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SNS regista nova quebra nas cirurgias e aumento das listas de espera em 2026. Primeiras consultas também em queda

Primeiro trimestre fechou com quebra nas cirurgias programadas e com os doentes a aguardar cirurgia fora do tempo recomendado a aumentaram mais de 16% face ao ano passado.

Tiago Caeiro
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O número de cirurgias realizadas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) no primeiro trimestre de 2026 diminuiu em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e março, foram realizadas 200.077 cirurgias programadas, menos 5,6% do que nos primeiros três meses de 2025, segundo os dados mais recentes que constam no Portal da Transparência do SNS. Também as listas de espera para cirurgia se agravaram no mesmo período, havendo, em março de 2026, mais cerca de 12 mil pessoas a aguardar cirurgia fora dos Tempo Máximo de Resposta Garantido (TMRG) em relação ao mesmo mês do ano passado. Por outro lado, o número de consultas (que esteve em quebra em janeiro e fevereiro) recuperou em março, embora as primeiras consultas tenham também diminuído no primeiro trimestre.

A tendência de diminuição do número de cirurgias vem já desde o último semestre de 2025, como confirmou a Entidade Reguladora da Saúde (ERS). No relatório de monitorização, divulgado no início de maio, a ERS registou uma quebra ligeira de 0,7% entre julho e dezembro de 2025 em relação ao mesmo período de 2024. No entanto, essa tendência não só se manteve em 2026 como se acentuou. No primeiro trimestre de 2026, foram realizadas 200.077 cirurgias, em comparação com as 211.825 intervenções cirúrgicas feitas nos primeiros três meses de 2025, menos 5,6%.

A diminuição da atividade cirúrgica do SNS entre janeiro e março de 2026 registou-se em três das cinco regiões de saúde do país: Norte, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. Foi na região de Lisboa e Vale do Tejo que se registou a maior diminuição (de 10,9%, quase o dobro da média nacional de quebra), o equivalente a menos cerca de oito mil cirurgias. Segue-se a região Norte, que realizou menos cerca de quatro mil cirurgias no primeiro trimestre deste ano, numa quebra de 4,9%. Já no Alentejo, realizaram-se menos cerca de 500 cirurgias, menos 4,8%. A tendência global foi apenas contrariada pela região Centro, que registou um ligeiro aumento de 1% nas intervenções cirúrgicas e pelo Algarve (mais 7,8%).

https://observador.pt/2026/05/11/numero-de-utentes-a-aguardar-cirurgia-cardiaca-dispara-40-lista-de-espera-para-cirurgia-oncologica-tambem-aumenta/

No final de abril, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitiu que se registou uma quebra na atividade do SNS nos dois primeiros meses deste ano, justificando o fenómeno com o pico da gripe, com a suspensão da atividade programada em muitas Unidades Locais de Saúde (ULS) e com o facto de o calendário ter tido menos um dia útil em janeiro e fevereiro de 2026. “Na atividade cirúrgica regista-se uma diminuição da atividade programada face a 2025, devido ao pico de gripe” e à suspensão da atividade programada, justificou na altura a ministra.

ULS de Braga, Médio Ave e Santa Maria registam maiores quebras nas cirurgias

Contudo, já com os dados de março incluídos na análise (um mês em que as ULS já não tinham a atividade assistencial suspensa e em que o pico da gripe já fora ultrapassado), verifica-se que a quebra da atividade cirúrgica se manteve. Aliás, analisando só o mês de março, a diminuição das cirurgias foi de 2%.

Numa análise por ULS, as de Braga e Santa Maria destacam-se pela negativa, com quebras de 33,2% e de 31,4% nas cirurgias, respetivamente, nos primeiros três meses de 2026 face ao período homólogo. Ao Observador, fonte oficial da ULS de Santa Maria justifica a evolução negativa com a suspensão da atividade cirúrgica adicional no serviço de Dermatologia e com as novas regras impostas à produção adicional, que começaram a produzir efeitos em janeiro, e que se traduziram numa diminuição de quase 70% do número de cirurgias em período adicional. Já a ULS de Braga justifica a evolução negativa da produção cirúrgica com “um número maior de greves” ao longo do primeiro trimestre de 2026, “bem como a ausência de profissionais em determinados períodos, o que condicionou a capacidade de resposta de vários serviços”.

A instituição explica que ainda que “a elevada procura assistencial obrigou a ativar com maior frequência o plano de contingência de nível 3, o que implicou a redistribuição de recursos e teve reflexo na atividade programada”. A ULS Braga aponta ainda outros dois fatores: a entrada em vigor de um novo regulamento para cirurgias adicionais, “cuja fase de adaptação reduziu temporariamente a atividade”; e a introdução da cirurgia robótica, cujo “tempo de preparação é superior ao da cirurgia convencional, o que reduz o número absoluto de intervenções por sessão”.

https://observador.pt/2026/04/22/nao-saio-de-fininho-ministra-da-saude-recusa-demitir-se-e-admite-quebra-da-atividade-no-sns-com-menos-consultas-e-cirurgias-este-ano/

Também a ULS do Médio Ave, com sede em Vila Nova de Famalicão, registou um decréscimo significativo na atividade cirúrgica, de menos 31,8%. Já as ULS do Médio Tejo, com sede em Tomar, e do Arco Ribeirinho, com sede no Barreiro, registaram retrações também significativas, de 21,1% e 20,1%, respetivamente, no número de cirurgias programadas realizadas no primeiro trimestre deste ano.

Número de utentes a aguardar cirurgia fora do TMRG aumenta mais de 16%

Com a procura por cirurgias a aumentar, e com a atividade do SNS em quebra, não surpreende que a lista de espera se tenha avolumado. O número de doentes inscritos para cirurgia aumentou no primeiro trimestre para 277.293 utentes, mais cerca de 3,5% do que no primeiro trimestre de 2025. Mas muito mais significativo é o agravamento do número de utentes que aguardam cirurgia para lá do Tempo Máximo de Resposta Garantido. No final de março, eram 84.335, mais 16,7% do que no mesmo mês do ano passado. Com esta deterioração, a percentagem de doentes que aguarda fora do TMRG passou de 27% do total de inscritos no primeiro trimestre de 2025 para 30,4% do total no mesmo período de 2026.

O combate às listas de espera cirúrgicas foi uma das prioridades do primeiro governo da Aliança Democrática. Para diminuir a lista de espera cirúrgica para doentes oncológicos foi lançado o programa OncoStop, em 2024, que previa distribuir pelas equipas cirúrgicas 90% do valor da cirurgia. No entanto, o programa extraordinário de regularização das listas só teve efeito durante poucos meses. Quando acabou, depressa a lista de espera para cirurgia oncológica voltou a aumentar para níveis semelhantes aos que se registavam antes da tomada de posse do primeiro governo da AD.

https://observador.pt/especiais/numero-de-doentes-a-aguardar-cirurgia-fora-do-tempo-maximo-sobe-30-em-2025-mostram-dados-do-governo/

No caso das cirurgias não oncológicas, foi também lançado um programa de regularização, que todos os utentes que estavam à espera de uma cirurgia para lá do TMRG deveriam ter uma data de agendamento de cirurgia até 31 de dezembro de 2024 e a cirurgia deveria ser realizada até 31 de agosto de 2025. No entanto, em maio de 2025, o número de doentes a aguardar cirurgia era apenas 3% inferior ao registado em novembro de 2024, sendo que esse número foi-se avolumando nos meses seguintes.

Já no caso das consultas, e depois de uma quebra nos dois primeiros meses do ano, o impulso dado pelo mês de março permitiu que este indicador voltasse a terreno positivo no primeiro trimestre. Assim, de janeiro a março foram realizadas 3.748.157 consultas hospitalares, mais 0,8% do que no mesmo período de 2025. Contudo, nas primeiras consultas a quebra mantém-se: foram 1.013.666, menos 2,4% do que no primeiro trimestre de 2025.