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(A) :: Esfaqueado e depois algemado pela polícia após acusações de racismo. Como a morte de um jovem de 18 anos está a abalar o Reino Unido

Esfaqueado e depois algemado pela polícia após acusações de racismo. Como a morte de um jovem de 18 anos está a abalar o Reino Unido

Henry Nowak pediu ajuda à polícia após ser esfaqueado com espada por membro da comunidade sikh. Agentes ignoraram pedido de socorro. Farage diz haver "dois sistemas", que prejudicam "maioria branca".

José Carlos Duarte
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Era uma noite fria de dezembro, por volta das 23h35. Henry Nowak estava a regressar à residência universitária onde vivia após uma saída à noite com amigos na zona de Portswood, na cidade de Southampton. O estudante de Gestão de 18 anos não estava bêbedo, apesar de ter consumido algum álcool essa noite. Cruzou-se com Vickrum Digwa, de 23 anos, membro da comunidade indiana sikh, que tradicionalmente transporta um kirpan — uma espécie de espada. O encontro começou por uma simples questão de Henry Nowak: “És um mau homem?”. E terminou com a sua morte e uma mentira que está a indignar o Reino Unido — Vickrum Digwa alegou que tinha sido alvo de um ataque racista, que levou a que a polícia não socorresse inicialmente o jovem, que acabou por morrer após ter sido esfaqueado por uma espada de 21 centímetros.

Esta terça-feira, a família do jovem de 18 anos autorizou que as imagens das bodycams da polícia fossem divulgadas publicamente e a atuação negligente da polícia britânica tornou-se clara e alvo de uma onda de críticas pelos partidos políticos no Reino Unido. Após ter sido algemado devido ao falso alerta de ataque racista, Henry Nowak queixou-se repetidamente de que “não conseguia respirar” e que “tinha sido esfaqueado”. No entanto, as autoridades ignoraram o pedido de socorro: “Não me parece que tenhas sido [esfaqueado]”, disse um agente. Na realidade, o jovem sofreu ferimentos graves nas pernas e foi esfaqueado perto do coração pela espada que Vickrum Digwa transportava consigo — lesões que acabaram por se revelar fatais.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, caracterizou o sucedido “como desolador” e até confessou que se sentiu “perturbado” ao ver as imagens e vídeos gravados pelas bodycams. O chefe do Executivo frisou que a polícia tem de responder a “questões muito sérias” sobre a forma como atuou. Entretanto, o Gabinete Independente para a Conduta Policial (IOPC, na sigla em inglês) abriu um inquérito formal para apurar os contornos do caso e determinar como foi possível que os agentes tivessem ignorado os apelos de socorro de Henry Nowak.

https://twitter.com/europa/status/2061555027261497774

Já sob forte pressão e a atravessar uma fase negativa, o Governo britânico está a braços com um novo escândalo. À direita, o líder do Reform UK (partido de direita radical que está à frente nas sondagens), Nigel Farage, tem lançado duras críticas à atuação do Executivo e da polícia, acusando-os de promoverem “preconceitos contra os brancos”. “O medo de ser chamado racista foi superior à obrigação de lidar com o homicídio de Henry Nowak. Devemos responder a isto com pura raiva. O modo de vida histórico no Reino Unido está a ser colocado em causa”, afirmou.

Nigel Farage não foi o único a expressar indignação. Num artigo de opinião publicado no Daily Mail, a líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, criticou duramente a “política identitária prejudicial” que atribui ao movimento Black Lives Matter — que surgiu em 2020 após a morte do norte-americano George Floyd, asfixiado por um polícia branco nos EUA. A conservadora não deixou ainda de criticar o líder do Reform UK, acusando-o de querer explorar e aproveitar-se da morte de Henry Nowak, tal como fez esta quarta-feira Keir Starmer, durante o debate no Parlamento britânico.

Polícia nega “dois sistemas”, mas admite falhas

A atuação policial na morte de Henry Nowak está a ser escrutinada ao detalhe pelos partidos políticos no Reino Unido. Na memória coletiva britânica permanece bem viva a morte de Stephen Lawrence, um jovem de 18 anos que foi morto por motivação racista em 1993. Kemi Badenoch recordou este episódio para lembrar o que aconteceu com o estudante em Southampton: “A morte de Henry deve ser um momento central para o Reino Unido, a par da morte de Stephen Lawrence, o adolescente negro morto em 1993, que levou à publicação do Relatório Macpherson seis anos depois, que concluiu que a Polícia Metropolitana era ‘institucionalmente racista’”.

Em 2000, para evitar episódios idênticos ao de Stephen Lawrence, a polícia britânica adotou uma série de diretrizes para promover a igualdade racial, incluindo a contratação de mais agentes de outras minorias étnicas. Contudo, em 2022, um relatório do Conselho Nacional de Chefes de Polícia concluiu que ainda existia uma notória falta de confiança das comunidades negras nas autoridades.

Perante esta análise, em 2025 foi adotado um novo pacote de medidas para combater o racismo no seio da polícia do Reino Unido. Uma das principais diretrizes determinava a necessidade de garantir “que toda a gente que trabalha na polícia” se sinta confortável “para falar sobre o racismo” e “confiante” para o “desafiar” durante o exercício das suas funções. A morte de Henry Nowak vem agora questionar estas diretrizes e como os agentes de autoridade se podem sentir constrangidos.

Em declarações à BBC, um polícia confidenciou que existe um cuidado especial quando há casos que envolvem etnias diferentes: “Tivemos vários relatórios nos últimos anos sobre o quão racistas somos no que toca a pessoas negras e asiáticas, pelo que somos muito cautelosos ao lidar com casos que envolvem raças diferentes — e, depois do que aconteceu em Southampton, é fácil perceber porquê. Talvez estejamos a ser demasiado cautelosos agora”.

"Tivemos vários relatórios nos últimos anos sobre o quão racistas somos no que toca a pessoas negras e asiáticas, pelo que somos muito cautelosos ao lidar com casos que envolvem raças diferentes — e, depois do que aconteceu em Southampton, é fácil perceber porquê. Talvez estejamos a ser demasiado cautelosos agora."
Declarações de um agente da autoridade à BBC

A secretária de Estado da Polícia e da Criminalidade, Sarah Jones, referiu à BBC que nem o Governo vê com bons olhos as medidas do Conselho Nacional de Chefes de Polícia (organismo público, mas totalmente independente do Governo) de 2025. “Não penso que forme a base para o treino de qualquer atividade policial”, afirmou, sublinhando que o programa está agora a ser “avaliado”. “Pensamos que a linguagem é errada e dá uma impressão errada, mas não creio que afete a forma como o treino é feito”, insistiu. Por sua vez, o organismo já assegurou que irá rever o documento emitido em 2022.

Este plano de ação e as reformas introduzidas em 2025 estão a gerar polémica após a morte de Henry Nowak. Nigel Farage e outras vozes mais à direita estão a utilizá-los como o principal argumento para sustentar que o Reino Unido vive sob “duas polícias”, uma que discrimina a maioria branca e outra que é complacente com as minorias étnicas. Essas acusações têm sido categoricamente rejeitadas pela polícia.

O chefe da polícia de Hampshire (em que se inclui Southampton), Alexis Boon, recusou a ideia de que houvesse “duas polícias” no Reino Unido. “Vejo agentes, dia após dia, no terreno, a servir todas as nossas comunidades sem medo nem favoritismos. E penso que essa é a realidade a nível nacional”, assinalou, garantindo que não acredita que a polícia seja “contra os brancos”. “Não acredito que a polícia seja racista. Existem indivíduos racistas no exercício das suas funções. Claro que há e sempre haverá. E vamos lidar e combater isso.”

Pode este escândalo beneficiar Nigel Farage?

“Henry, Henry!” Nas ruas de Southampton, milhares de pessoas saíram entre esta terça e quarta-feira às ruas para contestar a forma como a polícia lidou com a morte do jovem de 18 anos, após terem sido divulgadas as imagens das bodycams. De acordo com o jornal Telegraph, os manifestantes envolveram-se em violentos confrontos com as autoridades britânicas, arremessando tijolos e garrafas contra as forças de segurança. Pelo menos onze polícias ficaram feridos na sequência dos protestos.

Nos últimos meses, a cena política britânica polarizou-se. Durante décadas, o Partido Conservador e o Partido Trabalhista dominaram politicamente o país. Recentemente, surgiram novos partidos à esquerda e à direita — menos moderados e mais radicais. Um deles, que já entrou no Parlamento britânico na sequência das eleições gerais de 2024 em que Keir Starmer venceu com maioria absoluta, foi o Reform UK de Nigel Farage, força política que dá grande ênfase à questão migratória e que defende o regresso a um “modo de vida histórico” no Reino Unido.

Neste contexto, a morte de um jovem branco — esfaqueado por um membro da comunidade sikh — surge como um acontecimento que pode dar força às teses políticas que Nigel Farage tem defendido nos últimos anos: a de que o Reino Unido precisa de reduzir drasticamente a imigração, de que deve haver um maior controlo fronteiriço e de que a maioria britânica branca não se deve sujeitar a supostas transformações culturais impostas por comunidades migrantes.

Numa mensagem publicada após a divulgação das imagens das bodycams na terça-feira, Nigel Farage esgrimiu os mesmos argumentos e apelou a uma “mudança na cultura” para “prevenir a destruição da sociedade” britânica: “Chega de preconceitos contra os brancos. Isto é urgente”. Para o dirigente partidário, existem “dois Reinos Unidos” — um que supostamente trata com complacência os imigrantes e outro que destrata os brancos.

“A agenda DEI [Diversidade, Equidade e Inclusão] foi tão longe na polícia que agora as pessoas são promovidas não com base no mérito ou nas suas capacidades, mas sim na sua origem racial ou religiosa”, prosseguiu Nigel Farage no vídeo desta terça-feira. Já na quarta-feira, no Parlamento, o líder do Reform questionou Keir Starmer sobre como via o facto de que “milhões de pessoas” vivam agora “com duas polícias” que “tratam os grupos étnicos de formas diferentes”.

As manifestações em Southampton, no entender de Nigel Farage, expressam a “raiva” que “milhões” sentem por terem “perdido a confiança no sistema judicial”, que acusa de ter deixado de “tratar toda a gente por igual” — e preconizou que pode haver protestos mais intensos nos próximos dias. Em vários discursos nos últimos anos, o líder do Reform UK tem frisado os alegados perigos do multiculturalismo para a sociedade — e a morte de Henry Nowak surge como o episódio de que o político se serve para tentar provar que tem razão.

https://twitter.com/Nigel_Farage/status/2061718431280304367

Assim, Keir Starmer já acusou o líder do Reform de “explorar a morte” de Henry Nowak para “gerar ressentimento e divisão” entre os britânicos. A crítica foi repetida pela líder do Partido Conservador: “Isto não é sobre Nigel Farage”, disse Badenoch. Numa entrevista ao canal de televisão ITV, a líder dos tories recusou a ideia de que existam “dois Reinos Unidos” e “menos direitos e privilégios para as pessoas brancas do que para as minorias étnicas”: “Nigel Farage está a escolher lados. Eu não escolho lados. Eu digo que estou farta disto. Precisamos de parar de racializar a nossa sociedade”.

Restore Britain: o motivo pelo qual Farage extremou posição?

Como seria de esperar, Nigel Farage optou por uma retórica mais extremada, enquanto Kemi Badenoch optou por um discurso mais institucional. No entanto, à direita, outras vozes fizeram-se ouvir — e algumas até mais radicais do que a dos simpatizantes do Reform UK. Têm surgido novas forças políticas no Reino Unido cada vez mais extremadas, sobretudo na retórica contra a imigração — um tema que se tornou popular e praticamente sinónimo de sucesso eleitoral.

Um desses partidos é o Restore Britain, liderado por Rupert Lowe. O antigo eurodeputado escreveu na rede social X que um Governo liderado por si condenaria Vickrum Digwa “à morte”. “Jovens inocentes sofrem uma dor inimaginável, porque o nosso país falhou em fazer o que tinha de ser feito. Porque houve crianças a serem sacrificadas até à morte para satisfazer culturas estrangeiras que não têm lugar no nosso país”, escreveu o empresário no X após a revelação das imagens das bodycams. 

https://twitter.com/RupertLowe10/status/2061759756671308147

Quem partilhou esta publicação no X e apoiou as palavras de Rupert Lowe? Elon Musk. O dono da rede social e da Tesla tem apoiado o Restore Britain — e não o Reform UK, mesmo partilhando quase o mesmo espaço ideológico. Deste modo, começa a perfilar-se uma alternativa na direita radical britânica: mais extremada e abertamente antissistema, é certo, mas com uma capacidade crescente para canibalizar a base eleitoral do Reform de Farage.

Nas sondagens mais recentes, o Reform UK continua à frente. O Restore Britain já aparece com resultados na ordem dos 3%, ainda que muito longe do partido liderado por Nigel Farage. Mesmo assim, em concreto, o caminho para as próximas eleições gerais é longo: se tudo correr como previsto e o Governo do Labour não convocar eleições antecipadas, apenas em meados de 2029 é que o Reino Unido escolherá um novo primeiro-ministro.

A morte de Henry Nowak é um tema particularmente sensível para a base eleitoral do Reform. Antecipando isso, Nigel Farage posicionou-se para ser a principal voz que manifesta a sua indignação e a revolta com o sucedido. Como analisou o Guardian, o dirigente partidário temeu ser “ultrapassado” na retórica por aqueles que estão à sua direita — daí usar linguagem mais radical e agressiva.

Em sentido inverso, neste caso, Kemi Badenoch aproximou-se de uma posição mais moderada, tendo travado a guinada mais à direita dos conservadores — e expôs as supostas contradições das palavras de Nigel Farage. “Ele está a fazer o mesmo que o movimento Black Lives Matter, a que me oponho completamente. Ele está a seguir o manual deles, ao falar sobre quem é a vítima, quem está a ser oprimido e garantir que as pessoas fiquem com raiva e comecem a reagir violentamente”, disse.

Para o Governo britânico, a morte de Henry Nowak até pode desgastar a imagem do primeiro-ministro, apesar de a ligação não ser totalmente óbvia. De qualquer forma, o Reform UK vai fazer tudo para colar este escândalo à governação de Keir Starmer, ao mesmo tempo que se procurará afirmar como o principal partido de direita radical. Pelo meio, tenta canibalizar todos os movimentos que o desafiem para ocupar o espaço político que vê como seu.