Tarde quente no Parlamento. Os deputados propuseram-se a discutir a criação de uma comissão de inquérito ao caso Influencer, proposta pelo Chega, mas o debate tornou-se rapidamente sobre José Sócrates, Fernanda Câncio, Vitor Escária, António Costa, Duarte Moral e aquilo que André Ventura descreveu como um “polvo de corrupção e influência”. Na resposta, Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, tentou repetidamente colar a direita e a extrema-direita aos regimes mais corruptos da Europa.
O debate, aliás, começou de forma algo inusitada. Apesar do tema em apreço — uma comissão de inquérito a um caso que resultou na queda da maioria absoluta de António Costa — os socialistas decidiram não se inscrever para intervir. A seguir à intervenção de Ventura, José Pedro Aguiar-Branco perguntou aos demais partidos sobre se queriam ou não discursar e, não tendo obtido qualquer resposta nesse sentido, decidiu avançar para o outro ponto da ordem de trabalhos.
Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, pediu a palavra e, lamentando que os socialistas não se tivessem inscrito, insistiu com Aguiar-Branco para que fosse possível revisitar a decisão — algo que acabou por acontecer com a ajuda de Rui Rocha, em representação da Iniciativa Liberal. O que aconteceu a seguir foi uma troca inflamada de acusações sobre quem tem mais e menos corruptos nos respetivos partidos.
Depois da primeira intervenção de André Ventura, e depois de Bárbara do Amaral Correia, do PSD, ter feito um discurso relativamente contido nos ataques ao PS, Rui Rocha tomou a palavra para acusar o partido liderado por José Luís Carneiro de ignorar, desvalorizar e permitir pela inação que a corrupção se instale dentro do partido. “Nenhum partido está imune à corrupção, mas nenhum partido tem sido menos imune à corrupção do que o PS”, atirou o ex-presidente da Iniciativa Liberal.
Rui Rocha disse, de resto, que o PS sofre coletivamente do “síndrome de Fernanda Câncio“, numa alusão à antiga namorada de José Sócrates que, anos mais tarde, veio alegar que não sabia da relação pecuniária entre o antigo primeiro-ministro e o amigo Carlos Santos Silva. “Fernanda Câncio, pelo menos, tinha a desculpa do amor. Qual é a desculpa do PS?”, ironizou Rui Rocha, despedindo-se de José Luís Carneiro com um conselho: em vez de criar um enésimo código de conduta, aplique o “sétimo mandamento” de alto a baixo: “Não roubarás“.
Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, falaria depois para responder a André Ventura e a Rui Rocha. Várias vezes interrompido, o que obrigou à intervenção de José Pedro Aguiar-Branco, o socialista acusou a “direita e a extrema-direita de usarem a corrupção para atacar os adversários”. Brilhante Dias recuperou o caso de Tiago Mayan Gonçalves para atingir a Iniciativa Liberal e as ligações do Chega a Viktor Orbán e ao Vox para responder a André Ventura.
“O PS tem uma longa história. Está habituado ao combate político. O edifício do combate à corrupção, da transparência, teve o inegável contributo do PS. Não temos medo de comparar a nossa história com a história da extrema-direita”, foi dizendo várias vezes Eurico Brilhante Dias.
O debate prosseguiu sem que Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, deixasse de notar que José Luís Carneiro se levantara a meio do discurso de Brilhante Dias (“Onde estará? Deve ter ficado com vergonha…”) e por fazer distribuir fotos de António Costa abraçado a Viktor Orbán — recorde-se que os dois, Costa, então primeiro-ministro, e Orbán chegaram a ver juntos, em Budapeste, uma final da Liga Europa.