Foi a primeira vez que o mundo viu a obra de arte de Silvio Gazzaniga. Depois de 44 anos a entregar o troféu Jules Rimet, 1974 foi o primeiro ano a contar com a taça que todos associamos ao Campeonato do Mundo. Desenhada na cabeça do escultor italiano, teve Franz Beckenbauer e a RFA como primeiro dono e tornou-se um ícone do futebol mundial.
Organizado na então RFA, quando a Alemanha ainda estava dividida em duas partes, o Mundial 1974 contou com um formato diferente que só repetiu na edição seguinte, em 1978. As 16 equipas eram normalmente distribuídas pelos quatro grupos habituais, mas a competição não evoluía para os quartos de final, seguindo-se uma segunda fase de grupos que só apurava os finalistas. A Polónia foi uma das surpresas da competição, ficando em terceiro lugar muito graças aos sete golos de Grzegorz Lato, que foi o melhor marcador, e a RFA venceu a Laranja Mecânica dos Países Baixos de Michels, Cruyff e Neskeens na final de Munique.

Para além de ter contado com o primeiro cartão vermelho direto da história dos Mundiais, com o chileno Carlos Caszely a ser expulso logo no jogo de abertura contra a RFA, o Campeonato do Mundo de 1974 ficou na história pela polémica – já que João Havelange, brasileiro que foi presidente da FIFA, sempre defendeu que a competição foi manipulada para favorecer os anfitriões, assim como já tinha acontecido em 1966 com Inglaterra. “Éramos os melhores do mundo, mas estava tudo planeado para os organizadores ganharem”, disse.
Uma história. O dia em que as duas Alemanhas jogaram uma contra a outra
Foi a Alemanha a jogar contra a Alemanha na Alemanha. 15 anos antes da queda do Muro de Berlim, República Federal Alemã (RFA) e República Democrática Alemã (RDA) defrontaram-se em Hamburgo na fase de grupos do Mundial de 1974. Num dos jogos mais politizados de sempre, em pleno clima de Guerra Fria entre o Bloco Ocidental liderado pelos EUA e o Bloco Oriental liderado pela União Soviética, a RDA surprendeu a mais do que favorita RFA e venceu com um golo de Jürgen Sparwasser. O avançado do Magdeburgo tornou-se um verdadeiro ídolo na Alemanha oriental, chegando a dizer que quando morresse bastaria colocar “Hamburgo 74” na campa que todos saberiam quem ali estava. No fim do jogo, os jogadores dos dois lados trocaram camisolas, mas só nos balneários e nunca à vista de todos. As duas Alemanhas nunca voltariam a defrontar-se.
Um herói. Gerd Müller tornou-se o melhor marcador de sempre em Mundiais (mas já não é)
A grande figura da conquista da RFA. A jogar no Bayern e no último ano em que representou a seleção nacional, Gerd Müller marcou quatro golos que juntou aos dez que tinha apontado no Mundial 1970 e tornou-se o melhor marcador de sempre em Campeonatos do Mundo, superando os 13 de Just Fontaine (entretanto, Ronaldo e Miroslav Klose já superaram ambos, com 15 e 16). Acompanhado por Franz Beckenbauer, Jupp Heynckes e Uli Hoeness, carregou os alemães às costas e marcou o golo decisivo na final de Munique contra os Países Baixos de Johann Cruyff.

Uma curiosidade. As duas riscas que Cruyff exigiu para não trair a Puma
Os Países Baixos de Rinus Michels, a Laranja Mecânica, foram a verdadeira sensação do Mundial-1974, com o futebol total liderado por Johan Cruyff a atingir o seu auge à boleia do Ajax, que por esta altura era tricampeão europeu. E Cruyff, precisamente, foi o protagonista de uma das primeiras guerras comerciais no futebol. A Federação neerlandesa tinha um contrato exclusivo com a Adidas, que fabricava e fornecia todo o equipamento com as tradicionais três riscas – Cruyff, contudo, tinha um patrocínio exclusivo, milionário e vitalício com a Puma. No fim, face à recusa do jogador em trair a marca, a Federação teve mesmo de encomendar uma camisola feita à medida, com apenas duas riscas.
Como foram os resultados no Mundial de 1974
- 13 de junho (fase de grupos): Brasil-Jugoslávia, 0-0
- 14 de junho (fase de grupos): RFA-Chile, 1-0, RDA-Austrália, 2-0 e Zaire-Escócia, 0-2
- 15 de junho (fase de grupos): Uruguai-Países Baixos, 0-2, Suécia-Bulgária, 0-0, Itália-Haiti, 3-1 e Polónia-Argentina, 3-2
- 18 de junho (fase de grupos): Austrália-RFA, 0-3, Chile-RDA, 1-1, Jugoslávia-Zaire, 9-0 e Escócia-Brasil, 0-0
- 19 de junho (fase de grupos): Bulgária-Uruguai, 1-1, Países Baixos-Suécia, 0-0, Argentina-Itália, 1-1 e Haiti-Polónia, 0-7
- 22 de junho (fase de grupos): Austrália-Chile, 0-0, RDA-RFA, 1-0, Escócia-Jugoslávia, 1-1 e Zaire-Brasil, 0-3
- 23 de junho (fase de grupos): Bulgária-Países Baixos, 1-4, Suécia-Uruguai, 3-0, Argentina-Haiti, 4-1 e Polónia-Itália, 2-1
- 26 de junho (segunda fase de grupos): Países Baixos-Argentina, 4-0, Brasil-RDA, 1-0, Jugoslávia-RFA, 0-2 e Suécia-Polónia, 0-1
- 30 de junho (segunda fase de grupos): Argentina-Brasil, 1-2, RDA-Países Baixos, 0-2, Polónia-Jugoslávia, 2-1 e RFA-Suécia, 4-2
- 3 de julho (segunda fase de grupos): Argentina-RDA, 1-1, Países Baixos-Brasil, 2-0, Polónia-RFA, 0-1 e Suécia-Jugoslávia, 2-1
- 6 de julho (3.º e 4.º lugar): Brasil-Polónia, 0-1
- 7 de julho (final): Países Baixos-RFA, 1-2