(c) 2023 am|dev

(A) :: Nuno César de Sá, o português que gere um dos hotéis mais luxuosos de Inglaterra: "Como posso sequer pensar em passar o Natal em casa?"

Nuno César de Sá, o português que gere um dos hotéis mais luxuosos de Inglaterra: "Como posso sequer pensar em passar o Natal em casa?"

Tem mais de 500 funcionários, há 25 anos que não passa o Natal com a família e no Grantley Hall até controla o estacionamento ao milímetro. Quem é ele, como chegou até aqui e o que lhe falta alcançar?

Andreia Costa
text

Há momentos que definem se a vida segue o caminho A ou o caminho B. Para Nuno César de Sá, essa encruzilhada aconteceu no verão de 1999. Tinha 26 anos e, depois de umas férias em Lisboa, teve de fazer escala em Manchester (Reino Unido) antes de regressar a Macau, onde vivia. Nessa pausa, no aeroporto, sentou-se ao lado de uma jovem e meteu conversa. “Ela estava a ler um livro sobre África e eu disse que tinha nascido em África. Falámos durante três horas. Ela ia de férias para África e eu ia regressar a Macau, trocámos emails e, a partir daí, começámos a escrever.”

Cada um seguiu para o respetivo hemisfério, mas, dois dias depois, Nuno ligou à mãe para lhe dizer: “Conheci a pessoa com quem vou casar”.

O rumo da vida de Nuno, que parecia previsível até ali, mudou como todas as grandes histórias: por amor. Após 27 anos, é agora diretor do Grantley Hall — um hotel de cinco estrelas em North Yorkshire, Inglaterra, que soma cada vez mais prémios, entre Hotel Independente do Ano e Melhor Hotel com Spa do Reino Unido — e estrela de uma série televisiva, Yorkshire’s Poshest Hotel: Grantley Hall, que acaba de passar em Inglaterra e pode brevemente chegar aos EUA.

[o trailer de “Yorkshire’s Poshest Hotel: Grantley Hall”:]

https://www.youtube.com/watch?v=8Kii5TPY3BU

Esta narrativa percorre muitos países e, para perceber como chegou a este ponto, temos de recuar até ao início: 21 de agosto de 1973. Foi nesse dia que Nuno César de Sá nasceu, em Moçambique, onde esteve apenas um ano. Com o 25 de Abril, a família regressou a Portugal, mas percebeu quase de imediato que não era para ficar. Paragem seguinte: Macau.

Com a separação dos pais e o regresso da mãe a Portugal, passou a dividir-se não só entre casas, mas entre continentes. Em Macau estava habituado a frequentar hotéis de luxo, Portugal continuava a ser um país completamente fechado. “Naquela altura, anos 70 e 80, pouca gente viajava [em Portugal]. Só para chegar a Macau, por exemplo, tínhamos de fazer Lisboa-Londres ou Paris, Paris-Tel Aviv, Tel Aviv-Bombaim, para depois chegar a Banguecoque e Hong Kong. Chegavas a Hong Kong, apanhavas um barco e demoravas mais meio dia para chegares a Macau, num barco que demorava quatro horas.”

Desse lado do mundo, o pai era membro do Mandarin Oriental de Macau e Nuno estava lá todos os dias. “Via como as pessoas gostavam de estar nos hotéis e fiquei com esta curiosidade de perceber o que acontecia para as pessoas estarem tão felizes.”

Numa festa de aniversário do pai, que foi servida pelo hotel, em vez de estar a confraternizar com os cerca de 100 convidados, Nuno passou a maior parte do tempo na cozinha, com os chefs e os empregados. Estava fascinado com a logística. Tinha 15 anos e nunca mais tirou aquela ideia da cabeça. Ainda assim, o pai disse-lhe que tinha de terminar o 12.º ano. Depois sim, podia ir para uma escola de hotelaria na Suíça. Estudou também em Portugal e, em Lisboa, passou um ano a distribuir pizzas para conseguir dinheiro.

“Na altura, ser disléxico em Portugal era um problema. Os meus exames eram horríveis porque também só havia aquele tipo de ensino, o tradicional. Eu sabia que era bom noutras coisas, mas estar sentado numa universidade não daria para mim.”

A promessa do pai cumpriu-se e, quando chegou ao Instituto Superior de Glion, na Suíça, Nuno sentiu que ali era o seu verdadeiro lugar — mais tarde viria a completar um MBA cuja tese se focou na dislexia. “Lembro-me de ligar aos meus pais, depois de lá estar há dois dias, e de dizer que ali ia ter as melhores notas. Deve ter sido a primeira vez, no mundo da educação, que me senti como peixe na água.”

O curso durou três anos e o primeiro estágio levou-o ao sul de França para aprender francês. No segundo regressou a Macau e a um território que conhecia bem, o Mandarin Oriental. “Nesses seis meses trabalhei como um louco. Comecei por ser a pessoa que limpa os lixos todos do hotel. Passei pelas cozinhas, pela receção e estive não sei quantos meses a limpar quartos.”

Regressou à Suíça, terminou o curso e colocou uma mochila às costas: foi viajar pelo mundo durante vários meses. Polónia, Turquia, Hungria, Roménia, queria conhecer pessoas e culturas diferentes. Voltou a Macau e ao Mandarin, onde esteve sete anos, a trabalhar 80 ou 90 horas por semana. Foi parar ao departamento de comida e bebida, fez banquetes para mais de três mil pessoas, festas em barcos e foi subindo na hierarquia. Foi ver como se trabalhava no hotel da cadeia em Manila e no hotel em Hong Kong — “já tinha Mandarin nas veias e naquela altura a Ásia é que tinha aberturas [de hotéis] loucas” — com o objetivo de transitar para um deles. Porém, é neste ponto da história que fazemos escala em Manchester.

Assim que Nuno e Rebecca começaram a corresponder-se, foi “uma loucura”. Entre os longos emails e os telefonemas foi preciso, no entanto, tirar dúvidas. Nuno foi três dias a Inglaterra em outubro e Rebecca em dezembro a Macau por dez dias. Deu tudo para conquistá-la. “Fui buscá-la de helicóptero, depois com um Rolls Royce com champanhe.” Estiveram em Macau e em Banguecoque e, após 18 dias juntos, Nuno pediu-a em casamento.

Uma vez foi de férias com a mulher para as Maldivas. Ao quarto dia estava a treinar os empregados. “Comecei a ensinar-lhes a fazer cappuccinos e lattes. Preciso de canalizar a minha energia.”

A um passo de ser diretor do hotel Mandarin Oriental em Surabaia (Indonésia), despediu-se. “Vendi tudo e cheguei a Inglaterra com uma mochila às costas, algum dinheiro no banco e mais nada.”

Em Inglaterra, Rebecca, professora, também se despediu. Marcaram uma data dali a dois anos para se casarem e, no intervalo, foram viajar pelo mundo para decidirem onde queriam viver — e, na prática, para perceberem como seria viverem juntos. Estiveram na América do Sul, na Austrália e na Índia. Quando voltaram ao ponto de partida, Inglaterra, Nuno decidiu mandar três currículos para ver o que acontecia — tinha gostado da vida tranquila do norte de Inglaterra, mais precisamente North Yorkshire. Dos três contactos recebeu três ofertas de trabalho, uma delas do hotel que tinham reservado para o casamento, o Rudding Park, um espaço com 60 funcionários que estava a começar a desenvolver-se.

Aceitou essa proposta e, no tempo que lá esteve, o hotel passou de 60 para 350 funcionários, com dois campos de golf e vários restaurantes. Aí percebeu que gerir pessoas em Macau e em Inglaterra era muito diferente. “Na Ásia, dizes às pessoas para fazerem e elas fazem. Em Inglaterra, pedes uma coisa e metade das pessoas dizem logo que não. Há muito mais gestão de pessoas.”

Sendo parte da União Europeia (e ainda muito longe das complicações do Brexit), Nuno resolveu levar trabalhadores portugueses para Inglaterra. O número chegou a 150. Muitos chegaram através de agências, outros através do olho atento de Nuno em todo o lado, até numas férias no Algarve com a mulher e os três filhos. A família foi toda para a piscina nadar e Rebecca tinha deixado os croissants numa mesa, à beira das cadeiras. “Estava lá a trabalhar um miúdo chamado João que teve o cuidado de ir tapar os croissants porque andavam uns passarinhos por ali e ele não queria que atacassem a comida.”

Nuno perguntou-lhe se não queria ir trabalhar para Inglaterra. E ele foi — estiveram juntos cinco anos. Noutra ocasião, em Itália, fez o mesmo. “Estava lá uma rapariga do Senegal, tomou conta dos miúdos, fez tudo, era uma máquina.” Mudou-se para Inglaterra, trabalhou com Nuno cinco anos. Um verdadeiro caça talentos, ainda mantém alguns colaboradores que foi recrutando ao longo dos anos e diz que reconhecer qualidade nos outros é algo inato, tal como perceber o estado de espírito de quem o rodeia. “Entro numa sala com 200 pessoas e sei quem é que está contente e quem não está, aprendi a usar isso. Faço a mesma coisa com os meus funcionários, a maioria do meu tempo é andar de um lado para o outro a ver como é que os meus empregados estão.”

Olhando para trás, admite que talvez tenha ficado no Rudding Park tempo a mais, mas essa fase coincidiu com o crescimento dos filhos e deu à família a estabilidade necessária. “Os miúdos tinham boas escolas, era uma zona economicamente fantástica.”

Há cerca de dez anos, Nuno começou a ouvir rumores sobre uma mulher que resolvera comprar um edifício completamente destruído — tinha pertencido a três famílias e sido uma escola e um hospital antes de ficar ao abandono. Valeria Sykes tinha uma pequena fortuna conquistada com o acordo de divórcio e decidiu comprar Grantley Hall por cerca de 140 milhões de euros. Objetivo: construir ali o melhor hotel do mundo — tendo em conta a quantidade de prémios conquistados na curta existência, a corrida leva um bom ritmo. A ideia, mais do que gerar lucro, é deixar um legado na região. “Ela quis fazer uma coisa para Inglaterra, é uma heroína ali.”

Da compra até à abertura passaram quatro anos e, pouco depois na inauguração em 2020, Nuno foi lá passar uma noite. “Fiquei louco, parecia um hotel na Ásia, onde não se olha a custos. São os melhores copos do mundo, os melhores cartões do mundo, sente-se o luxo.”

Nuno chegou, como funcionário, três anos depois. O diretor geral inicial não ia ficar e sugeriu o nome do português para o cargo. Foi lá, teve uma entrevista de três horas e logo ali surgiram desentendimentos. Porém, no dia seguinte recebeu uma proposta de trabalho.

Com uma equipa montada, o novo diretor geral criou logo alguns atritos. Mudou reuniões e cargos, despediu pessoas. Mas também renovou a cantina e atribuiu-lhe chefs. “Gasto um balúrdio em comida, mas tenho de fazê-lo para dar boas condições aos trabalhadores.” Trocou igualmente o escritório assim que chegou. “Tinha uma mesa enorme, numa sala fechada, as pessoas tinham de bater à porta. Um líder de pessoas tem de estar no meio delas.”

Quando vivia em Macau, Nuno passava os dias no Mandarin Oriental. “Via como as pessoas gostavam de estar nos hotéis e fiquei com esta curiosidade de perceber o que acontecia para as pessoas estarem tão felizes.”

Nos primeiros três meses mal dormiu. “Trabalhei como um louco e todos os dias pensava que ia ser despedido.”

Depois chegaram 25 funcionários que tinham trabalhado com ele antes e os departamentos começaram a consolidar-se. Gere 540 funcionários de 60 nacionalidades. Tem seis restaurantes, um deles com estrela Michelin, nos quais trabalham 80 chefs. Há 25 anos que passa o Natal a trabalhar. Mas não há tem qualquer dúvida: “Como é que posso sequer pensar nisso, estar em casa e ter os meus funcionários a trabalhar? Ter os clientes a gastar o que gastam e não ir ao hotel? É impossível”.

O que faz o diretor de um dos hotéis mais luxuosos de Inglaterra?

Apesar de ter uma equipa enorme e de afirmar que consegue delegar, Nuno é minucioso com tudo — do risco na parede aos carros que têm de estar milimetricamente arrumados no estacionamento (e organizados por cores). “Sou um chato de primeira, não posso ter um cocó de pássaro no jardim. Porque se lá estiver — e pode ser só um — é nisso que o cliente vai reparar.”

Tanto ele como a equipa fazem o que for preciso pelos hóspedes, incluindo corridas contra o tempo. “Tivemos um noivo que na manhã do casamento disse ‘esqueci-me dos sapatos em casa, que fica a três horas de distância’. Um dos meus empregados foi lá, trouxe os sapatos e chegou cinco minutos antes da cerimónia. Resolvido. Outro cliente queria o Olly Murs a cantar só para ele. Tudo é possível. Só precisamos de dinheiro e, vá, algum tempo.”

Em Grantley Hall há música debaixo da água da piscina; em dois quartos é possível alterar a altitude para que os hóspedes tenham a sensação de dormir a quatro mil pés; e, como os donos queriam que o hotel estivesse numa ilha, foi possível trocar o curso das águas do rio para que a propriedade ficasse no centro. A preocupação ambiental também é importante e as luzes exteriores desligam à noite para proteger os morcegos, por exemplo. Uma noite numa suíte começa nos cinco mil euros — “um cliente ligou a perguntar se as nossas suítes eram más. Achou barato porque está habituado a pagar 20 mil no Georges V, em Paris” — e alugar o hotel inteiro para um casamento, por exemplo, custa 200 mil euros por noite. Muitos clientes chegam de helicóptero — chega a haver nove por dia — e aviões privados e 50% dos hóspedes regressam. E, além das estadias, há um serviço que é uma espécie de coqueluche. O afternoon tea (ou chá das cinco) é servido numa sala clássica para cerca de 40 clientes (não precisam de ser hóspedes) e começa nos 92,50€ por pessoa. Só para esse serviço há 11 chefs a trabalhar diariamente e sobretudo com produtos locais, uma das grandes apostas do hotel.

Os donos de Grantley Hall (Valeria Sykes e o filho) já tinham sido abordados várias vezes para fazer uma série documental, mas nunca quiseram avançar por não terem controlo editorial, até que chegou o Channel 5. Durante metade de 2025 uma equipa de seis pessoas esteve no local para gravar quatro episódios. O resultado foi Yorkshire’s Poshest Hotel: Grantley Hall, que se estreou no final com meio milhão de pessoas a assistir à estreia — a que se seguiram milhares de downloads.

As reservas aumentaram 146%, o site oficial do hotel teve cerca de 350 mil visitas no primeiro mês e a série pode chegar brevemente aos EUA, através da Paramount. Além disso, criaram-se estrelas instantâneas, como Isaac, o funcionário que dá as boas-vindas ao hotel. “Tornou-se um fenómeno no Tik Tok pela energia e boa disposição e temos hóspedes que entram e dão a volta para sair e voltar a entrar. Mas, mais do que isso, queríamos que fosse algo positivo para o hotel, para os funcionários e para a indústria. Acho que conseguimos, porque tenho pessoas a dizer que querem trabalhar na hotelaria depois de verem aquilo, era o que eu desejava.”

Uma segunda temporada está a ser ponderada, mas também acarreta riscos. Num hotel onde as pessoas pagam tanto, não querem intrusos. “O programa de televisão é só um programa de televisão. No final do dia, sou hoteleiro, a minha preocupação continua a ser deixar os clientes contentes. Continuo obcecado com isso.”

Todos os dias, Nuno faz um percurso de 30 minutos entre casa e o hotel. Não há semáforos nem poluição, mas sim patos e ovelhas, e isso recarrega-lhe as baterias. Também faz maratonas, anda de bicicleta pelas montanhas e cozinha. No entanto, há algo que descobriu há muito: ir de férias mais do que uma semana está fora de questão. “Quando não estou a trabalhar, desligo, mas passados três dias já não sei o que fazer comigo.”

Em tempos foi de férias com a mulher para as Maldivas. Ao quarto dia estava a treinar os empregados. “Comecei a ensinar-lhes a fazer cappuccinos e lattes. Preciso de canalizar a minha energia.”

Muitas pessoas mandaram-lhe mensagens depois da estreia da série. “Dizem-me: ‘Lembras-te de há 20 anos teres feito o meu casamento?’ Eu não me lembro, mas ainda bem que ficou na memória deles.”

Há uns tempos entrou num avião da Ryanair e o piloto deu umas boas-vindas especiais no início do voo. “Tinha trabalhado comigo, foi meu coffee boy [rapaz que serve cafés, em tradução livre] há não sei quantos anos e agora é piloto.”

Lá em casa há prémios por todo o lado — o mais recente tem poucas semanas e incluiu Nuno César de Sá na lista dos Mais Influentes do Setor Hoteleiro de Luxo de 2026. Na cabeça tem “50 mil ideias” para o futuro, como criar uma vinha para produzir o vinho ali mesmo, e um objetivo muito claro: “Eu não paro até ter o melhor hotel do mundo”.