A época alta do turismo está à porta, mas o sentimento dos empresários da hotelaria não acompanha o calor do verão. O mais recente inquérito da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) revela que os hoteleiros antecipam uma quebra na taxa de ocupação entre junho e setembro face ao ano passado, bem como uma descida na estada média e nos proveitos totais. Só no preço médio se espera uma ligeira subida. “Na globalidade as perspetivas são de quebra”, sublinhou Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da AHP.
A responsável admite que nesta altura há uma “volatilidade extrema” devido à instabilidade geopolítica. Quando esta pergunta foi feita aos mesmos empresários em janeiro, os níveis de confiança eram superiores em praticamente todas as regiões. “Sem qualquer dúvida há um maior pessimismo na confiança no turismo nacional, as perspetivas de verão são menos positivas”, assumiu Siza Vieira.
Isto apesar das reservas estarem em níveis semelhantes aos registados no inquérito de 2025. “Estamos a ser prudentemente realistas“, vincou a vice-presidente da AHP. As regiões que lideram as reservas antecipadas, de junho a setembro, são a Madeira e os Açores. Também o Algarve já tem reservas acima de 50% até agosto. Já Lisboa destaca-se mais em setembro.
As respostas ao inquérito foram recolhidas até 17 de maio. Nesta altura, questionados sobre os riscos com maior impacto na operação de verão, os hoteleiros não tiveram dúvidas: 71% apontaram a instabilidade económica e geopolítica. Segue-se o aumento dos custos operacionais (38%), a capacidade aeroportuária (37%), o aumento generalizado do custo dos transportes (35%), a contenção no consumo em turismo nos principais mercados emissores (18%) e a escassez/custo do jet fuel (18%). Se o inquérito tivesse sido feito há menos tempo “não sei se não teria crescido, porque as notícias não são muito interessantes”, sublinhou Cristina Siza Vieira sobre o jet fuel.
Siza Vieira salientou que no geral ainda há “muitas incógnitas” apesar de estarmos em junho e que, devido à instabilidade, se tem notado uma tendência das reservas de última hora.
Outro aspeto relevante e que denota algum pessimismo do setor está nos mercados de origem dos hóspedes, que registaram “variações importantes” face a 2025. Portugal mantém o primeiro lugar, sendo mencionado por 68% dos inquiridos como um dos seus três principais mercados. Mas a quebra em relação ao ano passado é muito significativa. Em 2025 Portugal surgiu em 78% das respostas, tendo caído para 68% em 2026. “É a primeira vez que isto acontece”, admite Cristina Siza Vieira.
A vice-presidente da AHP voltou a sublinhar que a situação está “muito volátil”, mas que a associação “estranhou” o facto de Portugal não ter sido referido por tantas empresas como é costume. “Significa que há alguma preocupação com o que vem sendo anunciado”, afirmou, dando exemplos como as notícias sobre a taxa de esforço no crédito à habitação. “As pessoas estão a guardar-se para o último momento. Ainda não podemos concluir que Portugal não será um dos mercados importantes para o verão, mas em termos de reservas, em comparação com o ano passado, há um abrandamento. O mercado português sempre foi apontado por mais de 80%” dos hoteleiros como um dos principais. Lembrou ainda que no ano passado “havia muitos sinais de que o mercado interno tinha fugido do Algarve e isso não se confirmou”. Neste momento “a preocupação é relativa, há um sinal que importa ir observando”.
Segundo o inquérito, o turismo português assume maior expressão no norte, península de Setúbal, Alentejo, oeste e vale do Tejo e Açores.
O mercado mais referido pelos hoteleiros, a seguir a Portugal, é o Reino Unido, que regista uma subida de 5 pontos para 58%. O top 3 fecha com Espanha, que cai ligeiramente face a 2025, de 43% para 42%. Seguem-se os EUA, a Alemanha, a França e o Brasil, este último também com uma quebra acentuada de 28% para 12%. No último lugar surge a China, que pela primeira vez está na lista.
Segundo a AHP, o contexto geopolítico também está a condicionar a política de preços dos hotéis, “ainda que de forma instável”. Questionados sobre o impacto do choque energético, 36% dos inquiridos revelaram estar a reduzir preços para o verão, 46% disseram não ter sofrido impacto e 18% admitiram ter aumentado as tarifas.
No último inquérito da AHP, publicado em março, a associação antecipava algum desvio de turistas dos destinos de resort de países como a Tunísia ou o Egito para o Algarve. Questionada sobre esse tema, Siza Vieira sublinhou que os “destinos de resort mais fora do eixo da guerra tendem a beneficiar com isso”, mas “nunca é uma boa notícia”, sendo uma “oportunidade durante um período de tempo relativamente curto”.
Páscoa com a mesma ocupação mas preços a descer
A AHP apresentou ainda o balanço da Páscoa na hotelaria. Questionados sobre como correu este período em termos de cancelamentos face a 2025, “dado o contexto económico e geopolítico“, 43% das empresas disseram que foi “igual” e 21% afirmaram que a taxa de cancelamento foi menor. Ainda assim, 32% dos inquiridos apontaram para uma taxa de cancelamento “maior ou muito maior”, sobretudo no centro, Madeira e norte.
Ainda comparando com a Páscoa do ano passado, os hoteleiros notaram um aumento nas reservas de última hora, com destaque para Madeira, Oeste e Vale do Tejo, Norte e Grande Lisboa.
Segundo o inquérito, a taxa de ocupação aumentou a nível nacional face à Páscoa de 2025 (que foi mais “chuvosa”), em dois pontos para 77%. O preço médio por quarto baixou de 145 para 143 euros e os proveitos, que reúnem tudo o que se gasta num hotel e não só o preço do quarto, aumentaram ligeiramente, de 109 para 110 euros.
A nível regional, a taxa de ocupação aumentou em todo o continente à exceção da região centro, onde se manteve igual. A ocupação baixou na Madeira e nos Açores, com este último a refletir o impacto da saída da Ryanair, que aconteceu a 29 de março. A Madeira, apesar de registar menos ocupação, conseguiu aumentar tanto o preço médio (de 170 para 203 euros) como os proveitos (de 144 para 161 euros). “É uma opção económica e de gestão”, justificou Siza Vieira.
O mesmo não aconteceu na região da grande Lisboa, onde a ligeira subida da taxa de ocupação não impediu a descida dos proveitos (de 138 para 131 euros), tendo também descido o preço por quarto, de 171 para 161 euros.
Na estada média não houve “grandes surpresas”, com a maior parte dos inquiridos (61%) a reportarem resultados “iguais” aos de 2025. Nos proveitos totais a tendência apontou para uma Páscoa “melhor” para 41% dos inquiridos.
Já nos principais mercados, Portugal, Espanha e Reino Unido foram os países que mais vezes surgiram no top três dos hoteleiros nesta Páscoa. Portugal, ainda assim, caiu ligeiramente (de 78% para 76%). As tendências mostram ainda o mercado dos EUA a subir, bem como o alemão e o brasileiro. França ainda surge entre os principais mercados emissores, mas com uma quebra expressiva face a 2025 (de 22% para 12%).
Na análise por região, os portugueses surgem em 100% das respostas dos hoteleiros do Alentejo, Açores e zona centro. Mesmo quando não surge em 100%, é frequente Portugal aparecer no primeiro lugar, como no norte, na península de Setúbal e no oeste e vale do Tejo. Já em Lisboa, por exemplo, o top três de mercados na Páscoa foi composto por hóspedes dos EUA, Espanha e Reino Unido. Algo que “surpreendeu” a AHP foi o facto de os EUA terem “desaparecido” dos Açores neste período.
https://observador.pt/2026/03/26/guerra-desvia-turistas-para-resorts-em-portugal-no-verao-mas-ganho-para-a-hotelaria-sera-sol-de-pouca-dura/