Em Portugal, a dificuldade na organização da resposta a pessoas diagnosticadas com cancro é uma realidade, mas ainda não se reflete na mortalidade, um indicador que está até ligeiramente melhor em termos nacionais do que a média europeia. Quem o assinala é Ana Varges Gomes, médica oncologista e uma das responsáveis pela comunicação da iniciativa European Network of Comprehensive Cancer Centres, cujos objetivos passam não só por definir a qualidade dos cuidados de saúde a doentes oncológicos e reduzir as diferenças entre os serviços disponíveis por toda a Europa, mas também por criar uma base de dados que permita a investigação aos serviços de saúde prestados a pacientes oncológicos de toda a Europa.
O projeto é financiado pela União Europeia e pretende, sublinha, “uniformizar os cuidados” para os doentes oncológicos no espaço europeu. A médica da Unidade Local de Saúde do Algarve lamenta ainda a baixa taxa de adesão aos rastreios em Portugal, principalmente aos do cancro do colo do útero e do cancro colorretal, e defende uma reorganização da rede de centros de tratamento a nível nacional.
Comecemos pelo acesso aos cuidados oncológicos em Portugal, que tem sido um tema muito abordado nos últimos tempos, até a nível político, nomeadamente por causa da questão das listas de espera para cirurgia oncológica. Como é que vê, neste momento, o acesso aos cuidados oncológicos em Portugal?
Neste momento, e pelos dados que temos, um dos pontos mais críticos em Portugal tem a ver com os rastreios e não tanto com o acesso ao tratamento. São diagnosticados 70 mil novos casos de cancro por ano, sendo que cerca de 30 mil pessoas morrem. Comparado com a Europa, não estamos pior no número global de casos, e até temos uma mortalidade ligeiramente abaixo da média europeia.
Pelos dados que temos, não tenho conhecimento de que essa dificuldade de acesso tenha impacto real nos doentes. Não quer dizer que não haja dificuldade de acesso. Agora, essa dificuldade, pela forma como é colocada, é sempre também um bocadinho difícil de avaliar. As consultas de oncologia em Portugal não têm lista de espera, em qualquer unidade. Todos são atendidos dentro do prazo.
E em relação às cirurgias que são feitas para lá do tempo máximo, é preocupante?
Depende das situações. Só será preocupante se fizermos um estudo e concluirmos que — porque as pessoas tiveram uma dificuldade nesse acesso, ou porque a cirurgia levou aquele tempo — as pessoas tiveram um pior resultado. Porque o tema do peso maior da lista de espera cirúrgica para os doentes oncológicos não se prende à questão técnica, tem a ver com a questão moral. As pessoas que têm uma doença oncológica, pelo facto de estarem à espera para fazer uma cirurgia, passam por dias de muita angústia. Mesmo que seja um atraso de um dia, dois dias, uma semana ou um mês, para o doente é péssimo. Em relação às situações oncológicas, dependendo da situação que seja, obviamente que têm que ser priorizadas de alguma forma. Se olharmos para os dados que temos publicados, se o acesso levasse a um pior tratamento dos doentes, teríamos uma mortalidade que estaria acima da média europeia.
https://observador.pt/2026/05/19/sobrevivencia-ao-cancro-em-portugal-atinge-66-mas-desigualdades-persistem/
Em relação ao rastreio, neste momento temos três rastreios de base populacional: no cancro da mama, do colo do útero, e no cancro colorretal. Como é que está a taxa de adesão a esses rastreios?
O problema é exatamente esse, a adesão aos rastreios. O rastreio ao cancro da mama tem uma boa taxa de cobertura (em muitas regiões, na ordem dos 90%). Mas, por exemplo, no rastreio do cancro do colo do útero, temos resultados muito, muito baixos, na ordem dos 40% a 50% de adesão entre as mulheres que são convocadas. E no cancro colorretal, mesmo com a medida de enviarem os recipientes para a casa dos utentes [para recolha das fezes] as pessoas não fazem, não cumprem. A adesão ronda os 30%.
As taxas de adesão ao rastreio continuam, assim, muito abaixo do objetivo de 90% nos cancros colorretal e do colo do útero.
Claro. Por falta de literacia, daqueles que a recebem e daqueles que a produzem.
As taxas de adesão aos rastreios têm estado a evoluir positivamente em Portugal ou estão estagnadas nesses valores?
Ainda não temos sinais claros de que esteja a evoluir no sentido positivo. Até temos sinais, no que diz respeito ao cancro do colo do útero, em sentido contrário. Neste momento, os médicos mais relacionados com a Ginecologia especulam que possa também ter a ver com o maior número de imigrantes que recebemos e com alguma dificuldade dessas pessoas de perceberem linguisticamente o rastreio. E depois por questões culturais, porque o rastreio implica um exame ginecológico [papanicolau] e, para algumas religiões, esse exame só pode ser feito na presença de mulheres. Basta que, por exemplo, o médico que esteja no centro de saúde seja um homem e muitas mulheres já não vão fazer o rastreio.
E estas dificuldades são transversais a toda a Europa? Como é que as nossas taxas de adesão aos rastreios se comparam com as europeias?
No cancro da mama estamos muito bem, somos um dos países-exemplos. Em relação ao cancro colorretal, estamos abaixo, mas a Europa não tem resultados fantásticos. No cancro do colo do útero está mal em toda a Europa. Não está a ser fácil conseguirmos chegar às pessoas.
https://observador.pt/2026/05/20/doentes-oncologicos-em-portugal-sao-dos-que-mais-esperam-por-medicamentos-inovadores/
Em relação às outras duas vertentes — diagnóstico e tratamento — do cancro, como é que nos comparamos com a Europa?
Portugal tem bons profissionais, tem bons centros, tem boa capacidade clínica e científica. De que é que precisamos? Seguramente de organizar melhor a nossa resposta oncológica, e precisamos de redes mais fortes. Ou seja, podemos trabalhar mais em rede para podermos diminuir as assimetrias regionais. Não precisamos ter tudo em todo o lado. Porque há patologias que são raras e, portanto, se tivermos tudo em todo o lado, corremos o risco de tratar mal. Os profissionais precisam de ter alguma experiência para poder tratar. Podemos trabalhar em rede para se fazer aquilo que é diferenciado em determinados centros e os cuidados, a maioria deles, o diagnóstico, o tratamento e o seguimento em proximidade.
Existe um excesso de centros de tratamento em Portugal, é isso?
Não, não há excesso de centros de tratamento, há uma dificuldade na articulação. Se há patologias que não podemos tratar num sítio e temos que referenciar para outro local onde está essa resposta, esse processo deve estar padronizado, ou seja, não devia carecer de um médico ligar para outro médico para tentar marcar a consulta ou pedir algo porque o conhece. Tem que ter uma rede que esteja estabelecida e na qual o doente flua naturalmente. Não depende se o médico é A, B ou C, ou se é na região A, B ou C. Seria igual para toda a gente.
Se tiver um sarcoma no Algarve, sabe que vai ter o mesmo tratamento que se tiver um sarcoma no Porto, ou em Lisboa, ou na Guarda. As pessoas precisam de saber que o sítio que está mais próximo delas as vai tratar tão bem quanto um IPO, ou um hospital em Lisboa, ou no Porto, ou em Coimbra.
Portanto, neste momento, o tratamento do cancro não é igual em todo o país?
Não posso dizer que não é igual. O que estou a dizer é que, muitas vezes, não temos as coisas estabelecidas e, como tal, não conseguimos avaliar isso. O que se pretende é que se possa avaliar isso e que as pessoas possam ter exatamente o mesmo tratamento. Neste momento, não posso dizer que têm ou não têm, porque não sei. Ninguém fez esse estudo. Não há dados.
Mas há dados, por outro lado, que indiquem, por exemplo, em relação às taxas de sobrevivência, como é que nos comparamos com a Europa?
As nossas taxas de mortalidade têm vindo, e na Europa também, a diminuir. Neste momento, temos uma taxa de mortalidade abaixo da média europeia. Em relação ao risco de morrer de cancro antes dos 75 anos, de 11,2%, sendo que na Europa é de 11,5%. Queremos sempre melhorar estes dados. Mas isto quer dizer que o nosso país não está pior comparativamente dentro da Europa. No entanto, a principal causa de morte precoce em Portugal é a doença oncológica.
https://observador.pt/especiais/e-se-houvesse-um-tratamento-universal-para-o-cancro-investigadores-criam-nanoparticula-que-um-dia-pode-vir-a-ser-a-resposta/
E, numa análise mais detalhada, quais são os tipos de cancro que em Portugal têm uma maior incidência em comparação com a Europa? Por exemplo, no caso do cancro do estômago a incidência em Portugal é muito superior à média europeia.
O cancro gástrico é um problema tipicamente português. Tem a ver com o tipo de alimentação e os casos estão sobretudo concentrados na região norte devido ao consumo de carne fumada, por causa das nitrosaminas [compostos químicos presentes em alimentos processados]. De resto, em relação à incidência dos outros tipos de cancro, em primeiro lugar está o colorretal, em segundo o da mama (que é o mais frequente nas mulheres), em terceiro, o da próstata (o mais frequente nos homens). O cancro do pulmão, que aparece em quarto em termos de incidência, é muito relevante por causa da mortalidade, porque é um cancro que tem uma taxa de mortalidade muito mais elevada do que o da próstata, por exemplo. Depois, em quinto, está o cancro gástrico, que de facto é mais frequente em Portugal do que na Europa.
Em relação à comparação com a Europa, temos, em Portugal, em primeiro lugar o cancro colorretal e na Europa o cancro da mama. Em Portugal, em segundo lugar temos o cancro da mama e na Europa, o colorretal. Aqui há uma troca de posições. Em terceiro lugar, temos o cancro da próstata em Portugal e na Europa o cancro do pulmão. Aqui voltam a trocar — em Portugal, em quarto lugar temos o cancro do pulmão e na Europa o cancro da próstata. Em quinto, em Portugal, temos o cancro do estômago e na Europa o cancro do fígado, que para nós vem muito depois.
Há muitas disparidades no acesso ao diagnóstico e ao tratamento ainda na União Europeia?
Há muitas disparidades e por isso é que foi decidido criar os Comprehensive Cancer Centers a nível europeu. O objetivo é tentar reduzir essas assimetrias. Um exemplo muito prático: fala-se sempre muito dos medicamentos mais inovadores que foram aprovados ou não foram aprovados. Os medicamentos inovadores, por exemplo, na Alemanha estão disponíveis, mal a agência europeia [do medicamento] os aprova. Na grande generalidade dos países europeus isso não acontece. A aprovação destas novas terapêuticas tem a ver também com a disponibilidade orçamental. Este atraso no acesso à inovação é assimétrico em toda a Europa. Em termos cirúrgicos, também é muito assimétrico. Há países onde praticamente já só se opera com cirurgia robótica — não estou a dizer que é melhor ou que é pior, é uma realidade. Temos outros países onde nem os equipamentos de radioterapia são o que está recomendado neste momento (não é o caso de Portugal). E, portanto, a ideia desta joint action é trazer todos os países, e as suas autoridades competentes, para tentarmos acertar os mínimos que são necessários para que as pessoas possam ter acesso ao mínimo de cuidados.
E outro aspeto: garantir que a formação dos profissionais possa ser livre a nível europeu. Ou seja, eu estou em Portugal, mas posso ir fazer uma formação com os colegas de Espanha ou de qualquer país europeu para melhorar determinada capacidade para poder tratar melhor determinado tipo de doentes. Também temos de ter ensaios clínicos competitivos face a outros países, como, por exemplo, Estados Unidos, que fazem muito mais do que nós. Porquê? Têm uma organização diferente da nossa. Nós, europeus, se nos juntarmos, conseguimos ter um potencial muito maior para trazer os ensaios clínicos para a Europa, o que é importante para os doentes porque permite acesso a novas terapêuticas.
E, na Europa, quais são os países que estão mais bem posicionados nesses aspetos?
Os países com maior capacidade financeira. A Alemanha, que está muito bem. Temos países dentro da nossa rede [European Network of Comprehensive Cancer Centres], que não pertencem à União Europeia, que são países nórdicos (Islândia, Dinamarca) que têm também uma capacidade muito boa. O objetivo aqui é uniformizar os cuidados.