Depois de oito anos de Governos do Partido Socialista, o que boa parte do país esperava era uma ambição política diferente, mais do que uma mera alternância de gestão. Insisti nesse assunto ao longo do reinado de Rui Rio, que se apresentava constantemente a eleições como mero elemento de alternância face a António Costa, quando entendia que era suposto, expectável até, que o grande espaço da Aliança Democrática constituísse uma alternativa substantiva ao statu quo socializante em que o país mergulhou. Luís Montenegro não divergiu de Rui Rio, talvez tenha mesmo acabado apenas por beneficiar de ter chegado a eleições com o PS já estafado de quase uma década de governação, e desacreditado pela forma humilhante como viu uma maioria absoluta dissolver-se, entre dinheiro escondido em caixas de vinho e um Primeiro-ministro ardentemente ansioso por abandonar o Governo e sentar-se em Bruxelas.
Não duvido da vontade reformista de muitos dos membros do Governo, devo dizer. Mas como os ministros não têm política própria, e como vivemos numa espécie de chancelaria do primeiro-ministro, é deste que se aguarda a liderança política e é a ele exclusivamente que se devem imputar responsabilidades a este nível. Ora, o que vai parecendo cada vez mais inequívoco é que o PSD em que se formou Luís Montenegro se foi convencendo ao longo das últimas décadas de que governar é o mesmo que fazer política, como se ser poder fosse o princípio, meio e fim de tudo. Ao mesmo tempo, vingou por ali a ideia de que, para regressar ao poder, não restava outra coisa ao PSD que não distribuir simpatias e anunciar-se como melhor gestor do que o PS.
O debate acerca das reformas estruturais padece hoje de um vício também alimentado pelos anos do Costismo: o de que qualquer alteração legislativa operada constitui uma reforma, e de que, para o ser, a reforma não precisa de ser impopular. Na verdade, até José Sócrates dos primeiros dias sabia que mudar estruturalmente vícios que o país tem implica impopularidade. Ou mesmo o Mário Soares dos anos do Bloco Central, quando reconhecia que o «princípio salutar de menos Estado e melhor Estado» era de muito difícil aplicação por ir «contra velhas rotinas, serviços instalados, direitos adquiridos – e nem sempre legítimos.» António Costa repudiava o conceito de «reformas estruturais» e aprendeu a arrumar todos os assuntos que revelavam problemas estruturais do país afirmando que se tratavam de questões com muitos anos e, logo, irresolúveis. Montenegro parece não divergir de Costa.
Conceder direitos sociais ou baixar impostos, por si só, não representa uma visão política da sociedade. Serão, eventualmente, instrumentos ao serviço de um desígnio maior, mas não são um fim. Montenegro, como Costa, convenceu-se da eficácia e durabilidade da ideia confortável de governação, em que reformar é o mesmo que modernizar sem perturbar e distribuir benefícios. Sucede que não há mudança estrutural que não se faça sem provocar ondas de choque, pela simples razão de que não é possível corrigir estruturas disfuncionais ou viciadas sem tocar nos interesses instalados que vivem delas. Reformar é precisamente entrar em conflito com sectores organizados da sociedade, afrontando clientelas, e suportando o desgaste político imediato em nome de uma visão de longo prazo, eventualmente conquistando mesmo um maior consenso nacional que se pode gerar com a demonstração de resultados positivos das mudanças estruturais introduzidas.
Ora, é precisamente porque as reformas necessárias criam resistência social que governar exige coragem política, eventualmente até física. Manter a ilusão de que é possível, sem confronto, renovar os alicerces do país, do Estado e da sociedade, não é o mesmo que ser consensual: é fomentar a ideia, essa sim consensual, de que os partidos da alternância não se distinguem um do outro e que são liderados por cobardes desesperados pelo amor das massas. As massas, paulatinamente, vão-lhes explicando que estão cansadas dessas cantigas.
O que se esperava, pois, desta nova AD era uma liderança política, e não a continuação da tecnocracia e da gestão corrente dos socialistas. Essa liderança implicava assumir prioridades, escolher vencedores e vencidos, mesmo sabendo que o país não pode deixar ninguém para trás, oferecendo liberdade e responsabilidade às pessoas para gerirem o seu próprio destino, tratando os portugueses como adultos livres e não como crianças dependentes. Não foi essa liderança que surgiu, mas apenas uma nova etapa na escada do vazio contemporâneo da política, parecendo existir uma séria dificuldade em compreender que quando os governos deixam de representar uma visão de sociedade e passam apenas a gerir equilíbrios eleitorais e a administrar o quotidiano do aparelho de Estado, não estão a fazer outra coisa que não mostrar aos cidadãos que também esta política tecnocrática e calculista pode ser substituída por máquinas. A pergunta essencial aqui não é “como gerir?”, mas “para onde queremos ir?”. E o país mediático, se não estivesse tão viciado em aritméticas partidárias e parlamentares, saberia que esta é uma das discussões essenciais para o buraco em que estamos metidos – e não apenas em Portugal.