Em várias freguesias históricas de Lisboa assiste-se a um fenómeno preocupante: a transformação de ruas inteiras em zonas monopolizadas por bares e discotecas onde apenas algumas unidades de Alojamento Local ou Hóteis conseguem funcionar. O caso mais evidente está na Misericórdia, mas repete-se em Arroios (especialmente nos últimos dois anos), Alcântara, Estrela e Santa Maria Maior (Baixa). Estas ruas deixam de ser espaços de vida comunitária para se tornarem exclusivamente corredores de consumo nocturno de álcool.
Este preocupante panorama é alimentado por dois grandes factores: por um lado, o poder do lobby das associações de bares e discotecas, sempre prontos a defender a “animação noturna” em nome de uma suposta vitalidade económica; por outro, a passividade da fiscalização municipal, que fecha os olhos ao incumprimento de regras básicas de segurança, ruído e tranquilidade pública. Soma-se ainda a ausência de uma legislação eficaz que proíba o consumo de álcool comprado nos estabelecimentos e depois transferido para a rua, perpetuando a balbúrdia até altas horas.
Mas acima deste lobby há um ainda mais poderoso que manobra na sombra: o das grandes cervejeiras. É a indústria do álcool que, de forma discreta mas consistente, patrocina, financia e alimenta este modelo de cidade, onde a rentabilidade imediata vale mais do que a qualidade de vida dos residentes.
A pergunta que se impõe é simples: estaremos perante um novo tsunami de expulsões? Primeiro foram os moradores empurrados para fora das suas casas pela vaga do alojamento local, que transformou bairros inteiros em zonas de turismo temporário. Agora, arriscamos a ver as ruas esvaziadas de habitantes para dar lugar a um monocultivo de bares e discotecas com a sua poderosa indústria do álcool barato porque simplesmente, se torna impossível, pelo ruído, distúrbios constantes, ocupação de ruas, dejetos e resíduos humanos e sobrepovoamento de ruas junto a habitações.
Lisboa não pode ser condenada a ser apenas um parque temático de festas alcoólicas ou alojamentos locais. É preciso coragem política para limitar os excessos do setor da noite, impor regras claras de convivência urbana e proteger os residentes. Sem isso, corremos o risco de assistir a mais um capítulo da expulsão silenciosa que vai corroendo a alma da cidade. Mas existirá nos nossos decisores políticos essa coragem para enfrentar o poderoso lobby das cervejeiras?