A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) confirmou esta terça-feira que existe uma probabilidade de 90% de o El Niño alterar os padrões climáticos e influenciar o tempo até ao final do ano, apontando, ao mesmo tempo, para a elevada possibilidade de se vir a manifestar já entre o mês de junho e agosto.
“Temos de nos preparar para a possibilidade de termos um El Niño forte — o que agravará a seca e as chuvas intensas e aumentará o risco de ondas de calor, tanto em terra como no oceano”, afirmou a secretária-geral da agência numa conferência de imprensa esta terça-feira. Celeste Saulo garante que a OMM vai estar a “monitorizar cuidadosamente as condições nestes próximos meses” para aconselhar os governos e as respetivas agências humanitárias sobre as decisões que devem ser tomadas, de acordo com os riscos climáticos que se podem avizinhar.
O tema também recebeu a atenção do secretário-geral das Nações Unidas, que participou nesta mesma conferência com uma mensagem enviada por vídeo. “A ciência é clara: o El Niño está à nossa porta nos próximos meses, com 90% de certeza. O mundo deve enfrentá-lo como a emergência climática que é. Os impactos serão ainda mais severos, atingirão locais ainda mais distantes e atravessarão fronteiras a uma velocidade devastadora. A única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise — acabar com a dependência dos combustíveis fósseis, acelerar a transição para as energias renováveis, proteger os mais vulneráveis e disponibilizar sistemas de aviso precoce para todos”, afirmou António Guterres.
O último El Niño foi em 2023 e foi por causa deste fenómeno que, em 2024, se registaram valores de temperatura recorde em todo o mundo. Ainda não há garantias sobre a intensidade que este episódio irá assumir ao longo dos próximos meses, mas o climatologista Carlos da Câmara acredita que o El Niño deste ano será “mais intenso” que o último, que já entrou para os livros de história como um dos cinco mais intensos desde que começaram a ser registados.
Quando é que vai chegar o El Niño?
A probabilidade de chegar entre os meses de junho e agosto é de 80%, como definiu esta terça-feira a secretária-geral da OMM. Não se verificando neste intervalo, então a probabilidade aumenta para 90%, se considerarmos a expressão do fenómeno entre setembro e dezembro, passando a haver uma quase-garantia, de acordo com o cruzamento de múltiplos modelos de previsão, de que 2026 será um ano de El Niño.
“Não há um único modelo que garanta que o El Niño vai acontecer ou não. Está, no entanto, a haver uma concordância muito grande dos diversos modelos distintos, que estão a apontar para uma mesma realidade, o que aumenta esta confiança”, explica o climatologista. Acontecendo, Carlos da Câmara acredita que será “muito intenso” e apela à precaução. “Sabemos que será intenso e que os impactos vão ser ampliados pelas alterações climáticas. Por isso, a solução que é aconselhável é prepararmo-nos para o pior. E isto não é alarmismo, é responsabilização”, remata o especialista.
Vai mesmo haver um “super” El Niño?
Apesar de se verificar uma curta distância para o último El Niño, não é necessariamente surpreendente que este fenómeno seja registado em 2026. De acordo com a OMM, o El Niño — o nome escolhido para descrever o evento de aquecimento da superfície oceânica no Pacífico tropical — acontece a cada dois a sete anos, com uma duração média de nove a doze meses. Na última vez em que o fenómeno se registou, em 2023, o El Niño começou a formar-se entre março e junho e atingiu o seu pico de intensidade entre novembro e fevereiro do ano seguinte. Mas os efeitos são altamente imprevisíveis, daí a dificuldade das agências mundiais em prever com 100% de certeza quando e de que forma o El Niño se fará sentir este ano.
Porém, para o climatologista Carlos da Câmara, o prefixo “super” não é o ponto-chave da discussão em torno deste fenómeno, mas sim o facto de haver uma quase-certeza de que vai acontecer e o impacto que terá a nível global. “O El Niño, super ou não, os efeitos que vai ter, tendo em atenção o pano de fundo que são as alterações climáticas, vai ser sempre muito impactante”, declara ao Observador. Os fenómenos podem passar por chuvas intensas, aumento de tempestades, mas também por ondas de calor e secas, dependendo das regiões.
A OMM rejeita diretamente o rótulo de “super” El Niño que tem vindo a ser colocado sobre esta alteração das temperaturas marinhas, admitindo que, no melhor dos casos, terá uma intensidade “moderada” — mas com a possibilidade de se tornar “forte”, numa escala em que o “muito forte” é o nível mais alto. No comunicado divulgado esta terça-feira, a agência das Nações Unidas sublinha que “não utiliza o termo uma vez que este não faz parte das classificações operacionais normalizadas”.
Na verdade, o termo não é utilizado de forma corrente por muitas organizações científicas, mas as que o utilizam acrescentam o prefixo quando o aquecimento da superfície do oceano excede os 2ºC acima do normal, como esclarece o climatologista ao Observador. Ainda não existe, por isso, forma de esclarecer se o El Niño que se avizinha respeitará este critério.

O El Niño vai chegar a Portugal?
Os gráficos esboçados pelos modelos que preveem o efeito deste episódio climático mostram que os principais afetados pelo El Niño serão países como a Indonésia e a Austrália, que devem sofrer muito com secas e incêndios florestais, mas também a América do Sul, onde alguns pontos do sul vão sofrer com cheias e chuvas abundantes durante este período ainda por determinar. Os mapas da OMM sinalizam vários outros territórios, como a Índia e a África do Sul, mas a Europa, curiosamente, aparenta estar livre de riscos.
“O impacto direto do El Niño na Península Ibérica é praticamente negligenciável”, esclarece o climatologista Carlos da Câmara. O problema é que, ainda antes de este fenómeno se manifestar, a temperatura média global já é afetada “enormemente”, o que altera a circulação da atmosfera a nível global e aí, como defende o especialista consultado pelo Observador, Portugal será certamente afetado.
“O que me preocupa é olhar para o Atlântico e para o Mediterrâneo e ver temperaturas loucamente acima do normal. Estão muitíssimo mais quentes, o que quer dizer que têm grandes fontes de energia acumulada. E essa energia está disponível para amplificar fenómenos atmosféricos, sejam eles furacões, tempestades fortes como foi a Kristin ou também ondas de calor”, acrescenta Carlos da Câmara, fazendo a distinção entre o impacto direto do El Niño em Portugal — que considera “negligenciável” — e as consequências deste fenómeno a nível global.
De que forma será sentido, em diferentes pontos do globo?
Nas previsões feitas em maio deste ano, a OMM lança dois mapas, acompanhados por dois avisos para este verão: “Esperem que os padrões de chuva influenciados pelo El Niño contribuam para eventos climáticos extremos” e “Preparem-se para temperaturas mais quentes que o normal em quase todas as partes do globo”. Apesar de cada El Niño ser único, em termos de impacto e nível de evolução, a agência das Nações Unidas reforça que este fenómeno está normalmente associado a um aumento da chuva no sul da América do Sul, no sul dos EUA, no Corno de África e na Ásia Central. O inverso verificar-se-á na América Central, no norte dos EUA, nas Caraíbas, na Austrália, na Indonésia e noutros pontos do sul da Ásia, onde se esperam secas.
A agência explica que o aquecimento da região leste e central do Oceano Pacífico pode incentivar a formação de furacões nesta mesma região do globo, mas limitando a capacidade de formações semelhantes na Bacia Atlântica, com a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos a prever um número abaixo do normal de furacões nesta região.
O Fórum sobre as Perspetivas Climáticas do Grande Corno de África (GHACOF, na sua sigla em inglês), prevê um nível de chuvas também inferior ao habitual na parte norte desta região africana, precisamente durante a época chuvosa que se vive entre junho e setembro, o que poderá ter fortes impactos na estabilidade regional e económica de determinadas populações, que podem vir a ter as suas colheitas agrícolas afetadas pela falta de chuva que já se prevê. Admite-se que o mesmo venha a ocorrer no sul asiático.
A Europa só aparece no gráfico que mostra as temperaturas acima da média, apesar de não ser tão destacada como a região do Pacífico, onde se forma o El Niño. O mapa indica que as temperaturas na Europa devem ser entre 60% e 80% superiores ao normal, mas o climatologista Carlos da Câmara diz ao Observador que a junção deste fenómeno aos efeitos das alterações climáticas pode fazer com que 2026 e 2027 batam o recorde de temperaturas registado em 2024.
Como foi vivido o último El Niño?
O El Niño de 2023, cujos efeitos também se sentiram em 2024, foi um dos cinco mais intensos desde que há registo. “E teve um papel importante no valor recorde de temperaturas que vimos em 2024”, disse a secretária-geral da OMM Celeste Saulo, na conferência de imprensa desta terça-feira. Foi após esta última passagem de El Niño que a temperatura média do planeta atingiu um pico de 1,58 ºC acima dos valores pré-industriais, bem como um aumento recorde de 0,36 ºC comparado com o ano anterior.
À semelhança do que aconteceu esta terça-feira, também o El Niño de 2023 foi anunciado com uma intensidade “pelo menos moderada”. Na altura, os especialistas da OMM referiram que os principais efeitos deste fenómeno seriam sentidos no ano seguinte, no verão de 2024, o que acabou por ser comprovado após uma série de eventos extremos terem sido registados em todo o planeta — bem como os valores de temperatura que foram batidos em grande escala.
Apesar de reconhecer que o último El Niño foi um dos cinco mais intensos, Carlos da Câmara refere que “tudo indica” que o que se aproxima será ainda mais forte.

