(c) 2023 am|dev

(A) :: Sergei Loznitsa: “Nenhuma sociedade é imune ao autoritarismo”

Sergei Loznitsa: “Nenhuma sociedade é imune ao autoritarismo”

Conversa com o cineasta ucraniano sobre o seu filme mais recente, "Dois Procuradores", uma ficção ambientada nos calabouços do estalinismo durante as purgas dos anos 1930.

Francisco Ferreira
text

Ficção baseada em documentos e factos relatos pelo físico, preso político e escritor Georgy Demidov (1908–1987), o novo filme de Loznitsa arranca com Kornyev (Alexander Kuznetsov), um jovem e obstinado procurador na União Soviética de 1937, disposto a bater-se pelas causas em que acredita. Está prestes a chocar de frente com as purgas estalinistas e a ser devorado pelo sistema que o criou. O filme estreou-se a concurso, há pouco mais de um ano, em Cannes 2025, chegando agora às salas portuguesas.

A obra de Loznitsa, de valor incontestável, tem sido mais saliente quando o ucraniano (embora nascido bielo-russo) se entrega às práticas do documentário. Dois Procuradores, contudo, é uma das ficções mais contundentes desta filmografia, e talvez aquela que, tacitamente, mais sugere uma aproximação entre a história soviética e a Rússia contemporânea, reflectindo sobre a destruição da justiça e a persistência dos sistemas autoritários. “Não faço filmes de propaganda”, contou-nos o cineasta na Croisette, “mas não posso deixar de convidar o meu espectador à reflexão sobvre o mundo em que vivemos. Não podemos ficar à margem de questões importantes que nos afetam profundamente.”

https://www.youtube.com/watch?v=slLpoM7_GnM

Uma das coisas que mais impressionam em Dois Procuradores é a estrutura burocrática da NKVD, a polícia secreta (anterior ao KGB) do regime soviético, e o modo como ela corrói qualquer ideia de justiça. Foi esta a premissa que o levou a fazer o filme?
É interessante que fale da palavra justiça porque, antes deste filme, realizei The Kiev Trial [2022], sobre o espectáculo dos julgamentos-fantoche organizados por Estaline no início da década de 1930. Esses processos serviram para identificar os intelectuais como inimigos do Estado e abrir caminho a uma repressão generalizada. Depois disso, a repressão espalhou-se por todo o país. Dois Procuradores é, de certa forma, uma continuação desse trabalho. Uma novo mergulho nos julgamentos estalinistas.

O filme inspira-se assumidamente na figura de Georgy Demidov. Quem foi ele?
Demidov foi preso em 1938, em Kharkiv, onde trabalhava como físico experimental. Passou catorze anos no Gulag, nos campos de concentração mais temidos do sistema soviético, que ele próprio descreveria como “Auschwitz sem fornos”. Mais tarde, escreveu sobre essa experiência. Partilhava os seus manuscritos com amigos. Mas a KGB conseguiu confiscar tudo. A novela Dois Procuradores foi concluída em 1969, mas, naquela época, não só era impossível publicá-la como era perigoso lê-la e guardá-la em casa, mesmo entre familiares ou amigos. Demidov morreu em 1987. Nunca viu uma única palavra sua publicada. Após o colapso da União Soviética, a sua filha conseguiu, após dura luta burocrática, reaver os documentos.

Em 2008, foi finalmente publicada na Rússia uma parte resumida dos seus escritos, em jeito de antologia. E só há pouco tempo foi conhecida a totalidade da obra, em seis volumes. Interesso-me a fundo pela história da União Soviética e considero os escritos de Demidov fulcrais para descrever a grande escala daquele sistema totalitário e a forma como as pessoas tentavam proteger-se e sobreviver dentro do sistema. Demidov descreve isso de forma extraordinária.

https://observador.pt/2026/06/03/dois-procuradores-uma-viagem-sinistra-atraves-da-noite-totalitaria-sovietica-nos-anos-30/

Por outro lado, há em Dois Procuradores uma ambição romanesca, um gesto de ficção claro que o trouxe agora à Competição de Cannes, com um jovem procurador protagonista demasiado cândido face à fidelidade das suas convicções. Concorda?
Sim, mas essa leitura da personagem é uma avaliação feita a partir do nosso conhecimento atual. Estamos numa posição confortável, digamos assim. Porque hoje sabemos o que aconteceu. Esse conhecimento do espectador molda o filme. Mas se vivêssemos naquela época, provavelmente não compreenderíamos a verdadeira natureza do sistema. Foi um mecanismo que destruiu inúmeras vidas.

Falou da ausência de uma linguagem capaz de descrever o terror. Essa limitação ajuda a explicar a ingenuidade do protagonista?
Kornyev é idealista, corajoso, acredita no futuro que está a ajudar a construir. Não consegue sequer imaginar que vive num mundo profundamente corrompido. Muitos homens como ele acabaram por ser vítimas do próprio sistema que defendiam. Aquilo que se passa é que, muitas vezes, as pessoas não dispõem das palavras ou dos conceitos necessários para compreender a realidade em que vivem. Basta olharmos para o presente. Houve quem acreditasse que determinados problemas internacionais poderiam ser resolvidos de forma quase instantânea. Nesse sentido, a ingenuidade continua a existir.

No seu filme, o verdadeiro antagonista não tem um corpo, não é uma pessoa, mas sim um sistema.
Exatamente. É o eterno problema do herói romântico incapaz de lutar contra a máquina. Nas narrativas clássicas, o herói enfrenta indivíduos concretos. Hoje, lidamos com sistemas. E os sistemas não têm alma. É isso que os torna tão difíceis de combater.

O filme é muito marcado por uma paleta de tons cinzentos e cores sombrias, reforçando uma sensação de clausura. Que atmosfera procurou criar?
A atmosfera própria de um sistema totalitário. O mais interessante é que as personagens, por si só, não demonstram medo de uma forma evidente. Porquê? Lá está: porque o medo já faz parte da sua vida quotidiana. Se lermos os testemunhos dos sobreviventes dos campos de concentração soviéticos, percebemos que aquilo que, para nós, parece um inferno, tornara-se, para eles, numa normalidade possível. Caso contrário, não teriam conseguido sobreviver.

O rigor dos enquadramentos e o formato 4:3 também são uma alusão ao cinema da década de 1930. Foi uma escolha deliberada?
Sim. Aliás, cheguei a pensar abrir este filme com imagens de The Kiev Trial e terminá-lo com um discurso de Andrei Vychinski [1883-1954], o procurador dos grandes julgamentos estalinistas. Esse discurso é extraordinário. Devia ser visto por todos nós. A linguagem é quase absurda, próxima de uma espécie de poesia delirante. Fascina-me a forma como a própria linguagem do sistema soviético era reveladora da sua loucura. Acabei por não utilizar esse material porque percebi que o filme já transmitia essa ideia por si próprio.

Passemos aos intérpretes. A longa duração de certo planos, e os extensos diálogos de muitas cenas, desafiaram os seus atores?
Tudo é um desafio para os atores. Mas tive a sorte de trabalhar com um elenco extraordinário. Trabalhámos muito o texto antes da rodagem: o seu significado, aquilo que podia ser retirado e aquilo que tinha obrigatoriamente de permanecer. O resultado que se vê no ecrã é fruto desse trabalho.

Também notei que há em Dois Procuradores, apesar da sua gravidade, um lastro de humor muito particular, nem sempre irreconhecível para um ocidental. A cena da canção no comboio, por exemplo. O seu filme pode ser visto como uma espécie de comédia negra?
Claro. É uma interpretação perfeitamente válida. Há no filme um humor muito ligado à tradição literária russa, particularmente a Gógol. Essa sequência do comboio, por exemplo, inspira-se directamente numa história de Almas Mortas. Gógol compreendeu algo fundamental: quando não existe justiça, instala-se inevitavelmente a desordem. Há um lema recorrente em muitos contos populares russos: “Vai para onde não estiveste e descobre aquilo que não conheces.” O nosso protagonista encontra-se precisamente nessa situação. Kornyev está rodeado pelo desconhecido. Não compreende o mundo em que vive. Faz aquilo que considera justo e lógico, mas a realidade que o rodeia não é o que aparenta ser. Ele está a avançar às cegas. No fundo, a grande questão do filme é tão simples quanto esta: “Onde estou e o que me está a acontecer?” Só ao fim de uma hora de filme nos damos plenamente conta daquilo que o protagonista vai ter que enfrentar.

É quase impossível não lhe perguntar isto: há uma ligação directa entre a sociedade soviética retratada no filme e a Rússia atual?
Sem dúvida. É a mesma máquina. Olhe para o caso dos advogados que defenderam Alexei Navalny [líder da oposição russa até à sua morte, em 2024]. Limitaram-se a desempenhar a sua função. Foram interrogados em janeiro deste ano [2025] e continuam na prisão. Há uma ligação muito clara entre aquilo que vemos no filme e aquilo que acontece hoje. A História repete-se. São diferentes as circunstâncias, a tecnologia, o aparato, mas os resultados são frequentemente os mesmos. A tentação de alcançar objetivos políticos através da violência continua presente, mesmo nas sociedades que julgamos mais estáveis ou incorruptíveis. E nenhuma sociedade é imune ao autoritarismo. Muitas vezes, não conseguimos ver o conjunto porque estamos demasiado próximos dos factos. Dizemos a nós próprios: “Isto não pode estar a acontecer.” E, no entanto, acontece.

O que vai seguir-se agora, no seu trabalho?
Gostava de fazer outro filme sobre os prisioneiros do regime soviético, focado nas estratégias que eles desenvolveram durante os interrogatórios. Essas estratégias tornaram-se uma forma de resistência dentro daquele sistema. Quero continuar a explorar o tema do estalinismo e do seu universo prisional. A história permite-nos observar estas questões com alguma distância. Sem a paixão imediata do presente, torna-se mais fácil compreender o que realmente aconteceu.

Vive actualmente entre Berlim e Vilnius, a capital da Lituânia. Mantém contacto com colegas seus dos tempos em que trabalhava em Moscovo?
Com alguns, sim. Mas a maioria deixou a Rússia. Os actores que eu conhecia e que participaram nos meus filmes também partiram. Alguns estão em Telavive, outros vieram para aqui, para França, encontraram trabalho em Paris. Há pessoas de quem sinto falta. Tornou-se difícil manter as conversas e a proximidade que existiam antes.

E sobre a Ucrânia, qual é o seu vaticínio? O que lhe acontecerá?
Penso que a guerra está para ficar e vai continuar, num impasse terrível, que durará anos. Infelizmente, é essa a minha expectativa.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.