“I don’t care about the midterms.” A frase, proferida por Donald Trump há poucas semanas a propósito das negociações com o Irão, é o tipo de declaração que, num homem que fez da vitória o pathos essencial da sua carreira política e que ao longo de todo o seu percurso recusou conceder derrota mesmo nas suas derrotas mais inequívocas, deveria soar, no mínimo, contraintuitiva. Foi este o presidente que durante a campanha de 2024 repetiu ad nauseam que os americanos iam ganhar tanto que se iam cansar de ganhar e que, após perder a eleição de 2020, preferiu atacar as instituições da república americana a admitir que…perdeu. E é, sobretudo, este o presidente cuja força gravitacional junto dos eleitores masculinos americanos, em particular os mais jovens, se ancora precisamente na imagem que projeta de virilidade triunfante, de vencedor que nunca cede, de líder que jamais aceita aparecer fraco. Que esse presidente declare publicamente o seu desinteresse pelas eleições intercalares que se avizinham e que organize a sua atuação política dos últimos meses de forma a tornar verosímil essa declaração, parece ser então uma pista. Pista de que aquilo a que Trump chama vencer mudou de significado entre o primeiro e o segundo mandato.
A confirmação mais clara desta transformação chegou no passado dia 26 de maio, com a derrota de John Cornyn nas primárias republicanas para o Senado do Texas. Cornyn foi eleito pela primeira vez em 2002, foi parte da liderança republicana durante anos e é o primeiro senador republicano daquele estado a perder a nomeação do seu próprio partido para a reeleição. Durante meses, Cornyn dedicou parte da sua campanha a salientar a sua lealdade ao presidente, lembrando que votou alinhado com a Casa Branca em mais de 99,2% das vezes. Foram, ao que tudo indica, os 0,8% que faltaram. Trump endossou o seu adversário, Ken Paxton, o procurador-geral do Texas, descrevendo-o como um verdadeiro guerreiro MAGA, e o que parecia uma corrida competitiva tornou-se uma derrota inequívoca para o incumbente. O caso de Cornyn demonstra que a lealdade política não é suficiente, que o alinhamento programático não é suficiente, e que, no GOP que Trump moldou ao longo da última década, sobreviver politicamente exige uma forma de adesão que transcende a disciplina partidária para se assemelhar mais a uma espécie de subordinação pessoal.
A Thomas Massie e a Bill Cassidy aconteceu o mesmo. Massie, um republicano do Kentucky que se diz fiel ao lema America First e que votou com Trump na esmagadora maioria das vezes, decidiu abrir uma guerra direta com a Casa Branca por causa da insistência em tornar públicos os ficheiros Epstein (ironicamente uma das promessas de campanha mais repetidas pelo próprio Trump) e por se ter oposto à entrada em guerra com o Irão. Essas divergências ditaram que Trump entrasse diretamente nas primárias no Kentucky, apoiando Ed Gallrein que acabou por vencer por uma margem superior a 10 pontos.
Cassidy, senador da Luisiana, cometeu o pecado original de não certificar os resultados da eleição de 2020 e, desde então, tentou compensar essa marca votando consistentemente com a administração. Mas nem assim evitou que Trump apoiasse a sua adversária Julia Letlow, e Cassidy perdesse a eleição.
O denominador comum destes três casos não é a substância política do desacordo propriamente, mas antes o desacordo em si. O que Trump exige dos seus, e o que os eleitores das primárias republicanas começaram a interiorizar como critério eliminatório, é lealdade pessoal absoluta àquele que é tratado como o portador da vontade política única do partido.
Trump nunca disfarçou particularmente o instrumentalismo com que olha para o Partido Republicano. O partido foi sempre, para ele, um veículo para projetar e alcançar poder, jamais uma instituição cuja história e legado lhe merecessem deferência particular. O desdém com que tratou figuras incontornáveis do partido e a facilidade com que recompensa figuras como Randy Fine (um congressista republicano da Florida que se autointitula abertamente como islamofóbico) em nome da manutenção de uma suposta diversidade ideológica e de rejeição de testes de puridade, mostram que o critério que aplica é a utilidade ao seu projeto pessoal, nada mais do que isso. Até porque essa mesma “diversidade ideológica” é imediatamente sacrificada quando se manifesta em qualquer tipo de oposição aos projetos do Presidente. O GOP de Trump não é um partido que rejeite os tais testes de puridade que dizem rejeitar, até porque a fidelidade ao líder se tornou o critério operativo de toda a vida do partido: o teste de puridade que acabou com todos os outros. E é à luz disto que se percebe o que está em causa nas purgas dos últimos meses. Trump quer ganhar, evidentemente, mas a definição que dá hoje a essa palavra deslocou-se. Vencer, para ele, passou a significar controlar o partido sem oposição interna e essa prioridade sobrepôs-se à de manter a maioria no Congresso. A maior ameaça ao poder quasi-monárquico que conseguiu acumular neste primeiro ano e meio de mandato vem de dentro do GOP, de quem dentro do partido ainda tenha coluna vertebral suficiente para lhe dizer não. E é precisamente essa coluna vertebral que as primárias dos últimos meses estão a remover.
A esta estratégia de homogeneização interna soma-se outra, mais técnica mas tão ou mais decisiva, que é a onda de gerrymandering a que temos assistido nos últimos meses, agora ainda mais potenciada pela decisão Louisiana v. Callais do Supremo Tribunal, que reduziu drasticamente as proteções da Secção 2 do Voting Rights Act contra a manipulação racial de mapas eleitorais. A combinação é coerente. Trump entrincheira o partido por dentro, expulsando todos os que não jurem lealdade incondicional, e protege o seu controlo por fora, redesenhando as circunscrições eleitorais de forma a minimizar as repercussões das opções impopulares que vai tomando. O resultado é um GOP cada vez mais leal ao presidente e cada vez mais protegido das consequências do seu próprio extremismo.
Há, no entanto, uma observação importante que se impõe sobre toda esta operação. As vitórias que tem acumulado nestas últimas semanas e que à primeira vista fazem Trump parecer mais forte do que nunca, podem, paradoxalmente, estar a enfraquecê-lo. Os eleitores das primárias do Indiana, da Louisiana e do Kentucky, estados que Trump ganhou em 2024 por 19, 22 e 31 pontos respetivamente, não traduzem o eleitorado geral. Estão muito longe sequer dos republicanos que votam nas eleições gerais, um grupo mais moderado, menos ideológico e menos mobilizado por questões identitárias. Em novembro, quando se votar para o controlo do Congresso, a equação muda. O Texas, em particular, é o caso mais elucidativo. Paxton é um candidato com um historial judicial complicado, indiciado, processado e que terá dificuldades em seduzir os eleitores independentes do estado. A sua nomeação abre uma possibilidade real (ainda que pequena) de vitória democrata na corrida ao Senado por James Talarico, hipótese que há um ano seria considerada absurda mesmo pelos estrategas democratas mais otimistas. A própria abertura desta hipótese forçará o GOP a desviar recursos significativos de outras corridas em swing states para tentar segurar o Texas, o que se traduz, na prática, num enfraquecimento global da posição republicana nas intercalares.
As sondagens de aprovação encontram-se nos 37%, o valor mais baixo do segundo mandato. O domínio sobre as primárias coexiste, portanto, com uma erosão crescente do apoio mais amplo e os candidatos que sobrevivem às purgas internas tornam-se herdeiros do apoio de Trump e da impopularidade crescente das suas políticas. A estratégia tem, assim, evidentemente, um custo eleitoral real, como mostra a baixa taxa de aprovação do Presidente. Trump perde apoio e arrisca que os candidatos apoiados pela Casa Branca percam em corridas que o GOP poderia ter ganho com outros nomes.
Mas Trump não está propriamente a tentar maximizar o número de assentos republicanos em novembro. Está a apostar que o apoio fervoroso da sua base, que continua sólido, lhe permite manter à distância a única ameaça que verdadeiramente o preocupa: um Partido Republicano com visão alternativa, com uma cabeça política que não seja a sua, capaz de organizar a direita americana fora da sua sombra. O que Trump quer evitar acima de tudo é a recomposição do GOP em torno de uma figura ou de uma corrente que o desafie, que devolva ao partido a margem para divergir e que com isso retire à política americana o tribalismo e a polarização que foram, na última década, a condição da sua ascensão. Um partido republicano entrincheirado e dominado por ele garante, pela própria natureza do sistema bipartidário americano, o entrincheiramento equivalente do outro lado, e é esse o ecossistema que o beneficia. A aparente disponibilidade de Trump para perder em novembro é, aliás, menos excêntrica do que parece. A história diz-nos que o partido no governo perde quase sempre as intercalares, e trocar uma maioria já de si difícil de manter por um partido completamente subordinado pode ser para Trump, nesses termos, um cálculo racional.
O slush fund de 1,8 mil milhões de dólares anunciado pelo Departamento do Tesouro, oficialmente destinado a indemnizar vítimas da chamada instrumentalização do IRS durante a administração Biden, é a prova mais clara desta lógica em funcionamento. O Departamento de Justiça apressou-se a esclarecer que nem Trump nem os seus familiares receberão pagamentos do fundo, o que apenas confirma um cenário, se não pior, pelo menos igualmente absurdo. Os destinatários previsíveis poderão ser os condenados pelos eventos de 6 de janeiro de 2021 (os mesmos que atacaram polícias, invadiram o Capitólio e ameaçaram matar vários políticos) e outros aliados ainda por perdoar. Que um fundo deste tipo seja anunciado em pleno calendário pré-eleitoral, custando ao partido apoio entre eleitores moderados, ilustra bem a nova lógica da estratégia de Trump. O fundo foi, entretanto, bloqueado por decisão judicial e a administração anunciou a sua suspensão, mas o gesto inicial fica como retrato fiel da lógica de fundo desta administração.
Há aqui uma ironia nesta dinâmica toda. Um partido republicano com mais capacidade de questionar e de rejeitar provavelmente protegeria Trump de si próprio, contendo-lhe os piores impulsos, recusando autorização para guerras como a do Irão, exigindo medidas concretas sobre o custo de vida que ele próprio prometeu na campanha e tem sistematicamente ignorado — um pouco como vimos no primeiro mandato. Um Congresso menos apático teria talvez melhorado as hipóteses do presidente de manter a maioria em novembro. Mas esta parece já ter deixado de ser a prioridade do Presidente.
Os candidatos escolhidos por Trump farão, em alguns estados, o Partido Republicano perder corridas que outros republicanos teriam ganho. Os candidatos democratas beneficiarão dessa perda, mas o resultado eleitoral em novembro, mesmo que favorável aos democratas, não inverte a lógica de fundo deste processo. O partido republicano que sair das urnas em novembro será, com mais ou menos lugares, o mesmo que entrou nelas. Continuará um partido que perdeu a sua identidade enquanto tal, reduzido a qualquer coisa para a qual a linguagem política ainda não dispõe de nome, mas que se distingue dos partidos no sentido clássico do termo por uma ausência: a de existir independentemente do seu líder. E é por isso que aquela frase inicial, “I don’t care about the midterms”, tem o peso que tem. A frase em si foi dita a propósito das negociações com o Irão, mas o que aconteceu nas primárias e no Departamento do Tesouro ao longo das últimas semanas mostra que ela descreve, com alguma exatidão, mais do que aquilo a que se referia no momento em que foi proferida. Ganhar, para o Trump deste segundo mandato, é exatamente isto. A capacidade de subordinar inteiramente a sua própria fação.