O primeiro procurador deste filme do ucraniano Sergei Loznitsa, passado na União Soviética em 1937, durante o Grande Terror das purgas estalinistas, chama-se Kornyev (Aleksandr Kuznetsov) e é um jovem reto e íntegro até à ponta dos cabelos, mas também idealista e ingénuo. Após receber uma carta escrita a sangue de um preso político que se diz inocente (a missiva escapou miraculosamente de ser queimada com centenas de outras por um velho detido, às ordens dos carcereiros da NKVD), Kornyev, após muita insistência e muitas horas de espera, consegue visitar o autor da carta, chamado Stepniak (Aleksandr Fillipenko), na lúgubre prisão de Bryansk, que já está cheia muito para além da sua capacidade.
Stepniak, doente e debilitado fisicamente pela tortura, diz-lhe que há homens da NKVD que, à revelia da lei, estão a prender, torturar e executar toda uma geração de velhos e leais bolcheviques como ele, e a substituí-los por gente incompetente e fanática. Trata-se decerto de uma conspiração contra o partido e o Estado, e alguém tem que a denunciar às mais altas instâncias. Nem o maltratado Stepniak nem o honesto jurista perceberam ainda que, longe de ser uma maquinação política ou uma anomalia jurídica, o que se está a passar na União Soviética é uma manifestação da desumanidade intrínseca ao regime totalitário comunista, e parte integrante da consolidação do poder por Estaline. Kuznetsov decide assim rumar a Moscovo, decidido a furar todas as barreiras burocráticas e denunciar o que se está a passar ao Procurador Geral em pessoa.
[Veja o “trailer” de “Dois Procuradores”:]
https://www.youtube.com/watch?v=slLpoM7_GnM
O segundo procurador da fita é Andrei Vyshinsky (Anatoliy Beliy), este uma figura real, ao contrário do ficcional Kuznetsov, com o qual, graças a uma grande dose de ousadia, este consegue chegar à fala, após ter aguardado muitas horas na antecâmara do seu gabinete moscovita (Kuznetzov, aliás, passa boa parte de Dois Procuradores sentado, à espera, paciente e tenazmente, já que tudo está feito para o fatigar e desencorajar). O gélido e lacónico Vyshinsky ouve as denúncias do seu jovem colega, interrompendo-o aqui e ali para tirar notas. No final, diz-lhe que foi tudo registado, despede-se e manda o secretário comprar um bilhete de comboio para Kuznetzov, e requisitar um carro para o conduzir à estação.
Dois Procuradores é inspirado por uma novela do escritor e cientista Georgy Demidov escrita em 1969. Demidov foi preso em 1938 e penou no Gulag durante 14 anos, e até à sua morte, em 1987, nunca deixou de ser importunado pelo governo soviético. Sergei Loznitsa usa a personagem de Kornyev (também ele inspirado por uma figura real, um procurador militar chamado Mikhail Ishov, que estava a tentar impedir a prisão de inocentes na Sibéria, encontrou-se com Vyshinsky para se queixar e acabou preso e condenado a cinco anos de trabalhos forçados) como nosso guia no labirinto kafkiano (e orwelliano) da burocracia do regime comunista, qual impotente grão de areia em busca de justiça na enorme, esmagadora e implacável engrenagem dos processos políticos do estalinismo, em que os réus estavam condenados à partida.
[Veja uma entrevista com o realizador Sergei Loznitsa:]
https://www.youtube.com/watch?v=xPl_uRMWigA
Loznitsa não assinava uma fita de ficção há quase dez anos e tem feito alguns documentários sobre a justiça nos tempos soviéticos, e filma o percurso do teimoso e atrevido Kornyev, da sobrelotada prisão de Bryansk até ao dédalo dos corredores e gabinetes do Ministério da Justiça em Moscovo, e depois de volta à prisão, com uma câmara rígida e imperturbável, tão sóbria como atenta a detalhes, atitudes e conversas, e dando notas pontuais de humor negro ou irónico. Ver as conversas entre os oficiais do NKVD na prisão, que contam piadas cruéis sobre presos políticos, ou nas intervenções dos passageiros durante a viagem de comboio de Kornyev para Moscovo.
E há depois a jornada de regresso, em que Kornyev, no seu compartimento de membro do partido com privilégios, encontra dois afáveis e pândegos “engenheiros”, comilões, bebedores de vodka e amigos de tocar guitarra e cantar canções populares (as personagens remetem para um dos documentários do realizador, Process, de 2018, sobre os processos-fantoche, em 1930, de um grupo de engenheiros e gente ligada à indústria, acusados de sabotagem e conspiração contra o Estado, e que este filme complementa), os quais, ao contrário do jovem procurador, sabemos bem quem são e qual é a sua verdadeira missão. Em Dois Procuradores, Sergei Loznitsa leva-nos numa sombria e sinistra viagem através da noite totalitária soviética, com uma conclusão que se adivinha, mas que nem por isso deixa de nos arrepiar.