Uma investigação a 57 sepulturas presentes em sete sítios arqueológicos no concelho de Serpa proporcionou um novo entendimento das práticas fúnebres no Baixo Alentejo durante a Idade do Bronze. E mostrou que as relações entre homens e mulheres há 3500 anos eram mais paritárias do que se pensava.
Publicado na revista internacional Quaternary, o estudo resulta de uma dissertação de mestrado em Arqueologia de Marta Borges na Universidade do Minho, sendo também assinado pelos seus orientadores, Ana Bettencourt e Hugo Aluai Sampaio. O foco esteve em sistematizar os dados recolhidos de sete sítios arqueológicos do concelho de Serpa descobertos no início do século XXI no decurso da construção da barragem de Alqueva. Apesar da sua riqueza informativa, estas investigações encontravam-se até então dispersas em várias publicações.
O estudo propôs-se analisar as práticas funerárias em hipogeus, um tipo de sepultura individual cortada na rocha e semelhante a uma cripta que se tornou uma prática mais comum na Idade do Bronze, substituindo os túmulos coletivos mais presentes no final do Neolítico e no Calcolítico.
Datando da primeira metade do segundo milénio a.C., estas 57 sepulturas continham 95 indivíduos que foram alvo de análise, tendo sido apurado que 82% (78) eram adultos, 15% (14) não chegaram à idade adulta e nos restantes 3% (3) não foi possível determinar a idade.
No que diz respeito ao sexo, foi determinado que 34% dos indivíduos (32) eram do sexo feminino e 21% (20) do sexo masculino, enquanto em 45% dos casos (43) não foi possível determinar o sexo.
Fruto desta análise, Marta Borges conseguiu apurar que em 57% dos casos foram encontrados objetos funerários junto das pessoas sepultadas, mas o dado mais significativo é que foi nas sepulturas das mulheres que foram encontrados bens com mais frequência, sendo também mais diversificados.
“A análise dos objetos funerários indica que a idade foi um fator importante na sua distribuição, sendo que as oferendas se concentravam predominantemente nos indivíduos adultos. Os sepultamentos femininos apresentavam, com maior frequência, uma maior diversidade de oferendas, incluindo vasos de cerâmica, furadores de metal e, em contextos específicos, armas”, lê-se no estudo.
Os vasos cerâmicos, por exemplo, foram encontrados em 79% dos enterros de mulheres e em 47% dos homens, ao passo que essa diferença é ainda maior quando se refere a furadores de metal: 61% para as mulheres, 11% para os homens.
No caso das armas, foram identificadas em 21% dos sepultamentos masculinos (4 em 19) e em 18% dos femininos (5 em 28), sendo que esta diferença “não é estatisticamente significativa”. Marta Borges alerta no estudo que tal não significa que estas mulheres fossem necessariamente guerreiras, mas sugere que tinham um elevado estatuto social similar ao dos homens enterrados com os mesmos bens.
“No Bronze Médio [há 3.500 anos], as armas funcionam sobretudo como símbolos de prestígio e poder social, não apenas como instrumentos de guerra ou caça. O que os dados sugerem é que algumas mulheres podiam ter um estatuto social elevado, reconhecido e legitimado publicamente através do ritual funerário”, afirmou a arqueóloga ao jornal Público.
“Se há armas nos seus túmulos, temos de repensar o paradigma de análise do século XX, que liga a importância da mulher à fertilidade e à casa, e a fecha em atividades domésticas. A sua função social tem mesmo de ser analisada de forma mais complexa, porque não é determinada só pelo sexo biológico. O papel de homens e mulheres não é estanque”, defendeu também.
A arqueóloga destaca ainda neste estudo um “resultado particularmente significativo” presente nos artefactos de bronze encontrados no sítio Torre Velha 3, que já continham 8 a 12% de estanho na sua composição. Isto “sugere uma tradição tecnológica não local, dado que esta composição de liga apenas se generaliza no sul de Portugal durante a Idade do Bronze Final.”
“A concentração destes objetos tecnologicamente distintivos em sepulturas femininas poderá indicar formas diferenciadas de reconhecimento social e levanta, de forma preliminar, a possibilidade de mecanismos intergeracionais de transmissão de estatuto”, aponta Marta Borges.