Há fenómenos que não precisam de justificação porque já vêm protegidos por uma imunidade cultural automática. A caderneta do Mundial é um deles. Basta aparecer para ser imediatamente aceite, celebrado e reproduzido, como se fosse tradição e não engenharia.
De quatro em quatro anos repete-se o ritual. As bancas esgotam cromos, as papelarias reorganizam prioridades, as trocas multiplicam-se e instala-se uma linguagem paralela feita de faltas, repetidos e pequenas euforias muito bem distribuídas. Tudo isto com uma normalidade que dispensaria qualquer pergunta não fosse o detalhe de não haver nada de particularmente natural nisto.
Não há.
O fenómeno cresceu de forma quase silenciosa, mas a escala já não permite ingenuidade. Em 1970, a primeira caderneta de um Mundial tinha 270 cromos. Em 2026 aproxima-se dos 980. Não é um detalhe estatístico, é a prova de uma expansão contínua do próprio mecanismo de falta. Mais equipas, mais jogadores, mais páginas, mais ausência fabricada.
E mais dinheiro.
As saquetas acompanharam o movimento e o aumento não foi discreto. Em apenas duas décadas, o preço quase quadruplicou. O salto foi tão silencioso quanto eficaz: mais cromos, mais equipas, mais páginas e uma coleção cada vez mais cara de completar.
A isto chama-se inflação de desejo, embora raramente seja nomeada como tal. O discurso público insiste em tratar o fenómeno como leve, como inofensivo, como “coisa de infância prolongada”. Não é.
O sistema não funciona por inocência, funciona por desenho. Cria-se uma coleção incompleta, introduz-se aleatoriedade na obtenção dos elementos e deixa-se o comportamento humano fazer o resto. A falta deixa de ser problema e passa a ser motor.
Mas há aqui um ponto mais desconfortável. A falta não está na coleção. Está no próprio utilizador.
Não há aqui falha de design. Há design de comportamento.
E é por isso que a crítica raramente entra. A palavra que bloqueia tudo é sempre a mesma: nostalgia. A nostalgia não explica, desativa. Tudo o que lhe é associado deixa de pertencer ao campo da análise e passa para o campo da memória afetiva. E o que pertence à memória afetiva não se discute. Celebra-se.
Entretanto, a matemática continua a impor a sua própria lógica, indiferente ao entusiasmo. Segundo cálculos do professor Paul Harper, da Universidade de Cardiff (referidos no episódio “Cadernetas de cromos: de onde vem esta febre?”, do podcast Pop Up, do Observador), seriam necessários mais de 7000 cromos para completar a coleção sem recorrer a trocas. Na prática, isso traduz-se em cerca de €1500 em saquetas num cenário teórico que raramente corresponde ao mundo real.
E mesmo este número diz mais do que parece. Completar a coleção pode custar cerca de €1500. E aqui surge uma pergunta simples: quem ganha €1500 por mês?
Num contexto em que muitos trabalhadores portugueses recebem valores inferiores a esse montante, até que ponto a ideia de “completar a coleção” deixa de ser um jogo e passa a ser uma metáfora involuntária da desigualdade?
Talvez o mais curioso seja a ausência de desconforto. Discutimos com facilidade o preço da habitação, dos combustíveis ou do supermercado, mas raramente questionamos mecanismos de consumo que se tornam quase invisíveis quando são acompanhados pela nostalgia. Como se certas despesas deixassem de merecer análise no momento em que passam a estar associadas à infância, ao futebol ou à memória coletiva.
Não pelo valor em si, mas pela forma como deixa de ser relevante quando entra no território certo. O território da infância prolongada, da pertença imediata, da pequena emoção repetida.
A caderneta não vende cromos. Vende o direito a participar num sistema onde a falta é partilhada e, por isso mesmo, tolerável. Vende a promessa de completude sabendo que essa promessa raramente se cumpre sem fricção. E vende sobretudo uma coisa mais subtil: a sensação de que o esforço não é pesado porque é coletivo.
O que torna o fenómeno interessante não é a sua dimensão económica. É a sua invisibilidade cultural.
Portugal é um país muito confortável a discutir escassez enquanto ignora as formas mais suaves de consumo excessivo que atravessam o quotidiano. Há uma separação muito clara entre aquilo que se analisa e aquilo que se vive. E essa separação raramente é questionada.
A caderneta do Mundial habita exatamente essa fronteira. Não é importante o suficiente para ser problema, nem trivial o suficiente para ser irrelevante. E talvez seja por isso que funciona tão bem.
Talvez o mais inquietante não seja a existência da caderneta, mas aquilo que ela revela sobre nós. Conseguimos passar horas a discutir cromos repetidos, jogadores em falta e estratégias de troca, enquanto temas que influenciam diretamente a nossa vida coletiva raramente despertam o mesmo entusiasmo. Não há nada de errado em colecionar cromos. O problema começa quando percebemos que, muitas vezes, reservamos mais atenção para estas pequenas obsessões do que para questões que exigem reflexão, participação ou sentido crítico. A caderneta não é a causa dessa realidade. É apenas um espelho bastante eficaz dela.
Talvez os números não expliquem tudo. Numa papelaria, uma funcionária resumiu o fenómeno numa frase espontânea: “As pessoas andam loucas com isto.” A observação pode não ter valor científico, mas tem valor sociológico. Porque traduz aquilo que qualquer pessoa consegue observar: uma mobilização coletiva difícil de encontrar noutras dimensões da vida pública.
O mais estranho é que quase ninguém fala sobre isto. Discutimos os efeitos das redes sociais, os hábitos de consumo, a economia da atenção e a influência da publicidade, mas raramente olhamos para fenómenos como este com o mesmo espírito crítico. Como se a nostalgia tivesse o poder de suspender a análise. Como se certas formas de consumo deixassem automaticamente de merecer reflexão no momento em que são associadas à infância ou ao futebol.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de interesse. Talvez tenha sido apenas a escolha do objeto desse interesse.
No fim, o que ela revela não é uma incoerência. É algo mais discreto e, por isso mesmo, mais interessante.
A facilidade com que um país habituado a falar de limites económicos se entrega, sem grande resistência, a sistemas que vivem precisamente da suspensão desses limites no momento do desejo.
Talvez não haja aqui contradição nenhuma. Talvez haja apenas uma forma muito eficiente de convivência entre consciência e impulso, cada um no seu território bem delimitado.
Ou será que a verdadeira ironia não está na caderneta, mas na ideia de completude num país onde tantos nem sequer ganham o suficiente para a completar?
E talvez os maiores cromos não sejam aqueles que se colam, mas aqueles que participam como se estivessem dentro de um sistema que algum dia lhes prometeu completude.
Vamos então continuar à procura dos cromos mais raros. O que começa a tornar-se verdadeiramente raro é a disponibilidade para questionar aquilo que todos os outros já aceitaram como normal.