Dor e inchaço das articulações, sobretudo das mãos e dos pés (mas também nos punhos, cotovelos, ombros, joelhos e tornozelos). Rigidez e dificuldade para fazer certos movimentos. São estes alguns dos sintomas da artrite reumatoide. O médico de família pode servir de porta de entrada para a deteção precoce desta doença que provoca dores incapacitantes, mas segundo Filipe Araújo, reumatologista do Hospital Beatriz Ângelo (ULS Loures-Odivelas) e da CUF Cascais, é muito importante a avaliação e acompanhamento por um especialista. “O reumatologista é o médico capaz de avaliar e diferenciar adequadamente a artrite reumatoide.”
Depois do diagnóstico, o tratamento deve ser instituído individualmente, mas a alimentação, o exercício físico, a vacinação e alguns hábitos de vida saudáveis (como não fumar) podem ter um papel essencial.
O que é a artrite reumatoide?
É uma doença autoimune, em que o sistema imunitário, responsável por nos defender contra as infeções, funciona mal e ataca o próprio organismo. “Nesta doença, em particular, esse ataque é dirigido sobretudo contra as articulações, causando inflamação, que por sua vez é responsável por dor, inchaço e incapacidade funcional”, explica o reumatologista Filipe Araújo.
Quais os principais sintomas?
A dor é o sinal principal desta doença e da maioria das mais de cem doenças reumáticas. Aliás, é sobretudo este sintoma que leva à procura de cuidados médicos. “A dor articular na artrite reumatoide resulta da inflamação das articulações.” É também este o sinal que os médicos querem tratar primeiro para trazer alívio aos doentes e para os ajudar a recuperar. “A dor assume características particulares, surgindo ou agravando no período noturno e sobretudo ao sair da cama de manhã, assim como após períodos de imobilização prolongada”, diz o reumatologista.
Outro sintoma comum é o inchaço das articulações, sobretudo das mãos e dos pés, bem como a rigidez, sendo difícil a sua mobilização (movimentos). Outras articulações podem ser atingidas, como os punhos, cotovelos, ombros, joelhos e tornozelos.
Que tarefas do dia a dia podem ficar comprometidas?
Se a doença for diagnosticada e tratada atempadamente, não se esperam grandes limitações na vida dos doentes. “Mas no caso de uma doença diagnosticada muito tarde ou não tratada adequadamente, e sendo as mãos a principal parte do corpo atingida, várias funções podem ser comprometidas como cozinhar, vestir, abrir recipientes ou usar teclados.” O compromisso dos pés e dos joelhos pode limitar a capacidade de fazer caminhadas, correr ou usar escadas.
“Doenças mais graves e avançadas podem levar a ausências ao trabalho, necessidade de reforma antecipada, depressão, ansiedade e disfunção sexual”, diz Filipe Araújo.
Como se diagnostica?
“O diagnóstico é, em primeiro lugar, clínico, ou seja, baseia-se na caracterização dos sintomas e confirmação de artrite perante observação médica.” Depois é geralmente confirmado por alterações típicas nas análises que estão presentes na maioria dos doentes. Os exames de imagem, como as radiografias, são habitualmente normais nas fases iniciais da doença, pelo que não são tão úteis para diagnóstico.“Em estados mais avançados da doença (e inadequadamente tratada), as radiografias mostram destruição articular, o que acaba por levar a deformação irreversível.” Por isso é tão importante a avaliação e acompanhamento por um reumatologista.
Então estes doentes são normalmente referenciados para consulta de reumatologia?
A dor e o sofrimento de um doente com artrite reumatoide são de tal forma intensos que este acaba sempre por procurar ajuda médica. Filipe Araújo destaca duas portas de entrada habituais: “No Serviço Nacional de Saúde, os doentes são referenciados à consulta hospitalar de reumatologia maioritariamente pelos cuidados de saúde primários [médico de família].” Outros são referenciados internamente, ou seja, dentro do mesmo hospital, por outras especialidades, como a ortopedia. Já no setor privado, muitos doentes marcam consulta pela sua própria iniciativa diretamente para o reumatologista ou são referenciados por médicos de outras especialidades.
Sendo uma doença crónica, que tratamentos existem?
O tratamento deve ser sempre adaptado às características do doente, nomeadamente a existência de outras doenças e a toma de outros medicamentos. Mas também é influenciado pelas características da própria doença, que podem ser diferentes de paciente para paciente. Apesar de não ser conhecida cura para a artrite reumatoide, há vários tratamentos disponíveis que ajudam os doentes a ter uma vida normal, desde que cumpram a medicação e as recomendações dos médicos.
“Quando a doença se inicia, e para alívio rápido, são usados anti-inflamatórios e corticosteroides. E, assim que existam condições para tal, medicamentos que vão reduzir a atividade excessiva do sistema imunitário.” Ao fim de algumas semanas de tratamento, a dor e o inchaço das articulações desaparecem ou diminuem e o doente consegue retomar as atividades do dia a dia.
Outros medicamentos disponíveis são os biológicos, também chamados biotecnológicos, utilizados quando a medicação mais comum falha ou está contraindicada, “e que consistem em anticorpos que vão bloquear os processos da inflamação que estão a funcionar mal”. São de dispensa hospitalar obrigatória (não estão disponíveis nas farmácias comunitárias) e são totalmente comparticipados pelo Estado.
Além da medicação, que recomendações são dadas aos doentes para terem mais qualidade de vida?
São várias as sugestões para os doentes, além da toma de medicação, e envolvem diretamente hábitos de vida saudável:
- Alimentação. O doente deve privilegiar uma alimentação diversificada que respeite os padrões mediterrânicos e evitar o açúcar processado e o excesso de gordura trans (fritos, manteigas);
- Exercício físico. É essencial, não apenas para manter a mobilidade articular, mas também para reduzir o risco vascular, já que as doenças cardiovasculares e cerebrovasculares são a principal causa de morte nos doentes com artrite reumatoide;
- Não fumar. Além de facilitar o desenvolvimento da doença, o tabaco piora a resposta dos medicamentos;
- Vacinação. As vacinas sazonais (gripe ou Covid-19) reduzem o risco infecioso associado a alguns medicamentos.
Quantas pessoas têm a doença?
Em 2016, foram publicados os resultados do EpiReumaPt, o estudo epidemiológico das doenças reumáticas em Portugal, conduzido pela Sociedade Portuguesa de Reumatologia, que estima uma prevalência de 0,7%, ou seja, há aproximadamente setenta mil portugueses com artrite reumatoide.
Há grupos de risco ou pessoas mais vulneráveis?
A artrite reumatoide pode atingir qualquer pessoa, independentemente do género ou idade, mas “as mulheres são três vezes mais afetadas do que os homens”, explica o também professor assistente na Nova Medical School. A doença é, igualmente, mais comum na raça caucasiana e, apesar de poder surgir em qualquer idade, é mais prevalente entre os 30 e os 50 anos.
“Os fumadores [o tabaco é o fator ambiental com maior peso no desenvolvimento de artrite reumatoide], as mulheres [sobretudo em períodos de grande variação hormonal, como no pós-gravidez e no pós-menopausa] e as pessoas com familiares diretos com artrite reumatoide” têm mais probabilidades de desenvolver a doença. Mas também quem tem doença periodontal e esteja exposto a gases poluentes, sílica ou amianto.
A ANDAR – Associação Nacional de Doentes com Artrite Reumatoide ajuda os doentes e os familiares a reconhecer melhor a doença e a conhecerem os direitos que têm.