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(A) :: Documentos roubados, um anel de safiras e a receção de Bibi em Telavive. A história do primeiro americano condenado por espiar para Israel

Documentos roubados, um anel de safiras e a receção de Bibi em Telavive. A história do primeiro americano condenado por espiar para Israel

Há 40 anos, Jonathan Pollard confessou ter vendido documentos dos EUA a Israel e foi condenado a perpétua. Netanyahu desdobrou-se em esforços para o tirar da prisão, mas agora é criticado pelo espião.

Madalena Moreira
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É segunda-feira, dia 18 de novembro de 1985. O relógio digital no canto inferior do computador marca 17h08. Jonathan Pollard acaba de sair do cubículo onde trabalha, no Centro de Alerta Anti-Terrorista dos Serviços de Investigação Naval dos EUA. No bolso do casaco leva um grande envelope de papel castanho. E, dentro do envelope, estão uma série de documentos confidenciais. Pollard dirige-se para o parque de estacionamento, entra no lugar do condutor do carro, mas antes de conseguir arrancar é interpelado por dois agentes do FBI: querem saber por que anda, há pelo menos uma semana, a levar documentos dos serviços secretos sobre a União Soviética para casa.

Nessa noite, os agentes federais revistam a casa do analista civil, onde encontram mais documentos confidenciais. No dia seguinte, durante o segundo dia de interrogatórios, Pollard confessa finalmente. Numa carta de onze páginas, admite que passou as informações sobre a URSS a um homem com ligações à embaixada do Paquistão. Os alertas começam a soar: há quanto tempo trabalhava como espião para Moscovo? Quanta informação já teria passado? Na quarta-feira, os interrogatórios continuam; Pollard dá mais pormenores, e, ao fim do dia, regressa a casa — sempre vigiado por agentes federais.

"Estragaram tudo! Achavam que isto era uma operação do bloco soviético, não achavam?"
Jonathan Pollard, quando foi detido pelo FBI em novembro de 1985

Na quinta-feira, levanta-se cedo, leva a mulher, Anne Pollard, ao hospital para uma consulta e depois voltam os dois a entrar no Ford Mustang vermelho. Às 10h30, soa um alerta nos rádios do FBI: “Pollard acabou de entrar na embaixada israelita.” O carro fica pouco tempo parado na entrada da embaixada. Um funcionário obriga Pollard, sob protesto, a sair do recinto e o analista é imediatamente detido pelos agentes federais. “Estragaram tudo!”, exclama, sentado no banco de trás do carro. “Achavam que isto era uma operação do bloco soviético, não achavam?”.

As investigações federais prolongaram-se durante os sete meses seguintes e culminaram no dia 4 de junho de 1986, quando Pollard admitiu perante o tribunal ter espiado. Não para um país rival, mas para um aliado: Israel. Passados 40 anos, e depois de três décadas preso, o antigo analista entrou na política israelita com a mesma ideia que o levou a tornar-se espião: provar que os EUA “não querem saber” de Israel.

O jovem inteligente, “agitador” e “louco” que queria ser espião

Jonathan Jay Pollard nasceu no Texas no dia 7 de agosto de 1954, no seio de uma família judia. Quando ainda era jovem, a família decidiu inscrevê-lo num colégio judaico, para o proteger do bullying de que era vítima na escola. Foi aí que “floresceu”, descreve Ron Olive, o agente que conseguiu a primeira confissão de Pollard em 1985, no livro Capturing Jonathan Pollard: How One of the Most Notorious Spies in American History Was Brought to Justice (sem edição em Portugal).

Em 1970, visitou Israel pela primeira vez, para um curso de verão no Instituto Weizmann. Apesar da inteligência que revelava, um dos professores descreveu o jovem Pollard como um “agitador” — a caracterização viria a ser repetida por outros que estudaram ou trabalharam com ele na década e meia que se seguiu. Concluiu uma licenciatura em Ciência Política em Stanford, onde ficou conhecido pelas histórias rebuscadas que inventava: Pollard dizia, a quem o ouvisse, que trabalhava para a Mossad e que combatera no Exército israelita.

Acabou por deixar uma pós-graduação por concluir e, em 1979, começou a trabalhar para um gabinete do Comando de Informações da Marinha (NIC na sigla em inglês, atualmente o NCIS, Serviço de Investigação Criminal Naval). Nesse mesmo ano falhara uma candidatura à CIA, depois de um teste de polígrafo — obrigatório no processo de recrutamento da agência — ter concluído que consumira drogas durante a universidade.

No NIC, Pollard revelou-se igualmente instável. Múltiplos colegas e superiores hierárquicos relataram um jovem imaturo e à procura de validação, que tentava impressioná-los com histórias sobre ligações à África do Sul — que vivia em regime de apartheid —, que se viriam a revelar falsas. Contudo, Pollard era um bom analista: inteligente, rápido e com boa memória fotográfica, pelo que se foi mantendo na organização, ainda que mudando de gabinete frequentemente.

"[A decisão de espiar] estava relacionada com uma família destruída no Holocausto, com a descoberta de que este Governo nos anos de 1940 tinha abandonado o povo judeu ao seu destino na Europa."
Jonathan Pollard, numa entrevista ao programa 60 Minutos, em 1988

Entre os superiores hierárquicos que descartaram Pollard como um jovem “louco”, mas, ainda assim, inofensivo, conta-se o Almirante Sumner Shapiro, do Comando de Informações Naval. Foi ele que, em 1980, propôs oferecer a Pollard uma promoção para o poderem submeter a um teste de polígrafo. Pollard gritou, tremeu, fingiu vomitar e ficou de tal modo alterado que o teste foi inconclusivo. “Quem me dera tê-lo despedido…”, lamentou Shapiro mais tarde, numa entrevista ao Washington Post em 1998.

Uma visita a Paris, um anel de safiras e um desejo patriótico. Pollard “facilitou muito a vida” a Israel

Em junho de 1984, Jonathan Pollard encontra-se pela primeira vez com Aviem Sella no Hilton de Washington D.C.. Sella era um veterano da Força Aérea israelita e tinha sido colocado em contacto com o analista norte-americano através de amigos em comum. Pollard tem uma proposta para Sella: entregar informações a Israel, em troca de, a longo prazo, poder obter cidadania e emigrar para o país. “Não acredito que a segurança do Governo dos EUA seja assim tão frouxa”, terá dito o israelita.

A decisão de Pollard de se colocar ao serviço de Telavive terá sido espoletada depois de participar, enquanto analista, em duas reuniões entre os serviços secretos norte-americanos e israelitas, onde se apercebeu da quantidade de informações que não eram partilhadas por Washington com os aliados. “Estava muito frustrado no fim dessas duas sessões e a frustração cresce”, relatou ao jornalista Wolf Blitzer numa entrevista anos mais tarde, a partir da prisão.

Mas havia também uma dimensão patriótica, admitiu numa outra entrevista ao programa 60 Minutos, em 1988. “[A decisão] estava relacionada com uma família destruída no Holocausto, com a descoberta de que este Governo nos anos de 1940 tinha abandonado o povo judeu ao seu destino na Europa”, elaborou.

Mas Sella não conhecia nenhuma destas motivações. Apesar da hesitação, o piloto aceitou apresentá-lo a Yossi Yagur e a Rafael “Rafi” Eitan, um dos mais conhecidos espiões da Mossad, que funcionaram como seus superiores. Yagur lidava com as operações do dia a dia, enquanto Eitan supervisionava a missão. Pollard conheceu Eitan durante uma visita a Paris, em novembro de 1984, em que passou por uma cerimónia simbólica de atribuição de cidadania. Em troca do acordo de espionagem, Pollard recebeu 10 mil dólares em dinheiro e um anel de diamantes e safiras, que utilizou para pedir Anne Pollard em casamento.

Ao longo do ano seguinte, o analista terá passado a Israel mais de um milhão de páginas confidenciais, que incluíam descrições de infraestruturas de organizações palestinianas, movimentações de tropas da NATO no Mediterrâneo e informações obtidas pelas secretas norte-americanas no Norte de África. Essas informações “facilitaram muito a vida” a Israel no dia 1 de outubro de 1985, quando bombardeou a sede da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) na Tunísia, segundo relatou um responsável israelita ao jornalista Wolf Blitzer.

Pollard tinha um plano de fuga combinado com os superiores. “Em vez de o seguir, foi para casa”

Para perceber como o FBI deteve Pollard na tarde daquele dia 18 de novembro, é preciso recuar dez dias no tempo. Faltam poucos minutos para as 17h dessa sexta-feira, dia 8, quando um dos colegas de Pollard o vê sair do edifício da ATAC, onde ambos trabalham, com um maço de envelopes que, segundo o protocolo, deviam ser destruídos na cave. O colega hesita, mas, incentivado pela mulher que trabalhava para a mesma agência, acaba por denunciar o que tinha testemunhado ao seu superior.

Jerry Agee verifica, então, o registo de documentos levantados por Pollard durante os últimos seis meses, onde vê uma série de documentos sobre movimentações no Mediterrâneo e na União Soviética, que nada têm a ver com a área de operações de Pollard. O agente identifica ainda um padrão — muitos dos documentos levantados não tinham sido devolvidos para destruição —, pelo que leva o assunto à direção da agência, que instala câmaras de videovigilância no cubículo do analista. Uma semana depois, na sexta-feira seguinte, as câmaras captam Pollard a colocar milhares de páginas de documentos confidenciais numa pasta, mas a pessoa responsável por monitorizar as imagens deixa escapar este detalhe. O analista só voltará a ser apanhado em flagrante na segunda-feira seguinte, altura em que é interrogado pelo FBI.

Anos mais tarde, em entrevista ao Haaretz, Rafi Eitan responsabilizou Pollard por se ter deixado apanhar, queixando-se da sua “falta de cuidado”. Depois do primeiro interrogatório pelos agentes do FBI, Pollard devia ter seguido o plano de fuga combinado. “[Em vez disso,] foi para casa. Vagueou durante três dias, com eles a segui-lo. Teve muitas oportunidades de fazer o que lhe disse e não o fez”, relatou, criticando a decisão de Pollard e da mulher de se terem dirigido à embaixada israelita, onde acabaram por ser detidos. Na entrevista de 2014, Eitan admitiu ter dado a ordem para os funcionários expulsarem Pollard e a mulher. “Disse imediatamente ‘ponham-no na rua’. Não me arrependo”.

A posição descrita por Eitan foi a mesma assumida pelo Governo israelita imediatamente a seguir à detenção de Pollard. Telavive disponibilizou-se para cooperar, mas caracterizou a operação em torno do analista norte-americano como “não autorizada“. Sem apoio do Estado que tinha ajudado durante o último ano e meio, Pollard assinou, há precisamente 40 anos, um acordo com o Ministério Público norte-americano para tentar obter uma pena mais leve.

“[As minhas ações podiam] ter boas intenções, mas não podem desculpar ou justificar a violação da lei, especialmente quando se trata da confiança depositada no Governo, e não há confiança maior do que a que se deposita na comunidade de informações secretas… Eu quebrei essa confiança, arruinei a minha família e trouxe-lhe vergonha”, declarou perante o juiz Robinson no dia 4 de março de 1987, durante a leitura da sentença. O acordo permitiu a Anne Pollard uma sentença reduzida de cinco anos, mas não livrou Jonathan, acusado de conspiração para entregar informações de defesa nacional a um Governo estrangeiro, de uma pesada pena de prisão perpétua.

“Há muita gente a tentar tirá-lo da prisão. Isso tira-me do sério”

Jonathan Pollard está preso há quatro anos quando o seu advogado faz um pedido formal para um novo julgamento, argumentando que o Ministério Público violou o acordo do dia 4 de junho. O tribunal de recurso de Washington D.C. recusa o requerimento, mas a luta de Pollard para sair da prisão está longe de terminar. Porém, em vez da via legal, Pollard vai dedicar-se a lutar pela sua liberdade pela via política. Nesse mesmo ano, divorcia-se da mulher e parceira no crime, Anne. Quatro anos depois volta a casar, desta vez com uma mulher canadiana, Elaine Zeltz, que muda de nome para Esther Pollard. No ano seguinte, em 1995, o ex-analista obtém finalmente cidadania israelita.

Esther é uma das muitas pessoas que luta pela liberdade de Pollard, considerando a pena muito pesada para um espião de um país aliado e, em alguns casos, alinhando-se com Pollard nas críticas a Washington por ocultar certas informações de Telavive. O movimento evolui: sucessivas administrações norte-americanas recebem cartas do Knesset, o Parlamento israelita, e de grupos de apoio a Israel nos EUA e veem as suas visitas a Israel e conferências públicas interrompidas por manifestantes pró-Pollard. O espião impreparado que durante pouco mais de um ano trabalhou para Israel atinge um nível de mediatismo comparável aos dos espiões soviéticos Julius e Ethel Rosenberg, executados em 1953 nos Estados Unidos.

Na campanha informal e oficial para retirar Pollard da prisão, um nome surge uma e outra vez: Benjamin Netanyahu. É ele que, à frente do Governo israelita, muda a posição oficial de Telavive sobre o caso, reconhecendo que Pollard “agiu como um agente israelita oficial”, a 11 de maio de 1998. No ano anterior, o Washington Post publicara uma carta enviada pelo primeiro-ministro ao prisioneiro, agora cidadão israelita, a expressar a sua solidariedade. No ano seguinte, Pollard e as promessas para o retirar da prisão tornar-se-iam temas centrais da campanha legislativa israelita. Em 2002, Netanyahu chegou mesmo a visitá-lo na prisão.

Apesar da pressão israelita, todos os Presidentes norte-americanos recusaram conceder uma amnistia ao espião. “Ele pertence onde está, na prisão. Sabe que há muita gente a tentar tirá-lo de lá? Isso tira-me do sério“, declarou o Presidente George W. Bush a Ron Olive, à margem de uma conferência da CIA em 2005. A firmeza da Casa Branca terá, contudo, estado perto de quebrar em pelo menos duas datas: 1998 e 2014. Em ambas as ocasiões, Washington procurava alcançar um acordo de paz entre Israel e Palestina e terá sugerido libertar Pollard em troca de uma cedência de Telavive às condições impostas. Mas os acordos nunca avançaram.

Apesar da luta política, a saída de Pollard da prisão foi autorizada não pela Casa Branca, mas pelos tribunais, que colocaram o espião em liberdade condicional em 2015. Em 2020, quando o período de condicional expirou, Pollard pôde finalmente cumprir o sonho que traçara em 1984, na conversa com Aviem Sella no Hilton: emigrar para Israel. Na chegada a Telavive, de braços abertos e sorriso no rosto, Benjamin Netanyahu esperava por ele na pista.

https://twitter.com/IsraeliPM/status/1344171638443671559

O “sangue nas mãos” de Netanyahu e o mesmo alerta, 40 anos depois: “Os EUA não querem saber de nós”

Passaram cinco anos e meio desde que Jonathan Pollard se instalou em Jerusalém. Pouco tempo depois da sua chegada, Esther adoeceu. A doença que afeta a mulher durante os últimos anos de vida leva-o a recusar convites para se juntar à vida política ativa: um em 2021, pela mão de Benjamin Netanyahu, outro em 2022, feito por Itamar Ben-Gvir, hoje ministro da Segurança Nacional do partido de extrema-direita Otzma Yehudit. Em pouco tempo, tudo muda. Esther morreu e Pollard voltou a casar. Já Israel foi atacado pelo Hamas no dia 7 de outubro de 2023, mergulhou numa ofensiva contra a Faixa de Gaza e depois contra o Líbano e está agora envolvido na guerra contra o Irão. É neste contexto que Pollard se atira de cabeça para a vida política, com críticas acesas à resposta de Israel ao 7 de Outubro.

“Todos os partidos tradicionais têm sangue nas mãos”, afirmou numa entrevista no passado dia 10 de maio. Incluindo Netanyahu e Ben-Gvir? Pollard é firme: “Todos”. Apesar da acusação generalizada, a divisão é mais gritante na relação com Netanyahu com quem, durante anos, manteve uma relação próxima, até calorosa. Pollard recusa que tenha uma “obrigação para a vida” de demonstrar a sua gratidão, até porque, argumenta, houve pessoas que o ajudaram mais no seu percurso, como Esther. “Ele deixou a minha mulher morrer à fome nas ruas de Jerusalém antes de se dignar a recebê-la”, acusou.

A entrevista foi feita no dia em que anunciou a retirada da sua candidatura ao Knesset — que tinha sido formalizada poucos dias antes —, devido às ameaças de morte que diz ter recebido. Apesar de ter retirado a candidatura, os seus princípios mantêm-se: defende a expulsão dos palestinianos da Faixa de Gaza e a anexação do enclave por Israel e defende uma aposta na soberania e independência militar israelitas.

"O que vi nessa altura, no início dos anos 80, foi só o princípio do que agora se concretizou: acabámos. Esta aliança está acabada."
Jonathan Pollard, em entrevista no dia 10 de maio de 2026

“Deixem-me dar-vos uma notícia de última hora: os EUA não querem saber de nós, independentemente do que pensam de mim”, afirmou nessa mesma conversa. “Impérios como os EUA têm interesses permanentes, não amizades permanentes”. Pouco mais de três semanas das palavras de Pollard, Donald Trump tê-las-á comprovado numa discussão com Bibi esta segunda-feira. “Estás louco, porra”, terá dito o Presidente norte-americano que questionou ainda: “Que merda é que estás a fazer?”.

Passados 40 anos do acordo de Jonathan Pollard com o Ministério Público norte-americano, o estado das relações entre Washington e Telavive combina com as motivações que levaram um homem norte-americano a espiar para um país aliado: “O que vi nessa altura, no início dos anos 80, foi só o princípio do que agora se concretizou: acabámos. Esta aliança está acabada”, vaticina o antigo espião.