Pela primeira vez, o melhor futebol de seleções saiu da Europa e da América. Em 2002, a Ásia recebeu o primeiro Campeonato do Mundo e desde logo com a primeira co-organização, com Coreia do Sul e Japão a dividirem a responsabilidade do primeiro Mundial do século XXI. O milénio tinha mudado, o mundo tinha mudado, o futebol tinha mudado — mas no fim, na verdade, ganharam os que mais estavam habituados a fazê-lo.
O Brasil de Luiz Felipe Scolari, o Felipão que daí a dois anos estaria a levar a Seleção Nacional à final do Euro 2004, chegou à final de Yokohama para derrotar a Alemanha e conquistar o quinto Mundial da sua história — e ainda o último, com o sonho do hexa a alimentar-se de quatro em quatro anos. Nas fileiras brasileiras, alguns dos melhores jogadores das últimas décadas: Cafu, Roberto Carlos, Gilberto Silva, Ronaldinho, Rivaldo e o crónico Ronaldo, que foi o melhor marcador da competição com oito golos.

Todo o imaginário do Mundial 2002 ficou na memória coletiva de uma geração inteira, desde a Adidas Fevernova que se tornou uma das bolas mais míticas de sempre à presença aparentemente constante de Pierluigi Collina, o árbitro que era tão conhecido como os jogadores. Quanto a Portugal, qualificou-se para o Campeonato do Mundo depois de 16 anos de ausência e do desastre de Saltillo no México — mas também não fez muito diferente. A Seleção de António Oliveira, que contava com nomes como Vítor Baía, Jorge Costa, Rui Costa e Luís Figo, perdeu com os EUA e a Coreia do Sul e não passou da fase de grupos, numa concentração que também esteve envolvida em muitas polémicas.
Uma história. O primeiro Campeonato do Mundo pós-11 de setembro
O Campeonato do Mundo de 2002 foi o primeiro grande evento internacional e à escala mundial depois do 11 de setembro de 2001 e do ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque. Nesse sentido, e até porque as autoridades asiáticas não estavam habituadas aos típicos hoolligans de Inglaterra, Bélgica ou Turquia, existiu uma preocupação acima da média com a segurança. Na altura, Coreia do Sul e Japão gastaram cerca de 158 milhões de dólares em medidas de segurança e apetrecharam-se de várias maneiras — desde canhões de água a armas que disparavam redes para controlar multidões, para além de escudos reforçados para os agentes e até um tanque que tinha um ecrã e um megafone para transmitir avisos em inglês.
Um herói. Ronaldo e um Mundial onde fez muito mais do que criar tendências
O Mundial 2002 marcou o fim da primeira vida de Ronaldo e o início da segunda. Já com a alcunha de Fenómeno, o avançado brasileiro chegou ao Campeonato do Mundo depois de duas temporadas em que pouco ou nada jogou pelo Inter Milão devido às recorrentes lesões num joelho que acabou por impedi-lo de ser ainda mais do que foi. Convocado por Luiz Felipe Scolari, com um penteado que ninguém esquece e que foi replicado por praticamente todas as crianças brasileiras, foi o melhor marcador do Mundial com oito golos e carregou o Brasil até à conquista do quinto e ainda último Campeonato do Mundo da sua história, repetindo um feito que já tinha incluído no palmarés em 1994. Semanas depois da final de Yokohama, onde assinou os dois golos que derrotaram a Alemanha, deixou Itália e rumou ao Real Madrid para fazer parte da primeira geração de galácticos de Florentino Pérez.

Uma curiosidade. O problema do nome que ficou resolvido com um compromisso
O Campeonato do Mundo de 2002 foi o primeiro a realizar-se na Ásia e também o primeiro a ser organizado por dois países. Coreia do Sul e Japão candidataram-se em separado, mas acabaram por aceitar a proposta da FIFA no sentido de serem co-anfitriões. A partir daí, criou-se um problema: que país apareceria primeiro na designação oficial do Mundial? O Japão defendia a ordem alfabética inglesa, Japan-Korea, a Coreia do Sul defendia a ordem alfabética francesa, Corée-Japon, para honrar as raízes francófonas da FIFA. No fim, chegaram a um compromisso. O Campeonato do Mundo ficou conhecido como Coreia-Japão 2002 e a final aconteceu em território japonês, na cidade de Yokohama.
Como foram os resultados no Mundial de 2002
- 31 de maio (fase de grupos): França-Senegal, 0-1
- 1 de junho (fase de grupos): Uruguai-Dinamarca, 1-2, Irlanda-Camarões, 1-1 e Alemanha-Arábia Saudita, 8-0
- 2 de junho (fase de grupos): Paraguai-África do Sul, 2-2, Espanha-Eslovénia, 3-1, Argentina-Nigéria, 1-0, Inglaterra-Suécia, 1-1
- 3 de junho (fase de grupos): Brasil-Turquia, 2-1, Croácia-México, 0-1 e Itália-Equador, 2-0
- 4 de junho (fase de grupos): China-Costa Rica, 0-2, Coreia do Sul-Polónia, 2-0 e Japão-Bélgica, 2-2
- 5 de junho (fase de grupos): EUA-Portugal, 3-2, Alemanha-Irlanda, 1-1 e Rússia-Tunísia, 2-0
- 6 de junho (fase de grupos): Dinamarca-Senegal, 1-1, França-Uruguai, 0-0 e Camarões-Arábia Saudita, 1-0
- 7 de junho (fase de grupos): Espanha-Paraguai, 3-1, Suécia-Nigéria, 2-1 e Argentina-Inglaterra, 0-1
- 8 de junho (fase de grupos): África do Sul-Eslovénia, 1-0, Brasil-China, 4-0 e Itália-Croácia, 1-2
- 9 de junho (fase de grupos): Costa Rica-Turquia, 1-1, México-Equador, 2-1 e Japão-Rússia, 1-0
- 10 de junho (fase de grupos): Coreia do Sul-EUA, 1-1, Portugal-Polónia, 4-0 e Tunísia-Bélgica, 1-1
- 11 de junho (fase de grupos): Dinamarca-França, 2-0, Senegal-Uruguai, 3-3, Camarões-Alemanha, 0-2 e Arábi Saudita-Irlanda, 0-3
- 12 de junho (fase de grupos): África do Sul-Espanha, 2-3, Eslovénia-Paraguai, 1-3, Suécia-Argentina, 1-1 e Nigéria-Inglaterra, 0-0
- 13 de junho (fase de grupos): Costa Rica-Brasil, 2-5, Turquia-China, 3-0, México-Itália, 1-1 e Equador-Croácia, 1-0
- 14 de junho (fase de grupos): Portugal-Coreia do Sul, 0-1, Polónia-EUA, 3-1, Tunísia-Japão, 0-2 e Bélgica-Rússia, 3-2
- 15 de junho (oitavos de final): Alemanha-Paraguai, 1-0 e Dinamarca-Inglaterra, 0-3
- 16 de junho (oitavos de final): Espanha-Irlanda, 1-1, 3-2 e Suécia-Senegal, 1-2
- 17 de junho (oitavos de final): México-EUA, 0-2 e Brasil-Bélgica, 2-0
- 18 de junho (oitavos de final): Coreia do Sul-Itália, 2-1 e Japão-Turquia, 0-1
- 21 de junho (quartos de final): Alemanha-EUA, 1-0 e Inglaterra-Brasil, 1-2
- 22 de junho (quartos de final): Espanha-Coreia do Sul, 0-0, 3-5 e Senegal-Turquia, 0-1
- 25 de junho (meias-finais): Alemanha-Coreia do Sul, 1-0
- 26 de junho (meias-finais): Brasil-Turquia, 1-0
- 29 de junho (3.º e 4.º lugar): Coreia do Sul-Turquia, 2-3
- 30 de junho (final): Alemanha-Brasil, 0-2