Li nos últimos dias num jornal, alguém que dizia que temos de tomar cuidado para que a democracia não mate o sistema democrático.
E a primeira condição que referia era que a liberdade não deve ser considerada como ilimitada e que deve ser sempre travada quando põe em causa a liberdade dos outros.
Sendo esta uma condição base da democracia, não é difícil para mim concordar.
Também não é difícil para mim compreender que esta condição está constantemente a ser posta em causa por quantos são responsáveis pelo nosso sistema democrático.
É claro, e todos o sabemos, que para assegurar aquela condição é essencial ter a capacidade de ser capaz de manter uma responsabilidade sobre o comportamento das pessoas, de ser capaz de dizer não aos comportamentos que são invasores da liberdade dos outros e que, a maioria dos políticos não está disponível para o fazer.
Aquilo que os políticos hoje mais receiam é ter que enfrentar alguém e exigir-lhe um comportamento.
Para um político, aquilo que lhe parece essencial é garantir que satisfaz todas as pessoas com um facilitismo que não contraria e que, assim, não o condena nas suas atitudes.
Mas a democracia, de que todos se afirmam ser defensores, e que acredito que todos desejamos que continue a ser a forma de organização da nossa sociedade, é de tal maneira importante de ser cuidado que não podemos abdicar de sermos exigentes com todos os que nela vivem e que dela desfrutam para assegurar que ela continua, que cresce e que não é destruída.
Não é isso aquilo que vemos acontecer nos tempos que correm e não é isso que vai acontecer no futuro se não mudarmos radicalmente a nossa escolha das lideranças que nos conduzem.
Temos de voltar a procurar pessoas que tenham a coragem de dizer a verdade, de limitar o abuso da liberdade e de exigir comportamentos de civilidade face á sociedade em que vivemos sob pena de, se não o fizermos, acabarmos por perder esta democracia e cairmos em mãos de quem não tem qualquer respeito por cada cidadão.
Este sentimento de que a democracia já não garante as expectativas dos cidadãos é aquilo que tem levado ao aparecimento dos movimentos populistas, de esquerda e de direita – ou nem de esquerda nem de direita – que cada vez mais vemos recolher o apoio de todos os que estão desencantados com o sistema democrático.
Não policiar, não é dar liberdade, aceitar greves sem razão, que sempre se juntam a pontes e feriados e que prejudicam a vida diária dos cidadãos, também não é liberdade, permitir a destruição do património público por ocasião de espectáculos e manifestações também o não é.
Temos que exigir mais responsabilidade de quem nos lidera, de quem, por detrás de uma imagem de serviço público não pode estar só preocupado com o seu futuro, descurando as responsabilidades que jurou assumir.
É tempo de exigir valores e princípios e de acabar com esta ideia de confundir a liberdade e a tolerância com o facilitismo e a permissividade, que em vez de fazer crescer a sociedade a levam à sua destruição.
Não deixemos que a falsa democracia destrua o sistema democrático, pois isso será a nossa própria destruição.