Se fosse vivo, que pensaria Gianni Versace de um mundo bege sobre bege, monopolizado pela previsibilidade? Provavelmente reforçaria a dose de extravagância na sua conta de Instagram — caso decidisse ter uma — e talvez esfregasse as mãos de contentamento com o guarda-roupa da eras tour de Taylor Swift. Para sermos honestos, as silhuetas mais minimalistas também fizeram parte da sua carreira, mas para a posteridade passam outras marcas distintivas. Glamour, sensualidade e opulência barroca pautaram a estética ousada do designer italiano, até quase ao desfecho de uma década onde mais era sempre mais. 2026 assinala os 29 anos da morte do italiano, assassinado a tiro em 15 de julho de 1997, no exterior da sua mansão em Miami, e coincidiria também com a celebração do seu 80.º aniversário de nascimento.
Depois de cidades como Londres, Berlim e Málaga, uma grande retrospetiva do criador de moda encontra agora o seu espaço natural em Paris. A partir de 5 de junho e ao longo de todo o verão, o museu Maillol, em Saint-Germain-des-Prés, recebe a maior exposição francesa dedicada a Versace desde 1986, comunicando a sua linguagem de excesso mediada pelo corpo e a forma teatral como coreografou cada apresentação. No total, são cerca de 450 peças e referências excepcionais reunidas sob o mesmo teto: criações, silhuetas originais, acessórios, esboços, objetos decorativos, fotografias, vídeos e a ainda entrevistas raras, para uma vasta moldura que oferece um panorama completo da obra de Giovanni Maria, ou Gianni.

A cenografia, essa não poderia escapar ao registo pop e vibrante, assinada por Nathalie Crinière. Saskia Lubnow e Karl von der Ahé são os comissários de uma exposição realizada à margem da família Versace. O percurso convida a descobrir os diferentes traços da rota criativa e todas as inspirações convocadas para este percurso. Gianni, que começou a trabalhar numa oficina familiar em Calábria, deixou-se contagiar em igual medida pela iconografia católica (muitos anos antes de Rosalía), a inspiração da estatuária grega, a ópera italiana, as impressões barrocas e opulentas. Conhecer e desbravar as diferentes fases e registos é passar por referências tão díspares quanto Botticelli, Canova ou Picasso, ou ainda a Pop Art de Andy Warhol, e os códigos visuais servidos por cineastas como Julian Schnabel, para um encontro com a cultura popular.
Uma mostra desta natureza evoca ainda outras duas âncoras indissociáveis do trajeto de Versace. Por um lado, a ligação estreita com figuras da cultura, e uma míriade de celebridades de alto relevo, como Madonna, Elton John, George Michael, Grace
Jones, Prince, ou Elizabeth Hurley (e um vestido de alfinetes para a história). Quanto a manequins, é incontornável a relação com as supermodelos dessa era, rostos como Carla Bruni, Naomi Campbell, Cindy Crawford, Claudia Schiffer, Karen Mulder e Linda Evangelista. Por fim, a legião de fotógrafos da moda que carimbaram com a sua lente toda uma imagética desse tempo, de Richard Avedon a Irving Penn, de Helmut Newton a Patrick Demarchelier ou Mario Testino.

Gianni deu-nos as estampas de seda e a icónica medusa e ainda a inspiração punk e até bondage, num contexto sempre arrojado. Difícil de cair nas graças das mais austeras, conseguiu um salvo conduto para furar o preconceito graças à ex-mulher do então príncipe de Gales. Em plena fase de reinvenção pós-divórcio, Diana operou uma autêntica metamorfose de estilo, arriscando graças às criações de Versace, que punha um travão na excentricidade para tocar o padrão de gosto da princesa. “Eu fiz uma prova com ela na semana passada para novos fatos e roupas para a primavera, e ela está tão serena. É um momento na sua vida em que acho que encontrou a forma como quer viver”, garantia o designer sobre a amiga e cliente depois dessa capa de julho de 1997 da Vanity Fair, da qual Diana era a estrela, fotografa por Testino. Jamais poderia imaginar que o seu fim trágico estaria tão próximo, ou que a própria princesa do Povo, que assistiu à liturgia fúnebre de Versace, realizada na catedral de Milão, encontraria também a morte em Paris, em 31 de agosto do mesmo ano.
Foi com visão que em 1989 Gianni Versace lançou a sua linha de alta costura, “Atelier Versace”, e escolheu apresentá-la durante a semana da moda de Paris. No Hotel Ritz, na Place Vendôme, instalou mais do que desfiles ou um buffet de roupas, antes um autêntico império Versace, testemunhado em primeira mão pela sua corte de seguidoras. Foi ali mesmo, em vésperas da sua morte, que se escutou o canto do cisne, com a metalizada noiva Naomi a encerrar a festa.
Musée Maillol, 59/61, rue de Grenelle. De 5 de junho a 6 de setembro. Todos os dias, das 10h30 à 17h30 (última entrada). Bilhetes desde 18,90€