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"Hacks": o que vai ser de nós sem elas?

Acabou uma das melhores séries dos últimos cinco anos. Sobre envelhecer, sobre ser mulher, sobre dinheiro e até inteligência artificial. Sobre tudo e sempre com graça — tanta que até parece fácil.

Susana Romana
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Enquanto mulher que trabalha na indústria do humor em Portugal, perdi a conta às vezes em que tive de responder à infame questão “porque é que não há tantas mulheres na comédia?”. O modo como respondia foi mudando ao longo dos anos: desde tratados antropológicos, a piadas vagamente sexuais, a um revirar de olhos pela inanidade da questão. Hacks mostrou, ao longo das suas 5 temporadas que agora chegaram ao fim, que a comédia no feminino (expressão que me dá vontade de meter um prego no olho, mas é o que é) está bem e recomenda-se, felizmente. Talvez o Numeiro não concorde, mas também não é opinion maker que me interesse.

Hacks contou a história de uma dupla improvável, essa premissa já tão testada e comprovada no humor (é uma técnica chamada odd couple). De um lado, Deborah Vance (a sempre maravilhosa Jean Smart, que faria boa figura até num anúncio a Nestum), uma velha pioneira do stand up com pouco apelo para novos públicos, que se arrasta em shows de casino e em canais de televendas. Do outro, Ava Daniels (a comediante Hannah Einbinder no seu primeiro desempenho como atriz), uma jovem escritora de humor caída em desgraça por algo polémico que escreveu nas redes sociais. Ambas partilham o mesmo agente, que depressa concluí que menos com menos pode dar mais e resolve emparelhar as duas clientes pouco promissoras com esperança de que juntas resultem.

Ao longo dos anos, Deborah e Ava, ambas com personalidades forte e avessas à subserviência,  foram tudo uma à outra. Rivais, unha com carne, inimigas, mãe e filha (não necessariamente na lógica das suas idades), apaixonadas. Se por um lado é refrescante ter uma série na qual o plot não passa por uma relação amorosa, por outro é bastante óbvio que, no final, ambas sentem amor uma pela outra. Não será por acaso que nos despedimos de ambas na sempre romântica Paris.

[o trailer da última temporada de “Hacks”:]

https://www.youtube.com/watch?v=4OegsEuqMmo

Na verdade, e num mundo tão dividido como aquele que vivemos agora, Hacks é sobre a possibilidade de duas pessoas muito diferentes se entenderem. Não é sempre fácil (Vance chegou a processar Ava e até a deixá-la apeada no meio do deserto; já a jovem chantageou-a num final de temporada particularmente tenso) e pode ter avanços e recuos, mas a convergência e o respeito não são uma miragem. Estas personagens fazem o que a ONU já não consegue.

A química entre Jean Smart e Hannah Einbinder é, assim, essencial para o sucesso da série. As entrevistas de promoção dão a entender que as atrizes têm uma relação algo parecida com as suas personagens, em que todas as picardias são válidas se resultarem numa boa gargalhada. Tal como é comum em séries com protagonismo dividido, ambas foram chamadas no início do projeto para testar se resultavam juntas. Porém, tal não aconteceu nas melhores condições, já que Hacks faz parte das séries que nasceram durante a pandemia. O primeiro encontro foi num estúdio escuro, separadas por plexiglass por causa da COVID — Jean Smart disse que parecia “uma cena de tortura de um filme de espionagem”. Porém, foi logo óbvio que teriam de ser as duas. Jean Smart tinha medo de fazer stand‑up; Hannah Einbinder tinha medo de representar; ambas foram feitas para serem fortes onde a outra era fraca.

Hacks tem conquistado vários prémios, dos Emmy aos Globos de Ouro, acabando com o reinado (insuportável, digo eu) de The Bear nas categorias de comédia. Esta quinta temporada deverá acrescentar galardões às estantes dos envolvidos, já que o final foi considerado por muitos como perfeito. A série saiu de cena no momento ideal, deixando saudades e não esticando o plot para lá da história que os showrunners tinham para contar. Terá sido uma decisão difícil, talvez mesmo corajosa, a de matar uma série que era uma galinha de ovos de ouro junto da crítica e do público. Criada por Lucia Aniello, Paul W. Downs (que interpreta o manager Jimmy) e Jen Statsky, Hacks foi feita com atenção ao detalhe, sem forçar narrativas ou personagens sem sentido. Só a primeira temporada, garantem, foi escrita e reescrita ao longo de cinco anos.

Hacks foi sobre várias coisas. Sobre a diferença entre gerações, sobre envelhecer, sobre os meandros do mundo do entretenimento, sobre ser mulher, sobre dinheiro, sobre legado, até sobre inteligência artificial. Sempre tendo coisas para dizer mas, sobretudo, tendo sempre muita graça. Hacks fez parecer fácil o que é difícil. Deixará saudades. Tantas como aquelas que Ava terá de Deborah.