“Fui para o corredor com o telefone e, antes de conseguir perceber o que estava a acontecer, caiu tudo sobre a minha cabeça, o vidro… A porta rebentou.” O sangue seco ainda era visível no rosto de Olena Dniprovska quando a residente de Kiev fez o relato ao The Guardian na madrugada de terça-feira, com a capital ucraniana a ser atingida por violentos bombardeamentos russos. “Agora não tenho onde viver, o apartamento está completamente destruído. Não tem portas, nem janelas, nem varanda. Sai-se diretamente do quarto para a rua.”
Olena sobreviveu, ao contrário de outras 22 pessoas que morreram na sequência dos disparos de mais de 70 mísseis e 650 drones. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, muitas outras, como Olena, desalojadas. Moscovo havia dito que “a paciência se esgotou” e prometeu ataques fortes, que agora se cumpriram.

Na Rússia, o regime está acossado pela estagnação militar na frente de batalha, uma economia em apuros e repetidos ataques ucranianos com drones. As elites do Kremlin inquietam-se e o próprio Vladimir Putin já não exclui a possibilidade de ser alvo de um atentado externo ou de um golpe de Estado interno. Mas os especialistas alertam que um colapso do regime ainda é pouco provável; em vez disso, à medida que o cerco aperta, o mais certo é Putin redobrar ainda mais a pressão e a escalada de violência sobre a Ucrânia.
Mais de 300 mil soldados russos já morreram, um número sete vezes maior do que as baixas norte-americanas no Vietname
Cinco quilómetros por dia. Tem sido este o avanço das tropas russas na frente de batalha em território ucraniano. Pode pensar-se que isso significa que a Rússia está a ganhar, mas uma leitura mais fina não suporta a afirmação: afinal, o número é pouco quando comparado com os 11 quilómetros diários que Moscovo conquistava no primeiro trimestre de 2025.
Além disso, suportada por uma revolução tecnológica no campo dos drones militares, a Ucrânia tem conseguido várias conquistas. “A Ucrânia reconquistou cerca de 400 quilómetros quadrados perto de Dnipropetrovsk — mais território do que em qualquer outra altura desde o final de 2022 — durante o último trimestre”, revelava um relatório apresentado ao Congresso norte-americano a 18 de maio, de acordo com a Al Jazeera.
Os números agitam as fileiras mais radicais da sociedade russa. Já em março, o blogger militar Yuri Podolyaka havia confessado no seu canal de Telegram que as forças ucranianas estavam a “ultrapassar” os russos e que temia que a Rússia não conseguisse inverter a tendência ao longo dos meses seguintes.
A isso soma-se o custo elevado em número de vidas. Em média, 35 mil militares russos morrem por mês no campo de batalha. Várias organizações e media russos estimam que já tenham morrido 325 mil soldados desde o início da invasão, em fevereiro de 2022. A escala é impressionante: “Nenhuma grande potência sofreu este número de baixas e mortes em qualquer guerra desde o fim da II Guerra Mundial”, decretava já em janeiro um relatório do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS). Em termos de comparação, os autores do documento notam que os Estados Unidos perderam cerca de 47 mil soldados ao longo dos 20 anos que durou a guerra do Vietname — sete vezes menos do que os russos desde a invasão de larga escala na Ucrânia.
E as estimativas de alguns são ainda mais elevadas: a 27 de maio, a diretora de comunicação dos serviços de informações britânicos, Anne Keast-Butler, colocou o número de mortes em meio milhão; no mês anterior, os serviços de informações militares dos Países Baixos tinham avançado com o mesmo número. “A Rússia não tem capacidade para recrutar soldados suficientes para compensar estes 35 mil [mortos por mês]. 95% das mortes são por drones. O rácio de morte neste momento, e lamento ser tão mórbido, é de um para cinco: um soldado ucraniano por cada cinco soldados russos”, acrescentou o Presidente finlandês, Alexander Stubb, em abril.

Por enquanto, a Rússia ainda não tem faltas agudas de pessoal militar, em parte porque alicia os voluntários com salários altos. A certa altura, porém, o Kremlin poderá acabar por recorrer a uma mobilização geral para tentar compensar o ritmo acelerado de baixas. E, do ponto de vista militar, o controlo de tantos soldados é delicado, sobretudo quando estes regressam à Rússia. Segundo o site independente russo iStories, o Kremlin tem equacionado um plano para que vários veteranos da guerra sejam eleitos deputados nas próximas legislativas de setembro. Mas como os considera “incontroláveis”, o regime já reduziu de 70 para 30 o número de deputados pretendido.
Dívida elevada e ataques ucranianos a refinarias levam Ministério das Finanças a propor cortes na Defesa
O esforço militar começa também a ter impacto na economia russa. A dívida externa soberana do país está em cerca de 62 mil milhões de dólares (quase 54 mil milhões de euros), o valor mais elevado dos últimos 20 anos. A taxa de inflação está em mais de 5,5%. Alguns serviços secretos, como o alemão e o sueco, estimam que os dados indicados pelo Banco da Rússia possam estar aquém da realidade
Apesar de a Rússia estar a ter efeitos benéficos com a crise energética provocada pela guerra no Irão, os ganhos com a venda do petróleo não são suficientes para inverter a tendência da economia russa. Igor Gretskiy, investigador do Centro Internacional para a Defesa e Segurança, um think tank da Estónia, considera que “nem um ano de guerra no Irão” seria suficiente para “dar à Rússia qualquer solução sustentável para os seus problemas fiscais”.
A situação é agravada pelos vários ataques com drones que a Ucrânia tem conduzido em território russo, que têm como principais alvos refinarias petrolíferas — só em março, terão sido pelo menos dez. Os efeitos já se fazem sentir, com o Kremlin a decretar a proibição de exportar jet fuel até ao final de novembro, para evitar escassez a nível nacional. No sábado passado, o governador da Crimeia anunciou que a gasolina passará a ser paga com cupões racionados, uma medida que classificou de “temporária”. A campanha de drones ucraniana tem sido, por isso, bem sucedida: “Se eles conseguirem manter esta onda de ataques, pode ser algo que vira o jogo”, previa ao New York Times Sergey Vakulenko, do Carnegie Center, em abril deste ano.

Tendo em conta esta situação económica, a agitação nos corredores do Kremlin tem sido muita. De acordo com uma notícia da Bloomberg desta segunda-feira, funcionários do Ministério das Finanças e do Banco Central terão avisado o Presidente de que os atuais gastos com a Defesa podem levar a um aumento “perigoso” do défice. Alguns setores do Governo terão resistido à ideia de cortes no orçamento militar, levando Putin a pedir às Finanças que corte noutras áreas.
O braço de ferro entre as duas fações acentua-se: na semana passada, o próprio ministro das Finanças, Anton Siluanov, deixou um aviso numa entrevista ao jornal Kommersant. “As nossas reservas não são infinitas”, decretou.
Elites descontentes levam Putin a proteger-se, mas reação do Presidente deverá ser de escalada
No meio da instabilidade financeira, a revista russa Expert divulgou esta segunda-feira que alguns dos maiores empresários russos terão doado cerca de três mil milhões de dólares (cerca de 2.500 mil milhões de euros) aos cofres do Estado. Uma prenda que pode não ser apenas motivada por razões altruístas — afinal, ainda no mês passado foram congelados os bens do oligarca Vadim Moshkovich, detido em 2025. “A elite dos negócios está a jogar à roleta russa”, disse ao The Guardian Oleg Tinkov, um empresário que fugiu do país. “Esperam que o vizinho do lado seja atingido enquanto eles são poupados.”
Publicamente, surgem cada vez mais vozes críticas do Presidente, o que indicia que fações dentro do Kremlin podem estar a dar o beneplácito à publicação dessas opiniões. A jornalista Catherine Belton, autora de Os Homens de Putin (ed. Ideias de Ler), notou que recentemente foi publicado um artigo no jornal científico Russia in Global Affairs onde se afirmava que a Ucrânia está em pé de igualdade com a Rússia no terreno. O site independente Meduza noticiou que o deputado Andrei Gurulev, que em tempos apelou a que “fosse erradicada a podridão” dos que não apoiam Putin, publicou no seu canal de Telegram que os avanços russos na linha da frente “se medem em metros e linhas de árvores” — mais tarde, disse que o seu canal tinha sido “roubado” e que foram publicadas mensagens escritas “por inimigos”. Para os empresários e para muitos cidadãos, as restrições à internet têm sido uma grande fonte de descontentamento.
https://observador.pt/especiais/o-gulag-digital-a-economia-a-decair-e-a-guerra-sem-fim-a-vaga-inedita-de-criticas-a-putin-na-russia/
Vladimir Putin resguarda-se cada vez mais. Por um lado, da possibilidade de vir a ser alvo de um atentado ucraniano — no final de 2025, terá mesmo tido uma reunião com vários responsáveis para afinar a estratégia nesta matéria. De acordo com um relatório de um serviço de informações europeu a que a CNN teve acesso, a segurança do Presidente foi reforçada: os seus cozinheiros e guarda-costas estão proibidos de andar de transportes públicos e não podem utilizar telemóveis com acesso à internet, por exemplo. Mas as medidas não são apenas para evitar ataques ucranianos: o relatório diz que Putin “tem particular receio de que sejam utilizados drones numa possível tentativa de assassinato feita por membros da elite russa”.
O cenário, porém, é improvável. Como nota a economista russa Alexandra Prokopenko, “para isso teriam de formar um bloco monolítico” e, neste momento, a oposição interna está “em grupos fragmentados e desligados uns dos outros”. “”Portanto, o caminho mais sensato a seguir hoje é o silêncio.” “Ninguém acredita que de repente tudo vai colapsar amanhã”, resumiu um empresário ao The Guardian. “Mas há uma noção crescente de que estão a ser tomadas decisões completamente sem sentido e auto-destrutivas. As pessoas que em tempos defenderam Putin já não o fazem. Qualquer ideia de futuro desapareceu.”
Perante o declínio interno, o mais provável é que Vladimir Putin reaja como sempre fez: apertando mais a malha e aumentando a repressão interna. E a mesma estratégia deverá estender-se à situação na Ucrânia, onde o Presidente continua a acreditar que é possível conquistar todo o Donbass até ao fim do ano. “Em grande medida, a escalada é a única forma de responder a uma situação que não se consegue controlar“, resumiu a analista Tatiana Stanovaya.
Isso significa que cenas como a que teve lugar na madrugada desta terça-feira em território ucraniano, com prédios a colapsar, carros em chamas e duas dezenas de mortes, pode bem vir a repetir-se num futuro próximo. Um possível sinal de desespero por parte de Putin, que não tem visto a administração Trump tão envolvida nas negociações como desejava. Mas um sinal que não significa que a guerra já esteja ganha para a Ucrânia. O analista Dan Storyev invocou numa coluna de opinião o provérbio russo que diz “não dividas a pele de um urso que ainda não foi morto” para alertar as “cassandras” que decretam o fim do regime. A Rússia de Putin está ferida, sim; mas isso pode torná-la ainda mais perigosa.