Dizer que o futebol é o desporto mais democrático do mundo tornou-se um cliché. Basta uma bola, que até pode ser feita de cartão ou meias velhas ou ser simplesmente uma pedra, enquanto que a baliza pode ter postes feitos de chinelos ou garrafas, ser a parede do prédio ou a porta da garagem do vizinho. Não é preciso dinheiro para jogar futebol. Ou, pelo menos, não é preciso dinheiro para jogar futebol em todo o lado menos nos EUA.
Ao longo dos anos, criou-se a ideia de que os EUA tinham tudo para se tornarem uma nova potência no futebol mundial: dinheiro, investimento, infraestruturas e uma capacidade comprovada para criar atletas de alta competição. Também ao longo dos anos, porém, os EUA têm desiludido em Campeonatos do Mundo ou na Copa América, acumulando fracassos e mantendo objetivos e ambições muito longe das rondas finais das duas competições. Para além disso, o jogador norte-americano continua a não ser apetecível, mantendo-se um talento periférico e nunca crucial.
A estagnação do futebol dos EUA explica-se através do formato fechado da MLS, onde as equipas são franquias detidas por multimilionários, do sistema pay to play, em que as famílias são obrigadas a gastar milhares de dólares por ano se quiserem ter uma criança a jogar à bola, e também da ausência de competitividade da própria competição, já que não existem promoções ou despromoções.

A MLS: muito dinheiro, mas só para as “estrelas de topo” e não para os “operários de baixo nível”
É impossível explicar o futebol dos EUA sem explicar como funciona a MLS, a Major League Soccer, a liga profissional de futebol dos EUA. Tal como acontece em praticamente todos os desportos nos EUA, desde o basebol ao futebol americano, passando pelo basquetebol e pelo hóquei no gelo, a liga funciona através de franchises que são também equipas. Ou seja, cada investidor, mais ou menos multimilionário, é dono de uma franquia que tem uma equipa — e não de um clube ou de uma SAD, como acontece na realidade que nos é mais próxima.
É por isso que, se assim entenderem e como já aconteceu várias vezes ao longo dos anos, qualquer investidor, dono e proprietário pode pegar numa franquia e mudá-la de cidade, de nome, de emblema, de cores: os Lakers da NBA já foram de Minneapolis, os Rams da NFL já foram de St. Louis, os Dodgers da MLB já foram de Brooklyn. Pela mesma linha de pensamento, com a quantia certa e um projeto promissor, também é possível fundar uma franquia do zero e colocá-la automaticamente na MLS, sem escalões secundários, apuramentos ou tempos de espera — apenas com dinheiro. O caso mais recente, naturalmente, é o do Inter Miami de David Beckham.
Tal como a NBA, a NFL e a MLB, a MLS também funciona historiamente através do draft, ou seja, com base no desporto universitário. Os jovens e as jovens que jogam futebol na escola secundária ou em academias recebem bolsas de desporto das universidades que os querem nas respetivas equipas, para reforçar a competitividade nos campeonatos universitários, e a MLS vai buscar o melhor e maior talento que por lá existe. Ainda assim, e até porque nos EUA o futebol tem uma tradição distinta da do basquetebol, do futebol americano ou do basebol, a diferença de qualidade sempre foi abismal quanto comparada com a realidade europeia, sul-americana ou africana.
Foi a partir desse problema e precisamente da ideia de que o futebol não poderia ser abordado e gerido como as outras modalidades que a US Soccer decidiu criar o Professional Player Pathway, um caminho criado em 2007 que tem como base a formação das próprias franquias que estão na MLS e que não deixa a liga totalmente dependente dos jogadores universitários. Mais do que ir procurar talento fora das universidades, a estratégia passava por colocar os jovens a competir cada vez mais cedo — uma das maiores diferenças dos EUA face à Europa ou à América do Sul, já que os jogadores europeus e sul-americanos participam em competições nacionais e até internacionais desde crianças, enquanto que os norte-americanos só viviam essa realidade no final da adolescência e mesmo antes de entrarem nas equipas principais.
Contudo, e mesmo com quase duas décadas de existência, o Professional Player Pathway continua sem fazer milagres. E se parte disso se explica com o avultado preço das academias, como veremos mais à frente, outra parte explica-se com as rígidas regras salariais impostas pela MLS para impor a teórica paridade financeira e evitar a falência das franquias. Ao funcionar como single-entity structure, uma estrutura de entidade única, a MLS tem tetos salariais que não permitem a contratação de verdadeiro talento estrangeiro, limitam a aposta no jogador norte-americano e criam plantéis profundamente desiguais e desequilibrados, sem qualquer capacidade para competir sem ser nos EUA.
As únicas exceções são os chamados designated players, algo que ficou conhecido como a Beckham Rule depois de ter permitido que o britânico assinasse pelos LA Galaxy, já que todas as franquias podem ter três jogadores acima do tal teto salarial transversal — lote onde se inclui, naturalmente, Lionel Messi e o Inter Miami. Como explicava a revista Forbes num artigo recente, a MLS vale milhares de milhões de dólares, tem os estádios mais modernos do mundo e atrai atores de Hollywood, mas continua a ser uma liga com “estrelas de topo e operários de baixo nível”.

Pagar para jogar: o sistema pay to play que está a “ostracizar pessoas através do nível socioeconómico”
Tal como acontece com praticamente tudo, é preciso pagar para jogar futebol nos EUA — e muito. O sistema pay-to-play, como é conhecido no país, tem vindo a tornar-se a regra no futebol juvenil e uma barreira que para muitos é naturalmente inultrapassável. De acordo com um artigo de 2024 do jornal The Guardian, a anuidade exigida a uma família para colocar uma criança a jogar futebol nas camadas jovens de um clube pode ir dos mil aos 10 mil dólares, dependendo da cidade ou do Estado.
No mesmo sentido, um estudo da Sports and Fitness Industry Association concluiu que mais de 70% das crianças que jogam futebol na formação de clubes pertence a família que ganham mais de 50 mil dólares por ano, enquanto que 33% pertence a famílias que ganham mais de 100 mil dólares por ano. O futebol tornou-se algo exclusivo, um desporto de ricos e de classe alta que exclui as crianças mais pobres, normalmente afrodescendentes ou filhas de imigrantes, retirando a brutal capacidade democrática que a modalidade tem em praticamente todo o lado.
No Brasil, os melhores jogadores aparecem muitas vezes nas favelas. Em toda a América do Sul, da Argentina à Colômbia passando pelo Uruguai e pelo México, os melhores jogadores aparecem muitas vezes nos bairros mais pobres. Em Portugal, em Espanha, em Inglaterra e em Itália, quantas vezes os melhores jogadores aparecem em contextos socioeconómicos complexos. Nos EUA, quase todos os jogadores estão agora nos tecidos sociais mais ricos. Algo que, por si só, não é um problema — mas algo que exclui, afasta e discrimina quem não pertence a essas classes mais altas, criando uma gigantesca questão de falta de talento, qualidade e interesse.
“Acho que está a tornar-se exclusivo, de certa maneira”, explicou Cobi Jones, o jogador mais internacional de sempre pelos EUA. “Aqui nos EUA, e não é só no futebol, não podem existir tantas barreiras. Percebo que é tudo um negócio. E que parte desse negócio, nos últimos anos, tornou-se muito lucrativo para diferentes organizações através do estabelecimento do sistema ‘pay to play’. Não podemos ter uma situação em que um bom jogador não pode continuar a jogar porque não pode pagar a mensalidade. Tem de existir uma maneira de termos sempre bom talento, para que as pessoas tenham oportunidades. Se queremos os melhores jogadores, não podemos procurar apenas em certas áreas do país — temos de procurar em todas as áreas do país. E isso inclui os sítios em que as pessoas não têm dinheiro para pagar milhares de dólares para estar num clube, centenas de dólares para estar num torneio, para os hotéis e as viagens”, acrescentou em declarações ao The Guardian.
Há dois anos, a falar na Milken Institute Global Conference em Los Angeles, Gianni Infantino mostrou-se surpreendido com o sistema que vigora no futebol dos EUA. “Uma das coisas que me chocou aqui na América é que as crianças têm de pagar para jogar. Temos de parar com isto. Sou italiano e cresci numa pequena aldeia na Suíça, no meio das montanhas. Tínhamos um clube que estava na sexta divisão, que era muito, muito pequeno, e tinha 23 equipas. E tudo isto era organizado e financiado por privados. O tipo da aldeia que tinha um restaurante dava as camisolas, o advogado que tinha mais dinheiro dava as chuteiras… Existia um movimento que garantia que todos os miúdos jogavam à bola”, disse o presidente da FIFA.
Nos últimos anos, tal como Cobi Jones, vários antigos e atuais jogadores norte-americanos têm criticado o pay to play, lembrando inclusivamente que, se estivesse em vigor quando estavam a crescer, dificilmente poderiam ter chegado a profissionais. Clint Dempsey, um dos melhores jogadores de sempre nos EUA, revelou recentemente que os pais acumularam dívidas para que continuasse a jogar. Tim Howard, antigo guarda-redes do Manchester United, defendeu que o país está “a ostracizar pessoas através do nível socioeconómico”. Alex Morgan, antiga estrela da seleção feminina, disse que tornar o futebol juvenil num negócio está a ser “prejudicial” para a modalidade.

E todos têm razão. Em 2018, um estudo também da Sports and Fitness Industry Association concluiu que a percentagem de crianças dos seis aos 12 anos a jogar futebol nos EUA tinha caído cerca de 14% em três anos — em números absolutos, o futebol perdeu 600 mil praticantes norte-americanos de 2015 a 2018, mais do que qualquer outra modalidade no país. Um dado preocupante que, de acordo com Hope Solo, está única e exclusivamente relacionado com dinheiro.
“A minha família não teria tido dinheiro para me pôr a jogar futebol se eu fosse uma criança nos dias de hoje. E isso afasta imensas comunidades, incluindo as comunidades hispânicas, as comunidades negras, as comunidades rurais e as comunidades subrepresentadas. Atualmente, nos EUA, o futebol tornou-se um desporto de miúdos ricos e brancos”, atirou a antiga guarda-redes norte-americana, que conquistou o Campeonato do Mundo em 2015.
A mesma linha de pensamento tem sido corroborada por Jürgen Klopp, antigo treinador do Borussia Dortmund e do Liverpool que está mais ligado ao futebol dos EUA desde que é Diretor de Futebol da Red Bull, dona dos New York Red Bulls da MLS. “Os EUA têm muitos problemas e eu sou o tipo novo, não vou dizer ‘vou mudar isto’. Não é a minha personalidade. Mas observo e vejo o que pode ser um problema e o futebol juvenil é caro. Não faz sentido nenhum que não consigamos chegar ao melhor talento. Todos sabemos que os melhores jogadores do mundo não aparecem nas zonas mais ricas das cidades”, explicou ao The Athletic.
“O futebol aqui é como o ténis era em todo o lado há 50 anos. Era um jogo para os ricos, comprar uma raquete não era possível para todos. Depois mudou tudo na Alemanha, com o Boris Becker. De repente, abriram clubes, abriram ‘courts’. O meu pai fundou um clube de ténis na nossa aldeia, de repente toda a gente podia jogar ténis. E isso tem de acontecer aqui. Muitos miúdos jogam futebol, mas para chegarmos ao treino certo e à educação certa nos diferentes níveis é preciso que tudo seja grátis”, completou o alemão.
Não há descidas nem subidas, todos ficam exatamente onde estão
Mais uma vez, o modelo absolutamente fechado da MLS não contribui para um eventual salto de qualidade, competitividade e intensidade no futebol dos EUA. Ao contrário do que acontece em todos os escalões de todos os país da Europa, da América do Sul, de África, da Ásia ou da Ocêania, os norte-americanos não têm promoções ou despromoções, subidas ou descidas. Ou seja, no final de cada temporada e independemente da classificação de cada equipa, todos ficam na MLS.
Mais uma vez, os motivos são financeiros. As ligas desportivas norte-americanas estão construídas à volta das franquias e dos proprietários dessas franquias. Mais do que grupos competitivos, as equipas são bens, ações, propriedade — que, na larga maioria dos casos, valem milhares de milhões de dólares. Entrar na MLS custa muito dinheiro e esse investimento leva consigo uma garantia de permanência e continuidade. A despromoção seria a destruição do modelo vigente, desenhado e construído especificamente para reduzir a volatibilidade do negócio e proteger o investimento a longo prazo. Na prática, tornam o fracasso ultrapassável ao invés de consequente.

A ausência dessas consequências, de forma natural, retira pressão aos treinadores, aos jogadores e aos próprios adeptos. Mesmo que uma temporada corra terrivelmente mal, o ano seguinte vai começar exatamente da mesma maneira e exatamente com os mesmos objetivos, sem que seja preciso procurar uma promoção. Os desfalques financeiros que acontecem em muitos clubes europeus ou sul-americanos em cenário de descida são evitados — mas os projetos que nascem a partir do sonho da subida, entre desenvolvimento de jogadores, criação de proximidade com as bancadas ou aposta em treinadores, não acontecem. Nos EUA, nunca existiria um Wrexham, um Torreense ou um Como.
A centralização total das receitas da MLS na própria MLS explica-se, aliás, através do brutal contrato de transmissões televisivas. Em 2022, a liga vendeu os direitos de todos os jogos à Apple, abandonando quase por completo a televisão tradicional para se associar ao streaming. O contrato é válido por uma década, até 2032, e a Apple vai pagar um total de 2,5 mil milhões de dólares no total, algo como 250 milhões de dólares por temporada.
Com a receita dos direitos televisivos na mão, a MLS utilizou-a para teoricamente melhorar a qualidade da competição — mas mais para o show off do que em termos práticos. Quando negociou o acordo com a Apple, a MLS inclui uma cláusula de revenue sharing, partilha de receitas, que permite à liga entregar uma parte do lucro das novas assinaturas do serviço de streaming aos designated players contratados. E foi muito assim que, em 2023, o Inter Miami conseguiu convencer Lionel Messi a rumar aos EUA.