Cerca de 2.500 a 3 mil portugueses recebem o diagnóstico de cancro da cabeça e do pescoço todos os anos. É o sétimo tipo de cancro mais comum no mundo, precisamente porque engloba vários tipos de doenças. Os casos mais comuns nascem na boca ou na garganta, manifestando-se através de sintomas como dor a engolir, que progridem para uma crescente dificuldade a comer ou falar. Em casos de evolução rápida do tumor ou de falta de tratamento na altura certa, o prognóstico associado a este tipo de cancro pode tornar-se muito negativo. E, num universo onde existem poucas opções terapêuticas, surge uma revelação “extremamente promissora” de que, ao longo deste ano, chegará a cinco centros hospitalares em Portugal na maior fase de ensaios clínicos.
Os resultados do estudo OrigAMI-4 foram divulgados à comunidade científica este fim-de-semana em Chicago, durante a maior conferência de oncologia do mundo. Na Asco (American Society of Clinical Oncology), como é conhecida, os investigadores do Institute of Cancer Research, do Reino Unido, que lideraram o consórcio, revelaram ter conseguido erradicar ou diminuir significativamente a expressão do tumor em quase metade dos pacientes. Todas as 102 pessoas que participaram no estudo já haviam recorrido às técnicas habituais de imunoterapia e quimioterapia, mas sem efeito.
https://observador.pt/2026/05/31/cancro-injecao-pode-erradicar-tumores-inteiros-em-doentes-demonstra-estudo/
Destas, 43 pessoas viram melhorias “sem precedentes” naquela fase da doença, de acordo com Kevin Harrington, um dos autores. Em 15 dos pacientes, o tumor foi totalmente eliminado. “Estamos perante respostas de uma eficácia sem precedentes em pacientes cuja doença se tornou resistente tanto à quimioterapia como à imunoterapia. Trata-se de um grupo de doentes para o qual as opções terapêuticas são extremamente limitadas, pelo que observar este nível de benefício é algo muito impressionante”, afirmou o investigador num comunicado emitido pelo Institute of Cancer Research este domingo.
Tudo começa com uma injeção subcutânea de amivantamab, um medicamento desenhado pela Johnson & Johnson, que tem vindo a ser utilizado principalmente como opção de tratamento para cancro de pulmão de não pequenas células — o tipo mais comum, que representa cerca de 85% de todos os casos. A segunda injeção vem ao oitavo dia, e a terceira chega pouco tempo depois. A partir daí, com uma variação gradual das doses, o medicamento passa a ser administrado de três em três semanas. Os resultados começam a notar-se na sexta semana e, neste caso, manifestaram-se, de alguma forma, em 77% da população.
O próprio método de administração do tratamento difere da abordagem tradicionalmente utilizada para esta doença. Não é uma injeção intravenosa, mas sim entre a pele e a primeira camada de músculo, numa técnica semelhante àquela que é utilizada entre os diabéticos para administrar insulina — o que torna o processo “mais rápido e conveniente para os pacientes”. Relativamente a efeitos secundários, os autores do estudo descrevem-nos como tendo sido “leves” ou “moderados”, dando o exemplo de casos de hipoalbuminemia (níveis baixos de albumina, uma proteína produzida pelo fígado), irritações na pele, dermatite ou fadiga como os efeitos mais comuns. Notam que dos 102 pacientes, seis tiveram de interromper o tratamento devido aos efeitos secundários.
Com os olhos postos já na próxima — e maior — fase dos ensaios clínicos, o autor principal do estudo sublinha que estes resultados “oferecem dados de suporte muito robustos para o potencial desenvolvimento do amivantamab em fases mais precoces do cancro de cabeça e pescoço recidivado ou metastático, tendo ajudado a fundamentar o lançamento de um ensaio clínico de Fase III para registo, o OrigAMI-5”. “Este tratamento tem o potencial de beneficiar milhares de doentes todos os anos”, acrescenta, incluindo os portugueses que vão participar nestes ensaios de fase III.
Ensaios clínicos chegam a cinco centros hospitalares em Portugal
Os primeiros resultados do OrigAMI-4 só estão a ser anunciados agora, mas o OrigAMI-5 já está em curso, assegura ao Observador o oncologista especialista neste tipo de cancro Diogo Alpuim Costa. Se esta última fase de ensaios clínicos se focava exclusivamente em tumores em estado avançado, depois de a imunoterapia e quimioterapia não terem funcionado, este estudo — que inclui Portugal — vai olhar para a doença logo numa “primeira linha”. E, ao contrário dos resultados divulgados este fim-de-semana, não será o medicamento a funcionar de forma isolada.
Como explica Diogo Alpuim Costa, além da dose injetada de amivantamab, os pacientes vão receber também doses de imunoterapia e quimioterapia para complementar o tratamento e aumentar as probabilidades de sucesso desta nova opção terapêutica. Esta abordagem é muito comum na oncologia. Primeiro, olha-se para a eficácia de um medicamento quando a doença está numa fase avançada e, mediante o sucesso nestes ensaios clínicos, passa-se para os estádios iniciais do cancro e, posteriormente, para uma etapa ainda mais precoce. “No final quem ganha são os doentes”, acrescenta o oncologista do Hospital CUF Descobertas, um dos cinco centros que estão incluídos nesta fase mais alargada do estudo.
Está aberto o recrutamento para pacientes com cancro da cabeça e do pescoço no Hospital de Santa Maria, na CUF Descobertas, no Hospital de Portimão, no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto e ainda na ULS Gaia Espinho. No anúncio destes ensaios clínicos, a que o Observador teve acesso, os responsáveis pelo estudo indicam como requisitos a presença de um tumor localizado na “orofaringe, cavidade oral, hipofaringe ou laringe”, que seja considerado “incurável” por “terapias locais”.
“Temos compromissos que temos de cumprir. E, se cada vez mais pensarmos na inovação e incluirmos doentes em ensaios que interessam realmente, esta é a melhor publicidade que podemos dar do ponto de vista científico a Portugal”, acrescenta o oncologista.

Amivantamab: uma injeção utilizada para tumores no pulmão que pode vir a ser “a chave” para outros cancros
Para João Conde, investigador e professor catedrático na NOVA Medical School, não é uma surpresa ver o amivantamab a ser utilizado neste contexto. O medicamento usado nestes ensaios clínicos contra cancros altamente metastizados funciona sempre da mesma forma, explica ao Observador. “É um anticorpo que bloqueia duas vias de sinalização que são muito importantes para o crescimento dos tumores. Para além disso, tornam o cancro visível para o nosso sistema imunitário, o que potencia o combate”, refere o especialista.
Os nomes a reter no mecanismo operacional deste medicamento são o EGFR e o MET. O primeiro é o recetor do fator de crescimento epidérmico ou, descomplicando, uma proteína cuja função é contribuir para o crescimento tumoral. Já o MET (transição epitelial-mesenquima) é uma via que, em condições normais, é responsável por desencadear diferentes processos biológicos, como a reconstrução de tecidos, mas que num ambiente cancerígeno se torna um dos principais responsáveis pela multiplicação agressiva e o crescimento descontrolado do tumor.
Medicamente, “é como se fosse uma chave para duas fechaduras”, descreve o oncologista da CUF Diogo Alpuim Costa. Foi com estes dois alvos em mente que a Johnson & Johnson deu início ao processo de criação deste fármaco mas não foi, no entanto, com este objetivo que o químico se estreou em ensaios clínicos. Foi no cancro de pulmão de não pequenas células, o tipo mais comum de tumores neste órgão, que o amivantamab teve o seu primeiro foco de ataque. Mas porquê este tipo de cancro de pulmão?
O investigador João Conde esclarece que habitualmente é feita uma sequenciação dos tumores quando é feito o diagnóstico. Nesta análise aos genes presentes no cancro instalado no pulmão, perceberam que era “relativamente comum” identificarem estas anomalias no MET e no EGFR que provocam a elevada proliferação das células tumorais, que por si só dificultam o combate, mas que também equipam o tumor com as capacidades de se evadir à resposta imunitária — mesmo após rondas de imunoterapia e quimioterapia, na maioria dos casos.
“Mais de metade” dos 85% de casos de cancro do pulmão enquadram-se nesta categoria e, em condições normais, beneficiariam deste tipo de terapêutica, uma vez que o amivantamab foi aprovado pela Agência Europeia para os Medicamentos (EMA) e tem o seu financiamento público e acesso regulados pelo Infarmed mediante critérios clínicos específicos. Se “mais de metade” foi um valor suficiente para motivar os primeiros ensaios clínicos, então a sua transição para os cancros de cabeça e pescoço era “óbvia”.
“O grande problema deste tipo de tumores é a metastização para outros órgãos, como os pulmões, os ossos ou o fígado. Para além disso, as próprias células tumorais acabam por criar uma grande resistência aos fármacos. São tumores silenciosos, diagnosticados tardiamente e quando são apanhados, muitas vezes já estão na fase metastática”, afirma o colíder do grupo de investigação em Nanomedicina e Oncologia Clínica da NOVA Medical School. Assim, os genes registados em “mais de metade” dos pacientes com cancros do pulmão evoluem para “a grande maioria” nos casos metastizados de cancro da cabeça e do pescoço.
E apesar de não serem valores tão evidentes como nestes dois tipos de cancro, João Conde acredita que, por este motivo, “estes ensaios são muito promissores, porque podem ainda vir a ser utilizados para outros tipos de cancros, como o colorretal, o gástrico e alguns cerebrais”. Sublinha, no entanto, que é necessário “ter alguma prudência” e que neste último ensaio clínico — que já terá começado —, será necessário medir outros fatores como a duração da resposta induzida pelo medicamento, mas também a identificação de outros biomarcadores que “distingam aqueles que vão ter uma reação positiva dos que não vão reagir de todo”.

Os tratamentos “escassos” e a impossibilidade de “viver uma vida normal”. O testemunho de uma pessoa com cancro da cabeça e do pescoço
“O progresso tem sido limitado para pacientes com cancro da cabeça e do pescoço metastizado e recorrente”, referiu o Diretor Global da Área Terapêutica em Oncologia na Johnson & Johnson, num comunicado emitido pela farmacêutica este fim-de-semana. De acordo com Yusri Elsayed, esta nova potencial opção terapêutica é “única” e “realça a necessidade por abordagens diferenciadas que permitam tratar a doença de uma forma mais abrangente”.
Como explica o oncologista Diogo Alpuim Costa, o que existe atualmente para pacientes em fases mais avançadas deste tipo de cancro “é manifestamente pouco, com resultados escassos e toxicidade associada”. Nesta última fase de ensaios clínicos do estudo financiado pela Johnson & Johnson, a população que mostrou “algum benefício clínico com o medicamento” (77%) ainda continua a exibir estes mesmos resultados positivos. O especialista ouvido pelo Observador acrescenta que a amostra regista uma “sobrevivência livre de propagação de mais de seis meses”: o dobro, quando comparado com a resposta tradicional disponível na clínica.
“É surpreendente”, salienta o oncologista da CUF. “Não se previa uma resposta completa em fase avançada”, continua. A doença “não é tão pouco frequente como se julga”, refere Diogo Alpuim Costa, alertando para a crescente incidência na população mais jovem que, apesar de se registar uma diminuição do consumo de tabaco e álcool, é afetada pelo HPV, uma das principais causas associadas ao cancro da cabeça e do pescoço. Nesta fase do estudo, no entanto, não foram incluídos casos de tumores ligados ao papilomavirus humano.
Carl Walsh foi um dos participantes identificados pelo Institute of Cancer Research do Reino Unido. O homem de 56 anos foi diagnosticado com cancro na língua em maio de 2024 e aderiu a este ensaio clínico pouco mais de um ano depois. “Fui inicialmente tratado com quimioterapia e imunoterapia que, infelizmente, não tiveram sucesso. Nessa altura, fui recomendado para o ensaio OrigAMI-4. Agora, estou no meu 17.º ciclo de tratamento e estou muito satisfeito com o progresso até agora”, cita o comunicado emitido pelo centro de investigação.
“Agora, sinto-me capaz de viver uma vida normal”, confessa Carl, uma das 43 pessoas que viveu o impacto significativo deste tratamento. O paciente de 56 anos que veio de Birmingham para Londres para participar no estudo diz que tinha muitas dificuldades a falar e a comer, devido ao inchaço e à dor constante na língua. Mas admite que desde o início dos ensaios clínicos, os níveis de inchaço “reduziram significativamente” e a dor “melhorou consideravelmente”.
“Quando a situação estava no seu pior, comia sopa, arroz doce, latas de ravioli e esparguete e muitas, muitas omeletes, tudo complementado por três bebidas lácteas nutricionais prescritas por dia”, adianta o testemunho de Carl, que relata ter perdido “bastante peso”. “Após apenas dois ciclos de tratamento, a minha alimentação começou a voltar ao normal e, ao fim de seis meses, já tinha uma alimentação completa”, continua, revelando que o “primeiro bife grande” que comeu foi o que mais apreciou com os resultados positivos do tratamento.