Vicente Conculini, Yamandu Martínez e Miguel Silio saíram de Gualeguaychú, da Argentina, a 16 de agosto de 2025. Tinham um único destino: os Estados Unidos da América, em particular a cidade de Kansas, onde a sua seleção se vai concentrar e fazer o primeiro jogo do Mundial. Fizeram a viagem de bicicleta. Foram mais de 16 mil quilómetros a pedalar até chegarem ao destino neste início de junho. Não têm bilhetes para qualquer dos jogos da equipa de Messi. “Tivemos azar. Algumas vezes, quando abria janelas de venda de bilhetes, estávamos a pedalar e não tínhamos ligação [à internet]”, declarou Conculini à Front Office Sports, acrescentando: “Agora os preços são tão altos, tão elevados, temos de esperar um pouco, pode ser que os vendedores desçam o preço”, assumindo a recusa de pagar valores inflacionados.
Foram quase 10 meses e 16 mil quilómetros, mas o trio tentou a sua sorte (pelo menos já conseguiu ser recebido pelo selecionador da Argentina, Lionel Scaloni, e a sua equipa técnica e pelo presidente da federação Claudio “Chiqui” Tapia), para já sem sucesso, de assistir a um jogo da “alviceleste”. A Argentina é a atual detentora do título mundial e começa a tentativa de revalidação a 16 de junho (já será madrugada de 17 de junho em Portugal) no jogo contra a Argélia, no grupo J. Há bilhetes no site da FIFA para este jogo a 625 dólares (ao câmbio de terça-feira, 9 de junho, são 542 euros) na categoria 2 e a 2.310 dólares (2.000 euros) na categoria 1. Na plataforma de revenda, da própria FIFA, os preços mais baixos são de 598 dólares (para pouca visibilidade) ou de 483 dólares (418 euros) para mobilidade reduzida.
A Argentina nem é a seleção que tem a média de revenda mais elevada. Está na oitava posição, segundo dados compilados pela Ticketdata. O preço de entrada médio na revenda para esta equipa está nos 1.027 dólares (891 euros), abaixo do valor médio do México, Portugal, Brasil, Colômbia, África do Sul, Escócia e Coreia do Sul. Segundo estes dados, a média de valores na revenda está em 1.530 dólares (1.326 euros) no caso português e nos 2.172 dólares (1.883 euros) para o México, país que, com os Estados Unidos da América e Canadá, organiza o Mundial de 2026.
O preço dos bilhetes tem sido uma das polémicas instaladas no Mundial que começa a 11 de junho. Tudo porque a FIFA mudou as regras, que lhe dão mais dinheiro. Há já várias queixas e investigações a decorrer. O preço dos bilhetes para o Mundial de 2026 disparou. Assim que os pôs à venda, a FIFA pediu, à cabeça, um montante superior ao que tinha oferecido em mundiais anteriores e introduziu, em alguns momentos, critérios de variação dos valores consoante a procura. Mas isso não bastou.
A organizadora do Mundial lançou uma plataforma de revenda de bilhetes, onde vai buscar 15% do valor ao comprador e outros 15% ao vendedor. Nesta plataforma, neste momento, estão a ser pedidos valores para a final desde 8.567 dólares (7.429 euros) e até aos 11,5 milhões de dólares (9,97 milhões de euros). Um bilhete vendido a este valor significaria um “bónus” para a FIFA de 3,45 milhões de dólares (3 milhões de euros). Gianni Infantino, presidente da FIFA, quando confrontado com um valor de 2 milhões que, em maio, estava a ser pedido para a final, realçou que o facto de ser colocado à venda por esse valor não significava que alguém o compre. “E se alguém comprar um bilhete para a final por 2 milhões, eu vou, pessoalmente, entregar um cachorro quente e uma cola para garantir que tem uma grande experiência”, declarou, citado pela BBC.
A questão é, agora, a de saber até onde chegarão os preços e até que ponto os estádios estarão preenchidos. A poucas horas de começar o grande evento do futebol, já se está a assistir a uma correção para alguns jogos — apontando-se o dedo, também neste caso, à FIFA.
A poderosa FIFA quer mais dinheiro
Comprar bilhetes para o Mundial requer tempo, paciência e dinheiro. Tempo para estudar o processo, paciência para tentar nas várias fases disponíveis e dinheiro porque não é barato. Tudo está centralizado na FIFA — a poderosa Fédération Internationale de Football Association — que é a entidade de governação do futebol a nível mundial. O Mundial de 2026 é organizado por este organismo, que escolhe a localização e, claro, decide (e vende) os preços dos bilhetes.
“O maior evento que a humanidade alguma vez viu”, como caracterizou Gianni Infantino, presidente da FIFA, terá também o maior orçamento que alguma vez foi visto nos mundiais de futebol. De acordo com o orçamentado pela FIFA, o ciclo de quatro anos deste mundial vai resultar em receitas de 13 mil milhões de dólares (cerca de 11,3 mil milhões de euros), com despesas estimadas de 12,9 mil milhões de dólares (11 mil milhões de euros) Os Jogos Olímpicos de Paris de 2024 geraram 4,48 mil milhões de euros e o ciclo do Qatar 2024 gerou 6,6 mil milhões de euros. O Mundial de 2026 assume mais 72% de receitas do que o Qatar 2024. Só por conta dos bilhetes e direitos de hospitalidade, o ciclo garantirá receitas de mais de 3 mil milhões de dólares (2,6 mil milhões de euros), de acordo com dados da FIFA.
O Mundial de 2026 acontecerá em três países — Estados Unidos da América, México e Canadá –, de 11 de junho a 19 de julho, e terá mais 16 equipas do que o mundial do Qatar. Ao todo será disputado por 48 países, num total de 104 jogos (face aos 64 do mundial anterior).
Muito mais que o preço dos bilhetes
Os bilhetes para os jogos são apenas uma fração do que um adepto que queira ir ao Mundial, que apresenta um grande “desafio logístico” pelo facto de estar espalhado por três países e várias cidades.
Portugal, por exemplo, na fase de grupos joga duas vezes em Houston e uma vez em Miami. “Se vencer o grupo e fizer um percurso longo, um adepto que tente acompanhar a seleção poderá depois ter pela frente Kansas City, Vancouver, novamente Kansas City, Atlanta e, finalmente, Nova Iorque. Trata-se de um percurso potencial por seis cidades e três países em cerca de cinco semanas”, repara Övünç Yılmaz, professor na Leeds School of Business, da Universidade de Colorado, que recorda: “A distância de Miami a Vancouver é de aproximadamente 4.500 quilómetros (ainda maior do que a distância de Lisboa a Moscovo, que é de cerca de 3.900 quilómetros). Portanto, um itinerário ‘norte-americano’ para o Campeonato do Mundo pode envolver distâncias superiores a atravessar grande parte da Europa”.
Além do problema de planeamento, “organizar hotéis, voos, transporte local e estacionamento sob essa incerteza pode ser extremamente dispendioso”, acrescenta ao Observador. “Para muitos adeptos, os hotéis e as reservas de última hora podem acabar por custar mais do que os próprios bilhetes”.
E assume especial preocupação com os preços do alojamento nos dias de jogo específicos nas cidades anfitriãs, além do preço dos voos.
Ver Portugal “in loco” fica caro. Federação Portuguesa de Futebol sem voz nos preços
Tal como acontece com os outros países, 8% da capacidade dos estádios onde se realizam os jogos da seleção nacional é atribuído à Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Toda a receita é, garantiu ao Observador fonte oficial da FPF, para a FIFA, a quem coube a decisão sobre os preços dos bilhetes. A FPF garante ainda que não receberá qualquer percentagem da comissão que a FIFA cobra na revenda ao comprador e ao vendedor.
De resto, a FPF recusa comentar os valores a que os bilhetes estão a ser comercializados. Também o Governo, confrontado com os preços e o impacto que pode ter na perceção de desporto inclusivo, recusa comentar. O gabinete do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, liderado por Margarida Balseiro Lopes, limita-se a dizer ao Observador que “a definição dos preços dos bilhetes é da exclusiva responsabilidade das entidades organizadoras”.
Quando, em dezembro, a FPF anunciou o início da venda de bilhetes para o Mundial, indicava-se o valor para três categorias de lugares: 700 dólares (cerca de 597 euros, na altura, que corresponde ao câmbio atual a 600 euros) na categoria 1; 500 dólares (434 euros ao câmbio atual) na categoria 2; e 265 dólares (230 euros) na categoria 3, onde ficarão os “animadores Portugal+”. Os adeptos que quisessem bilhetes, já teriam de ter feito um registo na plataforma Portugal+ e ficariam à espera, até fevereiro, para saber se tinham sido “selecionados”. Os bilhetes pedidos foram mais do que os disponíveis. Nessa altura, a FIFA anunciou e colocou à venda bilhetes a 60 dólares (52 euros ao câmbio atual), mas que chegaram em números muito limitados — a FIFA diz que disponibilizou por cada jogo 1.000 bilhetes a este preço, “o que perfaz um total aproximado de 104.000 bilhetes para o torneio”.
No fim destas fases, a FIFA manteve disponíveis, para qualquer pessoa, bilhetes de última hora, a preços mais altos (já que optou por introduzir critérios de variabilidade consoante a procura), além de ter a tal plataforma de revenda (em concorrência com outras aplicações).
Nos bilhetes de “última hora” não há qualquer título disponível para os jogos da fase de grupos de Portugal, mas há ainda possibilidade de comprar entradas “de hospitalidade”, ou seja premium, por pelo menos 2.475 dólares (2.146 euros) para o jogo contra o Congo, que desce para os 1.770 dólares (1.534 euros) no encontro com o Uzbequistão (com a referência de que só há 11 disponíveis) mas que, no “apetecível” jogo com a Colômbia, dispara para os 5.000 dólares (4.335 euros) — o mais barato, com o mais caro a atingir os 9.540 euros.
No site de revenda da FIFA, o jogo de estreia de Portugal, contra o Congo, mostra que o bilhete mais barato está nos 690 dólares ou 598 euros (categoria 3), chegando a ser pedido por uma entrada de categoria 1 um total de 13.800 dólares (11.967 euros). Isto são preços pedidos, não querendo dizer que sejam vendidos a este valor. No jogo contra o Uzbequistão há entradas a 564 dólares (489 euros). E no derradeiro jogo da fase de grupos, contra a Colômbia, o bilhete em revenda mais barato está nos 2.300 dólares (1.994 euros).
As várias fases de venda de bilhetes
O processo de venda de bilhetes da FIFA decorreu em quatro fases:
- Fase 1 – Pré-venda Visa
- Fase 2 – Sorteio antecipado
- Fase 3 – Sorteio aleatório
- Fase 4, que decorre agora, de último minuto — o primeiro que chega compra, e aqui o preço varia consoante a procura.
Como explica ao Observador um dos criadores do World Cup Guide, um site de ajuda quem queira ir ao Mundial, na fase 1 “muito poucos bilhetes estiveram disponíveis”, e foram dados a quem tinha um cartão Visa. Foi atribuído por sorteio o direito de adquirir bilhetes num dia e hora específicos. E se, no passado, o preço nesta fase era fixado, para este mundial a FIFA já usou “os preços variáveis”.
Quando a primeira fase ficou fechada, iniciou-se a fase 2, com processos idênticos à fase 1, diferenciando-se pelo facto de já não se exigir um cartão Visa. A FIFA já alterou os preços para esta fase 2 em relação à primeira. Um dos fundadores do World Cup Guide diz ao Observador que, a meio da fase 1, terá havido mudança de tarifas.
A fase 3 foi também por sorteio, que aconteceu já depois de serem conhecidos os grupos e, por isso, foi a primeira vez que os adeptos podiam pedir bilhetes para um jogo específico e podiam fazê-lo enquanto adeptos registados nos sites das federações nacionais. “Na grande maioria dos casos, isso fez aumentar novamente os preços”, assegura o fundador da World Cup Guide. Segundo informações, então dadas pela FIFA, antes de se iniciar a terceira fase de venda já tinham sido disponibilizados e adquiridos quase 2 milhões de ingressos (na fase 1 e fase 2).
Nos termos e condições de venda dos bilhetes, a FIFA advertia logo que “cada fase de venda pode ter diferenças em termos de procedimentos de compra, métodos de pagamento, categoria de bilhetes e produtos. Os bilhetes, em cada fase, estão sujeitos a disponibilidade e aplicação de termos e condições”.
Com isto, não se sabe ao certo afinal os preços finais a que os bilhetes estão a ser vendidos, nem quanto a FIFA já arrecadou. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, já veio defender o preço dos bilhetes e assumiu que na fase 3 houve mais de 500 milhões de pedidos de bilhetes, o que disse ser “uma declaração global” e uma “resposta extraordinária”. Além disso, declarou que 25% dos bilhetes para a fase de grupos, nestas janelas de venda, tinham preços abaixo de 300 dólares (260 euros).
Certo é que, ainda assim, longe dos valores praticados no Qatar 2022, em que os ingressos na fase de grupos variaram entre 61 e 200 euros, tendo para a final estado entre 550 euros e 1.460 euros.

Estratégia mais agressiva da FIFA e os famosos preços dinâmicos
O mercado primário da FIFA já é “muito complexo”, assume ao Observador Övünç Yılmaz, professor na Leeds School of Business, explicando que “os bilhetes são libertados em múltiplas fases” e “a FIFA também tem produtos diferentes: bilhetes para um único jogo, pacotes baseados nas equipas, pacotes de locais e bilhetes condicionados a determinada fase”. Além disso, há os tais bilhetes destinados às federações.
Além disso, a formulação de preços mudou. A FIFA implementou preços variáveis, que significa “preços diferentes para jogos diferentes”, mesmo na fase de grupos. “Alguns jogos da fase de grupos terão uma enorme procura, enquanto outros serão muito menos atrativos”, admite Övünç Yılmaz.
Mas a FIFA introduziu também preços dinâmicos. “Os preços podem ser ajustados em tempo real com base na procura. Esta é a parte que é especialmente nova para a FIFA em 2026. Se a procura por um jogo específico for maior do que o esperado, a FIFA pode aumentar os preços no mercado primário, em vez de deixar todo esse lucro para o mercado de revenda”, acrescenta o mesmo professor, dizendo que “a razão primeira é simples: a procura é enorme”. É o primeiro Mundial na América do Norte desde 1994 e o primeiro Mundial num país do Ocidente desde 2006, quando se disputou na Alemanha.
“A procura, no entanto, não conta a história toda. Parece que a FIFA está também a usar uma estratégia mais agressiva de bilhética. Com 48 equipas e 104 games, há muito mais espaço para preços variáveis com mais pormenor”, ainda que Övünç Yılmaz recorde que a FIFA introduziu opções mais acessíveis, referindo-se aos bilhetes a 60 dólares (52 euros) ou 75 dólares (65 euros) para os jogos dos países organizadores.
Mas para os jogos em que há muito mais procura do que oferta, assiste-se “a preços extremos, especialmente no mercado de revenda. Estudos com jogos da NFL indicam que, quando os preços do mercado primário aumentam, os preços de revenda podem subir mais do que esperado. Por isso, conclui, “os muito altos preços que vemos agora podem refletir tanto a enorme procura na América do norte como uma consequência não intencional da estratégia mais agressiva da FIFA”.
O risco de haver estádios vazios e os bilhetes que subitamente apareceram nas plataformas não oficiais de revenda
Se há jogos que não preocupam os organizadores, houve, nos últimos dias, movimentos que levam a suspeitar que há encontros que poderão ter bancadas despidas. Isso é uma das consequências possíveis para a existência de cerca de 180 mil bilhetes disponíveis — 175 mil na plataforma de revenda e 15 mil no mercado primário para a fase de grupos –, segundo o Financial Times. Nos últimos dias, foram detetadas entradas em elevado nível de bilhetes disponíveis, o que levou até à descida de preços em alguns jogos e que também tem sido apontado como iniciativa da FIFA.
Florian Ederer, professor de Mercados, Políticas Públicas e Direito na Boston University Questrom School of Business, detetou, logo no início do mês de junho, um movimento estranho nas plataformas de revenda (que não a da FIFA), que o levou a admitir que se tratava de bilhetes que estavam a ser despejados no mercado secundário — e com outra particularidade: eram bilhetes para filas inteiras, o que o levou a considerar que podiam ser entradas da própria FIFA.
https://twitter.com/florianederer/status/2061850661583532139
Ao Observador, o professor da Universidade de Boston explica: “Na minha opinião, a FIFA colocou-se numa posição difícil. Estabeleceu preços oficiais muito elevados e libertou os bilhetes lentamente, criando a impressão de escassez”, mas “se a FIFA reduzir agora abertamente os preços no seu site, os adeptos que já pagaram preços muito mais elevados sentir-se-ão, compreensivelmente, enganados. Alguns podem exigir reembolsos, contestar as compras ou apresentar queixas aos organismos de defesa do consumidor”. Por isso, “a estratégia mais conveniente é manter o preço oficial elevado, enquanto se movimenta parte do stock não vendido nos mercados secundários a preços mais baixos. Isto permite à FIFA evitar admitir publicamente que o preço de equilíbrio de mercado para alguns jogos é muito inferior ao preço oficial”, declara, assumindo, no entanto, não poder comprovar o processo de decisão da FIFA. Mas “quando se veem grandes blocos contíguos de assentos, filas e setores inteiros a aparecer subitamente num site de revenda a preços muito abaixo da própria plataforma da FIFA, isto não parece uma revenda normal entre adeptos”, já que estes “revendem pares, quartetos ou lugares isolados. Blocos inteiros parecem ser o resultado de uma gestão clandestina de oferta.”
O professor considera que a FIFA pode ter utilizado a tática de “venda gradual de bilhetes, semelhante ao que se verifica nos eventos desportivos e concertos nos EUA: libertar um número limitado de bilhetes, testar a procura, utilizar preços dinâmicos e evitar inundar o mercado demasiado cedo”. Mas isto encerra um problema: “Pode criar escassez artificial.”
“Os adeptos acham que os bilhetes estão a desaparecer e compram antecipadamente a preços muito elevados. Depois, reaparecem mais bilhetes. Isto não é necessariamente ilegal, em si, mas é extremamente prejudicial para os adeptos e potencialmente enganador, se os consumidores forem induzidos a comprar com base numa escassez que não era real”, acrescenta.
Havendo agora, segundo o FT, cerca de 180 mil bilhetes para revenda, pode haver um “risco real de ver os lugares vazios” em alguns encontros, ainda que Florian Ederer acredite que tal não acontecerá nas partidas mais importantes, como as que envolvem os países organizadores ou as das grandes equipas, nomeando a Argentina, Brasil, Inglaterra, Portugal, França e também as fases a eliminar depois dos grupos.
O risco existe, no seu entender, “para jogos da fase de grupos com menor procura, a menos que os preços caiam drasticamente ou que os bilhetes sejam distribuídos através de patrocinadores, federações, instituições de caridade ou descontos de última hora”. Ainda esta terça-feira, a The Atlantic avança que, depois do presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, ter garantido mil bilhetes a 50 dólares para os nova-iorquinos, também o governador de Nova Jersey garantiu 770 bilhetes para distribuir gratuitamente a determinadas comunidades para os sete jogos no MetLife Stadium (exceto para a final), entradas que não podem ser revendidas ou transmitidas de titular. E os preços de revenda para jogos menos procurados já baixaram.

No Mundial de Clubes, disputado em 2025 nos Estados Unidos da América, em alguns jogos, vastas áreas em diversos estádios ficaram sem espectadores.
“A FIFA pode evitar a imagem de estádios vazios a preencher os lugares discretamente”, admite Florian Ederer, que, no entanto, conclui: “Mas isso é diferente de dizer que a estratégia inicial de preços funcionou bem para os adeptos comuns.”

Queixa junto da Comissão Europeia
A polémica estalou logo na fase de venda aos adeptos. Os bilhetes não tinham igual valor para todas as seleções e eram muito superiores aos do mundial do Qatar. A associação europeia de adeptos de futebol — FSE (Football Supporters Europe) — declarou-se “surpreendida” com os preços “exorbitantes” impostos pela FIFA, que, dizia, atingiam “níveis astronómicos”. O bilhete para a final estava tabelado, no mínimo, em cerca de 4.100 dólares (3.555 euros), sete vezes mais do que a final no Qatar.
Em dezembro, e com a procura (e as queixas) a avolumar-se, a FIFA anunciou que iria libertar cerca de mil bilhetes por jogo a 60 dólares, no bolo destinado aos adeptos colocados pelas associações de membros participantes — as federações nacionais.
“Pela primeira vez na história de mundiais, não há um preço para os jogos da fase de grupo. A FIFA optou por introduzir um preço variável, dependendo de critérios vagos como a atratividade. Os fãs das diferentes seleções terão de pagar preços distintos na mesma fase do torneio, sem qualquer transparência sobre a estrutura de preços implementada pela FIFA”, declarou ainda a FSE. Desta declaração a uma queixa formal, em conjunto com a associação de defesa de consumidores europeia, foi um passo. A Comissão Europeia foi a recetora.
“A FIFA tem o monopólio da venda de bilhetes para o Mundial 2026 e usou o seu poder para impor condições que nunca seriam aceitáveis num mercado concorrencial. Transparência e equidade no acesso aos bilhetes é essencial”, considerou a Euroconsumers e a FSE no comunicado em que divulgavam a queixa a Bruxelas. Identificavam seis práticas abusivas:
- preços muito mais altos do que nas edições anteriores e acima das indicações da própria FIFA;
- publicidade enganosa — bilhetes de 60 dólares (52 euros) “praticamente não existem”;
- FIFA determina dinamicamente os preços, sem limites e “sem transparência sobre como são determinados”. “A FIFA utiliza ‘preços variáveis’ ou preços dinâmicos, com alguns bilhetes a subirem 25% de preços entre as fases de venda. Os fãs não têm forma de saber o preço final antes de entrarem na fila de espera do site”;
- regras opacas. “Os lugares, os mapas dos estádios, e até o local onde as equipas jogam não são garantidos na compra — com limites em muitos casos e sem o direito de reembolso”. Há várias queixas sobre os lugares efetivamente atribuídos face à planta disponibilizada aquando da compra;
- táticas de venda que incutem medo de perder os bilhetes. “Os emails aos fãs prometem ‘acesso exclusivo’ a uma janela ‘limitada’ de bilhetes que não refletem a realidade. Ao criar uma urgência artificial, a FIFA pressiona os fãs a tomar decisões precipitadas.”
- duplo ganho com plataforma de revenda.
A Comissão Europeia assume ao Observador que a queixa será avaliada de acordo com os procedimentos padrão.
https://observador.pt/2025/12/12/a-realidade-superou-largamente-a-expectativa-adeptos-criticam-precos-exorbitantes-do-mundial-portugal-com-bilhete-minimo-a-225-euros/
Bruxelas adverte que se deve evitar práticas enganosas e informações erradas ou omissas
A FIFA “estabeleceu um modelo de venda de bilhetes e de mercado secundário que reflete as práticas padrão do mercado de bilhética para grandes eventos desportivos e de entretenimento nos países anfitriões. O mercado de revenda e troca da FIFA proporciona um ambiente seguro, transparente e protegido para os adeptos venderem ou transferirem bilhetes para outros adeptos. As taxas de facilitação de revenda aplicáveis estão alinhadas com os padrões da indústria nos setores do desporto e do entretenimento na América do Norte. A abordagem de preços variáveis da FIFA alinha-se com as tendências em vários setores do desporto e do entretenimento, onde as adaptações de preços são feitas para otimizar as vendas e a assistência, e garantir um valor de mercado justo para os eventos”.
A declaração é do gabinete de imprensa da FIFA que, ao Observador, se defende das críticas sobre o modelo tarifário aplicado neste mundial.
Apesar de o modelo de preçário estar, segundo a FIFA, refletir “as práticas padrão” dos países organizadores, certo é que, no entanto, a Comissão Europeia e os países-membros da União Europeia podem atuar. Segundo explica ao Observador Maria João Melícias, sócia e co-coordenadora na área de concorrência da Abreu Advogados, as regras de concorrência europeias e a lei nacional têm uma componente de extraterritorialidade, ou seja, aplicam-se a práticas que ocorram em território nacional ou que nele tenham efeitos. Ou seja, “a aplicação é direta, desde que afete os consumidores portugueses” ou europeus. As regras da concorrência têm ferramentas, em caso de se concluir haver condições de transação não equitativa. Aliás, o nosso regime jurídico determina que pode ser considerado um abuso de posição dominante a imposição, “de forma direta ou indireta, de preços de compra ou de venda ou outras condições de transação não equitativas”. Num caso desta figura, as autoridades de concorrência nacionais, como a Autoridade da Concorrência. ou a Comissão Europeia podem adotar medidas cautelares, mas não há indicações nesse sentido.
Há também que enquadrar esta análise ao abrigo das regras sobre Práticas Comerciais Desleais que, conforme indica fonte oficial da Comissão Europeia, não regulam preços de bens e serviços, como bilhetes para eventos. Também não proíbem alterações de preços, nomeadamente através da prática de preços dinâmicos. “Os comerciantes podem determinar livremente os preços que praticam pelos seus produtos”. No entanto, acrescenta a mesma fonte, “de acordo com a legislação da União Europeia em matéria de proteção do consumidor, os comerciantes devem informar adequadamente os consumidores sobre o preço total das suas ofertas e evitar práticas comerciais enganosas, como a apresentação de preços iniciais atrativos para bilhetes indisponíveis ou técnicas de venda que pressionam os consumidores que aguardam na fila virtual”.
No mesmo sentido a Comissão Europeia, numa resposta a um eurodeputado, ainda acrescentou que “informações falsas ou omissão de informações cruciais são proibidas pela diretiva relativa às Práticas Comerciais Desleais quando afetam as decisões comerciais dos consumidores”, assumindo que “a Lei da Equidade Digital que a Comissão planeia propor no quarto trimestre de 2026 poderá também abordar certos problemas no âmbito da comercialização do preço, incluindo alegações enganosas de preços ‘a partir de’ ou a falta de transparência quando os consumidores têm de esperar numa fila virtual pela sua oportunidade de comprar um bilhete.”
Estados Unidos já estão a investigar. “FIFA transformou a compra de um bilhete para o Campeonato do Mundo num caminho tortuoso de confusão”
O caso não está apenas a ser analisado na Europa. Nos Estados Unidos da América, as procuradorias de Nova Iorque e de Nova Jersey já notificaram a FIFA de que estavam a conduzir uma investigação aos preços dos bilhetes, requerendo informações sobre as práticas.
“Artigos recentes na imprensa indicam que os adeptos poderão ter sido induzidos em erro relativamente à localização dos lugares que estavam a comprar, e que as declarações públicas e os lançamentos de bilhetes por parte da FIFA poderão ter contribuído para a escalada dos preços”. Os nova-iorquinos “esperam há anos pelo Campeonato do Mundo e merecem uma oportunidade justa de conseguir bilhetes acessíveis”, afirmou a procuradora-geral de Nova Iorque Letitia James, em comunicado, acrescentando que “ninguém deve ser manipulado a pagar preços astronómicos por lugares, e os adeptos devem poder confiar que os bilhetes que compram serão aqueles que irão receber”.
Não foram apenas os preços que a FIFA terá alterado ao longo do processo de venda. As categorias pelas quais dividiu os lugares do estádio também mudaram. Nas vendas iniciais de bilhetes, os mapas de lugares da FIFA dividiam os estádios em quatro zonas, que iam da categoria 1 (lugares com melhor localização) à categoria 4. No entanto, acrescenta o comunicado das procuradorias, “depois de muitos adeptos já terem comprado bilhetes, a FIFA criou novas zonas, as ‘Front Categories’ (Categorias da Frente) 1 a 4, compostas pelos lugares mais desejáveis dentro de cada categoria. Os bilhetes nestas Categorias da Frente custam significativamente mais. Os relatos indicam que os adeptos que compraram bilhetes antes da introdução destas novas zonas foram retirados desses lugares, tendo-lhes sido atribuídos lugares menos desejáveis, incluindo lugares longe do relvado ou atrás das balizas”. E até há queixas de bilhetes recebidos para lugares de categorias inferiores às alegadamente adquiridas.
“A FIFA transformou a compra de um bilhete para o Campeonato do Mundo num caminho tortuoso de confusão, escassez artificial e preços impossivelmente altos”, concluiu a procuradora de Nova Jersey, Jennifer Davenport.
E se parte tem que ver com a lei da oferta e da procura, há algo mais por detrás. “Este não é um mercado concorrencial simples. A FIFA é o vendedor monopolista dos bilhetes originais. Controla o calendário dos lançamentos, a quantidade de inventário apresentada aos consumidores, a plataforma oficial de revenda, as categorias, as taxas e a informação que os adeptos veem. Quando um único vendedor controla tanto a oferta como as regras do mercado, os preços não são apenas o resultado ‘natural’ da oferta e da procura. São o resultado de uma conceção deliberada do mercado”, aponta Florian Ederer, acrescentando que a FIFA “parece ter aplicado um modelo de escassez e de fixação dinâmica de preços mesmo a jogos de baixa procura e, depois, poderá ter utilizado os mercados secundários para corrigir os preços discretamente, sem dar o mesmo benefício aos primeiros compradores. É por isso que os adeptos se sentem explorados.” Dito isto, concluiu, “toda a gente compreende” que “uns eventuais quartos de final entre Portugal e a Argentina (o confronto Ronaldo-Messi que todos querem ver) ou uma final do Campeonato do Mundo sejam caros”, conclui o professor.
Nem Trump pagaria os valores que estão a ser pedidos
Em plena polémica sobre o preço dos bilhetes, Donald Trump foi confrontado com os valores. Ao New York Post, o Presidente dos EUA garantiu que não compraria um bilhete para o confronto do seu país com o Paraguai por mil dólares.
“Não sabia desse valor”, declarou no início de maio. “Gostaria por certo de estar lá, mas, para ser honesto, não pagaria também [esse montante]”.
Nas entradas de “última hora” da FIFA disponíveis, os preços para o primeiro jogo dos Estados Unidos estavam entre 1.120 dólares (971 euros) e 2.735 dólares (2.371 euros). Já no site de revenda da FIFA os valores variavam, esta terça-feira, entre os 626 dólares (542 euros) e os 17.238 dólares (14.948 euros).