A língua portuguesa nunca foi propriedade de ninguém. E talvez seja essa a sua maior grandeza. Assim como a língua não é a pátria inteira. É antes a matéria com que cada povo nomeia o mundo, grava a memória, expressa a dor, dá nome à esperança, canta, reza, protesta, pensa e sonha. A cultura é mais vasta do que a língua. Faz-se também de gestos, ritmos, sabores, mitos, mortos, paisagens, silêncios, músicas, crenças, ofícios e modos de habitar a terra. A língua dá-lhe forma, circulação, partilha e prolongamento.
Referi num outro artigo que “a minha pátria é a cultura portuguesa”, e quando assim me expresso, não falo de um território fechado, nem de uma propriedade nacional, nem de uma herança guardada por um só povo. Falo de uma cultura em português: uma comunidade histórica de expressão onde cabem culturas nacionais diversas, autónomas e irrepetíveis. Uma cultura que vive em Lisboa e no Recife, em Luanda e no Mindelo, em Maputo e em Díli, em Bissau, em São Tomé, em Goa, em Macau e em tantos outros lugares onde a língua se tornou instrumento de pertença, de criação, de ciência e de futuro. É nesse sentido que a língua portuguesa serve a cultura portuguesa — mas serve igualmente a cultura brasileira, a angolana, a cabo-verdiana, a moçambicana, a timorense, cada uma na sua singularidade. Não como molde que as conforma, mas como eixo que lhes dá simultaneamente vínculo e autonomia: o fio comum que as liga sem as fundir, a casa partilhada onde cada uma permanece dona da sua própria voz.
A língua, ao ser portuguesa, reconhece uma origem histórica, sem lhe fixar um dono. O nome de uma língua não é uma escritura de posse; é uma memória viva. O inglês não pertence apenas à Inglaterra. O espanhol não pertence apenas a Espanha. O francês não pertence apenas à França. Do mesmo modo, o português já não pertence apenas a Portugal — se é que alguma vez lhe pertenceu. Pertence a quem o fala, a quem o escreve, a quem o reinventa e a quem nele encontra uma forma de afirmar a sua própria cultura.
A língua portuguesa é uma mãe em parto contínuo, sempre grávida de futuro. É mãe porque gera, e é futuro porque ainda não acabou de nascer.
Uma língua feita de encontros
Nenhuma língua nasce pura e isolada. Tal como as outras, a nossa língua veio do latim vulgar, consolidou-se no espaço galego-português por contacto, mistura e conflito. Recebeu ecos árabes, germânicos, judaicos, africanos, ameríndios e asiáticos. Cresceu por comércio, migração, opressões, amores, necessidades e acaso. O mundo entrou nela e e ela entrou no mundo. Um movimento dinâmico, contínuo, que a tornou das grandes línguas de comunicação humana: europeia, americana, africana e asiática.
Toda a luz tem as suas sombras. Tal como foi criada assim foi difundida, viajou com missionários e soldados, mercadores e degredados, poetas e funcionários do império. Foi língua de administração, de conversão, de imposição e de poder. Mas seria igualmente falso reduzi-la a instrumento de domínio. As línguas, quando entram na boca dos povos, deixam de obedecer aos seus primeiros senhores. Tornam-se matéria viva com alforria. São apropriadas, recriadas e libertadas com uma nova roupagem, uma nova alma.
Foi isso que aconteceu. A língua que chegou tantas vezes como imposição tornou-se também instrumento de criação e de emancipação. Os povos que historicamente a receberam, com o tempo, fizeram dela uma ferramenta própria. Com ela ergueram as suas literaturas, músicas, pensamentos, revoltas, afectos e modos singulares de existir. No Brasil, alargou o corpo e agigantou-se. Em África, ganhou música, força e juventude. A literatura angolana, a poesia cabo-verdiana, o romance brasileiro, a crónica moçambicana, a oralidade timorense, os falares de São Tomé, da Guiné-Bissau, de Macau, de Goa, de Lisboa e do Recife não são notas de rodapé da língua portuguesa. Nada disso. São culturas próprias que nela encontraram base para as suas diferentes e genuínas formas de expressão. Porque uma língua viva cresce por dentro, pelas raízes, pela seiva dos falantes — não por reformas decretadas em gabinetes, nem por expurgações ideológicas de quem, em nome de uma falsa virtude, quer mudar-lhe o nome antes de compreender o que ela é.
O problema não é o nome
A língua portuguesa não apaga as outras culturas que bebem na sua raiz, pelo contrário, permite que elas se escutem umas às outras. Um angolano não deixa de ser angolano por escrever em português. Um brasileiro não deixa de ser brasileiro por pensar em português. Um moçambicano não deixa de ser moçambicano por criar em português. Cada povo cimenta a sua cultura própria com os materiais da sua história, da sua paisagem, das suas línguas, das suas memórias e das suas feridas. Em muitos casos, o português tornou-se uma das ferramentas, um eixo comum que permite a culturas diferentes reconhecerem-se sem deixarem de ser diferentes.
Por isso, mudar-lhe o nome pode merecer aplausos de uma plateia, mas parece-me uma solução simplista para um problema mal formulado.
O problema não está no facto de uma língua se chamar portuguesa. O problema está em nem todos os que a falam terem o mesmo acesso ao seu poder. O problema está em que em determinadas regiões, existe uma má escola, uma fraca circulação editorial, uma desigualdade no acesso aos livros. O problema está na ausência científica, na fragilidade tecnológica, na falta de presença internacional e no desinteresse dos Estados que a invocam em cerimónias, mas nem sempre a servem no quotidiano.
Trocar-lhe o nome pode produzir conforto simbólico e ideológico a uns poucos. Mas não constrói bibliotecas, não forma professores, não edita autores, não traduz pensamento, não cria leitores. Não garante que uma criança de Luanda, do Mindelo, de Maputo, de Díli, de Bissau, do Rio de Janeiro ou de Bragança domine melhor esta língua, e que esta língua lhe abra mais portas no mundo.
O que importa, portanto, não é rebaptizar a língua. É dignificá-la, alargá-la e democratizá-la. Há muito que a lingua portuguesa está descolonizada, não precisa que lhe apaguem o nome, nem precisa de pretensos higienistas. Precisa de leitores, professores, escritores, tradutores, crianças que perguntem, emigrantes que sintam o seu apelo e estrangeiros que nela encontrem uma chave de futuro.
E isso não se faz alimentando ressabiamentos. Pelo contrário, faz-se com a dimensão cada vez maior da língua, com o aumento do seu poder de influência internacional, afirmando-a como língua de cultura, de ciência, de negócios. Faz-se com melhores escolas, professores motivados e com recursos, bibliotecas vivas, boas edições, traduções, trabalhos científicos. Faz-se com um trabalho contínuo, paciente, concreto e nem sempre vistoso — o tipo de trabalho que raramente produz manchetes nos jornais e aplausos em festivais, mas que transforma vidas.
Sem complexos
Importa sublinhar que um país que deu nome a uma língua mundial não tem o direito de desaparecer da conversa sobre o seu futuro, nem de fazer orelhas moucas. Os seus responsáveis não podem permanecer em silêncio. Sem complexos, Portugal tem a obrigação de estar nesta conversa, não como proprietário, mas como parte activa. Não como centro, mas como interlocutor. Não para mandar, mas para contribuir — com investimento no ensino, com cooperação real com os países africanos de língua oficial portuguesa, com apoio à edição, à investigação, à tradução e à presença do português nas organizações internacionais, nas plataformas digitais e nos modelos de inteligência artificial que já hoje determinam as línguas que subsistem no futuro e as que ficam para trás.
Mas defender o português também exige uma cautela essencial: não o defender contra as outras línguas.
O português será tanto mais digno quanto mais souber conviver com o crioulo cabo-verdiano, com o kimbundu, o umbundu, o changana, o macua, o tétum, as línguas indígenas do Brasil e tantas outras línguas que partilham com ele territórios, memórias e feridas. Uma língua verdadeiramente universal não é a que ocupa todo o espaço. A sua grandeza está precisamente nessa capacidade rara de permitir que povos diferentes construam culturas próprias a partir de um eixo partilhado.
Desfazer esse eixo em nome de uma pureza nova seria cometer, por outros meios, o mesmo erro que se pretende corrigir. Seria confundir justiça com amputação. Seria trocar uma herança difícil, mas fecunda, por uma fragmentação estéril.
A língua portuguesa não precisa de mudar de nome para ser aberta, geral e de todos. Só precisa de ser tratada como se fosse, de facto, de todos. Com seriedade, com investimento, com liberdade. Com respeito pelas suas diferenças internas. Com consciência da sua história inteira.
Um mundo de cultura não se fortalece destruindo o instrumento comum que o liga. É um contrassenso. Fortalece-se quando cada povo pode, através dele, afirmar a sua diferença — e ser escutado numa plateia cada vez maior. Repito, a língua portuguesa é uma mãe em parto contínuo, sempre grávida de futuro.