da Independência [em 1640], deu ao filho mais velho o título de Príncipe do Brasil e surgiu a ideia de mandar D. Teodósio [que morreu precocemente, em 1653] para lá, para criar um novo reino e deixar um regente em Portugal. Isso era muito motivado por questões financeiras, pela potência económica que era o Brasil. Há um relatório de um ministro de D. João V [que reinou entre 1706 e 1750] que diz que era melhor que a corte estivesse onde estava a força. E ele diz que Portugal era fraco, porque não conseguia alimentar o próprio povo, porque metade das terras estavam nas mãos da Igreja e não eram produtivas. Só um terço produzia alguma coisa e outro terço também estava nas mãos de pessoas que não produziam nada. Ele descreve Portugal como sendo dependente do Brasil — isso na época de D. João V. Ele achava que, ao transferir a corte para o Brasil, ia transformar Portugal numa potência. Durante o reinado de D. José I, surge também a ideia de preparar a armada para embarcar para o Brasil por causa de uma possível invasão de Espanha. Esteve sempre no radar. O centro de Belém, capital do Pará, foi mandado projetar pelo Pombal, porque existia, na época, a ideia de transferir a corte para lá. Belém é o ponto mais próximo de Lisboa. Pelo regime das correntes marítimas, era muito mais fácil sair de Lisboa e chegar a Belém. Ou a Salvador, mas já com muito esforço. Para chegar ao sudeste, ao Rio de Janeiro, é preciso seguir outra corrente, então é mais complicado para lá chegar. Pelos vistos, a ideia do Marquês de Pombal era construir alguma coisa mais para cima. Na verdade, o que foi implementado não era nenhuma novidade. Era uma coisa que já estava no radar de quem estava no poder.

Quando a corte partiu para o Rio de Janeiro, o Brasil era, então, uma colónia muito pouco desenvolvida.
Não tinha nada, não tínhamos nada. A primeira coisa que D. João fez quando chegou ao Brasil foi abrir os portos, mas porque foi pressionado a fazê-lo. Quando estava a ver se a corte se ia mudar para lá, mandou segurar a frota com as mercadorias que estava para partir para Lisboa. Quando chegou, os comerciantes estavam loucos, sem saber o que deviam fazer com as mercadorias, que tinham de ser mandadas para algum lugar. Foi aí que ele abriu os portos para as nações amigas. Isso rompeu com o monopólio de Portugal. Foi uma independência económica para o Brasil. Depois, foi acabando com diversas leis e decretos que proibiam, por exemplo, as manufaturas. Não havia fábricas no Brasil, principalmente de tecido. O tecido tinha de vir de Portugal, que, por sua vez, o recebia de Inglaterra. A gente tinha algodão, mas só podia haver uma tecelagem mais grosseira, para os pobres e para os escravos. Não havia universidades. Quer dizer, havia como ter alguma formação se fosse na área da Filosofia, que se podia estudar com os padres, nos conventos e tal, principalmente em Salvador; ou então, podia-se seguir uma carreira no Exército. Tirando isso, não havia mais nada. Medicina, Direito — era tudo aqui. Ou em Montpellier, em França, que era a mais conceituada faculdade de Medicina. E Direito era em Coimbra. Isso também acabou. Quando D. João chegou ao Brasil, uma das primeiras coisas que fez foi criar, em Salvador, a primeira faculdade, a Escola de Cirurgia do Brasil, que é a atual faculdade de Medicina de Salvador. Com tudo isso, semeou um novo país. Criou o Banco do Brasil, que, na verdade, foi o primeiro banco português de desenvolvimento. Foi criado em 1808; o Banco de Portugal foi criado em 1821. A primeira prensa oficial foi dentro do navio de D. Rodrigo de Sousa Coutinho [que tinha criado e desenvolvido em Lisboa a Tipografia do Arco do Cego, a futura Imprensa Nacional]. Antes, não podia haver imprensa no Brasil. A Biblioteca da Ajuda foi mais tarde, mas antes foi a da Academia [Real] de Guardas-Marinhas [criada pelo rei para dar formação superior aos oficiais da Marinha de Guerra], porque a academia foi na íntegra. Foram os discípulos, os professores, os laboratórios e a biblioteca, que foi instalada no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, e se tornou na primeira biblioteca pública do Brasil. Não havia nada disso até então. Depois, foi enviada a Biblioteca da Ajuda. Ele criou o Jardim Botânico no espaço em redor da Fábrica da Pólvora, que também fundou, porque não existia uma fábrica de pólvora no Brasil. Nesse terreno, criou um jardim de aclimatação, para tentar aclimatar espécies vegetais de outros países para perceber se era possível plantá-las em larga escala e exportá-las. Isso deu origem ao Jardim Botânico, tal como hoje existe, que antigamente era fechado. Na época, era um laboratório. O [barão de] Eschwege, que depois construiu o Palácio da Pena com D. Fernando II, foi contratado por D. João para criar uma das primeiras siderurgias nacionais [no interior de São Paulo] e o Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro, onde ele e outros dois geólogos germânicos tinham de dar aulas para a formação de pessoal. Com a criação, em 1808, do Museu Real, que é o atual Museu Nacional, D. João VI colocou o Brasil no centro da pesquisa mundial, porque começou a haver intercâmbio, troca de coleções de espécies. Começou-se a descobrir o que existia no Brasil. Esse homem fez o Brasil ser conhecido lá fora, porque antes era um lugar fechado. Era uma propriedade privada da Coroa, basicamente, e ele abriu essa propriedade ao mundo.

Quando D. João regressou a Portugal, 13 anos depois, o Brasil era um lugar completamente diferente.
Completamente. Inclusive o Rio de Janeiro, que teve um crescimento absurdo, porque, embora fosse a cidade onde estava o vice-rei, não tinha grande coisa. Não tinha um hotel, um restaurante…

Salvador era mais desenvolvido?
Era mais desenvolvido, mas como o Brasil estava fechado, não havia lugar para ninguém se hospedar. As pessoas tinham de ficar nas casas umas das outras. Até podia haver uma ou outra hospedaria, mas D. João criou uma dinâmica que até então não existia. A abertura dos portos trouxe um monte de estrangeiros que queriam saber o que era esse Brasil que ninguém conhecia. Há um bairro no Rio de Janeiro, a Cidade Nova, que foi criado por ele. Ligava o centro do Rio ao palácio em São Cristóvão. Para construir uma casa nesse local, não era preciso pagar imposto. Houve um monte de melhorias no Rio de Janeiro que aconteceram só porque a corte estava lá.

O que é que sobrevive do Rio de Janeiro do tempo de D. João VI?
A Quinta da Boa Vista ardeu, mas a gente sabe que aquele espaço foi habitado por ele. No centro da cidade, fica o Paço Imperial, que, na época de D. João, era o Paço Real. Atrás, fica o Convento do Carmo, onde viveu e morreu a rainha D. Maria I. Esses cenários ainda estão iguais. E há um terceiro elemento nessa praça, que é a Praça XV: a antiga Capela Real. Temos a Igreja de Santa Luzia, que já existia na época dele. O primeiro neto dele [D. Sebastião, único filho de D. Pedro Carlos e de D. Maria Teresa], teve um problema nos olhos e ele fez uma promessa a Santa Luzia, que é a santa dos olhos. Para que pudesse passar e chegar à igreja para pagar a promessa, mandou criar uma rua, que ainda existe. D. Pedro I comprou uma propriedade em Petrópolis, que é uma cidade na serra, semelhante a Sintra, e D. Pedro II criou a cidade e mandou construir o Palácio de Verão, mas já era um lugar onde o rei costumava ir no tempo do calor. É engraçado, porque D. João espelhou lá tudo o que tinha aqui: a quinta em São Cristóvão seria Queluz; [a Real Fazenda de] Santa Cruz seria Mafra; e o paço da cidade seria o paço da cidade daqui, a Ajuda ou algo mais central. Ainda existem esses locais pelos quais ele passou. E também existem muitos monumentos. Em Salvador, há um monumento que foi erguido em 1811. No Rio de Janeiro, há um busto dele no Jardim Botânico, na Biblioteca Nacional… Em vários lugares.

A memória dele ainda perdura.
Sim, sim, a memória dele perdura. Em todos os locais onde ele fez alguma coisa, existe um busto dele. Isso é uma coisa interessante no Brasil.

Apesar de todos esses contributos, também houve alguns retrocessos, por exemplo, no tratamento dos povos indígenas e na questão da escravatura que, apesar das pressões externas, D. João VI recusou abolir.
E aumentou. Com a presença da corte no Brasil, começou a haver mais dinheiro e muitos investiram em grandes fazendas, e começou a ser preciso haver mais escravos. Digo no livro que todos os que estavam próximos do rei, no início, no Brasil, eram traficantes de escravos. Na Bahia, a elite da qual se aproximou, a elite que tinha dinheiro, era a elite esclavagista. No Rio de Janeiro, também. Os membros do senado da Câmara do Rio de Janeiro que seguraram o pálio de seda [debaixo do qual caminharam o rei e a família real depois do desembarque] eram todos traficantes de escravos, que eram que realmente tinha dinheiro. A Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, que ele recebeu após a sua chegada, era de um desses traficantes [Elias António Lopes]. Houve um aumento do envio de escravos para o Brasil durante esse período, e depois houve a questão das chamadas “guerras justas”, que se declaravam contra os indígenas que se opunham aos colonos. A “guerra justa” era uma guerra justificada — atacaram-nos, então, nós podemos atacá-los. Neste caso, D. João também usou essa “guerra justa” como uma forma de mostrar à Europa que o Brasil estava a ser civilizado. Essa palavra — “civilização” — foi criada pelo Iluminismo para determinar a questão do conhecimento. Ele usou isso um pouco como propaganda, para mostrar que foi para um local que achavam que era selvagem, mas que estava a civilizar. Realmente, houve retrocessos nesses dois pontos.

Um rei modernizador e impulsionador do conhecimento

A grande herança de D. João VI foi esse desenvolvimento do Brasil, que, mais tarde, levou à independência brasileira?
Há realmente esse contributo para a independência, mas há um contributo maior — ele colocou-se muitas vezes como defensor da Ciência. D. João perdeu o irmão mais velho e a irmã, D. Mariana Vitória, que ele adorava de paixão, para a varíola. E foi uma desgraça, porque morreu ela, a bebé que tinha acabado de nascer, e o marido dela. Também perdeu o primogénito, D. Francisco António. E o que é que ele fez? Mandou vacinar toda a gente. Mandou fazer um estudo sobre a vacinação e, com o apoio da Academia das Ciências, levou isso em diante, não só em Portugal, mas também no Brasil, envolvendo a Igreja. A vacinação era feita nas igrejas, justamente para não haver nenhum problema — se a Igreja apoiava, era porque essa tal de Ciência devia ser boa. É uma coisa que é pouco falada e que é muito importante — essa mentalidade que ele tinha e que o levou a procurar, também por meio da Ciência, o que é que podia ser explorado, outras espécies vegetais, outros minerais, e a levar o conhecimento para o Brasil e para os outros domínios portugueses. Isso faz dele um monarca muito em sintonia com os ideais do Iluminismo e do Liberalismo, embora fosse um monarca do velho regime. Esse salto, essa tentativa de modernização, inclusive das instituições, e a criação de novas instituições, que começou quando estava em Portugal, é uma coisa que também precisa de ser mais estudada. Por exemplo, [o ministro] D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um grande iluminista e um grande liberal, mas havia outras figuras liberais junto dele, como José Bonifácio [de Andrada e Silva] e [Domenico] Vandelli. O Vandelli era um médico italiano que já vinha da época do Pombal e que era uma autoridade. Ele fez de tudo e influenciou muito D. João. Ele embarcou nessa modernização. Podia ter dito “não”, mas não o fez, e acho que isso também é uma coisa importante.

"Pode ser que ele, realmente, tenha sido envenenado, porque morreu muito depressa. Ele não tinha nada e, de repente, de uma hora para a outra, morreu. Tirando um problema que tinha na perna, teve papeira quando era jovem e varíola, mas na forma branda, então acabou por ser inoculado. De resto, não se tem grandes notícias de problemas de saúde. É, no mínimo, suspeito. E a própria Carlota Joaquina diz ao embaixador britânico que D. João tinha sido envenenado."

Acha que a centralidade do episódio da partida para o Brasil na história de D. João fez com que outros aspetos do seu reinado, como esses que referiu, fossem menos estudados?
Acho que sim. E há uma mágoa de todos os lados, em relação a ele e ao filho. Houve uma pessoa que me disse que o D. Pedro não precisava de ter feito o que fez, porque ia receber a herança dele. O pai ia morrer e ele ia ficar com o Brasil — não era preciso haver uma separação. Como se só se resumisse a isso… Há essa questão, e os portugueses, ao justificarem ou continuarem a tratar o assunto como uma fuga, estão a retratá-lo como um cobarde que preferiu fugir do que lutar. Porque quem é que preferiria o Brasil a Portugal? Ele não queria voltar. O Napoleão já tinha sido derrotado, já estava tudo resolvido. Ele podia ter voltado, mas continuou no Brasil. Voltou, porque estourou a Revolução no Porto, mas também porque estourou a revolução no Brasil. A Revolução que estourou aqui em 1821 chegou a Belém do Pará, a região mais próxima, e foi como um rastilho de pólvora até chegar ao Rio de Janeiro. Todas as capitais do litoral brasileiro se juntaram à Revolução do Porto e, quando chegou ao Rio de Janeiro e as tropas se reuniram no Largo do Rossio e pediram que ele jurasse as bases de uma Constituição que ainda nem existia, foi aí que se rendeu. Depois, na sequência disso, houve alguns atropelos no Rio de Janeiro. Houve uma briga grande durante a escolha dos deputados que deviam ir para Portugal, que acabou em morte, e ele percebeu que o Exército estava completamente do lado dos liberais daqui e que não tinha outra saída senão fazer o que queriam, que era voltar.

Então não foram apenas os acontecimentos em Portugal que o fizeram deixar o Brasil?
Não me parece. Ficava a pensar: “A Revolução do Porto estava no Porto, o que é que aconteceu aqui?” Depois vi que não era uma coisa assim tão simples, porque toda a gente saudou essa ideia de ter uma Constituição. O Brasil juntou-se à causa liberal na sequência da Revolução do Porto. Tanto que foram enviados deputados para Portugal. Se não fosse isso, dificilmente D. João teria voltado, porque ele usou vários estratagemas [para adiar o regresso]. Tive a certeza de que realmente não queria voltar quando li uma nota sobre o que o marquês de Aguiar a Marialva devia dizer em Viena para justificar porque é que a futura imperatriz, a arquiduquesa Leopoldina, tinha de ir para o Rio de Janeiro para se casar com D. Pedro. O problema não era os portugueses, eram as pressões. No Brasil, estava livre disso tudo. Inglaterra estava muito longe, a Espanha também…

Tinha a tranquilidade que era impossível encontrar em Portugal?
Sim, e fez um monte de coisas que não conseguia fazer aqui. Em Portugal, até questionaram se era preciso convocar as Cortes para que fosse príncipe regente, sendo que era o único herdeiro. A posição dele foi colocada em xeque, até internamente.

E quando regressou, continuou a sê-lo.
O tempo todo. Foi um calvário. A vida dele foi muito difícil. Tanto que, cinco anos depois, morreu. Voltou em 1821 e morreu em 1826, provavelmente envenenado.

A morte de D. João VI: envenenamento ou uma última tragédia?

Parece-lhe plausível a teoria do envenenamento?
Acredito que sim.

Que foi inicialmente avançada por D. Carlota Joaquina.
Ela era, realmente, a pessoa que mais ganharia com isso.

E D. Miguel? Não ganharia?
D. Miguel era muito novo, muito inexperiente. Ele fazia o que a mãe mandava. E se o tivessem colocado como rei, ela teria sido regente até que ele atingisse a maioridade. O natural seria o poder ficar com ela. Quando ela descobriu que, antes de morrer, D. João tinha nomeado a filha [D. Isabel Maria] como regente, começou a questionar se não estaria morto há mais tempo, porque aquela assinatura não parecia ser a dele e tal. Mas é muito claro: ele estava a morrer e a fazer de tudo para que a mulher não assumisse o poder. Aquele casamento devia ser muito complicado…

Ela passou grande parte do casamento a conspirar contra ele.
Quando não estava a ter filhos… Porque eles tiveram nove filhos. Oito chegaram à idade adulta. Acredito que, inicialmente, não fosse uma relação assim tão má. A partir de 1805, com a Conspiração dos Fidalgos, de Mafra ou do Alfeite [que visava a destituição de D. João como príncipe regente e que teria tido D. Carlota Joaquina como principal instigadora], é que a coisa começou a ficar complicada entre eles. No Rio de Janeiro, também tiveram vários problemas, porque ela queria assumir a regência do [Vice-Reino do] Rio da Prata [que pertencia a Espanha e que era composto por territórios que hoje integram a Argentina, o Paraguai e o Uruguai], porque era a única Bourbon livre, e ele queria colocar o sobrinho [D. Pedro Carlos, filho de D. Mariana Vitória e do infante espanhol, D. Gabriel] nesse lugar. Mas foi inépcia da parte dele. Ela era muito inteligente — isso é inegável. Vemos pela sua biblioteca que era uma pessoa muito culta. O Volkmar Machado, que foi um pintor que fez parte da decoração de Mafra e também da Ajuda, dedicou um livro sobre arte a D. João e a D. Carlota Joaquina e disse, nesse livro, que ela se interessava muito por arte. Ela pintava e temos quadros dela no Rio de Janeiro, paisagens marítimas. Quando ela veio para Portugal, era uma criança. Tinha dez anos e ele tinha 18. Ele teve de esperar que ela desabrochasse, como se dizia na época, para começar a tentar ter filhos com ela. Ele cuidou dela. Ela teve piolhos e ele ia para o quarto dela brincar com ela para a distrair, coitadinha [porque os médicos tinham-na proibido de sair enquanto não melhorasse]. Ela era uma criança quando se conheceram, e acho que, por causa disso, ele nunca a levou muito a sério. E fez muito mal. O arranjo entre eles podia ter sido melhor.

[“Eu devo falar claro ao meu querido mano e rei no momento em que o mano Miguel entrar em Portugal, Portugal vai nadar em sangue, e tudo estará perdido. (…) Pelo amor de Deus, meu mano, não se iluda a esse respeito.” — Carta de D. Isabel Maria para o irmão, D. Pedro (14 de outubro de 1826)]

Porque é que acha que ele foi envenenado?
Nos anos 90, foram localizadas na Capela dos Meninos de Palhavã, em São Vicente de Fora, as vísceras de D. João. Quando faziam o embalsamamento, retiravam as vísceras e colocavam-nas num jarro. Um arqueólogo português, Fernando Eduardo Rodrigues Ferreira, analisou essas vísceras e descobriu que tinham uma grande quantidade de arsénico. O arsénico, por si só, não quer dizer nada. Houve muita gente que morreu envenenada por arsénico, às vezes por causa da tinta, um certo tom de verde, que era usado no papel de parede, nas roupas, e que era uma reação ao arsénico. E havia medicamentos que tinham arsénico. O que foi notado foi que a quantidade era muito grande. Pode ser que ele, realmente, tenha sido envenenado, porque morreu muito depressa. Ele não tinha nada e, de repente, de uma hora para a outra, morreu. Tirando um problema que tinha na perna, teve papeira quando era jovem e varíola, mas na forma branda, então acabou por ser inoculado. De resto, não se tem grandes notícias de problemas de saúde. É, no mínimo, suspeito. E a própria Carlota Joaquina diz ao embaixador britânico que D. João tinha sido envenenado.

Descreveu D. João VI como uma figura agregadora. Quando ele morreu, tudo se desfez.
Tudo. A regente, a filha, D. Isabel Maria, era muito sagaz. Ainda conseguiu, durante algum tempo, manter tudo como estava, mas foi graças à teimosia de D. Pedro que as coisas desandaram. Numa carta para o irmão, ela fez um raio X completo do que ia acontecer. Disse-lhe que, se colocasse “o mano Miguel” como regente, ia acontecer isto, isto e isto. E tudo o que disse, aconteceu. Se D. Pedro a tivesse escutado, nada daquilo teria acontecido. Não teria havido a guerra que houve em Portugal. Nesse ponto, talvez o D. Pedro sofresse do mesmo mal que o pai, que era não dar ouvidos às mulheres. Isso foi o grande erro dos dois. Ela era tão equilibrada quanto o pai, muita coisa se podia ter evitado.

Se D. João era esse ponto de equilíbrio, porque é que temos uma imagem tão negativa dele?
É traumático. Ele abandonou-vos. E a dor disso está na própria Revolução do Porto. O documento da Revolução diz que Portugal se sentia uma colónia, que tudo tinha de ser resolvido no Brasil, que nada era resolvido aqui e que se gastava mais dinheiro para fazer as coisas do que antigamente. Mas é curioso porque, mesmo assim, fizeram questão de que ele voltasse.